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No último dia 21 de julho, o termo "black metal" chegou aos trending topics mundiais do Twitter. Não percebi qualquer motivo para que tanta gente estivesse falando ao mesmo tempo sobre um dos gêneros musicais mais perversos já surgidos. Mas estavam.

Na semana seguinte, dia 26, como um sinal sacana de que o capiroto jamais deixou de ser popular e apenas se disfarçou sob outras peles, leio que uma organização chamada Satanic Temple inaugurou, em Detroit, uma bonita e provocadora estátua de Baphomet. Para quem ouviu metal underground na década de 80, o nome dessa divindade pagã adotada pelo Satanismo é relativamente conhecido. Somente no clássico álbum "Bonded by Blood", do Exodus, há três faixas em que o tal Baphomet é mencionado.

Vinde a mim as criancinhas
A estátua foi revelada diante de 700 presentes e virou notícia no mundo. Jex Blackmore, diretora da filial do Satanic Temple em Detroit, explica que o impressionante monumento em bronze, de quase três metros de altura, simboliza valores opostos ao de um polêmico monumento cristão instalado por um deputado na sede do governo de Oklahoma. Uma verdadeira peleja entre Deus e o Diabo na terra da Motown e do proto-punk.

Não há sinais que haja relação entre o Satanic Temple -que não se define como religião, mas como grupo de afinidade para céticos e libertários- e o submundo do rock. Ainda assim, percebe-se semelhanças na cruzada pela laicidade empreendida pelos templários norteamericanos e, antes deles, por alguns moleques rebeldes da Noruega. Porque foi ali, no país com o maior IDH do planeta, que o subgênero conhecido como black metal tornou-se um fenômeno sociológico.

O power trio Venom, de Newcastle, pode até ter batizado o gênero, mas quem o formatou, no sentido musical e estético, foram o suíço Hellhammer e o sueco Bathory. A Noruega, contudo, tomou para si o estilo com o surgimento de uma geração de bandas encabeçada por Mayhem, Darkthrone e Burzum. A cena, então pequena e obscura, terminou conhecida pela violência e o radicalismo. O suicídio de um músico, o assassinato de outro e a onda de incêndios criminosos contra igrejas chocou a Escandinávia.

Varg Vikernes, o diabo norueguês
No ótimo documentário "Until the Light Takes Us", de 2009,  tais acontecimentos são remontados com rigor. Varg Vikernes, do Burzum, é a figura central e mais polêmica do filme. Condenado pelo assassinato de Euronymous, integrante do Mayhem, Vikernes também é associado ao incêndio de três igrejas seculares e à tentativa de articular um atentado terrorista contra um enclave de esquerda chamado Blitz House (foi apanhado em sua casa com 150 quilos de explosivos). Após sua detenção, no entanto, os incêndios não cessaram. Dezenas de outras igrejas foram transformadas em cinzas por copy cats, confundindo a polícia e aterrorizando a população norueguesa.

Vikernes, que é bastante articulado e um tipo perigoso de modelo para adolescentes rebeldes, explica os ataques como sua maneira de restabelecer o paganismo original da Noruega. O circo midiático em torno de seu julgamento transformou-se em uma espécie de versão escandinava do caso OJ Simpson. A forma irresponsável como parte da imprensa pautou seu trabalho foi abordada em um documentário feito para a televisão em 1999 e intitulado "Satan Rides the Media".

Varg Vikernes ficou preso por 15 anos e durante o confinamento alinhou suas ideias com a da direita xenófoba europeia. Sua ideologia é uma mistureba de neo-nazismo, mitologia teutônica e paganismo, explicada em nada menos que dez livros. O terrorista norueguês Anders Behring Breivik, responsável pelo massacre de 77 pessoas que chocou o mundo em 2011, era admirador confesso de Vikernes. Chegou a lhe escrever cartas em que explicava seus pensamentos ultranacionalistas. Um bando de lunáticos, isso sim.

