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(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
Na semana em que completam 50 anos de carreira, daria para falar muito sobre os Rolling Stones. Inclusive, e principalmente, sobre o evento quase surreal que é manter uma banda de rock ativa por meio século.

Lembre-se: os Stones são contemporâneos dos Beatles e, seja como testemunhas ou como protagonistas, passaram por todas as metamorfoses musicais das últimas cinco décadas.

Poderia falar também sobre minhas lembranças de infância com os clipes de "Start Me Up" e "Emotional Rescue", da história bizarra de um amigo que salvou Mick Taylor de ser atropelado por um ônibus em São Paulo (sim, aconteceu!) ou defender a subestimada obra dos Stones nos anos 80. O assunto dá caldo.

Parece mais divertido, no entanto, medir a influência do songwriting de Jagger e Richards, os Glimmer Twins, na música pop. Se foram extremamente impactados pela música negra norteamericana, os ingleses devolveram a dose sendo regravados pelos principais baluartes da soul music - de Tina Turner a Marvin Gaye, de Otis Redding a Aretha Franklin.

Mas quanto mais estranhas e virulentas as regravações, melhor o resultado. Ao longo dos últimos 30 anos, o material dos Rolling Stones foi simplesmente virado do avesso.

Abaixo, uma pequena lista que resume 50 anos de carreira em 5 covers sensacionais:



Sympathy for the Devil

LAIBACH
(1990)
Dois anos antes de "coverizar" esse clássico dos Stones, a banda da antiga Iugoslávia -atual Slovenia- havia regravado integralmente o álbum "Let it Be", dos Beatles. O resultado aqui é tão incrível quanto: ritmos marciais sob uma ambientação de industrial music. O suíngue dos ingleses é transformado em gelo no Leste Europeu. De arrepiar.

Under My Thumb
MINISTRY
(2008)

O Social Distortion regravou "Under My Thumb" duas vezes em estúdio. A versão de 1996 é, provavelmente, a melhor gravação que existe dessa canção. Mas não a mais original. O velhaco Al Jourgensen misturou tecladinhos oitentistas com guitarras distorcidas e sua voz cavernosa para criar um hit que faria sucesso nas pistas de dança do inferno.


I'm Free

SOUP DRAGONS
(1990)
É a canção que fecha a versão inglesa do álbum "Out of Our Heads", de 1965. Na América, a faixa foi limada do LP, mas ganhou sobrevida em 1990, quando virou o hit solitário da banda britânica Soup Dragons. Transformada num pop dançante, com slide guitars, wah-wah, coral soul e uma incursão pelo raggamuffin. Ganhou as paradas e tocou até cansar nas rádios brasileiras. É a cara do início dos 90's.



(I Can't Get No) Satisfaction

DEVO
(1978)
Quem ouve a versão absolutamente genial do Devo para "Satisfaction" não poderia imaginar que no futuro o riif feérico de Keith Richards seria usurpado pela publicidade para vender todo tipo de porcaria. Mark Mothersbaugh, no auge, implode as convenções e transforma o clássico sessentista numa pérola da maluquice funk-new wave. Um dos melhores covers de qualquer coisa em qualquer época.



Honky Tonk Women
THE POGUES
(1988)
Canção escrita por Mick e Keef numa fazenda do Mato Grosso (!) em fins dos anos 60. Richards lembra que quando dava descarga no banheiro do lugar, dezenas de sapos pretos subiam boiando na água... O ambiente influenciou para que a música soasse como um country à la Hank Williams, mas mudou com os arranjos do recém-chegado Mick Taylor. A versão do Pogues, por sua vez, traz uma mistura do que eles sempre fizeram de melhor: irish folk com pegada punk. Na versão de estúdio, quem canta é o guitarrista Spider Stacy. Já naquela época, o lendário Shane MacGowan estava em condições lamentáveis para gravar.


No início dos anos 90, chegou às minhas mãos uma cópia em VHS do documentário "Another State of Mind". O filme, lançado em 1984, mostra as desventuras das bandas Youth Brigade e Social Distortion pela América do Norte em uma pioneira turnê independente.

