ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador ZZ Top. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ZZ Top. Mostrar todas as postagens
Para comemorar o Record Store Day, que acontece hoje, 16 de abril, recupero texto perdido de outra encarnação do Caixa Preta. Fica como homenagem a todas as lojas que mantêm viva a cultura do disco e também ao autor, Ronnie James Dio (1942-2010).


Ele está comigo há 30 anos. Perdido no meio de outros tantos LPs e ausente há bastante tempo do meu relativamente ativo toca-discos. E hoje resolvi dar-lhe uma chance. Enquanto a agulha desliza pelos sulcos do vinil, lembranças do ginásio e de toda uma época vão saindo do baú das memórias.

Meu primeiro disco foi adquirido com economias e trocados de viagens de ônibus, o famoso 5131-Praça da Sé, que me levava até o colégio. Já havia alguns anos que gostava de rock. Era refém dos poucos programas de clipes, o mais saudoso deles o Som Pop, da TV Cultura, que vez ou outra exibia filminhos de bandas de hard rock e heavy metal. Nada mais fascinante para um adolescente de 13 anos e que adorava o som de guitarras elétricas. Mas numa noite de domingo qualquer, foi o eterno programa Fantástico quem fez a surpresa: anunciaram para depois do intervalo um "musical" do ex-vocalista do Black Sabbath. À época, o departamento de jornalismo da emissora ainda não tinha aderido ao termo video-clipe, mas para mim não fazia diferença: a simples menção ao nome da banda sagrada fez meus olhos pularem das órbitas.

O locutor global anunciou "The Last in Line" como a ideia do cantor Ronnie James Dio sobre o fim do mundo e terminou o texto com uma tradução livre do título: "O Fim da Linha". O estrago estava feito. Imagens de um elevador que despenca até o inferno, a trilha musical recheada de riffs e solos faíscantes e toda aquela ideia de fim dos tempos me fascinaram. Lembre-se que era 1984 e existia ali um componente de rebeldia em relação à ordem das coisas. Para as FMs brasileiras, pré-Rock in Rio, a maior ousadia ainda era tocar coisas pavorosas como o grupo pop-rock Radio Taxi. E a TV, salvo o oásis do Som Pop, era ainda tão sem graça quanto hoje, embora com apenas cinco emissoras.

Da veiculação de "The Last in Line" no Fantástico até a compra do disco lá se foi quase um ano. Acumulei trocos da cantina do colégio e os somei às moedinhas que sobravam das viagens de ônibus, que eu normalmente pagava com passe escolar. O que faltava para adquirir o LP, provavelmente foi conquistado graças à eterna generosidade maternal.

Com o dinheiro contado, lá fui eu, a bordo do 5131, dessa vez até o ponto final, na Praça da Sé, atrás de meu primeiro disco. A loja escolhida foi a filial da Rua 7 de Abril da outrora importante rede Museu do Disco. Garimpei em cada casulo de vinil até me deparar com a capa em tons pastéis criada por Barry Jackson - o mesmo que assinara a arte do então recém-lançado "Afterburner", do ZZ Top. Naquele vinil estava não apenas a canção que iluminou um final de domingo qualquer, mas também, e principalmente, minha definitiva introdução aos prazeres do rock'n'roll.

Trinta anos depois, meu primeiro LP está girando no toca-discos. Orgulhoso, tenta disfarçar o efeito do tempo e deixa a agulha deslizar tranquila, sem reproduzir qualquer chiado, talvez na esperança de que seja tocado com mais frequência em minhas sessões nostálgicas.


O saudoso Ronnie James e seu guitarrista, o norte-irlandês Vivian Campbell, quebram tudo no clipe exibido para todo o Brasil em 1984

---

PS: Caso esteja se perguntando, sim, a imagem que abre o 'post' é do meu próprio LP. Repare no encarte consertado com durex. :)



Hoje é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Para comemorar a data, Caixa Preta lista 10 discos imperdíveis gravados por artistas e bandas (majoritariamente) femininas.

http://cps-static.rovicorp.com/3/JPG_400/MI0000/669/MI0000669211.jpg?partner=allrovi.com