Diversas outras bandas continuam a se inspirar na versão de Satanismo que o black metal encampou. Na Noruega, por tudo que já foi dito, o fenômeno tornou-se parte da cultura popular. O duo Satyricon, remanescente da geração dos anos 90, assinou há alguns anos com a major Sony BMG e emplacou um disco de black metal em primeiro lugar na parada norueguesa  e em quinto na finlandesa. Já a banda brasileira de hardcore/punk Agrotóxico revelou que, ao desembarcar no país nórdico para alguns shows, foi questionada por oficiais da imigração se a música que faziam era black metal.

Com tanta exposição, esse subgênero maldito terminou, inevitavelmente, usurpado de seu significado original. O niilismo dos pioneiros do black metal foi reformatado por bandas que pularam nesse vagão à procura de sucesso. O inglês Cradle of Filth e o norueguês Dimmu Borgir, por exemplo, criaram suas versões gourmetizadas da música do diabo para consumo comercial. O documentarista canadense Sam Dunn, que fez filmes para Rush e Iron Maiden, estudou o assunto no oitavo episódio de sua série "Metal Evolution", produzido para a Internet após o fim do programa no canal VH1.

Assim, seja nos destaques do Twitter, na adoração dos góticos libertários do Satanic Temple ou nas manchetes de tabloides noruegueses, o diabo, em pleno século XXI, ainda tem algo de pop.

Assassinatos, suicídio e cerca de 50 igrejas incendiadas: esse impressionante documentário mostra os estragos promovidos em nome da besta

O competente Sam Dunn faz uma mapa do metal extremo e investiga suas mais cabulosas subdivisões

Uma reflexão sobre como o circo midiático transformou Varg Vikernes, do Burzum, em anti-herói nacional
Após um ano sem atualizações, nada melhor do que (tentar) ressuscitar o blog Caixa Preta com um entrevista especialíssima que realizei com o vocalista da lendária banda canadense Voivod - Denis "Snake" Bélanger.

A conversa aconteceu no dia 29 de abril, véspera do primeiro show do grupo no Brasil em 30 anos de carreira. A ideia original, admito, era entrevistar Michel "Away" Langevin, o baterista e artista plástico que definiu um tipo de estética futurista/cyber punk à qual o Voivod sempre esteve associado. Acontece que Away estava comprometido com outras duas entrevistas, e o papo com Snake também prometia render.

De acordo com a assessoria de imprensa do evento, foi a mais longa entrevista concedida pela banda em São Paulo. E mesmo que em duas ocasiões, e por conta de outros compromissos, o assessor tenha tentado abreviar a conversa, Snake fez questão de falar enquanto foi possível.

A entrevista foi publicada originalmente no Portal Rock Press e segue abaixo na íntegra:

Qual a sensação de estar fazendo música em 2014 depois de trinta anos de carreira?
É incrível! Viajar pelo mundo e tocar na América do Sul, que era um lugar para o qual sempre quisemos vir. Tocamos no Chile, mas nunca no Brasil. Então ainda é muito excitante estar na estrada hoje. Chegamos aqui e estamos sentindo o espírito, ouvindo os sons, tipo: “Uau, estamos em São Paulo”.

Por que levou tanto para tocarem por aqui?
Acho que não tínhamos as conexões corretas. Tocamos com o Sepultura, excursionamos com eles e o Andreas Kisser sempre me dizia: “Vocês têm que ir para a América do Sul!”. E claro que sempre ouvimos dizer que as plateias são as mais selvagens que existem e que há uma cena de metal forte no Brasil. Espero que possamos incluir a América do Sul, e o Brasil, especificamente, em nossas próximas turnês.

Sou particularmente interessado pelo álbum “Angel Rat”, pois ele representa uma época singular para o Voivod. Quais as suas lembranças desse disco?
Foi um álbum interessante de fazer. Nunca quisemos nos repetir e com “Angel Rat” não foi diferente. A recepção das pessoas foi estranha. Algumas amaram o disco, outras ficaram desconfiadas. Mas para nós, você sabe, o processo de fazer um álbum é o mesmo, uma coisa leva naturalmente a outra. E me parece que esse disco está sendo redescoberto agora e muitas pessoas finalmente o entendem pelo que ele é.

