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Na segunda edição da série "Caixa Preta Entrevista", recupero uma entrevista que realizei com Jerry Only, co-fundador do Misfits, no ano de 2003. A conversa aconteceu no conservatório musical Souza Lima, em São Paulo.

É uma de minhas prediletas. Conseguiu abranger vários aspectos da fase clássica do Misfits e contou com um bem humorado Jerry Only, muito disposto a responder sobre qualquer assunto. Há depoimentos reveladores sobre a passagem do Misfits pela Roadrunner, o encontro com a antiga musa dos filmes B Vampira, detalhes de gravação e muito mais. A entrevista foi publicada na revista Rock Press e agora você pode conferi-la na íntegra.


Fale um pouco sobre o álbum Project 1950, que foi lançado pela formação atual.
Jerry Only: O Project 1950 tem a intenção de mostrar aos jovens músicos que o rock’n’roll original e aquele do Ramones e Misfits, é o mesmo tipo de música. Matematicamente é a mesma coisa. Os acordes de “Donna”, do Richie Valens, são os mesmos de “Blitzkrieg Bop”. O fato de agora os pais poderem entender a música que seus filhos estão ouvindo e, acredite, eles estão roubando os CDs dos garotos para escutá-los, é uma coisa nova. Acho que foi uma ótima ideia. O disco tem a participação de grandes músicos também. É um grande álbum. Esse CD saiu pela Misfits Records.

Alguma possibilidade de distribuição no Brasil? 
Sim, sem dúvida. Isso deve acontecer em todos os países da América do Sul onde estivemos excursionando e o Brasil está incluído. Estivémos no Peru e devemos ser distribuídos no Chile também. Estamos sendo distribuídos pela Rykodisc (nos EUA) e se eles não atenderem o Brasil, faremos isso por conta própria. Mesmo que eu tiver de trazer os discos pra cá e vendê-los aos garotos.

O que você e o Doyle fizeram entre 1983 e 1996, quando o Misfits esteve parado? Ouvi dizer que vocês tinham uma banda chamada Kryst the Conqueror.
JO: Sim, nós tínhamos. Nós também projetamos e construímos guitarras, baterias e acessórios, como correias de guitarra e até rebites pra jaquetas. Algumas de nossas guitarras estão sendo fabricadas agora pela BC Rich. Durante aquele tempo, enquanto construíamos os instrumentos, compusemos um monte de riffs. O álbum é bem metal, bem Iron Maiden. Juntamos esses riffs que escrevemos e colocamos no álbum, então é mais um workshop de guitarra do que uma produção de fato. De qualquer forma, naquela época o Danzig estava no mercado e as pessoas acreditavam que ele fosse o Misfits. E o lance dele era bem satânico, por isso chamamos a banda de Kryst the Conqueror, para mostrar aos garotos que se o ponto de vista do Glenn Danzig era bem negativo, o nosso era positivo. Era mais uma declaração daquilo em que acreditávamos do que uma banda de verdade. Nós nunca tocamos ao vivo. Existem 48 faixas gravadas e a Misfits Records deve lançar esse material algum dia.

Marky Ramone: (interrompe) E como ele sabia disso?
JO: (rindo) Eu não faço ideia!

Quando se pensa no Misfits, logo vem à mente a imagem do Crimson Ghost, que se tornou praticamente um ícone pop…
JO: Com certeza!

Quem teve a ideia de usá-lo como símbolo da banda?
JO: No nosso primeiro disco, que gravamos quando tínhamos 18 anos, havia músicas como “Last Caress”, “Attitude”, “Teenagers From Mars” e por aí vai. Trata-se do álbum Static Age. Na época, Nova York era bem artística, bem avant garde. Todo mundo queria ser sombrio e sinistro, mas nada interessante de se ver. Então, fizemos um cartaz para o Max Kansas City (importante casa de shows da época) com a imagem do filme “Teenagers from Mars” (1) e realmente gostamos do jeito que ficou. Ainda usávamos o primeiro logo do Misfits, não o atual. Nós olhamos para aquilo e dissemos: “Uau! Tem tudo a ver com a gente!”. Porque todos nós gostávamos de filmes de terror, de monstros, então nos habituamos com a imagem do Crimson Ghost. Desde aquele dia, ela ficou associada a nós. Fizemos camisetas e coisas assim. Nas convenções de camisetas, você tem os Stones, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Jim Morrison e aquela caveira (Crimson Ghost) como as mais vendidas, então, enquanto imagem, nos tornamos ícones pop. Aquela imagem pode ser vista nas ruas de todo o planeta. É uma grande honra para nós. O mais interessante é que não há outra identificação (além da caveira) e as pessoas já sabem o que significa. Me faz sentir que criamos uma coisa muito grande. Como o “S” do Superman, sabe?

É verdade. E vocês registraram a imagem depois que ela ficou associada a vocês?
JO: Sim. Nós fizemos a ilustração a traço e patenteamos tudo. Mas liberamos para artistas usarem de graça. E para pessoas como, por exemplo, o medalhista de prata (nas olimpíadas de inverno 2002) Danny Kass, que usou a imagem da caveira em seu snowboard e em suas roupas. Nós cedemos para algumas pessoas que nos solicitam. Não patenteamos para ter lucro e sim, por proteção.

