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Com o objetivo de resgatar algumas importantes entrevistas que realizei na última década e meia, estreia agora no blog a série "Caixa Preta Entrevista".

Nesse 'post' inaugural, republico, na íntegra, a conversa que tive com Mike Muir, líder do Suicidal Tendencies. A entrevista, realizada por telefone, foi capa da edição nº 67 da revista Rock Press (reprodução abaixo) e realizada em ocasião do festival Claro Q É Rock. O Suicidal, escalado para se apresentar no evento, terminou cancelando sua participação por conta de um problema de saúde do próprio Mike Muir.

Confira abaixo o resultado da conversa com esse sujeito que fez história no hardcore, no thrash metal e que ainda aprontou com os funks do Infectious Grooves.

Você vem produzindo muita música de uns anos pra cá.  Seja com o Suicidal Tendencies, com o Infectious Grooves ou com seu projeto solo, Cyco Miko.  Isso tem alguma relação com o fato de você ter montado seu próprio selo?
MIKE MUIR – O mais irônico nisso é que, se ainda estivéssemos na Sony, teríamos mais material lançado, pois, hoje, gravamos muita coisa que não lançamos.  Quando você está numa 'major', você precisa gravar discos e eles te providenciam estúdio, te pagam por isso.  Você tem que cumprir todo um processo.  E agora nós temos nosso próprio estúdio e, até porque não precisamos lançar nada, vamos lá tocar apenas pela curtição.  Às vezes convidamos nossos amigos para tocar conosco e gravamos algumas coisas, mas sabemos que não temos obrigação de lançar aquilo.  Mas se estivéssemos na Sony, eles viriam até nós e diriam: “Hey, o que está havendo? Vocês precisam lançar um disco, precisam sair em turnê!’.  E como eu passei por uma cirurgia nas costas há um ano e meio, isso, de certa forma, nos impediu de excursionar.  Então, eu pensei: “É  melhor não lançar nenhum disco agora”.  Por causa disso, tivemos a possibilidade de compor muita música e pela simples razão de que gostamos disso.  Hoje em dia, quando queremos ir para o estúdio, não temos que gastar nada, mas antes tinha alguém pagando por isso.  A música não nos custa nada agora e isso evita que a gente tenha aqueles compromissos negativos.  O lado bom é que podemos compor porque gostamos, sem ter a preocupação de lançar alguma coisa.  Por outro lado, temos que negociar (o lançamento dos discos) com cada país separadamente e gastamos bastante tempo cuidando de negócios, quando preferiríamos estar apenas tocando.  Mas no fim das contas, estamos mais satisfeitos agora.

É uma sensação melhor do que estar numa 'major'?
MIKE MUIR – Sim. E o mais engraçado é que ainda tenho muitos amigos que trabalham para gravadoras, e eles sempre dizem: “Quando quiser gravar um disco, me telefone” (risos).  E alguns deles me falam: “Poderíamos conseguir algo, mas não sei você ficaria satisfeito.  As coisas mudaram, houve essa mudança louca (na indústria)…”.  E também há outros que dizem: “Vamos arranjar um contrato e eu te garanto que há muita gente aqui que ama a banda.  Podemos ir a departamentos de promoção e falar com todas as pessoas que viram vocês ao vivo antes de trabalharem aqui”.  Esse tipo de coisa.  Para nós, isso volta àquela questão: seria ótimo para agradar o ego, porque saberíamos que nossa música estaria sendo ouvida por muito mais gente.  Mas, pessoalmente, prefiro estar na posição que estou: dando essa entrevista para você, indo tocar num festival em que muita gente não saberá quem somos e onde vamos encontrar gente louca que ama o Suicidal (risos) ou aqueles que ainda eram muito jovens da última vez que tocamos aí, há oito anos.  Acontece muitas vezes de pessoas irem ver uma banda que gostam e nem sabem quem somos.  E após do show muitos deles já estão gritando (entusiasmado): “Suicidal! Suicidal!”.  Depois disso, eles começam a mostrar a banda para os amigos e…  Foi assim que eu me liguei em música!  Quando meus amigos gostavam muito de uma banda, eles sempre me apresentavam à música dela.  Mas agora, com a MTV e as estações de rádio comerciais, há muita gente, especialmente nessa onda de pop-punk, que começa uma banda hoje e vende 1 milhão de discos amanhã.  Infelizmente, esse é o objetivo deles.  Essa não é a nossa praia.  Lançamos nosso primeiro disco há 22 anos e ainda existe gente que o escuta.  Isso é mais importante.  Há muitos álbuns que saíram em 1983 e venderam bem mais que o nosso, mas os quais ninguém nunca mais comprou.  Preferimos que a música dê o recado.

