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Para tirar o blog da hibernação em 2017, republicamos no Caixa Preta a resenha do show do Korn, realizado no mês passado em São Paulo, e que cobrimos com exclusividade para o portal Rock On Board. Em breve tem novas colunas por aqui e, finalmente!, o anúncio oficial da estreia de AUDIO ATTACK, nosso programa de rádio. Fiquem de olho!

KORN
19/04/2017
Espaço das Américas
São Paulo – SP

Parece que foi outro dia, mas o Korn, em 2017, já é banda veterana. São os últimos bastiões do nu metal, um subgênero que viveu dias de glória no fim dos anos 1990, gerando assombrosas vendagens de discos. O tempo foi cruel com o estilo e seus outros famosos representantes foram abandonados à irrelevância.

 Já o Korn, com um disco novo embaixo do braço, desembarcou no Brasil com farto espaço nas editorias de entretenimento. E a razão não era “The Serenity of Suffering”, seu décimo-segundo álbum em 24 anos de carreira, mas um fato bastante inusitado: a presença de um moleque de 12 anos integrando sua tão conhecida e sólida formação. Aumentou o frisson o fato de o menino, Tye, ser filho de Rob Trujillo, baixista do Metallica e ex-Ozzy Osbourne e Suicidal Tendencies. A salada estava posta.

Crianças não combinam com bandas de rock. Ponto. E ainda pior quando a banda em questão segue a vertente mais pesada, cantando sobre temas sombrios que muitas vezes envolvem maldades perpetradas contra crianças – não se trata de apologia, pelo contrário, mas esse fato sozinho já aumenta a estranheza.

Os fãs não deixaram de prestigiar o grupo por conta da ausência temporária de Reginald Arvizu. Três mil deles, ou mais, ocuparam a maior parte desse lugar estranho chamado Espaço das Américas, com seu salão amplo e que parece perfeito para festas de formatura.

Muitos aficionados pela banda seguem a moda ditada por eles, de tranças e dreadlocks nos cabelos, além dos indefectíveis agasalhos esportivos sempre bem largos. Não é exatamente o público de outros shows de rock pesado e surpreende que o nu metal, à essa altura, ainda tenha seus próprios e fieis adeptos.

A luz azulada e o som similar ao de uma sirene anunciaram o Korn. E a massa bramiu entusiasmada. Jonathan Davis, de saia estampada, seus comparsas Brian Shaffer e James Welch, de dreadlocks emaranhados, o talentosíssimo Ray Luzier nas baquetas e, à sua direita, sobre uma plataforma que atenuava a baixa estatura, o convidado Tye Trujillo. Todos os olhos nele e o menino, compenetrado, seguia à risca sua função, enquanto a banda executava “Right Now” e “Here to Stay”. Excursionando com o Korn, o tecladista convidado Davey Oberlin colaborava para deixar a experiência mais climática.

O repertório da noite teve canções pinçadas de pelo menos dez discos, sem grande favorecimento a uma fase sobre outra. A irresistível “Word Up”, que em estúdio exibe uma faceta mais pop do Korn, foi interpretada ao vivo de forma fria e desleixada, sequer tocada até o final. Sem dúvida, o ponto baixo da apresentação.

Tye Trujillo, por sua vez, pulverizava as suspeitas sobre a pouca idade e, surpreendentemente, misturava-se com naturalidade aos adultos. Com postura, boa técnica e metido numa camiseta da banda sueca Meshuggah, subia e descia da plataforma, às vezes entusiasmado em poder chacoalhar a cabeleira ao lado do guitarrista Brian “Head” Welch.

A iluminação deixava o palco quase sempre muito claro, e as guitarras, saturadas, com a famosa afinação baixa do nu metal, criavam um clima estranho; quase estéril. Tudo é parte da receita que fez a música do Korn resistir bravamente ao teste do tempo. São diversas faixas baseadas em riffs repetitivos e que criam pequenos mantras, estendidos até explodirem em algum refrão que manda tudo às favas. “Blind”, parte do repertório do show, é ótimo exemplo dessa fórmula que influenciou muita gente, de Sepultura a Linkin Park.

