ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador Red Hot Chili Peppers. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Red Hot Chili Peppers. Mostrar todas as postagens

Há anos, muito anos, nem sei quantos, os Red Hot Chili Peppers tornaram-se uma das bandas de rock mais chatas do universo. Tirante uma ou outra boa canção, vinham oferecendo sempre mais do mesmo: baladas hippies para animar o luau de universitários maconheiros e faixas mais funkeadas, mas com os raps sem sentido de Anthony Kiedis e seus "scaba-dooba-California". Um horror.

Mas alguma coisa mudou em "The Getaway", segundo disco desde a segunda partida do guitarrista John Frusciante e o primeiro em 25 anos sem o produtor Rick Rubin, que apadrinhou a banda em "Mother's Milk", de 1989, e os ajudou a dominar as paradas a partir de 1991, com "Blood Sugar Sex Magik".

Produzido pelo competente Danger Mouse, um dos magos de estúdio desse milênio, e mixado por Nigel Godrich, conhecido por seu trabalho com o Radiohead, o 11º álbum do RHCP é quase um sopro de ar fresco.

Os arranjos são mais ricos e complexos, com uso de piano, backing vocals femininos e as bonitas texturas de guitarra de Josh Klinghoffer. E o melhor: as baladas de acampamento dão lugar agora a canções mais sóbrias e adultas, quase atmosféricas, como as dilacerantes "The Hunter" e "Dreams of a Samurai".

Kiedis também abdicou, para seu próprio bem, de boa parte dos tiques que o fizeram vítima de milhares de memes e trollagens pela Internet afora. Mostra que está com a voz em dia e maneirando nos "hey yos" e nos raps. Mas o cara não é de ferro e em menos de dois minutos de álbum, já manda sua primeira menção à dourada Califórnia. Faz parte.

"The Getaway" tem altos e baixos, mas é um disco uniforme e que acerta na maioria de suas escolhas. Oferece boas, e às vezes ótimas, canções pop ("Dark Necessities", "Go Robot" e a faixa título), e também temas que sinalizam para o distante passado do grupo, ainda que com nova roupagem. São os casos do funk torto "Detroit" e "This Ticonderoga", com guitarras pesadas e um refrão bobinho e inofensivo.

O toque autoral de Brian Burton (aka Danger Mouse) dá as caras em cinco canções coescritas com o RHCP. Há toques de psicodelia, trip hop e electronica; marcas registradas do produtor que assinou, ao lado do italiano Daniele Luppi, um dos melhores álbuns dos últimos anos: "Rome", de 2011.
 
Se sob a batuta de Rick Rubin os Chili Peppers formataram a porralouquice de sua música, convertendo-a num híbrido acessível para o consumo das massas, e chegando inevitavelmente à exaustão, eles agora parecem dispostos a se reinventar. E "The Getaway" é um bom começo.

Na semana passada, o canal GNT exibiu "Pais e Punks", documentário que revela como alguns integrantes de bandas punk lidam com a paternidade e seus efeitos.

O tema é quente. Há alguns anos, a MaximumRockandRoll dedicou uma edição especial a respeito. A ideia era entender como um punk rocker pode se tornar um pai de família sem repetir os padrões impostos socialmente.

O documentário esbarra nessa abordagem, mas ao invés de veganos que alimentam a prole com dietas radicais ou punks ortodoxos que vivem numa bolha alheia ao mundo do consumo, a diretora Andrea Blaugrund Nevins entrevistou membros de bandas conhecidas e que vivem de música.

Nesse sentido, foi bastante acertada a escolha de Jim Lindberg, vocalista do Pennywise, como protagonista do filme. Pai de três filhas, Lindberg passa meses em turnê para sustentar a família e vive num eterno dilema para conciliar seus papeis.

O empresário da banda e o idealizador do festival itinerante Warped Tour não vêem conflito na situação. É tudo business. "Não vejo porque o Pennywise não possa estar aí daqui a 10 ou 20 anos. Se continuarem levando a carreira a sério, trabalhando duro e entretendo o público, vão durar muito tempo", diz Andy Somers, o agente.

Mas há dois temas espinhosos pelo caminho: manter relações familiares quando se passa cinco meses por ano longe de casa e preservar o espírito punk tocando toda noite por dinheiro.

Jim Lindberg não aguenta uma coisa nem outra. Confessa que trocaria a adulação e a vida na estrada por estar ao lado das filhas. E que pinta o cabelo e o cavanhaque pra que a molecada skatista não perceba que o vocalista do Pennywise é um coroa.