Nos anos 80 vocês não eram a única banda que misturava hardcore, punk e metal.  Havia todo um contexto em que isso acontecia, com grupos com Excel, D.R.I, Corrosion of Conformity e outros.  Você sente que, hoje em dia, o Suicidal está sozinho ou faz parte de algum cenário?
MIKE MUIR – Veja só, quando nosso primeiro disco saiu, uma revista de punk disse: “Dane-se! Isso é metal”.  Quando o segundo álbum foi lançado, a mesma revista afirmou que nosso disco de estréia, que eles haviam dito ser uma droga, tinha se tornado, do nada, um clássico do punk rock e que, agora sim, nós tínhamos virado metal!  Aí o terceiro saiu e publicaram algo como: “Os dois primeiros eram tão bons, mas dessa vez eles se transformaram pra valer numa banda de metal” (risos).  Havia toda essa situação naquela época, mas nós não dávamos a mínima.  Durante todo aquele período, vimos muita gente mudar.  Banda convictas de metal passaram a usar calças spandex e maquiagem.  Nós nunca mudamos a maneira que nos vestimos ou nosso jeito de fazer as coisas.  Você pode notar nossa influência em muitas bandas, mas boa parte disso se perde no caminho.  Então, acho que éramos uma banda muito viável e o que vai acontecer nesse festival (no Brasil), é que, após o show, muita gente vai pensar: “Como eu nunca tinha ouvido falar dessa banda antes?”.  E alguém vai virar pra eles e dizer: “O primeiro disco dos caras saiu há 22 anos”.  E eles vão se surpreender: “Sem chance!  Eles não podem estar ser tão velhos!” (risos).  Então, é por aí… Nós não somos os Rolling Stones, que só estão dando umas voltas por aí.  Nós ainda estamos detonando, botando pra quebrar!  Quando perdermos esse pique, não teremos mais nada a dizer.

Você falou sobre a influência que o Suicidal exerceu sobre outras bandas e realmente é fácil notar que há muita gente por aí imitando a música e o visual de vocês.  Houve algum momento específico em que você se deu conta de como tinha gente te copiando?
MIKE MUIR – Acho que isso aconteceu algumas vezes.  Pessoas que não nos conheciam, tentavam nos comparar com alguém: “Hey, por que vocês tentam se vestir de skatistas?”.  E eu respondia: “Cara, os skatistas nunca se vestiram assim”.  Meu irmão era skatista profissional (N.E.: Jim Muir) e eu fui a primeira pessoa a sair na capa da revista Thrasher sem ser skatista.  Se você olhar as edições antigas da revista, vai ver que, antes disso, todo mundo usava shorts colados e coisas do tipo.  Depois do Suicidal, é que começaram a usar roupas largas.  Mudou tudo.  E é interessante que há um ano, numa edição da Thrasher, saiu essa matéria “O que está na moda e o que está por fora” e o Suicidal estava “na moda” (risos).  E muitas das coisas que eles afirmaram estar “por fora”, são bem mais novas que o Suicidal!  A mesma coisa aconteceu 17 anos antes, com esse lance do que está ou não por dentro.  Eu não me importo em ser o cara do momento ou a novidade, mas poucas pessoas realmente conseguem ser vistas dessa forma há tanto tempo.  Muita gente pode dizer: “Ah, você só está tentando vender sua imagem”.  E eu respondo: “Quer saber?  Não diga isso.  Eu posso não gostar de tal banda, mas eles me disseram que eram glam até conhecerem o Suicidal” (risos).  Então, é interessante…nós não mudamos, mas muita gente mudou.  Obviamente ninguém se vestia como nós, mesmo porque as pessoas que usavam essas roupas não tocavam em bandas, não faziam música.  O que acontece é que muita gente se apropria do que considera 'cool', e a ironia disso é que nós mesmos nunca tentamos ser 'cool'.  Pelo contrário, nós sempre nos esforçamos para não ser 'cool'.

