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Conheci o Monster Magnet no início dos anos 90, quando o grupo despontou através de alguma fresta da invasão alternativa que dominou as rádios, a MTV e enlouqueceu as grandes gravadoras que andavam à caça de um novo Nirvana ou Pearl Jam.

 O grupo de New Jersey, híbrido de stoner e space rock, era estranho demais para triscar no sucesso das bandas de Seattle. Surgiu com o disco "Spine of God", repleto de guitarras e bateria soterradas de flanger, e letras que misturavam paganismo com cogumelos e discos voadores. Do álbum de estreia, brilharam a pedrada "Medicine" e a viajandona "Nod Scene", na qual o líder Dave Wyndorf canta com a inflexão vocal de Frank Zappa.



Dali em diante, o Magnet só progrediu. Seus discos seguintes vieram mais bem produzidos e com canções que flertavam com a crueza dos Stooges, os mantras do Hawkwind e o peso do Black Sabbath. Mas tudo com uma assinatura muito particular, como se todas essas belíssimas referências tivessem sido reescritas com a cabeça dos anos 90 e depois dos 2000.

Ed Mundell, grande guitarrista, foi o mais longevo colaborador de Dave Wyndorf, o xamã que fundou e que governa há mais de duas décadas a entidade Monster Magnet. Gravou álbuns fundamentais, como "Powertrip", ganhador do disco de ouro na América, "God Says No" e o festeiro e extravagante "Monolithic Baby".



Entrevistei Mundell por email, em 2005, quando o grupo se preparava para gravar o que viria a ser o sensacional "4-Way Diablo". A entrevista foi publicada junto com uma reportagem especial na revista Rock Press. 



Caixa Preta – Você pode antecipar alguma coisa sobre o novo álbum? Como estão soando as canções?
Ed Mundell – O novo material é uma espécie de junção das faixas deixadas de fora do último disco e do “clima” em que estamos agora, tendo Bob Pantella como o baterista da banda. Vocês precisam saber que quando estávamos compondo para o último álbum, tínhamos entre 50 e 60 canções para trabalhar, então, de certa forma, estávamos planejando 3 discos com antecedência. Assim sendo, há muita música para ser testada agora somada ao que ainda estamos criando. E ter Bob na banda faz com que tudo atinja níveis insanos algumas vezes! E de um jeito muito positivo. Acho que a direção natural que as coisas estão tomando vai nos levar para uma onda mais psicodélica, algo entre (os álbuns) Spine of God e Dopes to Infinity…o que está bom pra mim!

CP – Parece que há uma certa atmosfera permeando cada disco do Monster Magnet. Como isso é obtido? Você e Dave Wyndorf desenvolvem algum conceito juntos antes de entrarem no estúdio ou é um processo natural de composição?
EM – Bem, parece que as coisas acontecem naturalmente para nós. Às vezes um disco está finalizado e precisa apenas de um “algo mais”, então temos que voltar e criar isso. Estou trabalhando com Dave há muito tempo, então basicamente já sabemos o que precisa ser feito para criar um álbum do Magnet que nos satisfaça, assim como a qualquer um que se importe em ouví-lo… Normalmente, nós entramos no estúdio com 15 a 20 músicas prontas e quando percebemos qual é o clima predominante, selecionamos o repertório. Todos nós temos coleções gigantescas de discos e AMAMOS música, então sabemos o que NÓS gostaríamos de ouvir num álbum, portanto não trata-se de física quântica!

CP - Monolithic Baby! é provavelmente o disco mais direto de vocês e possui um número expressivo de hits em potencial. Você acha que esse álbum teria dominado as paradas com uma promoção maior por parte da gravadora? Aliás, como você vê a indústria fonográfica hoje em dia?
EM – Sabe, tudo está tão fodido na América em termos musicais. Nós apenas fazemos o nosso lance e espero que possamos continuar fazendo isso pra sempre. Nós jamais deveríamos ter sido uma banda de hit singles. Nós somos aqueles que escapamos por entre as rachaduras da indústria musical, mas acho que somos bons músicos e com um forte senso de composição. Então, se isso ainda vale para alguma coisa…

CP – Como você se envolveu com música? Existe algum artista ou álbum em particular que te despertou o desejo de fazer música?
EM – Tudo vem de Jimi Hendrix. E tenho dito!