Vários outros entrevistados deixam as máscaras caírem. 

Casos de Tony Adolescent, que diz não ter mais vigor físico para aguentar o ritmo das apresentações do Adolescents. De Fat Mike, do NOFX, que revela encher a cara antes de subir no palco. E de Duane Peters, o porra-louca do US Bombs, que confessa sentir-se um palhaço de circo tocando a mesma música toda noite. Pesado.

Todos fazem isso para sustentar seus filhos, o que pode frustar a utopia punk de manter a música e a mensagem puras. Talvez seja apenas o tipo de entrevistado escolhido para o filme. Ou talvez seja apenas a realidade.

Mas é no segmento final de "The Other F Word" -o título original brinca com o "f" de "family" em lugar "fuck"- que o bicho pega no lado emocional.

Flea, o milionário baixista do Red Hot Chili Peppers e punk de ocasião, que num passado longíquo tocou no Fear, fala sério como poucas vezes. Enxuga as lágrimas relembrando sua família disfuncional e se comove ao afirmar que ter sido pai lhe deu uma segunda vida.

Tony Adolescent também remexe nas más experiências da infância e conta como jamais superou o trauma de ter perdido um filho às vésperas do nascimento. Até Duane Peters, radical skatista da primeira geração e um dos vocalistas mais alucinados do punk rock, chora de soluçar ao lembrar do filho morto num trágico acidente automobilístico.

É fácil ligar os pontos e entender porque vários desses músicos, filhos de pais alcoólatras e mães fanáticas por religião, encontraram no punk rock sua válvula de escape. E mais ainda: porque se tornaram pais amorosos e que não querem destruir a infância de suas crianças. 

Alguns se tornaram pais de família quase convencionais. Outros, como Lars Frederiksen, do Rancid, não são mais do que moleques crescidos. Poucos, como Ron Reyes, ex-Black Flag, largaram tudo para trás. Mas todos foram profundamente afetados por esse terremoto chamado paternidade.

Como reflete Jim Lindberg, após largar o Pennywise para assumir o papel integral de pai: talvez o jeito de mudar o mundo seja educando melhor as crianças.

Faz sentido.

Não consigo imaginar um cenário em que a música seja mais mal tratada que um festival como o Rock in Rio. É tudo fake: conceito, público, cobertura midíatica e, em certa medida, os próprios artistas.

Reclamar que o festival é mais pop que rock virou lugar comum. Mas quem, com um pingo de juízo, esperava por uma curadoria séria num negócio milionário como esse?

Faz todo o sentido a presença de gente como Rihanna, Shakira e Katy Perry num evento em que a música só parece atrapalhar. Sim, porque o RIR tem roda gigante, tirolesa e até salão de beleza, no que está mui conectado à relação da juventude com a música.

Em 1985, quando eu tinha 14 anos incompletos, já questionava as presenças de Elba Ramalho e Ivan Lins no festival. Um quarto de século depois, a queixa por "mais rock" soa datada.

E há outra coisa que incrivelmente não mudou: o tratamento global para algo tão assimilado e estabelecido como o rock'n'roll. Os "rockeiros" são mostrados em sua faceta mais gloriosamente débil, o que apenas justifica o empacotamento da festa como a diversão segura que de fato é.

O setor VIP, essa coisa tão brasileira, também pede passagem. Famosos saem do armário ao vivo: uma atriz jura que é fã dos Chili Peppers desde criancinha; outra confessa que gosta mesmo é de samba, mas que o Sepultura tem uma "guitarra gostosa". Sério.

O deserto de bandas brasileiras minimamente relevantes assusta. É como se não tivesse surgido ninguém em décadas para suceder a geração 80. Um modorrento encontro de Titãs e Paralamas manda o recado, enquanto o Capital Inicial, em sua incansável cantilena sobre o rock de Brasília, e com um Dinho Ouro Preto tão messiânico quanto gagá, bate os últimos pregos no caixão.

O line-up do festival em seu primeiro final de semana é deliciosamente confuso. O Snow Patrol encara 100 mil pessoas armado de um hit solitário e derrapa na introdução da faixa. "Isso é bastante incomum, mas pelo menos você vão ter os Chili Peppers depois", lamentou o vocalista com algum humor.

Só que o quarteto angeleno aparece sem brilho, numa performance que foi repetidamente chamada de "arrasadora" pelo jornalismo silvícola. Anthony Kiedis, zilionário, não se constrange em fazer um merchan safado para a Brahma. Já Flea, mais discreto, se restringe a homenagear o país com a camisa da Seleção. Bastante original.