Falando de skate, qual é sua opinião sobre toda essa badalação em volta do documentário "Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou" e do longa-metragem "Reis de Dogtown"?  Você acha que retraram bem aquela época e lugar?
MIKE MUIR – Veja só, eu convivi com os velhos skatistas, e meu irmão era um dos Z-Boys originais e ainda é dono da Dogtown Skates. Jay Adams, um dos meus melhores amigos, é mostrado no filme de Hollywood ("Reis de Dogtown") indo a um show com um estilo Suicidal.  Na verdade, ele era um dos 'suicidal dudes' originais.  De certa forma, eles mostraram isso no filme.  Mas, da mesma maneira, há o retrato incorreto da mãe de Jay.  Ela era uma grande pessoa e uma tremenda batalhadora, mas não é assim que ela é mostrada no filme.  Isso me chateia porque eu a conhecia e ela, inclusive, faleceu recentemente.  Eles não precisavam ter feito aquilo, mas foi tudo escrito pelo Stacy (Peralta), que está no filme e também dirigiu o documentário ("Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou").  Ele era skatista e isso meio que....  Bem, o que eu quero dizer é que se fossem fazer um filme sobre os primeiros dias do Suicidal, eu não poderia participar, entendeu?  Como eu estava lá, teria que ser feito por outra pessoa.  E o Stacy, nesse caso, se colocou numa posição complicada.  Mesmo assim, muitas daquelas pessoas e o jeito como as coisas eram (em Venice), foram retratados corretamente.  Meu irmão e muitos outros skatistas daquela época terão (graças ao filme) uma visibilidade maior por algum tempo.  Também vai ter muita gente entrando nessa para ser 'cool', mas esses vão desaparecer em um ano.  E há muitas pessoas que normalmente não seriam expostas (ao skate) e que agora estão sendo.  É daí que sairão os Jay Adams da nova geração.  De certa forma, é o que acontece com a música.  Todas as vezes que tocamos em lugares que eram mainstream, demos uma oportunidade às pessoas de se identificarem conosco.  Mas é claro que, por outro lado, existe uma comercialização maciça, com a Nike e outras marcas.  Havendo mercado e coisas para vender, eles sempre estarão lá.  Infelizmente, esse é o mundo em que vivemos.


Interessante você citar isso, pois no livro do fotógrafo Glen E. Friedman, "Fuck You Heroes", ele confessa que o entusiasmo dele pela cena skate vem da época mais underground, em que as pessoas andavam em piscinas vazias na Califórnia.  Quando o skate virou um esporte profissional e com grandes patrocinadores, ele perdeu o interesse.  Você também acha que o espírito mudou?
MIKE MUIR – Há uma grande contradição aí, pois ele também está vendendo o livro.  Ele é o cara que diz que copyrights não interessam, mas quando alguém usa uma foto dele sem pagar, é processado.  Há uma grande contradição a respeito do Sr. Friedman.  Eu acho que isso é lamentável, porque ele tenta agir e dizer as coisas certas, saca?  E a realidade é a seguinte: ninguém jamais imaginaria que algum dia fariam um filme sobre aquela época.  Essa é a verdade.  Poderia acontecer com qualquer um que estivesse lá, como Stecyk, que na verdade era fotógrafo e escritor, e o trabalho dele era brilhante.  E essa é outra ironia, pois como a cena era muito pequena, ninguém se dava conta de quão talentoso ele era.  E a forma como ele foi retratado no filme ("Reis de Dogtown") foi terrível.  Eis um cara que pode usar o nome de Dogtown acima de todo o resto.  Eu li um artigo que Stecyk escreveu sobre Dogtown e te faz sentir uma vontade incrível de ter vivido naquela época.  E eu acho que Stecyk provavelmente tem mais a ver com tudo aquilo (que Glen. E Friedman).  Ele poderia ter trabalhado em qualquer coisa e ficado realmente rico, mas ele preferiu manter-se fiel ao lance em que ele acredita.  Mas há muita gente que adora dizer: “Eu fui a primeira pessoa a entrar na cena e a primeira a sair”. É o fator 'cool', saca?  E além do mais, já naquela época, Glen andava de Mercedes em todos aqueles lugares, portanto…