A apresentação teve ainda solo de bateria, Jonathan Davis causando com sua gaita de foles, um dueto de baixo e bateria para prestigiar o baixista mirim, muito aplaudido, e a poderosíssima “Make Me Bad”. “A.D.I.D.A.S”, dessa vez, ficou de fora.

O bis, previsível, trouxe os dois maiores êxitos comerciais do Korn. “Falling Away From Me”, com sua introdução misteriosa e atmosférica, é das melhores coisas que o grupo já produziu e gerou uma tremenda ovação assim que a banda retornou ao palco.

“Freak on a Leash”, por fim, fez todo mundo voltar a 1998, momento em que o Korn foi dos grupos mais populares do planeta, liderando a parada da Billboard e indicado a nove prêmios no Video Music Awards, da MTV. Funciona bem ainda hoje e também como uma pequena cápsula do tempo, que ajuda a explicar sobre os estertores da última boa década da música pop.

Trechos do show do Korn no Espaço das Américas

 *Foto de abertura: Francisco Cepeda.
http://i1.wp.com/ampsandgreenscreens.com/wp-content/uploads/2015/04/CC3.jpg

No último domingo, dia 10 de abril, revi, após mais de 20 anos, uma apresentação ao vivo de Max Cavalera. E o cenário não poderia ser mais diferente daquele em que conheci o Sepultura.

Comparar um show atual do Soulfly com os eventos de metal dos anos 80 é exercício quase antropológico. Primeiro, porque o valor atual dos ingressos seria completamente inacessível para o público de 30 anos atrás. O país mudou e a audiência de Max Cavalera também. O bom público que foi prestigiá-lo no domingo era formado majoritariamente por fãs de meia idade. Bem diferente dos garotos rebeldes do passado e que tinham no metal extremo uma válvula de escape para as agruras da adolescência.

Outra diferença que grita são as condições técnicas de ontem e hoje. A Audio Club, que recebeu o Soulfly, tem ótima infraestrutura. É possivelmente a melhor casa de shows da cidade desde o fechamento do Via Funchal, em 2012. Tem seguranças por todos os lados, sinalizando com laser aqueles que acendem um cigarro ou um baseado na escuridão. Cobram dez pratas por uma lata de cerveja e oferecem a infame opção de pista VIP, separando o público com uma cerca.

Já o Sepultura, que vi nos primórdios, tocava com equipamentos baratos e em locais improvisados. Estive em um show do grupo pela primeira vez em 1987, ocasião em que lançavam seu ótimo álbum "Schizophrenia". A apresentação aconteceu nas modestas dependências do Sindicato dos Aeroviários de São Paulo; um prédio de três andares próximo ao Aeroporto de Congonhas. Era parte de um festival chamado "The World's Thrash", que teve outras tantas bandas importantes da época. Em determinada altura, acredite, o evento foi paralisado porque o chimbal da bateria desapareceu. Tinha ido parar, por engano, no meio dos equipamentos da banda punk WCHC.

Em 2016, Max e seu Soulfly jogam como o craque veterano e acima do peso, o tipo que conhece os atalhos do campo e não precisa suar pra ganhar o jogo. É um tal de mandar a plateia pular, abrir a roda de pogo e bater palmas que não está no gibi. O líder da banda, ungido pela credibilidade do metal "old school", é venerado pelo público. Max pede, os fãs atendem. E sequer precisa tocar sua guitarra rítmica durante boa parte da apresentação.

Em 1987, o Sepultura era ainda aquele jogador revelação, vindo dos campos esburacados da várzea e que tinha fome de bola. Chamava a atenção por ser melhor e mais habilidoso que seus pares. Em seus shows, não recorria a truques pra ganhar a torcida. Estavam afiados e confiantes, turbinados por um repertório com o frescor e a novidade da época.