E qual sua opinião sobre o resultado final? Ficou satisfeito com a produção?
Sim, o produtor desse álbum é Terry Brown, que trabalhou várias vezes com o Rush. Um cara desses trabalhando com a gente foi empolgante. E eu amo o álbum, canções como “Clouds in my House”... Eu amo as composições. Agora esse disco aparentemente é um capítulo da nossa história.

Ouvi dizer que uma das razões para o Blacky deixar a banda foi o fato de Terry Brown ter eliminado alguns efeitos de distorção do baixo. Isso é fato ou houve outros motivos?
Sim, mas houve também razões pessoais. É difícil você se manter na mesma direção por tanto tempo, então acho que isso contribuiu para que ele saísse. Mas sobre essa parte você precisaria perguntar diretamente para ele (risos).

Me refiro aos aspectos de produção, se houve esse tipo de desentendimento. De qualquer forma, o baixo soa incrível no disco.
Sim, sim, é verdade, ele [Terry Brown] realmente eliminou algumas coisas na gravação do baixo, mas não que tenha havido alguma reunião a respeito, algo como: “Ei, você cortou o efeito do meu baixo!”.

E como foi estar sob contrato com a MCA? Vocês sofreram pressão para se tornarem grandes vendedores de discos?
É diferente estar em uma companhia grande como aquela. Mas não sofremos pressão, embora nós tenhamos sentido a pressão (risos). No primeiro álbum que gravamos com eles, “Nothingface”, fizemos um cover de “Astronomy Domine” e que teve uma ótima resposta, então, obviamente, aumentaram as expectativas da gravadora. Mas “Angel Rat” é um disco bem particular, com os acordes estranhos do Piggy e tudo mais, e algumas pessoas não reconheciam o Voivod nele, embora seja evidentemente um disco do Voivod, nossa sonoridade está ali.


O fato de o Voivod nunca se repetir, como você mesmo citou anteriormente, pode ter, de alguma maneira, feito com que a banda se limitasse a esse status cult, ser uma banda adorada por outros músicos, mas que jamais atingiu uma grande popularidade?
Bem, nós nunca fomos uma banda que seguiu tendências. Há grupos que se encontram em determinado nicho e ali eles se mantêm porque se sentem mais confortáveis. Pode ser que isso tenha impedido que nos tornássemos uma banda monstruosa, tornou difícil nos classificar dentro uma categoria específica. Mas há sempre uma outra forma de ver isso. Temos fãs que nos acompanham e fazemos música pelo prazer de fazer música.

Tempos depois de sair do Voivod você montou outra banda chamada Union Made. Tenho a demo que vocês gravaram e é muito boa. Você tem planos de lançar esse material oficialmente? Se é que ele realmente nunca saiu em CD.
Não, nunca foi lançado mesmo. Esse é um projeto pequeno do qual participei, mas o fato de eu ter integrado antes o Voivod fez com que o nome da banda se espalhasse rapidamente. Os membros da banda estão cada um de um lado, então preciso ver como fazer para lançar isso, mas eu gostaria. Ainda estou pensando a respeito.

Existe uma gravação ao vivo do Union Made que tem uma qualidade muito boa também. Seria um lançamento interessante.
Sim, é verdade. Só preciso falar com os outros caras antes de lançar (risos).