Voltando ao Suicidal.  É perceptível que em "Freedumb" vocês resgataram uma sonoridade mais crua, mais old school, porém, no álbum seguinte, "Free Your Soul and Save my Mind", já se pode detectar algumas músicas meio “funkeadas”.  Você já foi criticado por não dar ao público o que ele quer?
MIKE MUIR – Sempre!  Tem aquela revista que comentei com você antes e também a Spin, que é uma grande publicação americana, e sempre que esse pessoal resenhava nossos discos, dizia que eram horríveis.  Só que aí, quando saía um novo álbum, eles escreviam: “Que pena! Esse disco é uma droga e o anterior era tão legal!”.  Ou seja, o disco que eles diziam ser “tão legal”, era o mesmo que eles tinham taxado anteriormente de “horrível”.  Quando nosso primeiro álbum saiu, todos os punks reclamaram: “Ah, é muito metal!”.  E aí, quando gravamos o seguinte, eles disseram: “Que saco! O primeiro era clássico e agora eles viraram metal!”.  Sempre foi assim e…

…você nem se importa mais.
MIKE MUIR – Na verdade, eu nunca me importei.  Tenho um amigo, e é engraçado como às vezes a gente esquece dessas coisas, que a primeira vez que esteve na minha casa viu um quadro com vários recortes de críticas dizendo todo tipo de merda sobre nós.  E ele me perguntou: “Cara, por que você colocou isso na parede?!  Todas essas críticas falam mal de vocês!”.  E eu respondi: “Porque eu não me importo! Eu não ligo para o que as pessoas dizem” (risos).  Ele ficou meio assustado, mas, tempos depois, me falou que na época não tinha entendido aquilo, e que só depois percebeu que eu realmente não dou a mínima.  Se você não se importar, não te afeta.  São as pessoas que dão força às palavras.  Há zilhões de bandas que surgiram e desapareceram desde que começamos, de todos os estilos, mas nenhuma como o Suicidal.  Isso é mais importante para mim.  E outra coisa que percebi é que há muita gente que não entende direito a música que fazemos, então querem nos atacar por outros motivos, como a mistura racial da banda, a forma como nos vestimos e tudo o que você possa imaginar. Deixa pra lá.  Nós levamos isso para o palco.  Agora vamos para o Brasil e deixaremos as pessoas decidirem o que acham de nós.

A que você credita tantas mudanças de formação no Suicidal Tendencies?
MIKE MUIR – Isso é interessante.  Muitas vezes as pessoas não compreendem, mas há grupos que perdem apenas um integrante e já não conseguem continuar.  E muitas pessoas passaram pelo Suicidal, antes mesmo de gravarmos nosso primeiro disco.  Se não tivéssemos feito essas mudanças, talvez não houvesse sequer o primeiro disco.  E da mesma forma, se não fosse por isso, não teria havido um segundo disco.  Acho que tudo depende da situação e, para ser sincero, algumas pessoas mudam.  Não que eu tenha algo contra mudar, mas às vezes não é compatível, musical ou pessoalmente.  Às vezes acontecem coisas na vida que fazem com que as pessoas deixem de ter os mesmos objetivos. Pode ser tão difícil arranjar um músico quanto uma namorada. Vai ter sempre gente boa e ruim.  O que não dá é para viver o tempo todo discutindo com alguém.  Meus pais são casados há 40 anos e nunca brigaram.  Então eu percebi desde cedo que jamais me casaria com a primeira pessoa que conhecesse e sim, com aquela fosse minha melhor amiga.