Já que falamos do personagem Crimson Ghost, gostaria que você nos contasse como foram seus encontros com as celebridades dos filmes de terror. Nos anos 80, o Misfits posou para fotos com a musa dos filmes B Vampira e nos 90, teve um clipe dirigido pelo lendário cineasta George A. Romero.
JO: A Vampira tem uma história muito triste. Ela foi namorada do James Dean. Pouca gente sabe disso, mas quando James Dean morreu, Vampira era namorada dele. Ela teve uma passagem muito breve por Hollywood. Depois disso, ela esteve na batalha por muitos anos. Em 1983, quando saiu o álbum Walk Among Us, nós fizemos uma sessão de autógrafos na Vinyl Fetish (tradicional loja de discos de Los Angeles). Aí eu perguntei para um sujeito: “Hey, você que é daqui, sabe mora a Vampira?”. Ele disse: “Por incrível que pareça, ela vive a três quadras dessa loja!”. E ela morava numa casa pequena e caindo aos pedaços. Realmente precisava de uma reforma. Fomos até lá e, pela janela, vimos alguém se movendo. Como ninguém atendia a campainha, escrevemos um bilhete e colocamos na janelinha por cima da porta: “Estamos dando autógrafos hoje na loja tal. Por favor, venha nos ver. Fizemos uma música para você”. Mais tarde naquele dia, ela apareceu na sessão de autógrafos com suas unhas postiças e tudo. Foi uma grande honra. Com relação a George Romero, nós queríamos que ele dirigisse nosso vídeo (da música “Scream!”) e ele jamais tinha dirigido um clipe de rock antes, então ele veio a mim e disse: “Que coincidência! Estou precisando de uma banda para o meu novo filme (“Bruiser”, 2000). Se vocês participarem do filme, eu dirijo o vídeo de vocês”. Foi o que aconteceu. Inclusive meus filhos e alguns amigos acabaram aparecendo no clipe. Trabalhar com George Romero é incrível. Já tínhamos participado de filmes antes e normalmente você chega no set de gravação às 6 da manhã e nada acontece até à meia-noite. Você fica andando pra lá e pra cá sem fazer nada. George, ao contrário, trabalha como uma metralhadora: “Filme isso, filme aquilo”. E eu pensava assim: “Mas esse cara está maluco? Pra quê ele vai precisar disso?”. Mas quando você vê o filme pronto, de repente aquilo tudo faz sentido. É incrível o jeito como ele trabalha. Eu tenho o maior respeito por George Romero. “A Noite dos Mortos Vivos” foi feito com apenas 100 mil dólares e é um dos filmes de terror mais assustadores já realizados. Não se discute. E ele conseguiu isso com apenas 100  mil dólares que arranjou emprestado com alguém... Isso nos mostra que hoje em dia temos coisas como “Star Wars”, que custam 50 milhões de dólares para ser feitas e nem sequer chegam perto. Ou seja, o importante não é o quanto você tem para gastar e sim, quão grande é a sua visão. Acho que, com nossa banda, atingimos isso também, porque agora temos nosso próprio selo e não é porque quiséssemos ter um, mas estávamos numa gravadora que não fazia as coisas direito (está se referindo à Roadrunner). O Misfits ainda está bem vivo, mas nenhuma gravadora estava fazendo nada por nós e agora estamos indo muito bem com muito pouco.

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Gerald Caiafa (Jerry Only)

Quando você foi entrevistado pela MaximumRocknRoll em 1996, tinha acabado de ganhar na justiça os direitos do nome Misfits. Na época, você dizia que seu plano para o futuro da banda era fazer tudo de forma independente, mas vocês acabaram assinando com a Geffen e depois com a Roadrunner. Por que?
JO: Vou te dizer o porquê. Naquele tempo, a Geffen era uma grande gravadora. Eles tinham Guns N' Roses e White Zombie. Ambas as bandas estavam sentadas em casa sem fazer nada. Na minha opinião, eles tinham essa máquina de rock’n’roll e ela estava ociosa. Eu pensei em deixar o Misfits numa companhia como a Geffen, que tinha todos os recursos para acelerar o processo e levar nosso material até os garotos. No meu modo de ver, era uma forma de abreviar as coisas para chegar até onde eu queria. Mas o que aconteceu com a Geffen, com todo respeito ao Rob Zombie, é que eles se apropriaram de todas as ideias do Misfits e as colocaram no álbum Hellbilly Deluxe. Até mesmo o artista que pintou a capa. O Rob Zombie me ligou pedindo o número dele e é o cara que fez nossa capa também! O lance é que minhas ideias estavam certas, porque ele vendeu de 1,5 a 2 milhões de discos e deveríamos ter sido nós, porque American Psycho é melhor que o álbum dele. Desculpe, mas é um fato. E a Geffen queria saber o que eu achava, quais eram meus conceitos. Eles pegaram todas essas informações e se saíram muito bem com elas. Então decidimos que estávamos fora. Fomos para a Roadrunner Records e na época eu estava tendo problemas com nosso vocalista e baterista. Eles só estavam enrolando erva e não faziam o que deveria ser feito, eram muito preguiçosos. E tínhamos chegado num ponto em que precisávamos lançar um novo disco. Ou eu tirava 100 mil dólares do bolso para gravar o álbum ou a Roadrunner o financiava. Pensei: “O que eu faço? Nem sei se esses caras (Michale Graves e Dr. Chud) vão continuar na banda e realmente não tenho toda essa grana. Se não der certo, tudo vai cair em cima de mim”. E a Roadrunner me contactou para fazermos o disco. Naquela época eles tinham o Type O Negative, Slipknot, bandas que estavam na nossa praia, não que fossem iguais a nós, mas parecidas. Assim eu pensei que, por saberem quem éramos, nós poderíamos fazer nosso trabalho em paz. A Roadrunner antecipou 200 mil dólares e usamos tudo na gravação do álbum. Tudo. E depois disso eles não fizeram absolutamente nada…Não fizeram nada de nada! Nem um anúncio sequer!! Nada mesmo! O que aconteceu foi que 150 mil fãs do Misfits compraram o CD e eles (Roadrunner) ainda me diziam que eu lhes devia dinheiro! Ele ganharam, deixa eu ver, com 150 mil CDs, pelo menos 1 milhão de dólares. E me anteciparam 200 mil. Quando me perguntaram sobre gravar outro álbum, eu respondi: “Vou dizer uma coisa: eu antecipo 200 mil dólares, vocês gravam um CD, eu ganho 1 milhão e depois ainda cobro de volta. O que vocês acham?”.Se passaram uns dois anos até eles perceberem que eu tinha razão. Eu disse a eles: “Estou tocando com o Marky e com o Dez agora. O Ramones tem umas 250 músicas, o Misfits umas 60, o Black Flag mais umas 60. Ou seja, um repertório de 400 músicas para escolher e tocar todas as noites! Eu não preciso de um álbum”. Um ano depois eles vieram até mim e disseram para esquecermos tudo (refere-se à suposta dívida). Então eu peguei todas as minhas gravações antigas com Michale Graves e Chud e fiz um pacote chamado Cuts from the Crypt. Demos a eles todas as sobras de estúdio e eles ficaram com um disco novo de graça, só para sairmos de lá e darmos aos garotos mais música. Isso evitou pirataria, deu aos fãs a chance de ter um outro álbum do Misfits, me permitiu sair da Roadrunner e não precisar contratar advogados outra vez pra sair de uma situação ruim (menciona isso por causa da briga na justiça com Glenn Danzig). Eu não quero passar minha vida envolvido com advogados ou em tribunais. Isso não é música pra mim. Música é poder dar uma entrevista como essa ou sair pra tocar para os garotos. Depois disso tudo, eu jurei que por melhor que fosse a proposta, eu não assinaria com uma gravadora de novo. Na verdade, eu tive uma oferta que no papel era muito boa, poderia ter funcionado, mas… Estou escrevendo um livro já faz 3 anos e fala sobre sobreviver nesse ramo sem ter que confiar em gravadoras, promotores de shows, etc. O mais importante é você perceber que qualquer coisa que te ofereçam, eles podem não dar a você depois. E aí sim você estará encrencado! Foi isso o que aconteceu conosco. Agora com a Misfits Records, com o CD Project 1950, estamos indo muito bem. O disco entrou no posto mais alto das paradas que o Misfits jamais esteve (o CD estreou em 2º lugar na parada independente da Billboard). Temos até Ronnie Spector no disco, aquela de “Be my Baby”. Não sei se você a conhece, mas é uma deusa do rock! Enfim, estamos muito felizes agora. Quando perdemos Joey e Dee Dee Ramone, eu percebi que o tanto de dinheiro que você ganha não é importante. O que importa é o quanto de…eu até diria “amor”, mas ficaria meio veadinho (risos). O que vale é o quanto você significa para as pessoas e não quantos discos de ouro você tem na parede. Tenho orgulho de poder mostrar para as pessoas que sobrevivemos com nossa música, que essa banda ainda está viva, apesar da Geffen e da Roadrunner Records. Temos nosso próprio selo agora e o Fiend Fest, nos EUA. Estou realizando todos os sonhos, ainda que eu tenha que ir trabalhar todos os dias. Prefiro ter um emprego e ser feliz, do que morar numa mansão e ser infeliz. Encontrei com a Alanis Morrisette no aeroporto ontem e perguntei: “Você ainda está no selo da Madonna, a Maverick Records?”. Ela disse que sim, mas que não tinha muitas opções. Perguntou em qual gravadora estávamos e eu respondi que éramos independentes agora. Alanis comentou: “Foi uma decisão inteligente!”. Acho que isso resume bem a história.

