ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador Steve Vai. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Steve Vai. Mostrar todas as postagens
Já me deparei algumas vezes na situação de tentar explicar a música do Zappa para algum não-convertido. E acredite: não é fácil. Além de o assunto ser deveras extenso, ainda existe um componente que dificulta a conversa: o tamanho e o ecletismo da obra zappiana.

Talvez o ideal seria apresentar antes o universo de interesses de Zappa, o papel que o humor desempenha em sua música e contextualizar os principais marcos de sua discografia. Mas qual disco indicar a quem pretende desvendar a música do homem?

Dia desses estava ouvindo um álbum de que gosto muito, mas que, particularmente, não entraria no meu top 10 de Zappa: Them or Us, de 1984. Porém, o disco parece ótimo como introdução à zappologia: tem doo-wop, peças instrumentais intrincadas, humor debochado, arranjos vocais sublimes e faiscantes solos de guitarra. Às vezes, quase tudo isso misturado.

A falta de uma orientação clara para o disco, com seus 70 minutos de puro ecletismo e alguma autosabotagem, talvez seja o maior obstáculo para a assimilação imediata de um iniciante. Mas passado o teste, é um bela porta de entrada, tanto para discos mais lineares quanto para outros muito mais radicais.

Them or Us tem dois doo-wops no lado A do LP, que foi lançado originalmente como disco duplo: "The Closer You Are" e "Sharleena". A razão, certamente, é o apreço nostálgico de Zappa pelo estilo. Em sua autobiografia -The Real Frank Zappa Book- ele relembra os tempos em que era baterista (e único músico branco) numa despretensiosa banda de doo-wop nos anos 50.


Mas o disco reserva uma paleta muito mais abrangente: um blues rasgado e escatológico com a voz do lendário bluesman texano Johnny "Guitar" Watson ("In France"), três temas instrumentais ("Sinister Footwear II" é a melhor delas) e um deboche caipira -"Truck Driver Divorce"- que se transforma numa tortuosa jam.

"Ya Hozna" é uma de minhas favoritas: Zappa tocando um riff de heavy metal e invertendo a gravação das vozes de Ike Willis, Moon Zappa e companhia, resultando numa trilha que cairia como uma luva na cena de orgia do último filme de Kubrick.

"Be in My Video", com arranjo vocal primoroso Ike Willis, Ray White e Napoleon Murphy Brock, é uma das faixas mais acessíveis do álbum e satiriza o rock oitentista numa metáfora sadomasô. Sim, Zappa conseguia fazer essas bizarras analogias.

Stevie Vai era um músico desconhecido e obcecado por Zappa até que seu talento e insistência lhe renderam um convite do maestro para integrar a anárquica banda dos anos 80. Sob a influência de uma turminha da pesada, que tinha ainda o exímio baixista Scott Thunes, integrante-relâmpago da banda punk Fear, Vai se entregou à gloriosa promiscuidade da vida na estrada. Os relatos escrachados de seu encontro sexual com uma groupie renderam uma das faixas mais rock'n'roll de Them or Us: "Stevie's Spanking".

Num álbum com quatro temas que ultrapassam os 7 minutos e meio de duração, Zappa encaixou duas ótimas vinhetas -"The Planet of my Dreams" e "Baby, Take Your Teeth Out"-, além da curta e funkeada "Frogs with Dirty Little Lips".

E pra não deixar pedra sob pedra, Them or Us termina com a épica regravação de um clássico do southern rock: "Whippin' Post", dos Almann Brothers.

Se tamanha esquizofrenia agradar seus ouvidos, antecipo o resultado: a música de Zappa te fisgou.


"Stevie's Spanking" ao vivo: antes de jejuar para fazer um disco solo "sério", Stevie Vai era um depravado que fritava sua Fender na banda de Zappa.