Como você deve imaginar, os dois últimos álbuns de vocês não são tão conhecidos por aqui quanto aqueles que vocês gravaram pela Sony, especialmente "Art of Rebellion", que teve dois hits nas rádios do Brasil.  Baseado nisso, você pensa em preparar um set-list especial para essa ocasião?
MIKE MUIR – Essa é uma coisa curiosa e me leva de volta a outra pergunta que você fez.  Há três anos, uma jornalista veio da Inglaterra para um de nossos shows.  Depois de tocar, eu fui até o público, dei umas voltas e então me dirigi ao camarim para dar a entrevista.  Quando entrei, ela estava dizendo a nosso empresário: “Nossa, eu nunca vi nada assim!”.  E eu não sabia do que ela estava falando.  Até que percebi o motivo: eu estava ali de pé e vieram uns skatistas me cumprimentar.  “Cara, você são a melhor banda de skate rock que existe!”.  E depois, veio um grupo de garotos punks e eles disseram: “Vocês são a melhor banda de punk rock que existe!”.  E, finalmente, apareceu um cara de cabelo comprido: “Vocês são a melhor banda de metal que existe!” (risos).  Ou seja, se você se define de certo jeito, então é isso que você se torna.  E, nesse aspecto, cada um nos enxergava do seu jeito.  Foi isso que a jornalista disse nunca ter visto isso antes.  Ou seja. ela estava habituada a todas essas divisões (de tribos), mas nunca tinha visto as divisões caírem. E quanto a nós, jamais fomos uma banda que tenta agradar.  Antes de tocar no Brasil, vamos participar de um festival de três dias na Colômbia e eles nos disseram que seremos a atração principal do dia do metal.  Duas semanas depois desses shows, vamos fechar um evento no Olympic Auditorium, em Los Angeles, onde tocarão Germs, Dead Kennedys, Fear e todas essas bandas punks de verdade.  E o lance do Brasil será completamente diferente do resto.  Não vamos sentar para combinar o que tocaremos, pois o Suicidal é diferente de qualquer outra banda.  Estamos aqui para provar.  Claro que sabemos que quando se está numa 'major', muitas coisas são mais fáceis e isso é legal, mas na hora em que estamos em cima do palco, tocando para gente que não nos conhece, a responsabilidade é sempre nossa.  Não tem ligação com o DJ da rádio, isso ou aquilo.  Tem a ver com pessoas nos assistindo e julgando aquele momento.  Ainda gostamos da maioria das músicas que escrevemos e do que tocou nas rádios, mas, tipo, vai haver alguém (que foi ao show) que dirá: “Você precisa ouvir esses caras!”.  E para nós, esses shows também são uma grande oportunidade de tocar para pessoas que gostam da banda e que poderão nos ver ao vivo outra vez, lembrando porque gostam tanto de nós.  Elas terão a chance de levar seus irmãos e primos mais jovens ao show e, quem sabe, mostrar a eles porque acham que nossa música é melhor.  Pretendemos voltar ao Brasil uns seis meses após esse festival para fazermos um show só nosso e vocês podem contar com isso.  Eu descobri que quando você tem um sucesso nas rádios ao redor do mundo, pode atingir milhões e milhões de pessoas, e isso não tem preço.  Mas quer saber?  Eu me lembro de uns três momentos em que ouvi determinado disco pela primeira vez e nunca mais me esquecerei da sensação.  É essa a nossa onda…