Ainda falando sobre gravadoras, por que o CD Walk Among Us não fez parte do box-set lançado pela Caroline em 1996? Eu sei que você não estava diretamente envolvido, mas saberia explicar?
JO: Bem, eu estive envolvido com o projeto, mas não oficialmente (sorri). Walk Among Us pertence ao catálogo da Warner Brothers, por isso não saiu na caixa. Ainda assim, bastava um telefonema da Caroline e eu acho que teriam consigo uma permissão, um acordo. Mas nem para pegar o telefone e fazer isso! Eu pretendo adquirir os direitos do Walk Among Us algum dia, porque esse disco está esquecido no catálogo da Warner. Eu sou pago ocasionalmente pelas vendas do álbum e percebo que o disco está vendendo bem menos do que deveria. E esse álbum é um clássico, o melhor do Misfits!

Você não acha que Static Age é a obra-prima do Misfits?
JO: É, o Static Age… Mas a razão pela qual eu gosto mais do Walk Among Us é porque no primeiro álbum nossa imagem ainda estava muito associada ao conceito de “Teenagers from Mars”. Em Walk Among Us tinha todo o visual e o som. “Halloween”, “Vampira”, “Hell Breaks Loose”, que tal isso? Esse disco personificou a imagem, a sensação e a atitude, entende? O pacote completo. Static Age é genial, mas estava apenas esboçando nossa identidade. Mas você está certo sobre esse álbum. Nós o gravamos em 1978 e eu tinha acabado de fazer 18 anos. O disco ficou no armário por 18 anos, até que a Caroline o lançou (primeiro no box-set, depois individualmente). Quando eu o ouvi de novo, até chorei. Eu pensei: “Não acredito que gravamos isso há 18 anos! Esse álbum é o máximo!!”. Tem “Last Caress” e “Attitude”. O Metallica gravou uma delas e o Guns N' Roses gravou a outra. Só canções clássicas (empolga-se): “Hybrid Moments”, “Some Kind of Hate”…  

“Theme for a Jackal”…
Sim, “Theme for a Jackal”! Glenn chegou pra mim e disse: “Ouça esse poema: ‘Dry drink on a corner..’”. E eu perguntei: “Que tipo de música você quer pra isso?”. Ele disse que queria algo em Si. Aí eu escrevi aquele pedaço (canta a melodia) e o repetimos pelo resto da música.

 Essa música é um bom exemplo de como você escreveram coisas bem diferentes durante a carreira. Punk rock, metal, rockabilly… 
 Eu sei. “American Nightmare” (cita essa faixa porque é um rockabilly típico) é uma das melhores canções do mundo e nós só a tocamos uma única vez! Veja só, estávamos no estúdio e Glenn disse: “Eu tive uma ideia para um rockabilly”. Pedi que ele a mostrasse pra mim e então, pelo vidro na sala de gravação, eu gritei: “Googy, me siga. Quando eu tocar, você me acompanha” (refere-se ao baterista Arthur Googy). Gravamos os 90 segundos da música numa tacada só e nunca mais a tocamos outra vez! Pra mim, foi um daqueles momentos de genialidade criativa. Nós somos assim e é isso o que fazemos. Ouvi histórias dos Beatles, quando eles estavam fazendo o filme “A Hard Day’s Night”, e pediam uma música pra eles. Eles iam pra casa à noite e voltavam de manhã com uma canção como “A Hard Day’s Night” (cantarola o refrão da música). Não estou dizendo que éramos tão talentosos assim, mas éramos as pessoas certas, na hora certa e querendo, querendo muito fazer tudo aquilo! É por isso que eu acho que as gravadoras desperdiçam tanta coisa. Eles não queriam colocar “Helena” no American Psycho. “Ah, não gostamos dessa música, é muito metal” (imita a voz de algum executivo de gravadora). Muito metal?! Aí o Doyle apareceu na reunião seguinte com um taco de baseball e disse: “Vamos colocar aquela música no disco ou não?” (gargalhadas)

O que o Doyle anda fazendo atualmente? Por que ele não quis participar do Misfits M25?
JO: Doyle está bem. Ele participou do M25 no começo, mas aí se divorciou, casou-se novamente e teve uma filha. Agora ele está ajudando meu pai nos negócios, porque ele anda meio doente, mas deve ser operado em breve e aí ficará tudo bem. Eu vejo o Doyle todos os dias, inclusive foi ele quem me levou ao aeroporto quando vim para cá. Olha, Doyle sempre fará parte do Misfits. Inclusive estamos começando a escrever um novo álbum juntos. É que o Misfits M25 me deu a oportunidade de pôr em prática meu projeto anos 50 e o Marky e o Dez estão muito envolvidos nisso.