O público de metal atual já flexibilizou seus gostos musicais. Aceita, por exemplo, que Andreas Kisser toque em uma jam session com Junior Lima, o irmão da Sandy, ou que leve o Sepultura para se apresentar em um trio elétrico de carnaval. Na Audio Club, provou isso cantando junto o trechinho de "Polícia", dos Titãs, e o refrão de "Ponta de Lança Africano", de Jorge Ben Jor. Curtiu até uma espécie de reggae chapado, num dos melhores momentos do show.

O público do passado, radical até o caroço, arrancaria a banda do palco a tapa se fizesse concessões parecidas. Basta dizer que, no citado festival, o Sepultura, assim que subiu ao palco, foi recebido com uma chuva de papel picado. Era o recado da ala mais purista e que já andava desconfiada com os cabelos tingidos dos irmãos Cavalera, suas bermudas floridas e a guinada para o thrash depois de despontarem como uma banda de death metal "from hell".

Na saída do show do Soulfly, neste domingo, às 23:30, ouvi elogios duvidosos a respeito de Max Cavalera. Enquanto se dirigiam para buscar seus automóveis, fãs falavam do vocalista como um velhinho casca grossa. Estavam, suponho, a valorizá-lo pelos serviços prestados. E talvez, de maneira benevolente, a aceitar que tenha se tornado um animador de festas movidas a covers, citações, pout-porris e velhos clássicos do Sepultura.

Em 1987, ao final do festival, com o chão do sindicato coberto por garrafas de cerveja e cacos de vidro, o público saiu para as ruas desertas da cidade como uma gangue egressa do filme "Warriors". Se espalharam pelas esquinas e pontos de ônibus abandonados às quatro horas da madrugada. Falavam de metal, das bandas mais obscuras e extremas que existiam. Alguns elogiavam a evolução do Sepultura. Outros, mais críticos e mordazes, lamentavam: "Estão ficando muito comerciais".

Trinta anos mudam tudo.


Em 2016, centenas de smartphones filmaram o show do Soulfly.
Não há registro em vídeo do festival "The World's Thrash" (acima, pôster do evento).
                                             


Max Cavalera é, de alguma forma, o maior rock'n'roller que o Brasil já produziu. No sentido estrito do termo, de conduzir uma longa e bem-sucedida carreira, de manter-se fiel a um jeito de fazer música, de escapar de embaraçosas concessões comerciais, Max é único. Viveu o sonho dourado do rock'n'roll em toda sua glória e sobreviveu para contar. As memórias chegaram há pouco, na forma de uma autobiografia chamada "My Bloody Roots".

O livro é um extenso relato oral transcrito e organizado por Joel McIver, jornalista inglês que se notabilizou por escrever biografias -normalmente não autorizadas- de artistas de heavy metal. Max Cavalera tem um jeito despachado e "metal pra caralho" de contar histórias. Suas colocações, hipérboles e palavrões caem bem no papel e terminam soando com uma agradável conversa de bar.

Os nerds obcecados com a precisão dos fatos, com nomes e números podem arrancar os cabelos, mas não se pode criticar o livro por ter pouca informação. Max fala da infância, da perda do pai, do descobrimento do rock, da fundação do Sepultura, de sua ascensão, queda e reinvenção com o Soulfly. Há detalhes sobre a composição e gravação de cada disco, histórias de turnê, a percepção do sucesso e uma sucinta versão dos acontecimentos que levaram a sua saída do grupo.

"My Bloody Roots" parece feito para os fãs estrangeiros de Max, e que são muitos. Ele apresenta o Brasil ao leitor gringo sob uma névoa de perigo e mistério. Relata os rituais do candomblé, a truculência da polícia e a liberalidade no cumprimento de leis (menores de idade que bebem e se tatuam). O recorte é exótico, mas não necessariamente depreciativo. Max Cavalera é um embaixador torto do Brasil.