Pela sua resposta, dá para antever um grande show.
MIKE MUIR – Um grande show, não: nós tentamos fazer o melhor show!  É por isso que estamos indo (para o festival).  Acho que temos algo a oferecer que os outros não têm.  Estaremos aí pela fidelidade a quem nos apoiou durante todos esses anos, e também pela oportunidade de mostrar a um público novo porque certas pessoas nos têm em alta consideração.  Como meu pai diz: toque o coração das pessoas.  É isso que queremos fazer.
Keith Richards está no interior de uma choupana com jeitão de New Orleans. A sala é decorada com uma porção de caveirinhas. Na vitrola, por trás de uma névoa azulada de cigarros, rola um disco de blues. Acredite: os 80 minutos seguintes de "Keith Richards: Under the Influence" vão passar voando.

O documentário dirigido pelo especialista Morgan Neville é um presente para todos os fãs de música, em especial aqueles que nutrem paixão por instrumentos, ritmos de raiz e estúdios de gravação. O filme, produzido pelo Netflix e disponível para os assinantes no Brasil, não é uma biografia de Keef ou tampouco uma exaltação de sua 'persona' - aquele rockeiro excêntrico que fuma um baseado e chacoalha uma garrafa de Jack Daniel's no meio da rua, dizendo palavrões porque a 'liquor store' mais próxima já está fechada. Nada disso: "Under the Influence" é uma reverência ao músico Keith Richards. Um cara que pode discorrer por horas a fio sobre um tipo específico de afinação ou explicar, de seu jeito singular, como determinado arranjo remete ao blues primitivo de tal artista.

Keith Richards é um grande personagem do rock'n'roll, mas um tipo que só está realmente em casa e à vontade quando tem um instrumento à mão e, vá lá, um cigarrinho metido entre os lábios. Neste filme você verá Richards tocando flamenco, tocando piano e cantando blues, mandando ver no contrabaixo e desfilando seu estilo através de uma cabulosíssima coleção de violões e guitarras, com peças tão antigas quanto um item de 1928. O stone, por trás do visual 'cool', com cabelos desgrenhados, óculos escuros, bandana e blazer de couro de cobra, é músico até a medula.


Se você já teve o prazer de ler a belíssima autobiografia "Vida" (escrevi sobre o livro aqui), vai se deliciar com algumas das mesmas histórias, mas agora contadas oralmente pelo autor e de maneira totalmente informal. Richards começa explicando, por ocasião do lançamento de seu disco solo, "Crosseyed Heart", como a música americana tradicional lhe enfeitiçou na já distante Inglaterra do pós-guerra. Cita as audições proporcionadas por sua mãe, uma grande fã de música que caçava as poucas frequências de rádio disponíveis na época. E também os chiados das estações piratas inglesas, por meio das quais descobriu o country norte-americano.

A longa conversa acontece em estúdios, às vezes ao lado do baterista e produtor Steve Jordan, e continua no interior de automóveis de passagem por cidades caras ao guitarrista: Nova York, Chicago e Nashville. Keith é um malaco com estofo intelectual. Sua prosa mescla grandes sacadas sobre a vida com comentários absolutamente rigorosos sobre o estado das coisas em determinado período histórico. Por trás dos vícios e dos excessos que ele tanto cultivou, existia uma mente afiada captando tudo ao seu redor. Compreendeu o sul segregado da América nos anos 60, as extravagâncias e o lado barra-pesada dos cantores country e a efervescência cultural da Jamaica dos início dos 70's, onde morou.

Algumas passagens, sozinhas, já valeriam o filme. É sensacional ver Keith Richards e Buddy Guy sorvendo um whisky de milho enquanto disputam uma partida de sinuca e relembram como os Stones, na década de 60, ajudaram a ressuscitar os esquecidos cantores de blues. Ou então as imagens de arquivo do esporro clássico que Richards levou de Chuck Berry durante os ensaios para o show que virou o filme "Hail! Hail! Rock'n'Roll". E ainda uma breve visita à casa onde viveu o monstro do blues Muddy Waters e na qual Keef conta ter saído carregado de uma festa de arromba para terminar a noite na casa de outro mito, mister Howlin' Wolf.