CP – Se você fosse tivesse que citar o momento mais memorável de sua carreira no Monster Magnet, qual seria? Vale tudo: discos, shows, canções, etc.
EM – Cara, essa é difícil! Nós excursionamos com todo mundo e eu adorei as turnês com o Marilyn Manson e com o Aerosmith. Tem as garotas, as drogas… Eu poderia me estender por mais um bom tempo nessa resposta. Digamos então que se eu morresse amanhã, poderia afirmar que não tenho arrependimentos. Tudo acontece por uma razão e nessa vida eu já ri e me diverti tanto que quase chega a ser ilegal! Ah, e nós tocamos no mês passado no Azkena Festival em Vittoria, Espanha, e acho que consegui tocar umas notas muito bacanas por lá. Me fizeram sorrir.

CP – Existe alguma possibilidade de vermos o Monster Magnet no Brasil algum dia?
EM – Daqui a 6 dias vamos para Los Angeles para começar a gravar o novo disco e aqueles que mandam estão planejando uma turnê na Europa em março e abril (de 2006), além de outros festivais aqui e ali. Então, vamos ver… Se rolar, vá nos assistir e tomar uma cerveja com a gente! É bom você aparecer!


"Monolithic" – Os oceanos deveriam ter se aberto em 2004 com o poder dessa canção

Aconteceu no último domingo, em Los Angeles, a 88ª edição do Oscar. Uma audiência de alardeados 900 milhões de telespectadores aguentou as torturantes quatro horas e meia do evento para assistir aos discursos xaroposos de sempre e todas as piadinhas sem graça que vimos em edições anteriores.

A surpresa da vez, para os aficionados por música, mais especificamente punk rock, foi o Oscar para Melhor Edição de Som. Ganharam Mark Mangini e David White. O primeiro é um sujeito com 40 anos de experiência no cinema e que chegava à sua quarta indicação na categoria. O segundo, menos conhecido, é um designer de som cujos créditos computam 27 produções, entre curtas, longas e documentários.

O que poucos sabem é que havia no departamento som de "Mad Max: Estrada da Fúria", que também levou a estatueta de Melhor Mixagem de Som, uma certa engenheira de áudio chamada Kira Roessler.


Formada pela UCLA na década de 80, Roessler trabalhou como editora de diálogos em filmes como "Confissões de uma Mente Perigosa",  "Crepúsculo: Lua Nova" e muitos outros. E já arrebatou um prêmio Emmy por seu trabalho na minissérie de TV "John Adams". Antes de tudo, no entanto, ela ficou conhecida de punks e fãs de música underground como Kira, a baixista do seminal Black Flag.

Ainda sobre seu trabalho no cinema, ela explica, em entrevista ao zineiro Mark Prindler, em 2003: "Eu trabalho mais com edição de diálogo, algo que as pessoas não costumam entender o que é. Sabe quando eles não gravam [uma cena] com som direto, e juntam tudo no processo de edição? Então, quando o material chega até mim, está todo bagunçado e ferrado, e é meu trabalho 'limpar' o som. Eu faço muitos consertos no áudio. Tipo, quando há um problema com uma palavra, eu posso substituí-la por uma sílaba de outro 'take' ou algo assim. Em um nível muito preciso de detalhe, eu faço o som dos diálogos soar tão bem quanto possível".

Kira Roessler integrou uma das mais importantes encarnações do Black Flag, ao lado do chefe Greg Ginn, do lendário vocalista Henry Rollins e do prolífico baterista Bill Stevenson (das bandas Descendents e ALL). Foi admitida em 1983, em lugar de Chuck Dukowski, e permaneceu com o grupo até 1985. Sobre seu ingresso na banda, ela relembra: "O relacionamento [de Greg] com Chuck era bom. Não havia conflitos de personalidade. Mas ele tinha um estilo como baixista que estava começando a ir contra o que Greg estava tocando. Então, você sabe... Eu ensaiei com eles uma vez e me disseram: 'Yeah, é isso que queremos. Precisávamos de alguém que tocasse desse jeito'. Eu só posso descrever 'esse jeito' pela forma como eles tocavam na época - é quase como se você pulasse e galopasse na frente e na frente da batida, ou que realmente ficasse por trás e por trás e por trás da batida. E meu estilo foi sempre esse de ficar atrás, e calhou de ser o que eles estavam procurando. No meu caso, por outro lado, [a saída da banda] foi mais uma questão de personalidade, de eles não quererem tocar mais comigo. Ou pelo menos foi o que soube por Chuck Dukowski quando me chutaram da banda".