Uma coisa que me impressiona no material que vocês lançaram entre 1977 e 1981 é a gravação e o timbre dos instrumentos. A sonoridade que vocês conseguiram naquela época é muito peculiar. 
JO: É verdade. Muita gente também gosta das gravações originais. A razão disso é que, à época, não tínhamos um grande orçamento e fazíamos o que dava com o que estava à disposição. Gravávamos 4 ou 5 músicas num dia e voltávamos mais tarde para mixar. Naquele tempo, muito do material era gravado em 16 canais e isso dava um pouco mais de dinamismo do que gravar em 24, porque nesse caso os canais estão mais próximos. Eu gosto muito das gravações originais, mas eu sempre esperei mais do som, algo mais encorpado, mais pesado. Mas agora ouvimos bandas como Slayer ou Pantera e não sabemos se era por aí que deveríamos ter seguido, sacou? Eu fiquei muito satisfeito com o American Psycho e também com o Famous Monsters. Cada disco tem sua própria identidade. Quem sabe a gente não volte com o Glenn (Danzig) e acabe escrevendo material novo…

Você antecipou uma pergunta que eu faria, que é justamente sobre a possibilidade do Misfits voltar com o Danzig. Como é a relação entre vocês hoje em dia?
JO: Olha, ele está na batalha. Pra ser sincero, a carreira dele está numa encruzilhada. Ele ainda está com a cabeça naquele lance death metal anos 80 e quem se importa com isso hoje em dia? Ninguém está nem aí. É uma situação delicada, porque ele precisa amadurecer como indíviduo, para chegar e perceber que tivemos bandas como Beatles, Ramones, Clash, enfim, pessoas que já se foram. Essas nunca voltarão. E para ser honesto com você, não se fez muita na música desde então. Dá para contar nos dedos de uma mão as grandes bandas que surgiram desde aquela época. Nunca mais apareceu algo que realmente me nocauteasse, para o qual eu dissesse: “Uau!! Isso é fantástico!”. Eu gosto do primeiro disco do Slipknot, achei muito bom. Já o segundo álbum deles não é tão intenso quanto o  primeiro. Sem querer ser desrespeitoso com eles, claro. O que quero dizer é que, em muitos casos, uma banda tem a vida toda para gravar o primeiro disco, para concebê-lo, sabe? Depois disso, você está na estrada, está tocando…é difícil voltar. Chamam isso de “a maldição do segundo ano”. O segundo álbum é escrito em quartos de hotel, aeroportos… Enfim, é aí que temos que entender como é bom fazer as coisas a seu tempo, juntar material e trabalhar em grupo. Era assim que fazíamos com Glenn no início. Nossas canções eram ótimas porque todos nós tínhamos ideias. Como o começo de “Return of the Fly” ou “Astro Zombies”. Eu compus aquilo. Glenn não compôs tudo como dizem, mas eu não me importo. O importante é que essa obra exista! Quando voltamos com Graves, Chud e Doyle, para gravar o American Psycho, nós ensaiamos durante 6 meses, por 4 ou 5 horas diariamente. Tentamos escrever músicas melhores e tínhamos 50 delas para selecionar só 18. Ou seja, quase como se tivéssemos que escolher uma música entre cada três. Isso te dá uma grande variedade e grandes opções também. Às vezes pegávamos parte de uma música e juntávamos com o final de outra. “Helena” (do CD Famous Monsters) é uma delas! São 3 músicas diferentes que se tornaram uma só. Quando juntamos foi como mágica! O lance é que composição deve ser coletiva, todos podem ter ideias. Foi isso que o Glenn perdeu quando começou com seus projetos Samhain e Danzig. Ele fazia tudo sozinho.

Não sei se você respondeu exatamente a pergunta, mas…
JO: OK, vamos lá… Veja o que aconteceu como o Marky (Ramone), por exemplo. Quando o vi ao vivo pela primeira vez, pensei: “Temos que ter esse cara na banda”. O lance é que, estando no Ramones, não dava para chamá-lo. Mas tudo tem seu tempo e razão de ser. Eu tive que passar por toda a merda que eu passei para tornar-me quem eu sou hoje, para ser uma inspiração para os garotos. Você tem que estar convicto para ficar limpo. E o Marky tinha que estar com o Ramones. Quer dizer, a gente tem que ter paciência e entender que Deus tem sua maneira de fazer as coisas. O mesmo se aplica à Glenn. Nós o teremos de volta. Eu te garanto isso! Quando é que é a questão, mas isso não importa. Pode ser daqui a 5 ou 10 anos, mas não interessa, porque estarei aqui e estarei preparado. A melhor coisa que me aconteceu foi que Doyle precisou de um tempo e eu tive que assumir os vocais quando o Graves saiu fora. Minha habilidade técnica foi daqui (gesticula) lá pra cima. Agora estou fazendo o vocal principal! Eu posso não ser um Elvis ou um Pavarotti, mas agora que estou cantando todas as noites com esses caras (Dez e Marky), eu serei o melhor músico número 2 desse ramo. Ou seja, o melhor baixista que faz vocais. Então, quando chegar a hora de voltarmos (com Danzig), estaremos melhores que se tivéssemos ficado juntos na banda a vida toda. Estou muito satisfeito agora. Eu estou trabalhando na minha performance, no meu vocal e na minha condição física. Espero que “esse Misfits” seja o melhor possível. E acho que os garotos estão gostando.  

Parece que você não gosta muito da banda Danzig. Mas o Samhain até que gravou algumas coisas que lembram um pouco o Misfits, não?
JO: Sim, mas ainda é meio bluesy. Tipo aqueles “dam, dam, dam, dam” (inventa uma melodia). Não é ruim, sabe? Mas não se pode comparar com o que fizemos. “Teenagers from Mars” ou “I Turned into a Martian” são hinos! A mesma coisa quando você ouve “Rock’n’Roll Radio” ou “Teenage Lobotomy” do Ramones. São hinos também.



Você acha que o Earth A.D. ajudou a delinear a sonoridade do thrash metal?
JO: Bem, o disco Earth A.D. foi a pedra fundamental para o death metal, thrash metal e outros. Mas nós não inventamos aquilo! O thrash veio do Necros e do Negative Approach. Essas bandas abriam pra nós e eram todas da região de Washington DC, sabe? Só que tocavam assim… muito thrash. Nós pensamos: “Se liga só nisso?!”. Não havia melodia por cima daquilo, era só gritaria. Mas essas bandas, as bandas que uivam, sim as que só sabem uivar, são boas, mas só se você as vir ao vivo. Tirando isso, ninguém vai dar um rato morto por essas bandas! As pessoas vão se lembrar dos Beatles, Ramones e de nós. Porque nós pegamos “Green Hell” e colocamos uma melodia por cima. Fizemos isso com “Death Comes Ripping” também. Dá pra cantar “Death Comes Ripping” no chuveiro! Isso sim é música. Caso o contrário, por que precisaríamos de guitarras? (gargalhadas)

O que você acha que teriam gravado depois do Earth A.D. se a banda não tivesse acabado?
JO: Esse é o problema com o Earth A.D.. Era muito à frente do tempo! A gente não sabia por onde seguir e a tensão era grande na banda, porque nós havíamos nos superado, tínhamos chegado a um ponto onde não sabíamos mais o que fazer. Foi aí que começamos a discutir. A versão de “Mommy” nem tem letra, é só “da-da-da-da” (imita a melodia). Metade das músicas daquele disco nem tinha letra! A gente não sabia como encaixar as palavras. Era mais do que poderíamos fazer. E aí a banda acabou. Hoje você vê que aquele álbum talvez estivesse uns 20 anos à frente do tempo. Se um dia voltarmos (com Glenn Danzig), gostaria de gravar um Earth A.D. parte 2, usando bateria com dois bumbos e tudo. Digo isso porque o maior avanço tecnológico desde Earth A.D. foi o jeito como se grava e se toca bateria. Guitarristas e baixistas nunca mais fizeram nada de especial, vocalistas são vocalistas, mas o jeito como se toca bateria chegou a níveis extremos. Gostaria de incorporar isso num disco do Misfts, porém com melodia. Imagine um Slipknot com melodia.