Eu não havia visto nada do gênero até então - provavelmente porque não existia nada como aquilo. Um documentário profissional registrando um momento histórico na cena punk americana. O impacto foi tremendo.

Assisti ao filme várias outras vezes ao longo dos anos e, quando o comércio eletrônico surgiu, finalmente comprei uma cópia original.

"Another State of Mind" não apenas reforçou minha fé no espírito do faça-você-mesmo, que viveu seus dias de glória com o punk americano do início dos anos 80, como também me tornou admirador confesso das duas bandas que protagonizam a história.



O Social Distortion foi a parte que não agüentou as atribulações daquela turnê sem dinheiro ou conforto. Quem viu o filme sabe que Mike Ness se mandou de volta para Orange County antes da tour chegar ao final, uma atitude que dava pistas sobre seu futuro distanciamento do gueto punk e o perfil solitário - o perfeito oposto dos agregadores irmãos Stern, do Youth Brigade.

Ao longo de quase 3 décadas, os Stern idealizaram a turnê registrada em "Another State of Mind", fundaram o selo BYO Records e o clube punk Godzilla's, organizaram festivais e até o descolado torneio de boliche Punk Rock Bowling, em Las Vegas, que este ano completou 13 edições.

O clã é responsável por colocar o punk de Los Angeles no mapa, embora, estranha e injustamente, jamais tenha tido a mesma projeção e reconhecimento de seus pares mais famosos.

Em 1996, entrevistei o vocalista e guitarrista Shawn Stern por telefone. Na época, ele lançava o que seria -e é, pelo menos até então- o último álbum de estúdio do Youth Brigade: "To Sell the Truth".

Articulado e idealista, Shawn forma, ao lado de Jello Biafra e Ian MacKaye, uma espécie de núcleo intelectual dos valores punk nascidos no fim da década de 70.

Todos fundaram seus próprios selos, produziram discografias de respeito e mantiveram-se, dentro do que é humanamente possível, coerentes a seus princípios.

Há algumas semanas fui presenteado com uma peça de registro histórico: "Let Them Know - The story of Youth Brigade and BYO".

O item foi adquirido por um amigo das mãos do próprio Shawn Stern após um show do Youth Brigade, em Los Angeles, na última noite de 2010.

"Let Them Know" é o que chamamos no Brasil de "livro de arte" - e que os americanos chamam de "coffee book table". Ou seja, um livro em formato grande, com capa dura e acabamento gráfico de primeira. Mas não é só isso.

O livro traz, encartados, dois LPs prensados em vinil colorido com várias bandas do cast da BYO Records tocando covers umas das outras. A biografia oferece descobertas surpreendentes como a de que Matt Groening, futuro criador dos Simpsons, era um dos incentivadores da BYO, divulgando seus shows no períodico L.A. Reader do qual era crítico musical.



Mas a cereja do bolo é um documentário de 90 minutos, também intitulado "Let Them Know", que mostra como a história do Youth Brigade e da BYO mistura-se a do punk de LA.

É incrível rever, vinte e tantos anos depois, alguns rostos mostrados em "Another State of Mind" no auge da efervescência e rebeldia juvenis. E não falo apenas dos irmãos Stern, mas também de alguns integrantes da trupe. Outras figuras "icônicas" como Ian MacKaye, Fat Mike (NOFX), Kevin Seconds (7 Seconds) e Steve Soto (The Adolescents) oferecem seus insights sobre o Youth Brigade e a cultura punk da época.

Há tantos causos e observações imperdíveis em "Let Them Know" que o assunto mereceria um texto à parte. Entre os destaques, as loucuras do squat Skinhead Manor, os festivais Youth Movement de 1982 e 83 e as memórias sobre a participação em "Another State of Mind" (entre as revelações, o fato de que Pete Stuart, co-diretor do documentário, é filho de Mel Stuart, o diretor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate"!).

Se os Stern jamais tiveram o reconhecimento de outros ícones punk norte-americanos, uma pequena imersão em "Let Them Know" -o filme e o livro- fará qualquer um passar a lembrar desses judeus canadenses que imigraram para a Califórnia no início dos 70's, como co-inventores do faça-você-mesmo.

E o melhor: a música do Youth Brigade é sensacional. Vá atrás!