Falando de seu trabalho pessoal, você gravou os vocais e escreveu a letra para uma das músicas (“Dictatosaurus”) do projeto Probot, do Dave Grohl. Foi estranho o processo de encaixar a voz sem a presença de outros músicos? Ele te enviou apenas o instrumental básico, certo?
Sim, foi bem diferente. Quando a música chegou nas minhas mãos, falei: “Uau! Mas o que é isso?”. No início não entendi muito bem, mas depois soube que faria parte de um projeto que ele estava desenvolvendo, convidando diferentes vocalistas para cantar em cada faixa, como Cronos, do Venom, King Diamond, Lemmy… E aí, quando ouvi a música, percebi que ele se inspirou nos riffs do Piggy e tudo, e percebi que ele queria uma música do Voivod (risos).  Então eu trabalhei em cima, demorou algum tempo. Eu acho que fui o primeiro a receber uma faixa do Probot para colocar a voz. Então eu fui ao estúdio, fiz uns improvisos. E acabei voltando uma segunda vez para gravar uma versão mais elaborada e escrevi a letra também. Fui o primeiro a mandar a gravação de volta, mas o disco ainda demorou bastante para ser lançado. Depois encontrei o Dave em Montreal, com uma amiga dele, durante o Natal. Fomos a um clube e ele me disse que tinha ouvido a gravação e adorado. Fiquei aliviado e pensei: “Ufa, ainda bem que ele gostou!” (risos).

E o Away [baterista do Voivod e artista plástico] criou também a capa do disco do Probot. Tem muito Voivod ali.
Sim, é verdade! Acho que ele [Grohl] ama nossa banda (risos).

Acho que sim. Por acaso você já viu uma entrevista com o Dave Grohl em que ele fala por 19 minutos seguidos apenas sobre o Voivod?
Sim, eu vi. Fiquei chocado! (risos). E ele nos descreveu muito bem como banda. Foi uma honra.

É curioso como o Voivod é adorado e reconhecido por outros músicos. Há um vídeo na Internet de Phil Anselmo [ex-vocalista do Pantera] cantando “Astronomy Domine” com vocês em um show. E dá pra perceber que ele ficou muito empolgado.
Sim, isso é muito legal. Um orgulho para nós. Há muitos músicos de estilos diferentes que já se declararam fãs do Voivod. É uma forma de reconhecimento.

Você consegue fazer uma lista com seu Top 3 do Voivod? Os três álbuns favoritos entre os que vocês gravaram.
Hahaha, essa é um pouco difícil! Mas vou tentar: “Dimension Hätross” ficaria no topo. “The Outer Limits” é um disco especial também. E acho que “Target Earth”, o nosso mais recente. Esses seriam os meus favoritos.

Falando em “Target Earth”, vocês pensaram em colocar um fim na banda após a morte do Piggy ou tinham a ideia firme de continuarem na estrada mesmo sem ele?
Quando o Piggy morreu eu pensei que tudo tinha acabado. Como substituir um músico tão singular? Então deixamos as coisas paradas por um tempo. Mas aí fizemos um show com o Daniel [Mongrain] e ele é um fã do Voivod desde que tinha 13 ou 14 anos de idade. O primeiro show que ele viu na vida foi do Voivod e depois disso decidiu comprar uma guitarra e aprender a tocar estudando exatamente as músicas do Voivod, então acabou funcionando muito bem.



Voivod toca o clássico "Tribal Convictions" no Hangar 110, em São Paulo.
"Como é o ódio puro? O tipo de ódio que leva a pessoa a cometer um assassinato sem sentido. Acho que você é apenas um poser com seu ódio até matar alguém. Então você cruza a linha e seu ódio se torna tangível".

Trecho da anotação do diário de Joe Cole em 15 de fevereiro de 1986, de passagem por uma cidade do Oklahoma.

Cole foi roadie na última das mitológicas turnês do Black Flag. Ficou nada menos que seis meses zanzando pela América num comboio de três vans que levavam o resto da equipe e também as bandas Gone e Painted Willie. O tipo de turnê que, provavelmente, não existe mais.

Ele tinha 25 anos de idade e há pouco tinha desistido da carreira de tenista. Fã de música, era amigo de Henry Rollins e, a convite deste, virou roadie por acaso.