Que tipo de música você ouve em casa?
JO: Eu trabalho o tempo todo, então não ouço qualquer coisa. Exceto a banda do meu filho, que eu “tenho” que escutar (risos). Não sobra mesmo muito tempo, porque tenho meu trabalho. E isso me me ajuda a…como posso dizer? Me ajuda a não sofrer a influência dessa vida de rock’n’roll, sabe?  Quando volto pra casa depois de excursionar, não quero trazer isso na bagagem. Toda vez que passo um mês em turnê, volto e tenho dois meses de problemas pra resolver! De certa forma, isso (não ouvir tanta música em casa) me mantém puro. Me sinto bem assim.

Dez Cadena (interrompe): Pode parecer estranho, mas eu ouço de tudo. De punk rock a clássico, jazz e música pop. Depende do momento. Gosto muito de poder ver uma banda ao vivo. Se eu puder assistir a uma banda antes de subirmos no palco, é o que eu mais gosto. Venho de uma família musical, meu pai produzia discos de jazz, então cresci com música ao meu redor. Ele (Jerry Only) não vai levar em consideração qualquer música, porque trabalha numa oficina com máquinas, na parte de vendas, e com pessoas que não ouvem música…

JO: Calma lá, calma lá!… (gargalhadas) Eu me lembro que David Bowie era amigo do Lou Reed, do Velvet Underground, e o convenceu a assinar um contrato com a RCA e Lou acabou ficando bem insatisfeito com isso. Quando faltavam dois álbuns para terminar o contrato, ele gravou um disco chamado Metal Machine Music e esse é o pior álbum de todos. É só “beep!”, “poing!”, barulho o tempo inteiro (risos). E o disco é duplo, com os quatro lados assim!! Então ele disse: “Aí está! Já terminei o contrato!”. Essa música ainda está na minha mente! Quando eu era garoto, tinha uma loja na qual, por 1 centavo de dólar, você ficava sócio e ganhava 10 discos. E eu vi esse e pensei: “Oh, Lou Reed!”. Quando cheguei em casa e ouvi o disco, disse: “Que porra é essa?!”. Então eu percebi que máquinas podem ser música… (brinca com o fato de trabalhar com o barulho de máquinas). Talvez tenha sido só uma experiência ruim. Desculpe, Dez (risos).

Qual foi o presente mais bizarro que você já ganhou de um fã?
JO: Um crânio de bebê! Era do tamanho de um limão ou menor. Isso foi na época em que morávamos em Lodi (New Jersey). Tínhamos uma caixa com as coisas que os fãs nos mandavam pelo correio. Uma vez alguém me mandou ossos de mão! Ah, e Tesco, do Meatmen, me enviou uma tarântula morta. Cheirava muito mal! Quando abri o pacote, pensei: “Meu Deus, que coisa é essa?!”. E era uma aranha morta. Esvaziei uma caixa com os EPs de Night of the Living Dead, coloquei a aranha lá dentro e a cobri com um spray. Mesmo assim, aquilo continuou cheirando mal por todo o dia! (risos)

Jerry, responda rápido: quais são as 5 músicas do Misfits que você mais gosta e seus 5 filmes de terror prediletos?
JO: OK, as 5 músicas são: “Astro Zombies”, “American Nightmare”, “American Psycho”, “Last Caress” e “We Are 138”. Os 5 filmes são, vejamos, “The Bride of Dracula (“A Noiva do Drácula”, 1974), “The Wolf Man” (“O Lobisomem”, 1941), “The Phantom of the Opera” (“O Fantasma da Ópera”, 1943) e eu adoro “The Thing” (“O Enigma de Outro Mundo”, 1982), de John Carpenter! Me lembro que fomos ao cinema ver esse filme junto com os caras do Necros, então era aquele bando todo comendo pipoca e dizendo: “Você viu isso? Você viu aquilo?” (risos). Eu gosto de coisas originais e que são feitas de um jeito a tornarem-se chocantes.

O Misfits já teve material desenhado por gente como Dave McKean, da série de quadrinhos Sandman, o cultuado ilustrador Pushead e até Butch Lukic, do desenho animado Batman, da Warner. Se você pudesse escolher algum artista, vivo ou morto, para desenhar a próxima capa do Misfits, quem seria?
JO: Talvez seria o Boris Vallejo (2), mas a Roadrunner conseguiu estragar isso também. Nós até pagamos pelo trabalho dele e a ilustração seria o Doyle segurando o Sable, do WWF (3), atrás do fogo e uns macacos saindo das chamas com a Estátua da Liberdade ao fundo! Ele até me mandou um esboço, mas a Roadrunner foi um tremendo pé no saco e ele me ligou dizendo que não trabalharia mais pra eles. Eu até compraria a pintura, mas mesmo assim ele não quis fazer. Então tive que pegar um outro artista. Há outro cara que eu gosto, e acho que ele fez a pintura de Dorian Gray no filme “O Retrato de Dorian Gray”, mas não lembro seu nome agora (4). Vi algumas obras dele num museu de arte em Chicago. Sabe que eu estou escrevendo um livro e tive uma ideia para a capa: meu rosto, metade esqueleto e metade “humano”. Um dia desses no Hard Rock Café, da Cidade do México, um rapaz veio até mim e me deu uma pintura. Quando eu olhei, logo disse: “Meu Deus, era exatamente isso que eu tinha em mente para a capa do meu livro! Posso usá-la?”. E ele disse que sim, gostou da ideia que capa do meu livro fosse creditada a um desenhista mexicano.