No ano seguinte à demissão de Kira, o Black Flag encerraria as atividades de sua fase clássica. Os registros do grupo com a participação da baixista são numerosos. Quatro discos de estúdio -"Family Man", "Slip It In", "Loose Nut" e "In My Head"-, além de EPs, com o ótimo "Annihilate This Week".

Em seu livro "Get in the Van: On the Road with Black Flag", é perceptível que Rollins não era lá um grande amigo de Kira, embora admita que ela era talentosa e aprendeu o repertório da banda muito rapidamente. O vocalista tinha pouco em comum com a contrabaixista e eles quase não se falavam durante as longas e excruciantes turnês de furgão pelos Estados Unidos. Se reencontraram muitos anos mais tarde. "Temos uma certa camaradagem agora", Kira relembra. "Volta e meia nos falamos por email e é muito cordial e interessante. E [o reencontro] foi pura coincidência. Henry topou com meu irmão no estúdio e disse: ' Diga a Kira para me telefonar, quero que ela trabalhe em algo comigo'. Então cantei num show dele no Whisky A Go-Go e fiz backing vocals em algumas músicas, ao vivo".

Dois anos após deixar o Black Flag, Kira Roessler casou-se com Mike Watt, fundador do Minutemen e substituto de Dave Alexander na volta dos Stooges. Criou ao lado dele uma dupla muito peculiar, com dois contrabaixos, apropriadamente chamada Dos.

A baixista colaborou ainda com outros projetos de Watt, como a banda fIREHOSE, e compôs algumas faixas para o derradeiro álbum do Minutemen, "3-Way Tie".

Apesar de terem se separado em 1994, Kira e Watt admitem que continuam casados com o Dos. A dupla lançou seu último álbum -"Dos Y Dos"- há cinco anos, mas permanece ativa.





Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.

Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.

Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.


O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.

Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.

Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.

Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.


O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.

Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.

Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.

Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".

Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.

Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".


Howard Stern Show (2001)
Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998)
Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
Volta e meia eu me lembrava de Captain Beefheart. Eu o imaginava em seu trailer, no alto do deserto do Mojave, vivendo uma realidade paralela com suas pinturas e a companhia de Jan - mulher com quem era casado há 40 anos.

Até alguns anos atrás, eu nutria o mesmo tipo de sentimento por outro gênio louco dos 60's. Visualizava Syd Barrett em Cambridge, lidando com seus demônios particulares e se entretendo com o jardim.

Os dois se foram, natural que sejam assim, mas deixaram a sensação de que, pouco a pouco, não restará qualquer revolucionário da música dividindo conosco esse planeta.

O inventor da psicodelia floydiana morreu em 2006. Don Van Vliet, o Captain Beefheart, morreu na última sexta-feira, dia 17.

Fruto dos anos 60, Don deixou um legado que influenciou esteticamente new wave, punk, blues e congêneres.

Difícil acreditar que Beefheart e Frank Zappa, protagonistas da vanguarda criativa dos anos 60 e 70, se conheceram na adolescência. Tocaram juntos, pintaram, bordaram, se desentenderam e entraram para a história.

O álbum mais emblemático de Captain Beefheart, o duplo "Trout Mask Replica", de 1969, foi produzido e lançado por Zappa. Os dois tocariam juntos ainda no lendário "Bongo Fury", de Zappa.

Mas apesar da proximidade com o gênio, Van Vliet tinha seu próprio universo musical. Uma mistura torta e improvável de blues, 60's rock, avant-garde, psicodelia e até certa dose da sujeira e distorção executadas por contemporâneos como os Stooges. Tudo sob uma voz pigarrenta que muitos comparavam a Howlin Wolf.



O disco de estreia de Beefheart, "Safe as Milk", de 1967, é mais do que um impressionante cartão de visitas. Faixas como "Sure 'Nuff 'n Yes I Do" e "Electricity" são simplesmente obrigatórias a quem se dedica a estudar os anos 60.

Dono de uma carreira errática ao longo dos anos 70, em que brigou, se reconciliou e brigou de novo com Zappa, Beefheart gravou seus últimos discos na virada para a década de 80. "Doc at the Radar Station", seu penúltimo trabalho, é outra gema com nível de "discoteca básica".