Suas memórias da turnê foram anotadas num caderninho. Escrevia normalmente na van, após descarregar e montar os equipamentos.

Joe Cole tinha dificuldade de socializar, sentia-se perdido no meio dos músicos punks e seu humor era uma verdadeira montanha russa. O que mais curtia na experiência eram as longas viagens pelas estradas americanas ao som de Devo e Swans e os papos com Rollins.

Descobriu o ácido durante a turnê e teve viagens alucinantes. Algumas delas em salas de cinema, junto com a trupe punk, assistindo repetidamente ao filme "Brazil", de Terry Gilliam.

Outras vezes atrás do volante, vendo o céu cor-de-rosa e demônios de todo tipo. Numa delas, entrou numa transferência paranoica com o técnico de som Ratman -com quem mantinha clima de constante animosidade- e, alucinado, socou o para-brisa do furgão até quebrar. Dirigiram assim até a próxima cidade numa bad trip de 48 horas.


O roadie por acidente também testemunhou a truculência policial nos estados do sul e meio-oeste, onde, muito comumente, os shows do Black Flag eram interrompidos ou proibidos de acontecer.

De sujeito pacato e de poucas palavras, Cole aprendeu a expulsar punks trogloditas e skinheads do palco a pontapés. Saiu-se bem em algumas brigas e fez até um ogro a quem quebrou o nariz lhe pedir desculpas na frente de um policial.

Teve esparsas aventuras sexuais com garotas punks, sempre um combustível para melhorar seu humor e render anotações eróticas no diário.

Testemunhou seu chapa Henry Rollins esmurrar um fã obtuso e arrancar, com uma baqueta, dois olhos de uma cabeça de alce que foi atirada no palco e que viraram petisco.

Se divertiu também vendo o Black Flag tocar na mesma noite que o Venom em uma biboca de New Jersey, no que ele descreve como um espetáculo "spinaltapiano".

Foram as últimas turnês selvagens antes do hiato punk da segunda metade dos anos 80. Certamente, o fim de uma era.

Mas Cole não tinha essa percepção e vivia atormentado por seus próprios demônios. A ideia do futuro o assombrava. Sabia que não era um roadie de verdade e também não queria ser. Enxergava um lado da cena punk que achava banal e tinha consciência de ser um mero assistente na viagem particular de outros. Queria ser ele, Joe Cole, o protagonista.

Repetiu a experiência em 1987, na primeira turnê da Rollins Band. Alguns shows para 30 ou 40 pessoas. Outros realmente intensos, de uma banda que começava a nascer.

Nunca esteve tão deprimido, mas nunca transou com tantas garotas. Chegou a cogitar embarcar para a turnê europeia da Rollins Band, mas, por fim, declinou do convite. Queria voltar logo para Los Angeles e decidir o que faria da vida.

Quatro anos mais tarde, em 1991, a convite de Henry Rollins, organizou e datilografou os diários que manteve durante as duas turnês para transformá-los em livro.

Duas semanas após concluir a tarefa, foi assassinado.


O clipe de "100%" é uma homenagem do Sonic Youth a Joe Cole. Henry Rollins não gostou.
Na primeira metade dos 80's, uma coleção de figurinhas chamada Stamp Color fez um baita sucesso entre a molecada. Colávamos as figurinhas no armário, nos cadernos, na janela do quarto.

Stamp Color era uma viagem com ilustrações ao estilo do peruano Boris Valejo e capas de rock. Me lembro bem das figurinhas de "Love Hunter", do Whitesnake, e "Some Enchanted Evening", do Blue Öyster Cult.

Mas teve uma, em especial, que passou boa parte do ginásio colada na minha prancheta: "Blood on the Snow", do Coven. Eu não sabia do que se tratava, mas achava a capa do disco incrível: um diabão vermelho tocando violino.

Lá pelos 15 anos de idade, eu já ouvia Venom e Mercyful Fate, bandas reconhecidamente fascinadas pelo capeta, mas nunca topei com o tal disco do Coven. E olha que, nos anos 80, vi e ouvi praticamente tudo que existia de metal underground.