Assista acima ao trailer de "Let Them Know".


E aqui, o Youth Brigade ao vivo, em plena forma, no ano de 1996.
A reação ao novo disco do Social Distortion, "Hard Times & Nursery Rhymes", lançado no mês passado, coloca, pela primeira vez, os fãs da banda de Orange County em cantos diferentes do ringue.

O álbum -lançado pela Epitaph, do midas Brett Gurewitz- está levando o Social D a novos patamares de popularidade. "Hard Times & Nursery Rhymes" estreou em um inédito 4º lugar da Billboard -segundo informações obtidas no site SXDX- e teve mais de 100.000 cópias vendidas nos EUA nas primeiras duas semanas. Nada mal para uma banda com 30 anos de carreira.

Mas ouvindo opiniões de amigos e acompanhando as discussões em fóruns pela internet, não é difícil perceber que existe, sim, uma minoria bastante desapontada com o caminho escolhido pelo grupo para seu sétimo álbum de estúdio.

A queixa é simples: "Hard Times & Nursery Rhymes" não é pesado o suficiente ou tampouco tem aquele clima de "faca nos dentes" que Mike Ness sabe tão bem empregar em suas interpretações. Além disso, o disco tem backing vocals femininos, algo meio gospel até, e um piano que insiste em se enfiar onde não é chamado. A quantidade de baladas também é maior que a de seu predecessor, "Sex, Love and Rock'n'Roll", embora o lado baladeiro de Ness tenha surgido ainda nos anos 80, com o disco "Prison Bound".

A maioria que defende o novo álbum fica entre a devoção pura e a sensação de que Mike Ness amadureceu como compositor a ponto de arriscar-se em novos territórios enquanto mantém algumas das marcas registradas do Social Distortion.

Todos têm um pouco de razão.

Em certa medida, "Hard Times & Nursery Rhymes" promete mais do que entrega. A primeira música de trabalho, "Machine Gun Blues", é Social D em sua essência. Mas a audição do álbum, na íntegra e com o devido cuidado, revela a opção por uma produção limpa e com alguma orientação radiofônica, além de uma escolha de arranjo e repertório que tira o fã de sua zona de conforto.


Abaixo, Caixa Preta disseca o disco:

"Road Zombie" é uma instrumental envenenada que vem sendo tocada ao vivo já há algum tempo e abre os trabalhos dando as pistas erradas. Lá pela metade do álbum, ficará evidente que a introdução destoa completamente do repertório.

"California (Hustle and Flow)" traz um riff de guitarra reto, reminescente de um AC/DC, o que não é ruim, claro, mas bem diferente. E por diferente, ainda, temos cantoras fazendo os vocais de apoio no refrão. Parece um cruzamento mais "radio friendly" de "Highway 101", do trabalho anterior, com alguma coisa de Black Crowes. A música, no entanto, é melhor que a descrição faz crer.

"Gimme the Sweet and Lowdown" pode tornar-se um dos carros-chefe do disco. Recupera o som do Social D de 15 anos atrás, com a mesma marcação de bateria e tudo, mas, claro, sem a angústia daquela época. A música de Mike Ness reflete sua vida e, já há algum tempo, o junkie deu lugar a um pai de família e músico bem sucedido. Ness parece feliz e sua honestidade como compositor não lhe permite voltar ao fundo do poço com a verdade de anos atrás.

"Diamond in the Rough", a quarta faixa do álbum, brilha com arranjos de guitarra bluesy e aquele clima de "Sometimes I Do", do clássico "Somewhere Between and Hell", de 1992. Assim como em "Sex, Love & Rock'n'Roll", há muito esmero nos back-up vocals. A canção é um dos destaques do álbum.

"Machine Gun Blues" é puro Social D, talvez apenas um pouco suavizado pela produção. Apesar do ceticismo, o disco se segura muito bem até aqui. "Machine Gun Blues" tem um pegajoso riff de guitarra e letra que exalta a cultura gangster da década de 30, tema recorrente, como, de resto, são os versos de outras canções do álbum que repetem clichês como "junkies, winos, pimps and whores", citações ao casal de foras-da-lei Bonnie e Clyde, pin-ups, carrões e tatuagens.