Qual é a importância do merchandise para vocês? Isso ajuda que vocês vivam da banda?
JO: É o único de jeito de conseguirmos isso. Se vendermos 200 mil discos, tudo bem, mas a questão é que não vimos o dinheiro da Geffen ou da Roadrunner por vender discos. Ganhamos algum dinheiro da Caroline, mas não é muito. Provavelmente equivale a um salário comum. Minha filha estuda numa faculdade em Boston que custa mil dólares por semana! E isso é mais do que eu ganho no meu emprego, então se eu não tivesse o merchandise… Veja só, o Project 1950 foi gravado com dinheiro de merchandise.

Quanto items vocês já licenciaram com a marca Misfits? Me parece que entre as bandas, digamos, alternativas, ninguém chega perto de vocês nesse quesito.
JO: É verdade. O KISS provavelmente vende mais em volume, mas nós fazemos as coisas com um padrão de qualidade tão elevado e com ideias tão incríveis! Nossas miniaturas foram escolhidas como os action figures do ano, ainda que tenhamos até perdido dinheiro nisso. Tento fazer tudo com um nível que os outros apenas almejam como objetivo. Nossos bonecos, os melhores! Nossas guitarras, as melhores! As embalagens de nossos CDs, as melhores! Quero que vejam isso e digam: “Uau! Quero ter a qualidade do Misfits!”. Talvez tudo isso não signifique muito agora, mas no curso dos anos, quem sabe? Acho que um dia estaremos no Rock’n’Roll Hall of Fame. Não pela quantidade de discos que vendemos, mas pelo jeito como fazemos as coisas. O pacote completo.

  1. É provável que ele esteja se referindo ao filme “The Crimson Ghost”, de 1946, onde o personagem apareceu nas telas pela primeira vez. Não consta que exista um filme chamado “Teenagers from Mars”.
  2. Famoso ilustrador peruano que imigrou para os EUA no fim dos anos 60 e tornou-se famoso por seus trabalhos que exploram temas de fantasia e ficção científica.
  3. Sable é o nome de um lutador e WWF é a mais popular liga de luta-livre americana.
  4. Trata-se do pintor Ivan Le Lorraine Albright. Esse artista pintou os 4 quadros que mostram a transformação de Dorian Gray na versão cinematográfica de 1946, dirigida por Albert Lewin e ganhadora de 3 Oscar.
Nesta quinta, dia 17, será comemorado em todo o mundo o Dia de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Internacionalmente, a data ficou conhecida por seu nome em inglês -St. Patrick's Day- e é uma ótima justificativa para beber até cair em nome do santo.

Poucas bandas combinam melhor com a tal comemoração que o Pogues, grupo que carrega em suas veias sangue verde. O conjunto surgiu das cinzas do Pogue Mahone -gaélico para a expressão "kiss my ass"- e liderado por um punk criado na Irlanda, radicado em Londres e ex-vocalista dos Nipple Erectors.

Autodestrutivo e um autêntico poeta das ruas, Shane MacGowan é hoje um fantasmagórico sobrevivente da heroína, do tabaco e dos excessos etílicos. O fato de estar vivo em 2016 é como imaginar Jim Morrison mendigando atualmente nas esquinas de Paris. Ou Sid Vicious ainda hoje a se drogar numa espelunca qualquer de Nova York. MacGowan é homem de outro tempo.

Líder torto do Pogues, MacGowan notabilizou-se como uma espécie de não-cantor. Por trás do folk irlandês de alma punk, o vocalista de sorriso podre entregava letras sobre a saga migratória de seu povo ("Thousands Are Sailing"), a vida de irlandeses marginais em Londres ("Boys From County Hell") ou em completo vazio existencial ("The Auld Triangle").

A poesia de MacGowan e a música do Pogues, executada com instrumentos de rock e também aqueles tradicionais do folk irlandês -violinos, apito, bandolim, banjo e acordeão- conquistou a atenção de dois admiradores famosos e que terminaram produzindo discos do grupo: Elvis Costello e Joe Strummer. O ex-líder do Clash, inclusive, participou de vários shows do Pogues, até mesmo no Dia de São Patrício, e integrou a banda por um curto período, quando MacGowan encontrava-se num estado físico mais deplorável que o normal.

                                                           https://lordsofthedrinks.files.wordpress.com/2012/12/shanemacgowan.jpg?w=652

A discografia do grupo vale ouro, mas, para começar, uma boa dica é "If I Should Fall From Grace with God", de 1988. Essa obra-prima produzida por Steve Lillywhite (Rolling Stones, U2, The Smiths) traz uma coleção de pérolas. Desde a faixa título, um 'blend' magnífico de folk com levada punk, passando pela clássica balada "Lullaby of London", a dilacerante "Thousands Are Sailing" e chegando a temas festeiros como "Turkish Song of the Damned", "Fiesta" e "Sit Down by the Fire".

O destaque do disco, no entanto, fica com "Fairytale in New York", escrita por MacGowan em parceira com Jem Finer, e lançada originalmente como single. A canção descreve os sonhos despedaçados de um junkie irlandês na noite de Natal de Nova York e apresenta um belíssimo dueto de MacGowan com a cantora folk Kirsty MacColl. "Fairytale in New York" é tida como a mais linda canção de Natal já escrita. Arrebatou um disco de platina na Inglaterra e tornou-se parte integrante da cultura popular.

A vida de MacGowan é o espelho de sua poesia marginal. No documentário "If I Should Fall From Grace: The Shane MacGowan Story", de 2001, o cantor é mostrado em variados estados de embriaguez, sempre com um cigarro entre os dedos encardidos de nicotina e destilando causos com um sotaque impenetrável. É triste e inesquecível a passagem sobre a prisão de Shane motivada pela denúncia de sua amiga Sinéad O'Connor - sim, aquela mesma do hit "Nothing Compares 2U".

Um 'pint' de cerveja irlandesa é a companhia perfeita para degustar a obra do Pogues. Sua música tem o poder de levantar qualquer festa, mas também um contraponto sombrio e melancólico, indicado para quem prefere terminar a noite curtindo uma fossa no canto escuro do balcão. 


CLÁSSICOS DA BEBEDEIRA

~ 5 temas do cancioneiro irlandês para ver duendes ~

  • "Beer Beer Beer" (THE CLANCY BROTHERS)
    Homenagem a Charlie Mopps, o homem que 'inventou' a cerveja e nos fez escapar de passar a vida tomando chá. De acordo com a letra, o homem foi tão feliz em sua criação que só pode ter sido rei ou sultão.

  •  "Whiskey in the Jar" (THIN LIZZY)
    Há inúmeras versões dessa canção folclórica, mas nenhuma comparável à que catapultou o Thin Lizzy ao sucesso, ainda no início de carreira, com o incrível trio formado por Phil Lynott, Eric Bell e Brian Downey.

