terça-feira, 19 de abril de 2011

Motörhead ao vivo: 1989 x 2011

Vi o Motörhead ao vivo em sua primeira turnê pelo Brasil no já mui distante ano de 1989. Os shows em São Paulo aconteceram no Ginásio do Ibirapuera.

À época, dada a ausência de casas de espetáculo particulares e com capacidade para abrigar um bom público, o Ginásio do Ibirapuera era bastante requisitado. Foi ali que também assisti -pela primeira e única vez- a um show do Metallica. Dois anos depois, em 1991, vi o The Cult na esteira do sucesso do disco Sonic Temple. E nunca mais voltei ao ginásio.

A verdade é que o lugar não foi projetado para shows musicais e a acústica era, para ser condescendente, bem meia-boca. Pior: na época, o público ainda era judiado pela ausência de um DJ minimamente preparado para esquentar o clima.

No show do Motörhead, a plateia teve de ouvir o álbum Back in Black, do AC/DC, na íntegra. Seria ótimo, se o disco não tivesse sido tocado pelo menos umas 7 vezes seguidas. Ninguém aguentava mais.

As bandas de abertura, Viper e Vodu, representavam um tipo de heavy metal paulista feito na época. Eu não gostava de nenhum dos dois, mas estava lá para ver Lemmy, naquele tempo já com 44 anos de idade - e todos se espantavam que ele ainda estivesse na ativa...

Achei uma resenha minha da época. Foi publicada em um fanzine carioca muito bem produzido, com capa em papel couché e tudo, chamado Revenge. Era o texto de um garoto de 17 para 18 anos, e ainda embasbacado com as descobertas do rock.

Não precisei recorrer à velha crítica de show para me lembrar que o Motörhead abriu a noite com "Dr. Rock", do ainda recente álbum Orgasmatron, gravado apenas 3 anos antes. O resto foi basicamente um desfile de pérolas da clássica formação Lemmy-Eddie-Taylor. E, sim, o Animal tinha retornado e era o baterista naquela época.

Paguei ingresso para ver o show da arquibancada do ginásio, mas, convencido pela porralouquice dos amigos, fui pulando grades e mais grades até chegar na pista. Foi o máximo! A sensação de, ao mesmo tempo, burlar a lei e ver o show de perto, no meio do tipo de moshpit insano que acontecia na década de 80, foi incrível.

A noite seguinte foi um zona. Não estive lá, mas ouvi relatos de quem esteve. Deu pau geral no sistema de som e o show foi interrrompido. O público ficou furioso e a apresentação continuou em outra data e local. O evento foi transferido para o já extinto Projeto SP, no bairro de Santa Cecília, onde Iggy Pop e Stray Cats se apresentaram naquela mesma década.

O Motörhead andava em plena forma naqueles tempos e, certamente, quebrou tudo também no show (quase) extra. Mas o amadorismo das turnês internacionais, em comparação com a infraestrutura de hoje, era notável.

Fiquei quase 20 anos sem ver o Motörhead ao vivo. Quando esbarrei acidentalmente em Lemmy, nos EUA, contei pra ele só a parte boa - que estava lá em 1989. Mas a verdade é que nunca mais tinha visto a banda ao vivo e, em minha memória afetiva, tudo que via era a multidão no Ibirapuera e as explosões pirotécnicas seguidas de "Dr. Rock".

Revi o Motörhead em 2007. Depois em 2009 e, mais uma vez, no sábado passado, dia 16. Os set-lists não são mais surpresa -embora o deste ano tenha sido e não necessariamente uma boa supresa- e a presença de palco é quase holográfica. Lemmy é uma lenda viva e sua presença tem algo de irreal.

Talvez seja a (minha) idade, mas o volume absurdo que a banda impõe a seus shows não me impressiona. Ao contrário, contribui para uma leve fadiga auditiva.

Não acho justo, por outro lado, esperar algo mais de Lemmy e companhia. Eles são o que são e, só o fato de estarem na ativa, em 2011, gravando e excursionando, é motivo de satisfação. Até alguns discos recentes -confesso que tenho ouvido poucos- são bem palatáveis. Inferno, de 2002, tem um punhado de faixas legais.

Mais do que isso: Lemmy está quase na moda. Estrelou comercial de cerveja, é o astro do clipe novo do Foo Fighters, o documentário sobre sua vida acabou de estrear e o Motörhead vai até tocar no Rock in Rio. Não é pouco.

Mas na minha imaginação, gostaria de ver o Motörhead tocar um disco como Ace of Spades ou Another Perfect Day na íntegra, este último de preferência com Brian Robertson na guitarra e Animal Taylor na bateria. Seria revigorante e nostálgico ao mesmo tempo.

Mas você sabe, se o Motörhead voltar em 2013, e deve voltar, estarei por lá. Todos estaremos. Como aquele filme que já assistimos 20 vezes, mas que não conseguimos largar quando passa em algum canal de TV.

Em tempo: assinei uma resenha completa do show e que deve estar publicada em algum lugar do Portal Rock Press. Procure por lá.


No meu show imaginário, Lemmy chamaria de volta Brian "Robbo" Robertson e Phil "Animal" Taylor para tocar Another Perfect Day na íntegra.

E o seu show imaginário do Motörhead, como seria?

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