A projeção do Sepultura é contada do jeito que também me lembro - e fui testemunha ocular da transformação da banda, de um exótico combo de death metal em algo realmente especial. A percepção, já nos anos 80, era que o Sepultura estava um patamar acima de seus pares brasileiros. E o álbum Schizophrenia, lançado em 1987, os levou a uma esfera completamente diferente.

A saga de Max Cavalera para plantar o grupo no cenário internacional merece crédito. Descobrimos agora, através de suas memórias, que conseguiu passagens grátis com um amigo, então funcionário da Pan-Am, e voou para Nova York, de terno e gravata, se passando por um empregado da companhia aérea! Encontrou-se em Manhattan com duas figurinhas carimbadas do metal underground americano, Monte Conner e Borivoj Krgin, e desse encontro germinaram as sementes para o contrato com a gravadora Roadrunner.


A ascensão do Sepultura é meteórica e sem paralelos no rock brasileiro. Max Cavalera relata a experiência de tocar em estádios lotados pelo mundo afora, virar ídolo na América, ganhar discos de ouro e admiradores nos quatro cantos do planeta. Quando, no auge da popularidade, separou-se da banda, já eram os maiores artistas do cast da Roadrunner e, de acordo com Sharon Osbourne, os postulantes ao papel de "novo Metallica". Um status inacreditável para os dois irmãos que começaram tocando em um porão de Belo Horizonte aos 14 anos de idade.

Se Max é econômico ao descrever seu traumático afastamento do grupo, que veio a reboque de outra experiência devastadora -a morte de seu enteado Dana Wells-, o mesmo não pode ser dito sobre as lembranças de como foram geradas suas duas obras-primas: Chaos A.D e Roots. São fascinantes os relatos das aventuras da banda no estúdio, o esmero na produção e concepção musical, a riqueza nos detalhes e a percepção de que estavam parindo clássicos imediatos. Sugiro ler as passagens sobre a gravação da épica "Kaiowas" em um castelo do País de Gales, sob a batuta do notório produtor e engenheiro de som Andy Wallace. E também a epopeia que os levou a conduzir uma incrível e inusitada jam session com os índios xavantes. São registros produzidos no limiar da mudança de padrões e que terminaria por sepultar, sem trocadilho, o formato clássico de álbum. 

Se ainda se faz necessária qualquer reavaliação estética, me antecipo em afirmar que Chaos A.D e Roots merecem um lugar de destaque na história da discografia brasileira. Suspeito, no entanto, que a ausência de um tal componente antropológico impeça que jornalistas, historiadores e músicos de outros gêneros reconheçam a qualidade assombrosa de tais obras.

Aos 45 anos, com 19 álbuns de estúdio, milhões de discos vendidos e um legado que lhe faz ser visto como um tipo de xamã dos sons pesados, Max Cavalera já tem estatura para contar sua história. E vale a pena conhecê-la.

Após um ano sem atualizações, nada melhor do que (tentar) ressuscitar o blog Caixa Preta com um entrevista especialíssima que realizei com o vocalista da lendária banda canadense Voivod - Denis "Snake" Bélanger.

A conversa aconteceu no dia 29 de abril, véspera do primeiro show do grupo no Brasil em 30 anos de carreira. A ideia original, admito, era entrevistar Michel "Away" Langevin, o baterista e artista plástico que definiu um tipo de estética futurista/cyber punk à qual o Voivod sempre esteve associado. Acontece que Away estava comprometido com outras duas entrevistas, e o papo com Snake também prometia render.

De acordo com a assessoria de imprensa do evento, foi a mais longa entrevista concedida pela banda em São Paulo. E mesmo que em duas ocasiões, e por conta de outros compromissos, o assessor tenha tentado abreviar a conversa, Snake fez questão de falar enquanto foi possível.

A entrevista foi publicada originalmente no Portal Rock Press e segue abaixo na íntegra:

Qual a sensação de estar fazendo música em 2014 depois de trinta anos de carreira?
É incrível! Viajar pelo mundo e tocar na América do Sul, que era um lugar para o qual sempre quisemos vir. Tocamos no Chile, mas nunca no Brasil. Então ainda é muito excitante estar na estrada hoje. Chegamos aqui e estamos sentindo o espírito, ouvindo os sons, tipo: “Uau, estamos em São Paulo”.