THE RUNAWAYS - "The Runaways" (1976)
Idealizado pelo compositor e agitador cultural Kim Fowley, as Runaways foram o primeiro grupo de rock formado apenas por mulheres a atingir o sucesso. Ainda adolescentes, Cherie Currie, Joan Jett, Lita Ford e Sandy West gravaram um emblemático álbum de estreia. Repleto de canções festeiras e provocadoras, o disco é um amálgama de hard rock e glam, perfeito para animar qualquer noite de sábado. "Cherry Bomb", a faixa que abre o álbum, tornou-se a canção mais conhecida das Runaways, e o cover de "Rock & Roll", de Lou Reed, é daqueles que devem ter feito ferver as noitadas na Sunset Strip, em Los Angeles.

http://www.metal-archives.com/images/1/7/8/7/17876.jpg?5806

GIRLSCHOOL - "Hit and Run" (1980)
Quarteto inglês de heavy metal que ficou conhecido por seu pioneirismo em um gênero até então iminentemente masculino. A banda foi apadrinhada por Lemmy Kilmister e tem uma sonoridade que remete ao próprio Motörhead. Em "Hit and Run", álbum clássico do Girlschool, há riffs de guitarra à la "Fast" Eddie Clark e uma levada de bateria que lembra bastante o estilo do saudoso Phil "Animal" Taylor. O disco tem grandes canções, como "The Hunter" e a faixa título, além de um inesperado cover de "Tush", do ZZ Top.



ALANIS MORISSETTE - "Jagged Litlle Pill" (1995)
Podem me xingar, podem me crucificar, mas todo mundo tem direito a um 'guilty pleasure'. "Jagged Little Pill", de Alanis Morissette, dispensa apresentações. É um pequeno dicionário pop adolescente, com letras confessionais e uma cantora no auge da forma. Tem hits crocantes como "Ironic", "You Oughta Know", "Head Over Feet" e "You Learn", e participações de Flea (Red Hot Chili Peppers) e Dave Navarro (RCHP e Jane's Addiction). Vendeu 33 milhões de cópias e fez a cabeça de 9 em cada 10 garotas em meados dos anos 90. Alanis, infelizmente, nunca mais repetiu a proeza e a música pop ficou condenada a cantoras bem menos talentosas desde então.


BJÖRK - "Post" (1995)
Compositora, atriz, multi-instrumentista e uma das maiores e mais singulares cantoras da música pop. A islandesa Björk começou cedo, como artista mirim. Mais tarde, de 1986 a 1992, integrou a banda new wave The Sugarcubes, dos hits "Deus" e "Regina", com a qual gravaria três álbuns. Sua carreira solo virou do avesso as convenções do pop, com arranjos complexos e inusitados, orquestrações e 'electronica'. O álbum "Post", de 1995, é uma obra-prima que traz faixas incríveis como "Army of Me", "Possibly Maybe", "Hyperballad" e aquela que talvez seja uma das canções mais lindas já escritas: "Isobel", com arranjos do brasileiro Eumir Deodato.



HOLE - "Celebrity Skin" (1998)
O Hole não era uma banda 100% feminina, já que um de seus fundadores é o guitarrista Eric Erlandson. Mas a figura central do grupo, cantora e guitarrista, é mesmo Courtney Love. Além dela, o Hole teve ainda, em sua fase mais popular, a baixista canadense Melissa Auf Der Maur e a baterista Patty Schemel. "Celebrity Skin" não é o disco mais adorado entre os fãs da banda -esse posto fica com "Live Through This"-, mas funciona como uma usina de hits. Courtney está em sua melhor forma como vocalista, a produção é impecável e há canções soberbas, do quilate de "Malibu", "Awful" e a faixa título, que é um rockaço.



LE TIGRE - "Le Tigre" (1999)
Se você não esteve em uma pista de dança nos anos 90 ao som de "Deceptacon", então não viveu aquela década. O disco de estreia do Le Tigre, banda liderada pela ativista Kathleen Hanna, ex-Bikini Kill, produziu a música certa na hora certa. Mistura dançante de pós-punk com electro, o Le Tigre ainda despejou sobre a audiência letras ácidas e feministas, homenageando ícones como Yoko Ono e Sleater-Kinney, e colocando na mira figuras masculinas como o ator e cineasta John Cassavetes. Além de "Deceptacon", o disco ainda trouxe outro pequeno hit com "Hot Topic". O Le Tigre gravou outros dois discos, em 2001 e 2004, antes de encerrar as atividades.