Em 1982, Van Vliet, que nunca teve disposição para lidar com as coisas da indústria fonográfica, largou a música para se dedicar integralmente às artes plásticas - sua habilidade para as artes foi evidenciada aos 13 anos de idade quando recebeu convites para estudar na Europa. "Meus pais fugiram para o deserto para me afastar da arte", revelou em entrevista a Dave Letterman.

Desde então, Don vivia recluso em um trailer no deserto do Mojave numa espécie de idílio criativo. Cruzei parte daquela imensidão poeirenta em duas ocasiões e o lugar tem mesmo algo de místico. Natural que uma alma como a de Van Vliet tenha buscado refúgio naquele isolamento contemplativo.

Um dos únicos contatos de Beefheart com gente da música era a inglesa PJ Harvey.

Ela conta que em 2000, Don, provavelmente sob os efeitos da esclerose múltipla que veio a dominá-lo, não reconheceu sua voz ao telefone. Mesmo assim, encheu de elogios a demo do que viria a ser o disco "Stories from the City, Stories from the Sea".

A percepção de Don mantinha-se aguçada: o álbum é mesmo excelente.

Descanse em paz, capitão.

Em 2001, me encontrei acidentalmente com Lemmy num local bastante apropriado: um cassino em Las Vegas.

O eterno líder do Motörhead estava vestido exatamente como já vimos em milhares de fotos e vídeos ao longo dos anos: camisa preta, jeans surrados e a velha bota de couro de cobra.

Embora tenha como mandamento quase sagrado respeitar a privacidade alheia, abri uma exceção e interpelei Lemmy para um prosa de uns 3 minutos. Contei que havia estado no primeiro show que o Motörhead realizou no Brasil, em 1989, e que lembrava o set-list de cabeça.

Lemmy achou graça, mas devolveu com um cruzado no queixo: "E nos outros shows que fizemos por lá depois, você não foi por quê?". Me esquivei do golpe. Disse que tinha ido a todos eles -mentira, claro- mas que o primeiro a gente não esquece. Lemmy assentiu: "Nisso você tem razão".

Foi a única vez que vi Lemmy fora do palco e me pareceu exatamente o tipo de cara que você imagina que ele seja. Boa praça, meio rabugento e absolutamente autêntico.


Aparentemente, essa é a opinião de grande parte do público masculino que tem entre 35 e 49 anos. Pelo menos é o que afirmam os espertos publicitários da geração X.

Depois de usarem "Should I Stay or Should I Go", do Clash, em um comercial de TV, de plagiarem o logo e a capa de uma compilação do Minor Threat para o lançamento de um tênis e de transformarem Iggy Pop e John Lydon em garotos propaganda, agora é a vez de modificarem "Ace of Spades" com a permissão de seu autor.

Explica-se: a canção mais famosa do Motörhead, em versão alternativa, virou tema da campanha "Slow Down the Pace" -algo como "Diminua o ritmo"- para a cerveja Kronenbourg 1664.

O objetivo da marca é fazer com que pessoas como eu, e talvez como você, caro leitor, acreditem que se o Lemmy pode largar a vida de excessos e se contentar com uma cervejinha, porque nós, simples mortais, não podemos?
De acordo com o diretor de criação da agência responsável, o mais difícil não foi convencer Lemmy a participar do comercial - o notório apreciador de Jack Daniels com Coca-Cola já apareceu em propagandas de salgadinhos e chocolate antes.

O complicado, nas palavras do publicitário, foi lidar com a montanha de russa de humor de Lemmy durante a nova gravação de "Ace of Spades".

Como se sabe, o Motörhead jamais havia regravado seu maior clássico em estúdio e seu autor, pelo que consta, sempre protegeu a aura de clássico da canção.

Mas, no fim, a Kronenbourg 1664 ganhou uma versão blues de "Ace of Spades" para mostrar que até um bad motherfucker como Lemmy pode, por uma quantia substancial, "diminuir o ritmo".

Jello Biafra, que me confidenciou em entrevista ter passado mal fisicamente com o uso de "Search & Destroy", dos Stooges, em uma propaganda da Nike, com certeza não aprovaria.

Mas o carisma de Lemmy parece capaz de nos fazer achar o comercial da Kronenbourg a coisa mais cool do mundo.

Assista abaixo e me diga se não é legal...

Nunca fui adepto de festivais. Na década de 90, estive em algumas edições do finado Hollywood Rock. Nos anos 00, cobri os shows de Kraftwerk e PJ Harvey no TIM Festival -que nem era algo tão grande assim-, e Stooges e Fantômas no Claro q é Rock.