Por que levou tanto para tocarem por aqui?
Acho que não tínhamos as conexões corretas. Tocamos com o Sepultura, excursionamos com eles e o Andreas Kisser sempre me dizia: “Vocês têm que ir para a América do Sul!”. E claro que sempre ouvimos dizer que as plateias são as mais selvagens que existem e que há uma cena de metal forte no Brasil. Espero que possamos incluir a América do Sul, e o Brasil, especificamente, em nossas próximas turnês.

Sou particularmente interessado pelo álbum “Angel Rat”, pois ele representa uma época singular para o Voivod. Quais as suas lembranças desse disco?
Foi um álbum interessante de fazer. Nunca quisemos nos repetir e com “Angel Rat” não foi diferente. A recepção das pessoas foi estranha. Algumas amaram o disco, outras ficaram desconfiadas. Mas para nós, você sabe, o processo de fazer um álbum é o mesmo, uma coisa leva naturalmente a outra. E me parece que esse disco está sendo redescoberto agora e muitas pessoas finalmente o entendem pelo que ele é.

E qual sua opinião sobre o resultado final? Ficou satisfeito com a produção?
Sim, o produtor desse álbum é Terry Brown, que trabalhou várias vezes com o Rush. Um cara desses trabalhando com a gente foi empolgante. E eu amo o álbum, canções como “Clouds in my House”... Eu amo as composições. Agora esse disco aparentemente é um capítulo da nossa história.

Ouvi dizer que uma das razões para o Blacky deixar a banda foi o fato de Terry Brown ter eliminado alguns efeitos de distorção do baixo. Isso é fato ou houve outros motivos?
Sim, mas houve também razões pessoais. É difícil você se manter na mesma direção por tanto tempo, então acho que isso contribuiu para que ele saísse. Mas sobre essa parte você precisaria perguntar diretamente para ele (risos).

Me refiro aos aspectos de produção, se houve esse tipo de desentendimento. De qualquer forma, o baixo soa incrível no disco.
Sim, sim, é verdade, ele [Terry Brown] realmente eliminou algumas coisas na gravação do baixo, mas não que tenha havido alguma reunião a respeito, algo como: “Ei, você cortou o efeito do meu baixo!”.

E como foi estar sob contrato com a MCA? Vocês sofreram pressão para se tornarem grandes vendedores de discos?
É diferente estar em uma companhia grande como aquela. Mas não sofremos pressão, embora nós tenhamos sentido a pressão (risos). No primeiro álbum que gravamos com eles, “Nothingface”, fizemos um cover de “Astronomy Domine” e que teve uma ótima resposta, então, obviamente, aumentaram as expectativas da gravadora. Mas “Angel Rat” é um disco bem particular, com os acordes estranhos do Piggy e tudo mais, e algumas pessoas não reconheciam o Voivod nele, embora seja evidentemente um disco do Voivod, nossa sonoridade está ali.


O fato de o Voivod nunca se repetir, como você mesmo citou anteriormente, pode ter, de alguma maneira, feito com que a banda se limitasse a esse status cult, ser uma banda adorada por outros músicos, mas que jamais atingiu uma grande popularidade?
Bem, nós nunca fomos uma banda que seguiu tendências. Há grupos que se encontram em determinado nicho e ali eles se mantêm porque se sentem mais confortáveis. Pode ser que isso tenha impedido que nos tornássemos uma banda monstruosa, tornou difícil nos classificar dentro uma categoria específica. Mas há sempre uma outra forma de ver isso. Temos fãs que nos acompanham e fazemos música pelo prazer de fazer música.

