Saiu há poucos dias o novo disco do Anthrax, "For All Kings". É o segundo esse ano de bandas pertencentes ao Big Four, congregação que autocelebra os quatro maiores nomes do thrash metal. O outro lançamento foi "Dystopia", do Megadeth, que marcou a estreia do guitarrista brasileiro Kiko Loureiro. Em 2015, o Slayer, mais um integrante do tal quarteto, já havia lançado "Repentless".
É interessante ver que o thrash metal resistiu ao tempo e que seus principais arquitetos ainda estão em atividade. O Exodus, que não é um dos Big Four, mas certamente um dos artífices do estilo, também soltou um disco de inéditas em 2015, "Blood In Blood Out".
Ouvindo todos esses álbuns recentes, fica clara a intenção dos veteranos em manter a música feita hoje ainda conectada aos fundamentos clássicos do gênero. Não existe um Ramones do thrash metal, que escreve sempre a mesma música e lança os mesmos e ótimos discos, mas estabelecer laços com o passado parece uma preocupação.
O novo trabalho do Anthrax comprova também a constante depuração técnica e o esmero com execução e registro em estúdio. E tudo porque o público de
thrash metal
pode ser bem nerd e exigente, em algum aspecto lembrando os fãs de rock
progressivo. Esmiuçam discos e fichas técnicas, comparam os desempenhos de guitarristas e bateristas com o que fizeram no passado e não deixam escapar qualquer detalhe. Só baixam a guarda quando o aspecto nostálgico entra em cena.
Quem comprou "For All Kings" -que saiu no Brasil em edição limitada e numerada, com CD extra trazendo quatro faixas ao vivo e o EP de covers "Anthems"- conhece o Anthrax do avesso. Não é banda para neófitos. E esse segundo álbum desde o retorno de Joey Belladonna, cantor de quatro discos clássicos do grupo entre 1985 e 1990, mostra uma banda que há muito ficou adulta. Idos são os tempos em que usavam bermudas floridas e faziam galhofas como lançar um debochado EP de hip hop - por ironia, o item mais vendido de sua discografia.
O Anthrax ficou sério ainda na virada dos anos 90, e mais claramente quando arregimentaram o vocalista John Bush. Com ele a bordo, sobreviveram ao declínio do thrash metal e flertaram com o pop e o grunge à la Alice in Chains. São dessa fase dois de seus maiores hits: "Only", muito executada nas rádios rock de São Paulo- e "Safe Home", com direito a vídeo-clipe
estrelado por Keanu Reeves.
A revalorização do thrash metal, percebida nos primeiros anos do milênio e que arrebatou novos e jovens fãs, todos dedicados a escavar antigas novidades oitentistas, levou o grupo a encerrar a era Bush -sem trocadilhos-, que já durava 13 anos. Até o Metallica, que em algum momento tornou-se gigantesco e comercial demais
para o gueto do thrash, tentou bandear de volta para onde tudo
começou.
Com as voltas de Belladonna e do guitarrista Dan Spitz em 2005, o Anthrax atendeu às demandas saudosistas e excursionou tocando na íntegra sua obra-prima "Among the Living", de 1987. Foi a centelha para que o grupo mergulhasse de volta no metal clássico e apagasse da memória a interessante produção com John Bush - seus discos sequer constam do catálogo da banda no Spotify.
Spitz, aposentado, caiu fora após a turnê de reunião, e o grupo, entre idas e vindas chatas demais para explicar aqui, lançou, em 2011, com Joey Belladonna, o disco "Worship Music". Se você conhece o álbum, sabe mais ou menos o que esperar de "For All Kings". Não é mais o Anthrax rápido, com backing vocals punks e a ironia corrosiva dos anos 80. Há lampejos disso, claro, como na boa "Evil Twin" e na ótima "Zero Tolerance", que fecha o novo disco. Mas os novaiorquinos parecem agora mais comedidos e interessados em investir num tipo de heavy metal classudo, com muita melodia, e que combina com a voz de Belladonna feito feijão e arroz. O retorno às raízes thrash, alardeado de lá e de cá, ficou no meio do caminho.
Charlie Benante, dono da banda ao lado de Scott Ian, mostra-se ainda um senhor baterista. Talvez o melhor que o thrash metal produziu. Ou talvez tão bom quanto outro gigante, Dave Lombardo, ex-Slayer. Ian, por sua vez, é o judeu boa praça, fanático por KISS e classic rock americano, e um dos engenheiros que criou a palhetada de guitarra que é a própria epítome do thrash metal, mas que agora é usada pelo próprio com alguma parcimônia.