"Bakersfield" foi muitíssimo elogiada pela crítica. Em qualquer resenha que se leia, é tratada como uma peça de blues profunda e de alta intensidade emocional. Mesmo que sua introdução, Deus me perdoe, lembre alguma balada de Lenny Kravitz saída do álbum "5". Um Hammond bem colocado e, mais uma vez, backings bem arranjados, levam a música a um nível de composição que os defensores do disco chamam de "maduro". E, honestamente, até seus 4:30, não soa tão diferente de outros temas confessionais do vocalista. Mas, aí, um desnecessário monólogo esbarra na auto-indulgência do Ness produtor. Material como esse poderia ter sido guardado para um terceiro álbum solo de Mike.

"Far Side of Nowhere" é outra canção ensolarada e com o dedo visível de Johnny Wickersham. É o Social D na auto-estrada, de capota baixa e de bem com a vida. Já diz o refrão: "Put the pedal to the metal / Baby, turn the radio on". Quer pessimismo e amargura? Volte a 1996 ou salte para a próxima canção.

"Alone and Forsaken", original de Hank Williams, foi lançada como um lado B nos anos 90. Aqui, Ness dá novo tratamento a esse tema de um seus cantores country prediletos. Dá para imaginar que será uma requisição do repertório ao vivo da turnê.

"Writing on the Wall" é uma balada fora de hora e que complica as coisas pela primeira vez. Sem o arranjo açucarado e o desnecessário piano, passaria sem sustos.

"Can't Take it With You", por outro lado, soa como uma versão refrescante de algum material gravado em 1990 e no qual as cantoras de apoio só acrescentam. Tem o mesmo pianinho, suposto vilão de outras canções, mas aqui a serviço de um rock'n'roll suculento. Social D em grande forma.

"Still Alive" tem ecos de "Far Behind", faixa gravada em 2007 como bônus para o CD de "Greatest Hits". Versão mais melódica e emotiva da fórmula que a banda consagrou, porém com um escorregão no final e um piano que, de alguma forma, diz muito sobre o disco.

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A versão em vinil de "Hard Times & Nursery Rhymes" traz duas canções adicionais. Um amigo do Caixa Preta fez a gentileza de ripar as faixas de seu LP e nos mandar em gloriosos arquivos MP3.

Vamos a elas:

"Take Care of Yourself", com seu charme meio anos 80, seria, fácil, um dos destaques da versão normal do disco. Bela linha de voz e um riff de guitarra"catchy". Difícil entender como ficou de fora do tracklist do álbum.

"I Won't Run no More" repete a dose de "Take Care of Yourself". Mais uma canção que vai direto ao ponto com a fluidez criativa que Ness esbanja quando joga em seu território. Poderia ser essa a orientação musical do disco? Ouça e tire a dúvida.


Social D toca no popular programa de entrevistas de Conan O'Brien em 18.01.2011.
Primeiro, a dica: a famosa estação de rádio de Los Angeles, KROQ, através da qual tornou-se conhecido o radialista Rodney Bingenheimer, citado em 9 de cada 10 documentários sobre punk, deu uma prévia do novo álbum do Social Distortion.

A faixa "Machine Gun Blues", que integra o track-listing de Hard Times and Nursery Rhymes, pode ser ouvida aqui e acompanhada de uma entrevista (texto) com Mike Ness.


Agora, o aviso: o Portal Rock Press está reestruturando algumas de suas áreas, razão pela qual o Caixa Preta deixará de usar, em breve, a plataforma do Blogger.

Para quem já acessa via portal, nada vai mudar. Mas se você acessa pelo endereço de URL (http://caixapretaprp.blogspot.com/), terá que fazer outro caminho. É simples: visite o portal (http://www.portalrockpress.com.br), clique em "Colunas" e, depois, em "Caixa Preta".

Como parte da migração do blog para o novo formato, as postagens anteriores a setembro de 2010 já foram removidas do histórico do blog. Mas todos os textos voltarão na nova versão.
O Social Distortion nunca foi conhecido por ter uma produção musical prolífica. Da estreia ao segundo disco, a banda levou 5 anos.