PJ HARVEY - "Stories from the City, Stories from Sea" (2000)
A inglesa Polly Jean Harvey tem uma discografia bastante peculiar. Para cada disco torto e experimental que lança, compensa no seguinte com uma fornada de canções mais acessíveis. Seu álbum de 2000 pertence à segunda categoria e respira Nova York. "Stories from the City, Stories from Sea" tem algumas pedradas, como "Big Exit" e "This is Love", e outros momentos de suntuosa melancolia. O disco vendeu 1 milhão de cópias ao redor do mundo e PJ defendeu parte desse repertório ao vivo em São Paulo, no ano de 2004, num show arrebatador.



BRATMOBILE - "Girls Get Busy" (2002)
Fundado pelas universitárias feministas Allison Wolfe e Molly Neuman, editoras do fanzine "Girl Germs", o Bratmobile é mais uma banda oriunda da prolífica cena musical de Olympia, no estado norteamericano de Washington. O grupo, completo por Erin Smith, fez parte da primeira geração de riot grrrls e lançou três álbuns. "Girls Get Busy", último deles, editado em 2002 pela Lookout Records, tem adição de teclados e canções que alternam fúria e melodia. "Shop for America" é a grande faixa do Bratmobile e remete a Fugazi e ao pós-hardcore da década de 90.


THE DONNAS - "Gold Medal" (2004)
Banda californiana -foto na abertura do post- que começou como uma espécie de Ramones de saias, apresentando um punk bubble gum adolescente e mal tocado. Evoluíram muito rapidamente. A partir do terceiro disco, "Turn 21", já tinham encontrado sua personalidade e melhorado demais como instrumentistas. O álbum "Gold Medal" é talvez o mais pop do grupo - e num sentido nada pejorativo. A qualidade da produção impressiona e a safra de canções é de primeiríssima, oferecendo flertes com country e rock clássico. Impecável.


ANNA CALVI - "Anna Calvi" (2011)
Inglesa, filha de pai italiano, Anna Calvi assinou um dos melhores álbuns de 2011. Sua estreia em disco assombra pelo vozeirão e seu estilo como guitarrista, que herda algo de Link Wray e dos temas 'vibratto surf' do maestro Ennio Morricone. Suas composições são deliciosamente misteriosas e remetem a filmes imaginários - seja de western ou de surrealismos à David Lynch. "Suzanne and I", "The Devil" e "Blackout" são algumas das pérolas desse disco cool e fantasmagórico.

----------

BÔNUS: +10 discos de bandas femininas de garage, punk, pós-punk e indie rock.
  • Shonen Knife - "712" (1991)
  • L7 - "Bricks Are Heavy" (1992)
  • Lunachicks - "Binge and Purge" (1992)
  • Babes in Toyland - "Nemesisters" (1995)
  • 7 Year Bitch - "Gato Negro" (1996)
  • Tribe 8 - "Role Models for Amerika" (1998)
  • Sleater-Kinney - "The Hot Rock" (2000)
  • The Detroit Cobras - "Baby" (2004)
  • Sahara Hotnights - "Sparks" (2009)
  • Savages - "The Answer" (2015)
Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.

"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.

Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.

Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.

Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.



O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.

Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).

E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.

A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.

Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...



Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top

(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.

Quem gosta do ZZ Top, sabe que Billy Gibbons tem duas paixões declaradas: guitarras elétricas e hot rods. O barbudo texano coleciona os dois - tem uma infinidade de guitarras e uma frota de carangas.

É dele, inclusive, o Ford 1933 exibido nos emblemáticos video-clipes de "Legs", "Gimme All Your Lovin" e "Sharp Dressed Man". Gibbons chamava o carro de Eliminator e daí sairia não apenas o título, mas também o tema da capa do multiplatinado disco de 1983. O hot rod apareceria outra vez na capa do álbum seguinte - "Afterburner".

O carro virou objeto de desejo e ícone pop.

No ano passado, o ZZ Top esteve no Brasil pela primeira vez depois 40 anos de carreira.
A Chrysler do Brasil bolou uma ação de marketing promocional bem simpática: customizar um PT Cruiser sob medida para Billy Gibbons. O bicho ganhou até nome: ZZ Cruiser.

A lógica era perfeita: a faixa-etária dos fãs do ZZ Top é de quem já tem verba para comprar um bom automóvel. Assim, associar o PT Cruiser a uma banda famosa por adorar carros bacanas era uma estratégia com alguma sofisticação. Muito mais chique, por exemplo, do que dar o carro de presente a um cantor sertanejo ou uma estrela do axé.

