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Repercutiu hoje na Internet, de blogs a canais como o Noisey, da Vice, a agressão sofrida por uma fã durante show do conjunto pop-punk The Story So Far.

Aconteceu em Toronto, no Canadá, e o vídeo não é bonito de se ver (link no final do post). Em um rompante de imbecilidade e auto-indulgência, o vocalista Parker Cannon desferiu uma voadora nas costas de uma jovem que, sem qualquer noção de espaço, preparava-se para tirar uma 'selfie' sobre o palco. A solução do cantor, no entanto, extrapolou os limites do razoável e funcionou como uma estúpida demonstração de misoginia.

Impossível não lembrar como Ian MacKaye, cofundador do Minor Threat e artífice da cena straight edge, se comportava diante de inconvenientes durante os shows. Nas quatro ocasiões em que vi o Fugazi ao vivo, entre 1994 e 97, MacKaye interrompeu a apresentação em algum momento para encerrar a baderna de fãs em cima do palco. Dava um caprichado sermão e a banda logo emendava a canção de alerta "The Long Division".

Até hoje, não posso ouvir essa faixa do álbum "Steady Diet of Nothing", de 1991, e logo me recordo dessas ocorrências e da forma dura, mas educada, com que MacKaye resolvia suas questões. O palco para ele era sagrado e até mesmo o 'slam dancing', versão mais agressiva da roda de pogo, era censurado pelo grupo. O punk de Washington, DC não queria que prejudicassem o andamento dos shows e, muito menos, que ameaçassem a integridade física dos fãs mais pacatos.

Mas nem todo mundo é Ian MacKaye. E muitos têm seus momentos de Parker Cannon. Seria destempero? Comportamento irascível? Ou apenas um vacilo numa noite ruim?

Abaixo, três casos de punks norteamericanos que bateram em fãs diante da plateia. E só um deles tinha licença para isso.

>> BEN WEASEL (Screeching Weasel)

O líder da cultuada banda de Chicago não se satisfez em atacar apenas uma mulher durante show ocorrido no festival SXSW, em 2011 - bateu logo em duas! A primeira agressão teria ocorrido após uma integrante da plateia ter, repetidamente, espirrado um tipo de líquido no vocalista. A segunda, depois que outra mulher tentou intervir. A polêmica ganhou destaque na Spin e na Rolling Stone, e Ben "Weasel" Foster se explicou:

"Quero pedir desculpas adono do clube e à integrante do público (...). Ainda que suas ações estivessem fora do meu controle, a reação lamentável é minha total responsabilidade. Quaisquer que sejam minhas opiniões sobre fãs que ultrapassam os limites, eu gostaria de poder voltar atrás e lidar com aquilo da mesma forma com que fiz nos primeiros 60 minutos de show. Como não posso, um pedido de desculpas é tudo o que tenho e espero sinceramente que essas pessoas o aceitem (...). Como marido, pai e músico profissional, entendo que é meu dever assumir a responsabilidade de forma socialmente aceitável, e mais especialmente em face do confronto".

>> FAT MIKE (NOFX)

Durante um show realizado em Sidney, na Austrália, em 2014, o guitarrista e vocalista da famosa banda californiana NOFX perdeu a compostura. Fat Mike empurrou um fã identificado como Alexander Medak e desferiu um pontapé em seu rosto.

No dia seguinte, através do Twitter, Medak enviou uma mensagem para o músico juntamente com uma foto de seu lábio inchado. "Obrigado pelo nocaute, Mike. Não doeu muito. E desculpe por ter te assustado, mas os shows são um pouco diferentes por aqui".

Fat Mike respondeu: "Me desculpe também, Alex. Eu estava com uma dor terrível [no pescoço] durante toda a noite. Quando você me agarrou, eu reagi defensivamente... e ofensivamente. Se você for ao show na sexta-feira, te pago uma cerveja. Só não a jogue em mim".

>> GG ALLIN (GG Allin & The Murder Junkies)

Para o maior terrorista do rock'n'roll, bater em membros da plateia era o mínimo que podia acontecer durante os shows. O público que o acompanhava praticamente pedia por isso. Muitas vezes, Allin arrebentava a fuça de seus fãs. Em outras ocasiões, era espancando e terminava a noite sem dentes e com o braço engessado.