Décadas se passaram e "Blood on the Snow" virou apenas isso: uma memória apagada da pré-adolescência sobre uma capa de disco bacana. Nunca li nem ouvi nada do Coven em todos esses anos.

Bem, até recentemente...


Lendo um ensaio sobre satanismo no rock, me deparei várias vezes com o nome dessa banda de Chicago. Recorri à internet para tirar a dúvida e, sim, tratava-se do mesmo Coven. O fascinante da história é que o grupo, absolutamente esquecido, foi precursor de um monte de coisas que viriam a ser associadas à cena (black) metal surgida nos 80's.

O primeiro álbum do Coven, com o radical título "Witchcraft Destroys Minds and Reaps Souls" (em tradução livre: "Bruxaria destrói mentes e estraçalha almas"), foi lançado em 1969 - um ano antes da estreia do Sabbath! Mais incrível ainda é que o baixista dos caras chamava-se Oz Osborne e eles tinham uma canção intitulada "Black Sabbath". Dá pra acreditar?

O Coven só não tomou dos ingleses mesmo a invenção do heavy metal. A cantora Lynx Dawson tem uma voz tão parecida com a de Grace Slick, que parece que estamos ouvindo Jefferson Airplane. O elemento satânico chega a soar deslocado.

Mas o resto eles fizeram antes que todo mundo: foram fotografados fazendo o sinal do capeta e usando crucifixos invertidos. Mesmo com o ocultismo em voga, ninguém havia ligado o satanismo ao rock'n'roll de forma tão gráfica e explícita.

Só mesmo a porralouquice dos anos 60 para explicar que uma grande gravadora como a Mercury botasse dinheiro num disco que terminava com uma missa negra de 13 minutos regida por um ministro da Church of Satan. Suicídio comercial é pouco.

Ou talvez os executivos achassem que estavam antenados com a vibe mística que dominava a cultura pop. Afinal, eram os tempos em que Aleister Crowley havia sido redescoberto, tornando-se alvo de interesse de Jimmy Page e dos Beatles.

O diabo estava na moda.

Mas o álbum de estreia do Coven teve o pior timing possível: foi lançado no mesmo ano em que a atriz Sharon Tate, grávida de nove meses, foi brutalmente assassinada pela Família Manson. Roman Polanski, seu marido, havia dirigido apenas um ano antes "O Bebê de Rosemary", filme que mostra o triunfo do coisa ruim sobre uma jovem moça grávida.

Os crimes conhecidos como Tate-LaBianca abalaram a classe artística e são tratados como um dos eventos que encerra definitivamente a utopia sessentista. E o Coven ficou perdido nesse limbo. É de se supor que o satanismo, até então tratado com uma variação da cientologia, tenha começado a parecer realmente perigoso.

Mas o Coven teria ainda seus 15 minutos de fama regravando -dizem que a contragosto- uma canção pop pacifista chamada "One Tin Soldier". Pelo que consta, a música, ainda hoje, é muito executada em rádios de classic rock na América.

Os integrantes do Coven, que juravam estar mesmo engajados na adoração ao tinhoso, gravaram dois outros discos nos anos 70 - um deles o tal "Blood on the Snow" que, por décadas, foi um absoluto mistério para mim.

A faixa-título do álbum, essa, sim, uma sonzeira da pesada, foi transformada num estiloso video-clipe, em tempos que isso sequer existia. Sim, o Coven gostava de inovar.

Sabe-se lá quem foi o brazuca que teve a ideia de transformar a capa desse disco sombrio numa figurinha pra adolescentes. Sem querer, abriu o portal para uma das histórias mais obscuras do rock.

Obra do demo?


Enfim, "Blood on the Snow": viagem lisérgica pelo inferno

LEIA MAIS: Black Metal - Porque o diabo ainda é pop
Há seis meses -mais precisamente em setembro de 2010-, a banda canadense Voivod viria ao Brasil pela primeira vez em 25 anos de carreira.