Mas ir até Itu no meio de um feriado para enfrentar filas quilométricas, estacionamento a preços escorchantes e (muita) gente que está ali sem estar ali, não dá.

Isso sem falar do frio. Mas nesse aspecto, o SWU não devia estar pior que o cultuado festival Juntatribo, realizado na vizinha Campinas em 1994, onde me senti um picolé coberto de terra.

Seja como for, acabei vendo alguns shows do SWU. Pela TV. Coisas boas e outras nem tanto.

Rage Against the Machine impressionou. Zack de la Rocha mantém o pique de 15 anos atrás e Tom Morello, como se sabe, é um tremendo guitarrista. O set-list também ajudou: "Testify", "Bombtrack", "Bulls on Parade" e "People of the Sun" logo de cara. As câmeras mostravam a massa pulando sem parar.

Me lembrei de quando ouvi o grupo pela primeira vez, no início de 1993, na Virgin Megastore da Piazza Duomo, em Milão. Era o som ambiente da belíssima loja, mas não consegui descobrir quem tocava aquela mistura enfezada de rock e rap que lembrava os pais da matéria, Urban Dance Squad. Meses depois, já não dava pra ignorar o RATM nas rádios brasileiras e na MTV.

Nem deu tempo de voltar ao presente e despencou um balde de água fria com cara de Brasil: o show no SWU é interrompido por falta de segurança. Uma voz sai dos auto-falantes pedindo a cooperação de...50 mil pessoas. Broxante é pouco.

Não sei se por isso, mas o Multishow não exibiu o show na íntegra. Na noite seguinte, uma repórter afirmou que alguns equipamentos da emissora foram destruídos na confusão.



Queens of the Stone Age, como se previa, fez um set explosivo. Repertório esperto que passeou pela discografia. Pra começar os trabalhos, a dinamite sonora de
"Feel Good Hit of the Summer", do primeiro álbum Rated R. Depois, material recente como as poderosas "3's & 7's" e "Sick, Sick, Sick" do ótimo Era Vulgaris.

Josh Homme curtia o momento: "What a magic fuckin' night". Mas o público, pelo menos o que se via pela TV, não repetia o êxtase dos fãs do RATM. Estranho, inclusive, pensar que o QOTSA, com seu som que não é o rockinho insosso de um Kings of Leon, nem o metal vira-lata do tal Avenged Sevenfold, possa ser apreciado por grandes multidões.

Se até então os dois shows, vistos do conforto do lar, foram de primeira, o mesmo não se pode dizer dos highlights exibidos enquanto os repórteres enrolavam o espectador. Capital Inicial fazendo um cover da abobrinha "Mulher de Fases", Jota Quest e suas macaquices envelhecidas e a combinação universitária de Joss Stone e Sublime. Só faltou o Jack Johnson para eu, mesmo de casa, desistir do festival.

Para compensar esse best of em forma de pesadelo, a cobertura do Multishow nos brindou com entrevistas hilárias. Fred, o ex-Raimundo, emocionado com a homenagem de Dinho Ouro Preto e dando um cano sobre qual música do Pixies queria ouvir. Igor Cavalera reinventando a roda pra (tentar) dizer que o SWU tem uma importância do tamanho do primeiro Rock in Rio. E os "fãs", claro, que não sabiam dizer o nome de UMA música dos artistas que tinham ido ver.

Aí veio o Pixies...

Uma apresentação xaroposa e protocolar da banda que se juntou para turnês nostálgicas. Nem um disquinho novo sequer. E Frank Black desafinado, Kim Deal com meia tonelada e o baterista, de quem o nome me escapa, atravessando o samba.

Mesmo assim, talvez pelo culto que existe em torno da banda, recebeu do público muito mais do que ofereceu. "Monkey Gone to Heaven", "Planet of Sound" e "Where is my Mind?" seguraram a onda, ainda que em execuções ordinárias. A comoção da massa -me espanta que os Pixies tenham tantos fãs- seria mais merecida pela turma de Josh Homme.

Com as opções de shows no Brasil -só esse ano já tivemos maravilhas como ZZ Top, Social Distortion e Supersuckers por aqui-, é de se perguntar o porquê de encarar todos os perrengues para acompanhar in loco um festival em Itu.

Vendo pela TV, até que deu pra imaginar.