"For All Kings" tem tudo no lugar e soa como o esforço de uma banda séria e coesa, comprometida com sua imagem e os 35 anos de carreira. Ao mesmo tempo, parece um disco pensado e estudado demais, e que nunca chega a decolar.
O CD bônus da edição especial, que mostra o Anthrax interpretando à perfeição canções de Rush, Journey e Cheap Trick, é simbólico. Talvez tenham se tornado clássicos demais e perigosos de menos.
"Breathing Lightning", candidata a hit, é um dos destaques de "For All Kings"
Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.
Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.
Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.
O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.
Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.
Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.
Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.
O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.
Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.
Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.
Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".
Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.
Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".
Howard Stern Show (2001) Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.
Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998) Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.
Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).
Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora?
Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário.
A eles.
Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.
The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.
Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.
Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.
Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.
ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.
Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.
Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.
Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.
Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
A inesperada morte de Jeff Hanneman, já há alguns anos convalescendo de uma condição tão bizarra que parecia material de trabalho para letras do próprio Slayer, sinaliza o fim de uma era. Tanto mais significativo que o guitarrista saia de cena no ano em que "Show No Mercy", álbum de estreia do grupo, completa 30 anos de seu lançamento.
Entre todas as bandas que ajudaram a criar o subgênero thrash metal, o Slayer é a que melhor canalizou a fúria juvenil; aquela que vem acompanhada do desrespeito a figuras de autoridade e a inescapável sensação de imortalidade. O thrash estava sendo inventado enquanto o Slayer gravava, em 1983, a bomba atômica "Show No Mercy". O disco resultou numa combinação de música e conceito tão radicais que fazia impossível, à época, imaginar sua co-optação pelo mundo capitalista adulto.
Ser fã do Slayer e de bandas que circulavam em sua órbita era uma espécie de declaração de intenções: somos nós contra eles. Não era o rock que seus pais podiam apreciar ou sequer o heavy metal de outrora, que já havia perdido a dignidade na época do laquê e das calças Spandex. O thrash, como fizera antes o punk, fornecia perfeito material para catalisar a rebeldia adolescente.
Mas nada disso teria funcionado se, por trás do radicalismo, não houvesse também boas ideias musicais. Jeff Hanneman e Kerry King revelaram-se os artífices do som do Slayer. Foi a capacidade da dupla de criar riffs sobrenaturais e sacá-los da cartola no momento exato -fórmula já insinuada no álbum de estreia, e elevada à uma particular forma de arte em "Reign in Blood"- que colocou o Slayer num patamar acima de seus pares.
Enquanto King executava solos de guitarra lindamente toscos, Hanneman era o sujeito que emprestava melodias quase assobiáveis no meio da rifferama infernal do Slayer. A combinação dos dois guitarristas é uma dessas faíscas de invenção que raramente se produz.
O tempo passou, o thrash metal esgotou suas fórmulas e alguns de seus principais representantes caíram no ostracismo. Em momento emblemático da década de 90, enquanto o Metallica, oriundo da mesma cena, tornava-se grande e comercial demais, o Slayer nadava sozinho. Nenhuma outra banda foi capaz de carregar sua identidade radical com tamanha firmeza durante tantas modas e tendências. A ideia de que o Slayer era um porto seguro à prova de comercialismo, um grupo cuja música não se podia usurpar para fins pouco nobres, transformou muitos fãs originais em adeptos de longa data.
Assim, é impossível não saber da morte de Jeff Hanneman sem rememorar o ano de 1985, quando adquiri, por simples identificação, uma cópia de "Show No Mercy". Não sabia nada sobre o Slayer, mas a capa tosca, as faixas com títulos infames e as fotos dos músicos, que pareciam personagens de algum filme de terror, foram suficientes para capturar minha imaginação. E o pacote completo revelou-se com o poderio sônico que se escondia em riffs como o de "Antichrist" ou na pancadaria punk de "Evil Has No Boundaries". O estrago estava feito.
Vinte e oito anos mais tarde, é fácil entender que nossos heróis não são eternos, mas que sempre haverá uma centelha de rebeldia gravada em disco para nos permitir voltar à juventude.
Hail, Slayer!
"Show No Mercy": 30 anos em 35 minutos.
O metal underground dos anos 80 é imbatível. Inspirado pelo espírito de rebeldia e independência, implodiu as fórmulas criadas pelos veteranos do gênero e cunhou uma sonoridade radical e com mínimo potencial comercial.