Mais tarde, Mike Ness e seus comparsas viveram um período de alta atividade que rendeu alguns discos de ouro e um status que extrapola os guetos do punk.

Em seguida, com o afastamento da Sony Music, a banda precisou de infindáveis 7 anos recheados de todo tipo boato para lançar o álbum que a recolocou de vez na estrada.

Sair da confortável letargia custou, de cara, os serviços do já quarentão John Maurer, baixista que esteve com o grupo por 15 anos. O line-up, então já reformulado pela morte de Dennis Dannel, passou a ser quase uma banda de apoio para Mike Ness.

Foi com essa formação que o Social D aportou no Brasil esse ano pela primeira vez e tocou no Via Funchal, em São Paulo, para impressionantes 5.000 fãs.

Antes de ontem, saiu um comunicado que nos acostumamos a receber em longos intervalos (como da última vez, após 7 anos): o novo disco do Social Distortion está pronto. Sai em janeiro de 2011, com o single "Machine Gun Blues" estreando no mês que vem no iTunes e, por consequência, no resto da internet.


O que esperar do sétimo álbum de carreira da banda? O Caixa Preta aposta numa sonoridade que estará a um passo da faca nos dentes do raivoso White Light, White Heat, White Trash, de 1996, e a meio passo do ensolarado e otimista Sex, Love & Rock'n'Roll, de 2003.

Por trás de uma timidez que alguns têm como leseira, Ness é um artista sagaz. Soube muito bem batizar sua obra cujo perfil é quase autobiográfico. Da rebeldia punk dos 20 anos de idade de Mommy's Little Monster à heroína e ressaca do final dos 80's de Prison Bound, passando pelo reconhecimento artístico e o inferno particular de Somewhere Between Heaven & Hell.

A amargura de uma maturidade cheia de sequelas aparece em White Light, White Heat, White Trash. E o retorno, após um hiato durante o qual trocou a vida de junkie pela de pai e marido, vem com o registro de Sex, Love & Rock'n'Roll.

O novo disco, Hard Times and Nursery Rhymes, pode indicar uma tentativa de estabelecer a comunicação entre o passado turbulento e a placidez da quinta década de vida que se aproxima.

A única canção inédita registrada durante os últimos 7 anos é "Far Behind". Faixa ainda mais melodiosa e assobiável do que se ouviu em parte do repertório de Sex, Love & Rock'n'Roll. Poderia ser uma notícia boa para uns e ruim pra outros, mas a assinatura sonora de Mike Ness parece mesmo indelével.

Trata-se do primeiro, e talvez único, artista egresso do punk rock a incorporar elementos da música de raiz americana e, ainda assim, manter uma interessante conexão com seu passado.

Ness redescobriu Johnny Cash para um novo público em 1990, com a já famosa regravação de "Ring of Fire", nada menos que 15 anos antes da cinebiografia que colocou o "homem de preto" mais uma vez no mapa. O próprio Cash admirava o Social Distortion e Neil Young, outro apreciador, convidou a banda para abrir uma de suas turnês naquela época.

Não são apenas estes dois bastiões da boa música norteamericana que reconhecem em Mike Ness muito mais do que o punk bêbado do ótimo documentário Another State of Mind, de 1983. A deferência de Bruce Springsteen e Brian Setzer os levou a participar do primeiro disco solo de Ness, Cheating at Solitaire, uma mistura envenenada de country, bluegrass e rock'n'roll estradeiro.

Assim, à essa altura já parece pouco importante o quanto a vida de seu mentor pode interferir no sétimo capítulo da saga do Social Distortion.

Para o céu ou para o inferno, muita gente já aguarda ansiosa pelo primeiro mês de 2011.


Acima, Mike Ness e Bruce "The Boss" Springsteen em uma jam em 2009.
Nunca fui adepto de festivais. Na década de 90, estive em algumas edições do finado Hollywood Rock. Nos anos 00, cobri os shows de Kraftwerk e PJ Harvey no TIM Festival -que nem era algo tão grande assim-, e Stooges e Fantômas no Claro q é Rock.

Mas ir até Itu no meio de um feriado para enfrentar filas quilométricas, estacionamento a preços escorchantes e (muita) gente que está ali sem estar ali, não dá.