E para os Stones maníacos, recomendo, enquanto não chegam os shows no Brasil, uma espiada nos trechos em que Richards explica como o grupo compôs e arranjou os clássicos "Street Fighting Man" e "Sympathy for the Devil" - ambos devidamente documentados em película, sendo o último com imagens extraídas do cultuado filme "One Plus One", do cineasta Jean-Luc Godard.

Longa vida, Keith Richards. Que viva mais cem anos.

LEIA TAMBÉM: Rolling Stones: 50 anos em 5 regravações
E AINDA: As Mil Vidas de Keith Richards



Trailer de "Keith Richards: Under the Influence". Bola dentro do Netflix


Um ótimo pretexto para compartilhar "Struggle", sensacional canção do disco "Talk is Cheap" ;)
Na semana em que completam 50 anos de carreira, daria para falar muito sobre os Rolling Stones. Inclusive, e principalmente, sobre o evento quase surreal que é manter uma banda de rock ativa por meio século.

Lembre-se: os Stones são contemporâneos dos Beatles e, seja como testemunhas ou como protagonistas, passaram por todas as metamorfoses musicais das últimas cinco décadas.

Poderia falar também sobre minhas lembranças de infância com os clipes de "Start Me Up" e "Emotional Rescue", da história bizarra de um amigo que salvou Mick Taylor de ser atropelado por um ônibus em São Paulo (sim, aconteceu!) ou defender a subestimada obra dos Stones nos anos 80. O assunto dá caldo.

Parece mais divertido, no entanto, medir a influência do songwriting de Jagger e Richards, os Glimmer Twins, na música pop. Se foram extremamente impactados pela música negra norteamericana, os ingleses devolveram a dose sendo regravados pelos principais baluartes da soul music - de Tina Turner a Marvin Gaye, de Otis Redding a Aretha Franklin.

Mas quanto mais estranhas e virulentas as regravações, melhor o resultado. Ao longo dos últimos 30 anos, o material dos Rolling Stones foi simplesmente virado do avesso.

Abaixo, uma pequena lista que resume 50 anos de carreira em 5 covers sensacionais:



Sympathy for the Devil

LAIBACH
(1990)
Dois anos antes de "coverizar" esse clássico dos Stones, a banda da antiga Iugoslávia -atual Slovenia- havia regravado integralmente o álbum "Let it Be", dos Beatles. O resultado aqui é tão incrível quanto: ritmos marciais sob uma ambientação de industrial music. O suíngue dos ingleses é transformado em gelo no Leste Europeu. De arrepiar.

Under My Thumb
MINISTRY
(2008)

O Social Distortion regravou "Under My Thumb" duas vezes em estúdio. A versão de 1996 é, provavelmente, a melhor gravação que existe dessa canção. Mas não a mais original. O velhaco Al Jourgensen misturou tecladinhos oitentistas com guitarras distorcidas e sua voz cavernosa para criar um hit que faria sucesso nas pistas de dança do inferno.


I'm Free

SOUP DRAGONS
(1990)
É a canção que fecha a versão inglesa do álbum "Out of Our Heads", de 1965. Na América, a faixa foi limada do LP, mas ganhou sobrevida em 1990, quando virou o hit solitário da banda britânica Soup Dragons. Transformada num pop dançante, com slide guitars, wah-wah, coral soul e uma incursão pelo raggamuffin. Ganhou as paradas e tocou até cansar nas rádios brasileiras. É a cara do início dos 90's.



(I Can't Get No) Satisfaction

DEVO
(1978)
Quem ouve a versão absolutamente genial do Devo para "Satisfaction" não poderia imaginar que no futuro o riif feérico de Keith Richards seria usurpado pela publicidade para vender todo tipo de porcaria. Mark Mothersbaugh, no auge, implode as convenções e transforma o clássico sessentista numa pérola da maluquice funk-new wave. Um dos melhores covers de qualquer coisa em qualquer época.