Os protagonistas do thrash metal e seus subgêneros eram punks na essência: subiam ao palco com as camisetas e jeans surrados do dia-a-dia, falavam de bebedeiras, violência e questionavam a autoridade - seja da Igreja ou dos chefes de estado em tempos de Guerra Fria.
Num piscar de olhos, as estrelas do heavy metal de então pareciam velhas e ultrapassadas. A vitalidade e o poder de invenção do thrash também colocaram o hardcore numa encruzilhada. De um lado, os veteranos do metal britânico se refugiavam no odioso hair metal. De outro, alguns punks dissidentes aprendiam solos de guitarra e deixavam o cabelo crescer para criar o subgenênero batizado de crossover.
O tempo encarregou-se de absorver a influência estética e comportamental do thrash metal, um gênero essencialmente underground, e canonizar alguns de seus fundadores. A popularidade do Metallica engoliu metade da música pop nos primeiros anos da década de 90, enquanto Anthrax e Megadeth, cada qual à sua medida, vendiam milhões de discos.
Mas apenas o Slayer, formado desde sempre por um chileno, um cubano e dois americanos, reinou absoluto quando o thrash metal caiu no ostracismo.
O quarteto de Los Angeles, com seus riffs que pareciam içados das profundezas, sempre soou mais radical e extremo que seus pares mais famosos. Mas, em última análise, foi o fato de seus integrantes nunca se colocarem em situações públicas embaraçosas ou cobiçarem a aceitação pop que lhes trouxe a inabalável reputação.
Nos anos 90, o insano guitarrista Kerry King manter seus braceletes com pregos de 15 centímetros, enquanto o Metallica tocava alguma balada country, era quase um statement.
Comprei o disco de estreia do grupo -Show no Mercy- no início de 1986 na mitológica e hoje finada Woodstock Discos. Ouvir o álbum na íntegra modificou alguns padrões de percepção. E, no mesmo ano, esses padrões precisariam ser revistos com o lançamento da bomba atômicaReign in Blood, tocada em primeira mão, e na íntegra, pelo programa Rádio Corsário.
Desde então, o Slayer conquistou uma aura de importância próxima aos grandes dos anos 70. Deixou de ser uma banda comum e virou uma entidade.
Apesar dos temas pouco palatáveis e da violência sonora, o grupo expandiu sua influência para além do círculo fechado do metal. Foi regravado pela cantora pop Tori Amos, numa lúgubre interpretação de "Raining Blood", sampleado pelo Public Enemy, em um rap do épico It Takes a Nation of Millions to Hold us Back, virou tema popular no game Guitar Hero e cedeu músicas para diversos filmes.
Desfalcado momentaneamente do guitarrista Jeff Haneman, que contraiu uma doença bizarra que parece saída das próprias letras do grupo, o Slayer volta ao Brasil após 5 anos. Na próxima quarta, eles implodem o Master Arena, em Curitiba e, na quinta, devem lotar mais uma vez o Via Funchal.
Cumpra sua obrigação cívica e compareça.
Maturidade sem frescuras: em 1990, o Slayer lança o elaborado Seasons in the Abyss
Em 1985, o esporro juvenil de "The Antichrist" ajuda a demolir o heavy metal tradicional
Um colega de escola, precoce e ávido colecionador de discos importados e caríssimos de heavy metal, foi o primeiro a me falar do canadense Anvil.
Na época, estamos falando de 1986, não conheci a banda o suficiente para fazer um julgamento. E, ainda por cima, toda minha atenção era sequestrada por grupos como Slayer e Metallica que, naquela altura, lançavam os discos de suas vidas.
O tempo passou e meu colega largou o interesse por rock para transformar-se no manda-chuva da maior torcida organizada de futebol do Brasil. Quando seu time foi rebaixado para a Série B, lá estava ele nos noticiários: entrou no ônibus do clube e distribuiu sopapos em vários jogadores.
É evidente que para esse sujeito e muitos outros, uma banda como o Anvil é uma pálida recordação da adolescência. O grupo jamais estourou, embora tenha pelo menos dois discos que fizeram a cabeça de muitos metaleiros dos anos 80: "Metal on Metal" e "Forged on Fire".
Eu mesmo só descobri que estavam na ativa, vinte e tantos anos depois, quando li a sinopse do documentário "Anvil! The Story of Anvil", exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Contrariando qualquer prognóstico, o filme causou frisson em vários festivais pelo planeta e conquistou admiradores como Michael Moore e Keanu Reeves.