  • "The Wild Rover" (THE DUBLINERS)
    O mais famoso de todos os temas de bebedeira tem registros que datam do século XVI. Narra a história de um andarilho a quem é negado o direito de pagar fiado numa taberna - até que mostra o ouro trazido de suas viagens. Essa gravação dos Dubliners é minha favorita.

  •  "Drunken Sailer" (IRISH ROVERS)
    Ahoy! O que pode ser mais legal que uma canção de embriaguez protagonizada por marinheiros? Provavelmente, nada.

  • "All for Me Grog" (THE CLANCY BROTHERS & TOMMY MAKEM)
    Um dos meus temas prediletos do folclore irlandês. O sujeito que gasta tudo em tabaco, whisky e pagando bebidas para as moças. Termina vendendo o par de botinas e outras peças de roupa para continuar bebendo.
Ninguém tem mais autoridade e talento para recriar a Nova York perigosa e decadente da década de 1970 que Martin Scorsese. Poucos realizadores têm em seus créditos documentários musicais com o peso histórico de "No Direction Home", sobre Bob Dylan, ou a série "Blues". E ainda está para surgir quem filme melhor o universo masculino de poder, drogas, dinheiro e excessos -e o reflexo disso na estrutura familiar- do que o cineasta ítalo-americano.

Todos esses elementos que notabilizaram a preciosa filmografia de Martin Scorsese -ele próprio um fã de rock que ouvia The Clash a todo volume durante as gravações de "Touro Indomável"- estão agora a serviço de "Vinyl". A série, concebida e produzida por Mick Jagger, estreou há dois dias na HBO e é ouro puro.

O roteiro mescla espertamente personagens e situações fictícias com alguns protagonistas históricos do rock, tecendo uma história que remonta a fase dourada da indústria fonográfica e também o 'modus operandi' de executivos, agentes, empresários e radialistas. Cada detalhe tem a elegante assinatura de Scorsese. A sede da gravadora American Century, por exemplo, e mais ainda seu time de excêntricos funcionários, remete imediatamente ao ambiente escandaloso de "O Lobo de Wall Street". Mas aqui, ao invés de um yuppie cocainômano e inescrupuloso no comando dos negócios, temos o executivo Richie Finestra (Bobby Canavale), um sujeito com 20 anos de experiência na indústria do disco e cuja caracterização terminou lembrando o famoso empresário do show business Bill Graham.

"Vinyl" tem como ponto de partida uma negociação milionária articulada por Finestra e seus comparsas com a gigante alemã PolyGram. No processo, os americanos acenam aos germânicos com a possibilidade de um bilhete premiado: a contratação bombástica do Led Zeppelin.


O que se segue é uma montanha russa de acontecimentos regados a álcool e cocaína, com um Peter Grant -notório empresário do Led Zep- enlouquecido e quebrando tudo e um Robert Plant afetadíssimo. Para os fãs da banda inglesa, vale também pela ótima reconstituição dos bastidores do show no Madison Square Garden e que deu origem ao filme "The Song Remais The Same".

Richie Finestra tem ainda que contornar uma trapalhada de Donny Osmond, artista de seu elenco, e evitar o boicote de uma rede de estações de rádio. Em meio a isso, em outra subtrama, somos apresentados ao antagonismo do punk novaiorquino via The Nasty Bitz, banda imaginária liderada por Kip Stevens (interpretado por James Jagger, filho de Mick). Há ainda flashbacks sobre o cantor de blues Lester Grimes (Ato Essandoh) e que funcionam para ilustrar as armações e a truculência de empresários do ramo fonográfico.

Obcecados por história do rock vão enlouquecer pinçando as referências a bandas, empresários e situações ocorridas no período. Tem desde a guitarra quadrada de Bo Diddley ao então emergente grupo ABBA, passando por Otis Redding, Ruth Brown, Chris Kenner, England Dan & John Ford Coley, Ahmet Ertgun, David Geffen, Lester Bangs e o que parece ser o diabólico executivo Ray Romano. A tradução brasileira oculta ainda uma citação engraçada ao grande Captain Beefheart.

"Vinyl" tem festas de arromba, reuniões tensas sob nuvens de fumaça, sacanagem em jatinhos particulares, orgias e até assassinato e ocultação de cadáver. A cena final, com um show alucinante dos New York Dolls e o simbolismo da implosão do rock clássico, é desde já um dos momentos antológicos em séries de TV nos últimos anos.

Não perca por nada.


Para quem perdeu, a HBO está disponibilizando o primeiro episódio -com duas horas de duração- na íntegra
(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
Fiquei sabendo, tardiamente, que Jeff Pezzati, ícone da cena alternativa de Chicago, vem sofrendo há alguns anos do mal de parkinson.

À frente da The Bomb, banda que fundou em fins da década de 90, Pezzati tem a bravura de continuar gravando e, principalmente, se apresentando ao vivo.

Não fala sobre sua condição, mas é visível que, mais do que sua conhecida timidez, a performance comedida no palco é um jeito de controlar os sintomas da doença.

Jeff Pezzati passou por um divórcio que quase o levou à ruína financeira, descobriu o parkison, mas continuou de pé. É um sobrevivente.

No início dos anos 80, integrou -como baixista- uma das bandas americanas mais cultuadas do período: o trio de noise punk Big Black. Começava ali sua amizade com o guitarrista colombiano Santiago Durango, com quem tocaria mais tarde no Naked Raygun, e com o idiossincrático músico e produtor Steve Albini, que viria a produzir, uma década e meia depois, dois álbuns da The Bomb.

A importância do Naked Raygun para o rock underground de Chicago é difícil de ser medida. Mas a afirmação de um crítico do jornal Chicago Tribune dá a ideia: "É simplesmente a maior banda que Chicago já produziu".

E estamos falando da cidade que deu origem a grupos como Jesus Lizard, Ministry, Smashing Pumpkins, The Dwarves, Wilco, Tortoise, Trouble e muitos mais.

O Naked Raygun cantava sobre a vida dos jovens da classe operária. Seus integrantes se misturavam com o público e eram parte dele. Dirigiam a própria van nas turnês e circulavam pelos subúrbios com seus inseparáveis coturnos Doc Martens e os indefectíveis corte de cabelo escovinha. Eram uma espécie de Clash local, mas bebiam mesmo do songwriting do Buzzcocks.

Seu álbum de estreia, Throb Throb, de 1985, é uma gema do punk americano. Em impacto sônico, certamente está ao lado de discos como Wild in the Streets, do Circle Jerks, e Damaged, do Black Flag. Em qualidade de composição, está definitivamente acima.

Os primeiros 12 segundos do álbum, com o riff lancinante de "Rat Patrol", obra do talentoso John Haggerty, resultam no melhor início de um disco punk desde Nevermind the Bollocks.