GG Allin, nascido Jesus Christ Allin, passou boa parte dos anos 80 e o comecinho dos 90 metido em confusões. Foi preso, violou a condicional, ficou amigo do serial killer John Wayne Gacy, o famoso "Palhaço Assassino", e terminou expulso de várias cidades e casas de shows. Bateu em fãs de ambos os sexos, sem preconceito, inclusive durante suas palestras niilistas.

O nativo de New Hampshire, que morreu de overdose em 1993, aos 36 anos, nunca pediu desculpas a ninguém. No entanto, uma de suas frases mais famosas pode servir de explicação:

"Minha mente é uma metralhadora, meu corpo são as balas e o público é o alvo".

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Park Cannon age como cafajeste em Toronto:



Ben Weasel apela para a baixaria em Austin:



Fat Mike perde o juízo em Sidney:


    GG Allin desce a porrada em todas as cidades
    (Material NÃO recomendado para leitores mais sensíveis).


    A MaximumRockandRoll me foi apresentada por Fábio, vocalista da banda WCHC, numa madrugada qualquer dos anos 80. Enquanto fazia hora para entrar no Rainbow Bar, um pequeno clube underground no bairro do Jabaquara, folheava maravilhado o fanzine que, já naquela época, era tido e havido como "a" fonte de informações sobre a cena punk internacional.

    Só fui botar as mãos em outra MRR em 1993, quando visitei uma lojinha punk de Milão chamada New Zabriskie Point. Comprei a edição do mês com o proprietário, Stiv Valli, ele próprio um importante fanzineiro italiano que foi matéria de capa da MaximumRockandRoll.

    Quando voltei ao Brasil, resolvi imediatamente assinar a MRR. Ao longo dos anos, perdi a conta de quantas bandas conheci nas páginas do zine de San Francisco: Los Crudos, Man is the Bastard, New Bomb Turks, The Queers.

    Mas o grande barato da Maximum nunca foi exatamente a crítica ou o jornalismo musical. A MRR, ao contrário do famoso e influente Flipside, seu equivalente de Los Angeles, sempre tratou o punk como uma subcultura com um código de ética rígido e sem concessões.

    E a grande arena para o debate ideológico eram as páginas de colunistas. Por ali passaram escritores punk, donos de selos independentes, jornalistas, músicos e observadores do movimento. De Larry Livermore, da Lookout Records, a Ben Weasel, líder da popular banda Screeching Weasel. De Lefty Hooligan e seu pensamento leninista ao quase conservador Jeff Bale.


    No centro de tudo estava o editor Tim Yohannan, uma das figuras mais complexas do punk americano. Mesmo com toda a influência conquistada pelo fanzine em décadas de atividade, Tim Yo jamais quis que a MRR deixasse de ser operada como um coletivo. Ele optou por manter um emprego no ambiente acadêmico e seu radicalismo levou à perda de conhecidos anunciantes, como a Alternative Tentacles, de Jello Biafra, que Tim alegava divulgar lançamentos de discos que não eram punks.

    A personalidade difícil de Yohannan o fez colecionar muitos desafetos ao longo dos anos. Alguns "shitworkers" saíram para fundar seus próprios fanzines -como os influentes Punk Planet e HeartattaCk- e leitores famosos, como Billie Joe Armstrong, do Green Day, guardam rancor de décadas pelas críticas ácidas do patrono punk.

    Entre 1999 e 2001, conheci dois famosos colunistas da MRR que passaram por São Paulo: o escritor Mykel Board e Dave Dictor, vocalista da lendária banda hardcore MDC. Board, que escreve para o fanzine desde o início dos 80's, afirma que Tim Yo era um dos únicos punks que jamais se venderiam. E as opiniões de Dictor reforçaram a reverência.

    Por isso, quando Yohannan morreu de linfoma, em 1998, muito se especulou sobre o fim da MRR. Mas o fanzine permaneceu ativo graças ao esforço de uma nova geração de colaboradores e completa impressionantes 30 anos de atividade em 2012.

    Fábio, do WCHC, morreu tragicamente em um atropelamento poucos anos depois de me apresentar a MRR. O Rainbow Bar não demorou muito para fechar as portas. Flipside, Punk Planet e HeartattaCk deixaram de ser publicadas. A New Zabriskie Point também não existe mais.

    Mas a MaximumRockandRoll resiste ao tempo.