Assisti ao documentário no ano passado e me vi enxugando as lágrimas por duas ou três vezes. O filme é comovente e a história de como ele tornou-se realidade é tão fascinante quanto o próprio filme.
A direção é de um inglês chamado Sacha Gervasi. Na década de 80, ele tornou-se amigo dos músicos Lips e Rob Reiner no camarim do lendário Marquee, em Londres. De lá, ainda menino, mandou-se para visitar o pai em Nova York nas férias e deu uma esticada até Toronto, onde reencontrou o Anvil e tornou-se roadie da banda. Não teve sequer o trabalho de avisar a família.
Duas décadas depois, o menino já era um prodígio roteirista de Hollywood cujos créditos incluíam o filme "O Terminal", estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg.
Num dia qualquer, Gervasi lembrou-se dos velhos amigos do Anvil e, imagino eu, ficou abismado com o fato de a banda continuar na ativa e pregando para meia-dúzia de fãs.
O resto é história.
Gervasi encontrou-se com o guitarrista e vocalista Lips e daí surgiu a centelha criativa para escrever e dirigir um documentário sobre a banda - mais precisamente sobre a louca amizada entre Lips e o baterista Rob Reiner.
O documentário botou abaixo todas as aparências e escancarou a dureza de vidas vividas com um pé no underground e outro no “mundo real”.
Muitos anos após o lampejo de fama no mundo do heavy metal, Lips trabalha entregando marmitas. Reiner pinta quadros em casa para manter a sanidade. Os parentes não se conformam com tanta teimosia. Afinal, por que a banda daria certo quando seus integrantes já entravam na casa dos cinquenta?
Lars Ulrich, Lemmy, Scott Ian, Slash e Tom Araya enchem a bola do Anvil logo na abertura do filme, mas ninguém é capaz de entender porque a banda não deu em nada.
A repercussão de "Anvil! The Story of Anvil" tirou os canadenses do limbo musical e os colocou de volta no circuito dos festivais. Um final feliz com o melhor do clichê sobre a vida, de fato, imitar a arte.
O triunfo dos amigos-irmãos Lips e Reiner comoveu gente do mundo todo. Gente que não era nascida quando o Anvil teve seu primeiro pico de popularidade, e gente que sequer gosta do metal à moda antiga que eles tocam.
No próximo domingo, dia 27, o Anvil se apresenta em São Paulo.
Assista ao filme e vá ao show.
Na década de 80, a baía de San Francisco tornou-se o epicentro da cena americana de thrash metal. De lá saíram bandas que definiram o gênero, como Metallica, Exodus, Possessed, Testament e Vio-lence.
Em meio a esse pessoal, surgiu uma banda de formação exótica e que parecia a grande promessa do Bay Area Thrash. Formado por cinco primos descendentes de filipinos, o Death Angel misturava a sonoridade característica do gênero com groove e algumas (boas) baladas. Tudo sob uma execução virtuosa e a voz levemente afetada de Mark Osegueda.
Do segundo álbum do grupo, Frolic Through the Park, saiu um video-clipe que ganhou espaço nos programas de metal da MTV americana e circulou no Brasil em coletâneas caseiras de VHS: "Bored".
A música tinha um riff pegajoso, vocais herdados do hard rock e um intrincado solo de guitarra usando a técnica do arpeggio.
O Death Angel ganhou projeção e foi contratado pela Geffen Records, selo que abrigava as duas bandas que definiram a passagem da década: Guns N' Roses e Nirvana.
Com o suporte da gravadora de David Geffen, que então tornara-se bilionário com a aquisição do selo pela MCA, os primos filipinos lançaram seu álbum mais ambicioso: Act III.
Gravado e produzido com um nível acima do que se costumava ouvir no thrash metal até então, o álbum parecia destinado a ocupar a prateleira de clássicos do gênero, ao lado de Master of Puppets, Among the Living e Reign in Blood.
Não foi bem o que aconteceu.
O ano de 1990 marcou o declínio daquela cena. Várias bandas se separaram, os grandes nomes mudaram a orientação musical e os poucos que se mantiveram fiéis às origens musicais entraram num período de ostracismo. Talvez apenas o Slayer, sob a batuta de Rick Rubin, tenha conseguido passar incólume à decadência do estilo.
Para piorar, um terrível acidente automobilístico no Arizona atrapalhou os projetos de carreira do Death Angel. O prodígio baterista Andy Galeon -que gravou o primeiro disco aos 14 anos de idade!- sofreu vários ferimentos e a Geffen tentou interferir em sua substituição.