E desta bolacha saíram outras preciosidades, como "Surf Combat", "Metastasis" -que conheci num passado longíquo através de uma coletânea da Flipside- e "Managua". Os riffs abrasivos e os famosos "hey-hey-hey" já estavam todos lá, incitando a tensão e a excitação de uma época.


Como uma nota curiosa, a capa de Throb Throb é assinada pelo importante quadrinista Mike Saenz, também natural de Chicago, e pioneiro absoluto na criação de gibis com arte gerada em computador ("Shatter", "Crash", etc).

O Naked Raygun gravaria uma seqüência de álbuns fundamentais na segunda metade dos 80's, como Jettison, All Rise e Understand?, até encerrar a carreira em 1991, pouco depois de lançar seu epitáfio: Raygun...Naked Raygun.

Desde 1999, quando gravou o belíssimo disco ao vivo Free Shit!, o Raygun faz apresentações bissextas para plateias ávidas em reviver momentos perdidos da juventude punk.

Jeff Pezzati está vivo.


Naked Raygun toca "Rat Patrol" ao vivo em 1988
Em 2001, me encontrei acidentalmente com Lemmy num local bastante apropriado: um cassino em Las Vegas.

O eterno líder do Motörhead estava vestido exatamente como já vimos em milhares de fotos e vídeos ao longo dos anos: camisa preta, jeans surrados e a velha bota de couro de cobra.

Embora tenha como mandamento quase sagrado respeitar a privacidade alheia, abri uma exceção e interpelei Lemmy para um prosa de uns 3 minutos. Contei que havia estado no primeiro show que o Motörhead realizou no Brasil, em 1989, e que lembrava o set-list de cabeça.

Lemmy achou graça, mas devolveu com um cruzado no queixo: "E nos outros shows que fizemos por lá depois, você não foi por quê?". Me esquivei do golpe. Disse que tinha ido a todos eles -mentira, claro- mas que o primeiro a gente não esquece. Lemmy assentiu: "Nisso você tem razão".

Foi a única vez que vi Lemmy fora do palco e me pareceu exatamente o tipo de cara que você imagina que ele seja. Boa praça, meio rabugento e absolutamente autêntico.


Aparentemente, essa é a opinião de grande parte do público masculino que tem entre 35 e 49 anos. Pelo menos é o que afirmam os espertos publicitários da geração X.

Depois de usarem "Should I Stay or Should I Go", do Clash, em um comercial de TV, de plagiarem o logo e a capa de uma compilação do Minor Threat para o lançamento de um tênis e de transformarem Iggy Pop e John Lydon em garotos propaganda, agora é a vez de modificarem "Ace of Spades" com a permissão de seu autor.

Explica-se: a canção mais famosa do Motörhead, em versão alternativa, virou tema da campanha "Slow Down the Pace" -algo como "Diminua o ritmo"- para a cerveja Kronenbourg 1664.

O objetivo da marca é fazer com que pessoas como eu, e talvez como você, caro leitor, acreditem que se o Lemmy pode largar a vida de excessos e se contentar com uma cervejinha, porque nós, simples mortais, não podemos?
De acordo com o diretor de criação da agência responsável, o mais difícil não foi convencer Lemmy a participar do comercial - o notório apreciador de Jack Daniels com Coca-Cola já apareceu em propagandas de salgadinhos e chocolate antes.

O complicado, nas palavras do publicitário, foi lidar com a montanha de russa de humor de Lemmy durante a nova gravação de "Ace of Spades".

Como se sabe, o Motörhead jamais havia regravado seu maior clássico em estúdio e seu autor, pelo que consta, sempre protegeu a aura de clássico da canção.

Mas, no fim, a Kronenbourg 1664 ganhou uma versão blues de "Ace of Spades" para mostrar que até um bad motherfucker como Lemmy pode, por uma quantia substancial, "diminuir o ritmo".

Jello Biafra, que me confidenciou em entrevista ter passado mal fisicamente com o uso de "Search & Destroy", dos Stooges, em uma propaganda da Nike, com certeza não aprovaria.

Mas o carisma de Lemmy parece capaz de nos fazer achar o comercial da Kronenbourg a coisa mais cool do mundo.

Assista abaixo e me diga se não é legal...

O que existe em comum entre as vindas de Mummies e Buzzcocks ao Brasil? Elas estão separadas pelo megashow de Paul McCartney em São Paulo.

O insano quarteto surf-garage-punk de San Francisco tocou na última quinta-feira, 18, e a lendária banda de Manchester toca na próxima, 25/11.

E o que isso quer dizer? Nada. Ou alguma coisa.


Os Mummies fizeram um show insólito e memorável num Clash Club surpreendentemente lotado, interpretando um tipo de música cuja sonoridade nasceu na época em que os Beatles reinavam sobre o planeta. Trata-se de um amálgama de sons sessentistas (garage, surf music, pré-punk) recuperados com crueza lo-fi.

Pra saber mais sobre a algazarra promovida pelas múmias, leia a resenha que escrevi para o portal aqui.


Já o Buzzcocks é de outra praia, mas nem tanto. Formaram ao lado dos Pistols e Clash uma espécie de tríade sagrada do punk inglês. Mesmo com metade da fama são os melhores melodistas de toda aquela geração que incluiu, ainda, gente como Damned, Stranglers, X-Ray Spex e muitos outros.

Me encontrei com Pete Shelley em 2007, última vez em que o Buzzcocks esteve no Brasil. A primeira coisa que fiz questão de dizer ao ídolo de Morrissey e tantos outros é que ele e seu parceiro, Steve Diggle, são o Lennon-McCartney do punk. Shelley soltou um "Oh!", sucedido de um sorriso com discrição britânica.

Meu primeiro contato com o Buzzcocks aconteceu através da famosa compilação de singles com o esperto título de Singles Going Steady. Ouvi até não aguentar mais.

Poucos anos depois, em 1995, tive a chance de ver e ouvir aquele repertório ao vivo no extinto Aeroanta - casa que ficava no Largo de Pinheiros, em São Paulo, e que abrigou outra penca de shows antológicos.

Até hoje está entre os shows realizados no Brasil com volume mais absurdo. Talvez perca para o Motörhead do já quase surdo Lemmy.

Se você, como este escriba, foge de megashows como o diabo da cruz, claro que vai escapar de Macca no Morumbi.

Sua primeira alternativa para a multidão que vai chorar enquanto canta o la-la-la de "Hey Jude" foi a demência dos Mummies.

Se por acaso acabou perdendo, o Caixa Preta dá a dica: roube ou pegue um empréstimo, mas não deixe de ver o Lennon- McCartney do punk na próxima quinta-feira.

E pode chorar que não faz mal nenhum.