Isso sem falar do frio. Mas nesse aspecto, o SWU não devia estar pior que o cultuado festival Juntatribo, realizado na vizinha Campinas em 1994, onde me senti um picolé coberto de terra.

Seja como for, acabei vendo alguns shows do SWU. Pela TV. Coisas boas e outras nem tanto.

Rage Against the Machine impressionou. Zack de la Rocha mantém o pique de 15 anos atrás e Tom Morello, como se sabe, é um tremendo guitarrista. O set-list também ajudou: "Testify", "Bombtrack", "Bulls on Parade" e "People of the Sun" logo de cara. As câmeras mostravam a massa pulando sem parar.

Me lembrei de quando ouvi o grupo pela primeira vez, no início de 1993, na Virgin Megastore da Piazza Duomo, em Milão. Era o som ambiente da belíssima loja, mas não consegui descobrir quem tocava aquela mistura enfezada de rock e rap que lembrava os pais da matéria, Urban Dance Squad. Meses depois, já não dava pra ignorar o RATM nas rádios brasileiras e na MTV.

Nem deu tempo de voltar ao presente e despencou um balde de água fria com cara de Brasil: o show no SWU é interrompido por falta de segurança. Uma voz sai dos auto-falantes pedindo a cooperação de...50 mil pessoas. Broxante é pouco.

Não sei se por isso, mas o Multishow não exibiu o show na íntegra. Na noite seguinte, uma repórter afirmou que alguns equipamentos da emissora foram destruídos na confusão.



Queens of the Stone Age, como se previa, fez um set explosivo. Repertório esperto que passeou pela discografia. Pra começar os trabalhos, a dinamite sonora de
"Feel Good Hit of the Summer", do primeiro álbum Rated R. Depois, material recente como as poderosas "3's & 7's" e "Sick, Sick, Sick" do ótimo Era Vulgaris.

Josh Homme curtia o momento: "What a magic fuckin' night". Mas o público, pelo menos o que se via pela TV, não repetia o êxtase dos fãs do RATM. Estranho, inclusive, pensar que o QOTSA, com seu som que não é o rockinho insosso de um Kings of Leon, nem o metal vira-lata do tal Avenged Sevenfold, possa ser apreciado por grandes multidões.

Se até então os dois shows, vistos do conforto do lar, foram de primeira, o mesmo não se pode dizer dos highlights exibidos enquanto os repórteres enrolavam o espectador. Capital Inicial fazendo um cover da abobrinha "Mulher de Fases", Jota Quest e suas macaquices envelhecidas e a combinação universitária de Joss Stone e Sublime. Só faltou o Jack Johnson para eu, mesmo de casa, desistir do festival.

Para compensar esse best of em forma de pesadelo, a cobertura do Multishow nos brindou com entrevistas hilárias. Fred, o ex-Raimundo, emocionado com a homenagem de Dinho Ouro Preto e dando um cano sobre qual música do Pixies queria ouvir. Igor Cavalera reinventando a roda pra (tentar) dizer que o SWU tem uma importância do tamanho do primeiro Rock in Rio. E os "fãs", claro, que não sabiam dizer o nome de UMA música dos artistas que tinham ido ver.

Aí veio o Pixies...

Uma apresentação xaroposa e protocolar da banda que se juntou para turnês nostálgicas. Nem um disquinho novo sequer. E Frank Black desafinado, Kim Deal com meia tonelada e o baterista, de quem o nome me escapa, atravessando o samba.

Mesmo assim, talvez pelo culto que existe em torno da banda, recebeu do público muito mais do que ofereceu. "Monkey Gone to Heaven", "Planet of Sound" e "Where is my Mind?" seguraram a onda, ainda que em execuções ordinárias. A comoção da massa -me espanta que os Pixies tenham tantos fãs- seria mais merecida pela turma de Josh Homme.

Com as opções de shows no Brasil -só esse ano já tivemos maravilhas como ZZ Top, Social Distortion e Supersuckers por aqui-, é de se perguntar o porquê de encarar todos os perrengues para acompanhar in loco um festival em Itu.

Vendo pela TV, até que deu pra imaginar.