No documentário Get Thrashed, os músicos contam que o acidente foi tão traumatizante que, de fato, levou ao fim da banda.
Confesso que não acompanhei o retorno do Death Angel em 2001, após o hiato de uma década em que muita água passou sob a ponte. Tampouco ouvi qualquer álbum lançado desde então. O site oficial dá conta que eles gravaram 3 discos desde a volta, sendo o mais recente Relentless Reunion, lançado no mês passado.
Da família filipina sobraram apenas o vocalista Mark Osegueda e o guitarrista Rob Kavestany. O incrível baterista Andy Galeon fez parte da reunião desde 2001, mas deixou a banda no ano passado.
Na próxima sexta, o Death Angel desembarca pela primeira vez no Brasil para realizar uma turnê que percorre 8 cidades. Em São Paulo, o show acontece no sábado, dia 23, no Clash Club.
Ver essa banda ao vivo é recuperar um pouco da história do gênero que implodiu o metal convencional e todos os seus piores clichês.
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Assista abaixo ao vídeo-clipe de "Seemingly Endless Time", faixa do álbum Act III e que frequentou o extinto programa Fúria Metal da MTV Brasil. Nunca as praias da Califórnia pareceram tão sombrias...
País com o mapa mais irregular da cartografia mundial, o Chile teve um presidente brutalmente assassinado nos anos 70, sofreu com a ditadura de Pinochet, levou pra casa o Nobel de literatura com Pablo Neruda e foi arrasado por um terremoto com tsunami há apenas 9 meses.
Essa semana, o país tornou-se o centro do mundo. A complexa e emocionante operação de salvamento no místico deserto de Atacama foi transmitida ao vivo para o planeta Terra. Talvez tenha servido como uma espécie de passaporte para o Chile ingressar de vez na primeira divisão da geopolítica internacional - se você não sabe, nossos vizinhos têm uma invejável colocação no ranking de IDH.
A história dos 33 mineradores é tão fabulosa que está pronta para virar filme. Como também virou filme o não menos impressionante desastre nos Andes Chilenos, no qual um grupo de passageiros precisou recorrer ao canibalismo para sobreviver.
Não é pouca coisa para um país espremido no oeste da América e à beira do Pacífico. Mesmo assim, as contribuições do Chile para a cultura pop passam quase batidas.
Ou você sabia que Tom Araya, o lendário baixista e vocalista do Slayer, é natural de Valparaíso, no Chile?
E que um dos filmes mais bacanas da última (ou penúltima) Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é chileno?
Ou que o mais descolado e inteligente programa infantil dos últimos anos vem do país andino?
Abaixo, posto vídeos desse modesto, porém qualificado, Top 3 de nossos vizinhos. Mas antes, um pequeno causo do fundo da Caixa Preta.
Em fevereiro de 1989, a então popular banda de metal Kreator, da Alemanha, tocaria pela primeira vez no Brasil. Editor de um pequeno fanzine, consegui acompanhar a equipe de produção no local do show, um galpão que se chamava Projeto Leste I. Na ocasião, entrevistei a banda chilena Necrosis, que fazia um thrash metal à moda da época e abriria o show dos alemães. Seu primeiro LP, lançado naquele ano e chamado "The Search", chegou a ser editado no Brasil.
Mas o Kreator acabou não aparecendo e o fato entrou para o folclore do underground brasileiro. Nunca se esclareceu o que, de fato, aconteceu, mas os germânicos foram substituídos de última hora pelo Ratos de Porão, o que transformou o lugar num barril de pólvora com 5.000 metaleiros enfurecidos. Lembro-me bem de um ônibus fretado, vindo do Rio Grande do Sul, e cheio de cabeludos que não ficaram exatamente satisfeitos com a notícia.
Mas os chilenos do Necrosis eram boa praça e descobri há pouco que continuam na ativa, vinte e tantos anos depois.
Resistência é mesmo com esse povo.
Tom Araya, em 2010, homenageia a seleção de futebol chilena e ainda manda um "Viva Chile, mierda!" durante a execução da clássica "Chemical Warfare"
Trailer de "Tony Manero", filme sombrio e estranho sobre um decadente cover de John Travolta no Chile dominado pela ditadura militar. Disponível em DVD no Brasil.
31 Minutos - o melhor programa infantil em muitos anos. Engraçadíssimo, lúdico e cheio de referências pop. Quem souber onde se consegue um DVD da série, dublado em português, avise o Caixa Preta. É para a filha do blogueiro, entenda-se. ;-)