Tempos depois de sair do Voivod você montou outra banda chamada Union Made. Tenho a demo que vocês gravaram e é muito boa. Você tem planos de lançar esse material oficialmente? Se é que ele realmente nunca saiu em CD.
Não, nunca foi lançado mesmo. Esse é um projeto pequeno do qual participei, mas o fato de eu ter integrado antes o Voivod fez com que o nome da banda se espalhasse rapidamente. Os membros da banda estão cada um de um lado, então preciso ver como fazer para lançar isso, mas eu gostaria. Ainda estou pensando a respeito.

Existe uma gravação ao vivo do Union Made que tem uma qualidade muito boa também. Seria um lançamento interessante.
Sim, é verdade. Só preciso falar com os outros caras antes de lançar (risos).


Falando de seu trabalho pessoal, você gravou os vocais e escreveu a letra para uma das músicas (“Dictatosaurus”) do projeto Probot, do Dave Grohl. Foi estranho o processo de encaixar a voz sem a presença de outros músicos? Ele te enviou apenas o instrumental básico, certo?
Sim, foi bem diferente. Quando a música chegou nas minhas mãos, falei: “Uau! Mas o que é isso?”. No início não entendi muito bem, mas depois soube que faria parte de um projeto que ele estava desenvolvendo, convidando diferentes vocalistas para cantar em cada faixa, como Cronos, do Venom, King Diamond, Lemmy… E aí, quando ouvi a música, percebi que ele se inspirou nos riffs do Piggy e tudo, e percebi que ele queria uma música do Voivod (risos).  Então eu trabalhei em cima, demorou algum tempo. Eu acho que fui o primeiro a receber uma faixa do Probot para colocar a voz. Então eu fui ao estúdio, fiz uns improvisos. E acabei voltando uma segunda vez para gravar uma versão mais elaborada e escrevi a letra também. Fui o primeiro a mandar a gravação de volta, mas o disco ainda demorou bastante para ser lançado. Depois encontrei o Dave em Montreal, com uma amiga dele, durante o Natal. Fomos a um clube e ele me disse que tinha ouvido a gravação e adorado. Fiquei aliviado e pensei: “Ufa, ainda bem que ele gostou!” (risos).

E o Away [baterista do Voivod e artista plástico] criou também a capa do disco do Probot. Tem muito Voivod ali.
Sim, é verdade! Acho que ele [Grohl] ama nossa banda (risos).

Acho que sim. Por acaso você já viu uma entrevista com o Dave Grohl em que ele fala por 19 minutos seguidos apenas sobre o Voivod?
Sim, eu vi. Fiquei chocado! (risos). E ele nos descreveu muito bem como banda. Foi uma honra.

É curioso como o Voivod é adorado e reconhecido por outros músicos. Há um vídeo na Internet de Phil Anselmo [ex-vocalista do Pantera] cantando “Astronomy Domine” com vocês em um show. E dá pra perceber que ele ficou muito empolgado.
Sim, isso é muito legal. Um orgulho para nós. Há muitos músicos de estilos diferentes que já se declararam fãs do Voivod. É uma forma de reconhecimento.

Você consegue fazer uma lista com seu Top 3 do Voivod? Os três álbuns favoritos entre os que vocês gravaram.
Hahaha, essa é um pouco difícil! Mas vou tentar: “Dimension Hätross” ficaria no topo. “The Outer Limits” é um disco especial também. E acho que “Target Earth”, o nosso mais recente. Esses seriam os meus favoritos.

Falando em “Target Earth”, vocês pensaram em colocar um fim na banda após a morte do Piggy ou tinham a ideia firme de continuarem na estrada mesmo sem ele?
Quando o Piggy morreu eu pensei que tudo tinha acabado. Como substituir um músico tão singular? Então deixamos as coisas paradas por um tempo. Mas aí fizemos um show com o Daniel [Mongrain] e ele é um fã do Voivod desde que tinha 13 ou 14 anos de idade. O primeiro show que ele viu na vida foi do Voivod e depois disso decidiu comprar uma guitarra e aprender a tocar estudando exatamente as músicas do Voivod, então acabou funcionando muito bem.