Ainda que tenha perdido o sensacional guitarrista Dennis "Piggy" D'Amour em 2005, vítima de câncer, a banda optou por seguir na estrada. Recrutaram um substituto para a complexa tarefa e ainda contaram com o retorno em boa hora de Jean-Yves Theriault, o Blacky, baixista original, afastado desde 1990, que gravou quase todos os discos essenciais do Voivod.

Com 3/4 de seu line-up original, a banda tem viajado pelo mundo e tocado, na maioria das vezes, ao lado de outros veteranos da cena thrash dos anos 80. Não era exatamente o futuro que eu imaginava para o Voivod, mas, para eles, o gueto do metal é certamente um porto seguro.

O Brasil quase fez parte dessas andanças do Voivod pelo planeta. A apresentação foi cancelada em cima da hora e nossa entrevista pré-agendada com a banda também foi para o vinagre.

O motivo apresentado pela produtora é que os músicos não teriam obtido seus vistos de trabalho em tempo hábil. O show seria, então, remarcado para o início de 2011.

A versão extra-oficial dá conta de que o real motivo para o cancelamento teria sido a baixa procura antecipada por ingressos.

Seja qual for a verdade, o Voivod esteve, sim, na América do Sul no início de 2011. Na verdade, eles andaram por aqui há menos de 2 semanas, mas, no vácuo dos megashows de Iron Maiden e Ozzy Osbourne, a apresentação dos canadenses em Santiago do Chile mal reverberou no Brasil.


A experiência de ver o Voivod ao vivo em 2011 seria uma nostalgia do futuro. O quarteto de Quebec sempre esteve à frente de seus pares no quesito inovação. A cada novo disco, uma proposta musical mais avançada e complexa.

A banda nunca escreveu sobre bobagens satanistas, dragões ou mitologia. E também não me lembro de terem exaltado o "estilo de vida headbanger" em suas letras. A praia do Voivod sempre foi o hiper-espaço, a tecnologia controlando a espécie humana, os alienígenas espiando pela janela ou alguma autocracia num mundo imaginário. E a música sempre acompanhou essa onda.

Piggy tornou-se um ourives das dissonâncias, dos riffs intrincados e solos de guitarras lindamente tortos. E Snake deixou de gritar, tornando-se, cada vez mais, um cantor de fato.

O conceito em volta da banda era claramente a obra de artistas, coisa rara no metal. Em 1989, o baterista e designer Away criou a arte para a capa do clássico "Nothingface" em computador. É isso aí, ilustração digital em 1989. Modernidade sempre foi com esses caras.

A cultura musical do Voivod veio da inspiração causada por gente como Venom, Discharge e Motörhead, mas sua imaginação passeou pelas obras de King Crimson e Pink Floyd (de quem fizeram dois covers extraordinários), materializando essa complexa teia de referências num disco pouco compreendido e de surpreendente sensibilidade pop chamado "Angel Rat".

A disposição de expandir sua atuação para além dos clichês do thrash metal criou uma aura de culto ao redor da banda. Jello Biafra escreveu sobre isso no prefácio de "Worlds Away: Voivod and the Art of Michel Langevin".

E o ex-líder dos Dead Kennedys não é o único célebre fã fora da tribo metal. Kim Thayil (Soundgarden) e Matt Cameron (Pearl Jam) são outros admiradores confessos do Voivod.

Dave Grohl, que dispensa apresentações, vai ainda mais longe. É possível assistir no YouTube a uma entrevista em que ele dedica quase 20 minutos (!) para esmiuçar a discografia, os solos de guitarra e as letras do Voivod.

Uma rápida visita ao Chile para ver esses lendários canadenses teria sido uma saudável loucura.



Acima, uma pequena amostra do Voivod, ao vivo e em alto astral, em Santiago, executando a colossal "Tribal Convictions".