Com um bom trabalho de assessoria de imprensa, a notícia repercutiu. Digite o termo "PT Cruiser ZZ Top" no Google e veja quantas centenas de sites divulgaram a história.

Segundo o portal da Quatro Rodas, principal revista brasileira sobre o mercado automotivo, o ZZ Cruiser, após ser exposto no Salão do Automóvel, seria exibido no Via Funchal e, de lá, embarcaria direto para a América com seu novo dono.

De fato, o ZZ Cruiser estava lá, todo pimpão, na entrada da casa de shows. Um backdrop ilustrado com uma imagem do deserto americano dava um ar de importância ao custom brasileiro. E funcionou: muitos fãs se aglomeravam para fotografar a caranga.

Sabe-se que, no auge do sucesso do ZZ Top, era tão grande a demanda por aparições públicas do famoso hot rod, que Gibbons mandou customizar um outro Ford 33 à imagem e semelhança do Eliminator original.

Lembrei-me disso em novembro, exatos seis meses após os antológicos shows do trio texano no Brasil, quando avistei o ZZ Cruiser circulando calma e anonimamente pela região do Parque do Ibirapuera. O carro desapareceu sem alarde pelo trânsito tranquilo de uma tarde de sábado paulistana.

Tive tempo apenas de sacar meu celular e registrar o momento para a foto que abre esse texto. Só não garanto que ao volante estivesse o maior guitarrista vivo.

Então fica a pergunta: Billy deu de ombros para o presente da Chrysler que, de fato, nada tem a ver com a cultura rodster? Ou teria o ZZ Cruiser, a exemplo do mitológico Eliminator, um gêmeo idêntico rodando por aí?

Só Billy e a Chrysler podem responder.

----



Assista acima ao verdadeiro Eliminator em ação num dos clipes que definiu a primeira fase da MTV americana, a própria década de 80 e, claro, levou o ZZ Top ao megaestrelato.
Nunca fui adepto de festivais. Na década de 90, estive em algumas edições do finado Hollywood Rock. Nos anos 00, cobri os shows de Kraftwerk e PJ Harvey no TIM Festival -que nem era algo tão grande assim-, e Stooges e Fantômas no Claro q é Rock.

Mas ir até Itu no meio de um feriado para enfrentar filas quilométricas, estacionamento a preços escorchantes e (muita) gente que está ali sem estar ali, não dá.

Isso sem falar do frio. Mas nesse aspecto, o SWU não devia estar pior que o cultuado festival Juntatribo, realizado na vizinha Campinas em 1994, onde me senti um picolé coberto de terra.

Seja como for, acabei vendo alguns shows do SWU. Pela TV. Coisas boas e outras nem tanto.

Rage Against the Machine impressionou. Zack de la Rocha mantém o pique de 15 anos atrás e Tom Morello, como se sabe, é um tremendo guitarrista. O set-list também ajudou: "Testify", "Bombtrack", "Bulls on Parade" e "People of the Sun" logo de cara. As câmeras mostravam a massa pulando sem parar.

Me lembrei de quando ouvi o grupo pela primeira vez, no início de 1993, na Virgin Megastore da Piazza Duomo, em Milão. Era o som ambiente da belíssima loja, mas não consegui descobrir quem tocava aquela mistura enfezada de rock e rap que lembrava os pais da matéria, Urban Dance Squad. Meses depois, já não dava pra ignorar o RATM nas rádios brasileiras e na MTV.

Nem deu tempo de voltar ao presente e despencou um balde de água fria com cara de Brasil: o show no SWU é interrompido por falta de segurança. Uma voz sai dos auto-falantes pedindo a cooperação de...50 mil pessoas. Broxante é pouco.

Não sei se por isso, mas o Multishow não exibiu o show na íntegra. Na noite seguinte, uma repórter afirmou que alguns equipamentos da emissora foram destruídos na confusão.



Queens of the Stone Age, como se previa, fez um set explosivo. Repertório esperto que passeou pela discografia. Pra começar os trabalhos, a dinamite sonora de
"Feel Good Hit of the Summer", do primeiro álbum Rated R. Depois, material recente como as poderosas "3's & 7's" e "Sick, Sick, Sick" do ótimo Era Vulgaris.

Josh Homme curtia o momento: "What a magic fuckin' night". Mas o público, pelo menos o que se via pela TV, não repetia o êxtase dos fãs do RATM. Estranho, inclusive, pensar que o QOTSA, com seu som que não é o rockinho insosso de um Kings of Leon, nem o metal vira-lata do tal Avenged Sevenfold, possa ser apreciado por grandes multidões.