Voivod toca o clássico "Tribal Convictions" no Hangar 110, em São Paulo.
O primeiro artista estrangeiro que entrevistei foi o novaiorquino John Connelly, vocalista e guitarrista do Nuclear Assault.

O encontro aconteceu em 1989, no lobby do hotel PanAmericano, na Rua Augusta. Na ocasião, tive a companhia de dois amigos, irmãos gêmeos, que editavam um simpático fanzine no Rio de Janeiro chamado Necronomicon. Eu tinha também meu próprio fanzine, gloriosamente criado com o auxílio de uma máquina de escrever Remington 25 e diagramado à base de tesoura, cola Pritt e reduções em xerox. Definitivamente, outros tempos.

Me lembro vagamente da entrevista. Mas não me esqueço do choque de realidade que foi ouvir Connelly afirmando que, ao voltar para Nova York, seu projeto era arranjar um emprego. Na época, a sensação geral era de que todos aqueles caras viviam de música. Não importava que fossem bandas obscuras e de zero potencial comercial. Qualquer cara de cabelos compridos, que tivesse discos lançados e tocasse fora de seu país, não podia bater cartão. Era inimaginável.

Poucos anos depois, Connelly terminaria seu disco solo, Back to Basics, com um esculacho country chamado "Long Haired Asshole". Demorei pra sacar a ironia.

A vinda do Nuclear Assault foi um daqueles eventos pontuais e históricos da época. O show aconteceu no Dama Xoc, palco de grandes atrações nos anos seguintes, e lotou. Foram duas noites, ambas com abertura (morna) do Sepultura que, à época, lançava sua carreira internacional com o álbum Beneath the Remains.

Os novaioquinos tiveram a sapiência de tocar, quase na íntegra, o disco Game Over -até então, o único lançado no Brasil- e a molecada delirou com faixas do calibre de "Sin" e "Betrayal". O Nuclear Assault fazia uma música com frescor, misturando o thrash da Costa Leste com elementos do hardcore/punk.

Estive presente na primeira noite, aquela em que Connelly abandonou a guitarra, cansado da precariedade técnica à brasileira, e apenas cantou. O guitarrista-solo, Anthony Bramante, segurou a onda sozinho. Não sei se John Connelly teve outra experiência como essa ao longo da carreira, mas ele, definitivamente, aproveitou o momento.

O contrabaixo com pedais de extrema distorção já eram marcada registrada de Dan Lilker, um sujeito que se tornou rapidamente uma lenda no underground, tendo integrado Anthrax, S.O.D. e o próprio Nuclear Assault num curto período de tempo. E o baterista Glenn Evans -de quem tive o trabalho solo In The Red em fita-cassete importada e original- era uma autêntica casa de força.

Não sei se por falta de bom senso ou simples má organização, os shows nos anos 80 terminavam sempre na alta madrugada, quando não havia mais transporte público. A plateia adolescente se virava como podia para voltar para casa. E a maioria terminava a noite encostada num balcão de bar ou mesmo dormindo na rua.

Ao fim do show do Nuclear Assault, arriscamos, eu e meus amigos, tomar um derradeiro ônibus da madrugada para qualquer lugar. A ideia era que qualquer coisa seria melhor que ficar ali parado.

E terminamos no lugar mais próximo do seriado "Além da Imaginação" que se pode imaginar: um descampado de terra batida, coberto de neblina e com absolutamente nada ao redor.

No próximo sábado, o Nuclear Assault volta a São Paulo para tocar para uma plateia de adultos num mundo que, 22 anos depois, esqueceu-se das máquinas de escrever, fitas-cassete e fanzines xerocados.

Mas que ainda precisa de barulho.


"Critical Mass", do álbum Handle With Care, de 1989: o show no Brasil privilegiou o disco Game Over, lançado 3 anos antes.

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Adendo: leia aqui a resenha do show que escrevi para o Portal Rock Press ao qual este blog é ligado: http://bit.ly/pScN66