Honky Tonk Women
THE POGUES
(1988)
Canção escrita por Mick e Keef numa fazenda do Mato Grosso (!) em fins dos anos 60. Richards lembra que quando dava descarga no banheiro do lugar, dezenas de sapos pretos subiam boiando na água... O ambiente influenciou para que a música soasse como um country à la Hank Williams, mas mudou com os arranjos do recém-chegado Mick Taylor. A versão do Pogues, por sua vez, traz uma mistura do que eles sempre fizeram de melhor: irish folk com pegada punk. Na versão de estúdio, quem canta é o guitarrista Spider Stacy. Já naquela época, o lendário Shane MacGowan estava em condições lamentáveis para gravar.


Keith Richards recebeu alardeados 7 milhões de dólares para escrever a autobiografia Life (Vida, na edição brasileira). Se o valor é astronômico, o título da obra, no singular, é modesto. Keef viveu muitas vidas numa só.

Viveu uma infância simplória em Dartford, pantonoso subúrbio de Londres, em tempos de reconstrução pós-guerra. Na mesma existência, virou protagonista numa Inglaterra enlouquecida pelo rock'n'roll e a beatlemania. Ficou milionário, tornou-se um notório junkie, ganhou status de ícone e é um guitarrista cultuado.

Mas também constituiu loucamente uma família com Anita Pallenberg, ex de Brian Jones, então viciada em heroína e ao lado de quem perdeu um filho de poucos meses em circunstâncias mal explicadas.

De todas as facetas de Keith, talvez a mais predominante seja mesmo a do músico. O cara discorre durante páginas sobre determinado riff ou acorde com incrível paixão. Explica como demorou anos para descobrir como tocar corretamente tal e tal lick de Jimmy Reed ou Chuck Berry. Um workshop quase gratuito para guitarristas.

Keef revela, ainda, como ter optado por uma guitarra com 5 cordas e adotado a afinação aberta transformou-se em sua assinatura musical. Fala também das histórias por trás da composição de riffs monstruosos como "Jumpin' Jack Flash" que, segundo ele, é mais ou menos "Satisfaction" tocada de trás pra frente. E não é?


No calhamaço de mais de 600 páginas, há causos e revelações às pencas. Da famosíssima sessão de gravação do clássico Exile on Main St. até os incontáveis flertes com a morte. Da vida glamourosa com temporadas na costa da França, na Roma do CineCittà e na misteriosa Marrakech, até lembranças do massacre no festival de Altamont, evento que, metaforicamente, e ao lado dos assassinatos Tate-LaBianca, iniciou o processo de distopia que desembocou nos anos 70.

A década, aliás, é tratada por Keith como um verdadeiro buraco negro em que foi tragado pelo vício frenético em heroína. O guitarrista não se gaba da fama de junkie, mas explica como seu modus operandi e o uso de drogas farmacêuticas de ótima procedência, como a cocaína da Merck, evitaram um desastre maior. A carcaça resistiu, mas idas ao tribunal foram muitas -algumas realmente hilárias-, e também deprimentes momentos de sarjeta.

Nas memórias de Richards, Charlie Watts é sempre lembrado pela elegância no trato e no ofício de baterista. Brian Jones era um causador de problemas e Bill Wyman, quase um anônimo. Mick Jagger, alma-gêmea de Keith, claro, é merecedor de muitos parágrafos ao longo de quatro décadas de reminiscências: do amigo inseparável e possessivo a um pop star distante e deslumbrado com o jet-set.

O trânsito livre pelo mundo da música rendeu dedicadas incursões na cultura rasta jamaicana, viagens de ácido com John Lennon, uma tarde de jam session com Jerry Lee Lewis, namoro com Ronnie Spector, um histórico encontro com Chuck Berry e seu esquecido baterista, e discos solo com a charmosa banda de apoio X-Pensive Winos.

Por trás das excentricidades, Richards revela-se um homem culto e com uma afiada, ainda que singular, visão de mundo. E viveu, mas viveu muito.


Os puristas que me desculpem: toda a maestria de Keith Richards em "Rock and a Hard Place"