Se até então os dois shows, vistos do conforto do lar, foram de primeira, o mesmo não se pode dizer dos highlights exibidos enquanto os repórteres enrolavam o espectador. Capital Inicial fazendo um cover da abobrinha "Mulher de Fases", Jota Quest e suas macaquices envelhecidas e a combinação universitária de Joss Stone e Sublime. Só faltou o Jack Johnson para eu, mesmo de casa, desistir do festival.

Para compensar esse best of em forma de pesadelo, a cobertura do Multishow nos brindou com entrevistas hilárias. Fred, o ex-Raimundo, emocionado com a homenagem de Dinho Ouro Preto e dando um cano sobre qual música do Pixies queria ouvir. Igor Cavalera reinventando a roda pra (tentar) dizer que o SWU tem uma importância do tamanho do primeiro Rock in Rio. E os "fãs", claro, que não sabiam dizer o nome de UMA música dos artistas que tinham ido ver.

Aí veio o Pixies...

Uma apresentação xaroposa e protocolar da banda que se juntou para turnês nostálgicas. Nem um disquinho novo sequer. E Frank Black desafinado, Kim Deal com meia tonelada e o baterista, de quem o nome me escapa, atravessando o samba.

Mesmo assim, talvez pelo culto que existe em torno da banda, recebeu do público muito mais do que ofereceu. "Monkey Gone to Heaven", "Planet of Sound" e "Where is my Mind?" seguraram a onda, ainda que em execuções ordinárias. A comoção da massa -me espanta que os Pixies tenham tantos fãs- seria mais merecida pela turma de Josh Homme.

Com as opções de shows no Brasil -só esse ano já tivemos maravilhas como ZZ Top, Social Distortion e Supersuckers por aqui-, é de se perguntar o porquê de encarar todos os perrengues para acompanhar in loco um festival em Itu.

Vendo pela TV, até que deu pra imaginar.
Acaba de ser lançado um dos dois discos que mais me interessavam em 2010: "Absolute Dissent", do Killing Joke (o outro, para vocês saberem, é o novo do ZZ Top, com produção de Rick Rubin).

Demorei muito para prestar a devida atenção na banda de Jaz Coleman. Desde sempre ouvia falar, mas, por essas coisas que não se explicam, nunca tive um disco deles.

Há alguns anos um amigo me enviou uma cópia do álbum "Killing Joke", de 2003, aquele em que Dave Grohl é o baterista, e o DVD ao vivo "XXV Gathering! Let Us Prey". Pronto, corrigi rapidamente uma injustiça de décadas e me converti imediatamente.

As guitarras lancinantes de Geordie, com seu som gelado e metálico, e a voz sensacional de Coleman se adaptam a material pesado, pop, depressivo e atmosférico.

Revistando a carreira do grupo nos anos 80, época em que era objeto de culto, descobre-se um passado bem mais interessante do que, por exemplo, o do Ministry.

Se hoje os discos das duas bandas repousam na prateleira do industrial rock, o Killing Joke pode gabar-se de ter feito barulho muito antes. Ouça o consistente "Fire Dances", de 1983, e o compare com "With Simpathy", do Ministry, lançado no mesmo ano.



Com "Extremities, Dirt & Various Repressed Emotions", de 1990, o KJ passou a soar ainda mais pesado e brutal. A sequência de lançamentos que inclui "Pandemonium", "Democracy" e o já citado "Killing Joke" é impressionante.

Hoje tive uma prévia do novíssimo e aguardado álbum. Ouvi apenas 4 de suas 12 faixas: "Absolut Dissent", "The Great Cull", "This Word Hell" e "Endgame". E a primeira impressão é de que os rumores são verdadeiros: trata-se de mais um disco primoroso.

As revistas e sites estrangeiros têm tratado esse que é primeiro trabalho com o line-up original do Killing Joke desde 1982, com absoluta reverência.

Jaz Coleman afirma que é a melhor coisa que eles gravaram na vida.

As letras são ácidas e inteligentes e, sob 10 toneladas de peso, reside um groove irresistível. Se houver uma pista de dança no inferno, com certeza está tocando Killing Joke.

__________

Veja abaixo um clássico do KJ dos anos 80 executado em 2005, no aniversário de 25 anos da banda.