Ao final de um set list mais frio que quente, outra homenagem, dessa vez ao falecido filho da global Cissa Guimarães. Um inocente e bem orquestrado aperitivo para os megaeventos internacionais que se avizinham e que terão as mãos e os braços dos Marinho, de Nizan Guanaes e companhia. Vá se preparando.

A famosa e concorrida "noite do metal", que começou em 1985, com AC/DC, Ozzy Osbourne e outros, é onde, dizem, está o rock que dá nome ao festival. Mas a sensação de artificialidade permanece. O que justifica a histeria do público pelo Motörhead, que toca todo ano no Brasil e que há apenas 6 meses excursionava por aqui? Talvez, como Zeca Camargo, os metaleiros de ocasião acreditavam tratar-se da primeira vez da banda em nosso país.

Uma falha no amplificador de Lemmy é espertamente escondida na edição ao vivo, enquanto Phil Campbell enche lingüiça. Na saída do palco, o cinegrafista encurrala Lemmy, que é flagrado discutindo com um técnico. Cabe a Campbell enxotar, ao vivo, o cameraman abelhudo. Corta para o estúdio do Multishow, e o baterista Mikkey Dee lamenta as falhas técnicas. As apresentadoras se surpreendem: "Olha, ele tá falando de alguns probleminhas, mas a gente nem percebeu, viu".

As bobagens se sucedem. "Os caras do Metallica são uns fofos, pais de família e que estão sossegados na casinha deles lá na Califórnia". Aham. E a colega da apresentadora retruca: "Nossa, e já tem 12 anos que eles não tocam no Brasil, né?". Que tal 2010?

Teipes com os destaques do dia tapam buraco na transmissão ao vivo do tal Palco Mundo. O ótimo Mondo Cane -possivelmente a grande atração artística do festival- é mostrado em 20 segundos, nos quais Mike Patton nada canta. Sensibilidade zero. Já o Korzus e uma coisa chamada "punk metal all stars" -que tinha até East Bay Ray, veja só- foi privilegiado com uma música exibida na íntegra e na qual o vocalista puxa um côro do hino nacional. Mas hein?

Slipknot é uma das encrencas que sobrou do enfadonho nu metal. Mesmo assim, e estranhamente, eles trazem algo que faltava ao festival: esculacho. No meio de tanta brodagem e entretenimento seguro, alguns riffs emprestados do death metal, os dedos médios em riste e as fantasias escrotas cumprem o papel de avacalhar com a assepsia geral. Pena que a música seja indicada unicamente a rockeiros imberbes.

Sobrou ao Metallica, ex-banda em atividade, surpreendente momento de lucidez. James Hetfield parece ter descoberto, ainda que tardiamente, que não precisa morrer com os cacoetes vocais da década de 90 e que é melhor respeitar seus clássicos do que assassiná-los.

Basta dizer que, das 5 primeiras canções do show, 4 foram tiradas de Ride the Lightning, disco anterior ao primeiro Rock in Rio, o que, por si só, já diz muita coisa.

No meio do set, uma improvável execução da instrumental "Orion" faz a banda ressurgir dos mortos. Um dos poucos momentos em que o RIR mostrado na TV valeu à pena.


Obra do acaso: Metallica surpreende no Rock in Rio
Amada por muitos, odiada por outros tantos, a balada "Under the Bridge", do Red Hot Chili Peppers, dominou as paradas entre 1991-92.

O sucesso da canção veio à reboque de um video-clipe dirigido pelo cultuado cineasta Gus Van Sant e exibido em alta rotação na MTV. No video, o vocalista Anthony Kiedis zanzava pelas ruas de Los Angeles usando uma camiseta do D.O.A.

A informação, quase subliminar para a massa que acendia isqueiros e outros artefatos ao som da lassidão dos Chili Peppers, não passou batida para quem sabia do retorno da banda punk canadense.

Explica-se: em 1992, quando "Under the Bridge" bombava, o D.O.A. retomava discretamente suas atividades após uma aposentadoria relâmpago.

Em 1990, a banda anunciou que iria se separar e, à convite do já falecido Dirk Dirksen, ex-road manager dos Doors e agitador cultural de San Francisco, realizou uma turnê de despedida que culminou com um show gravado e lançado no DVD The End. O show tem, inclusive, uma energética participação de Jello Biafra, que canta duas músicas do disco Last Scream of the Missing Neighbors -gravado em parceria com o D.O.A.-, entre as quais a sombria "Full Metal Jackoff", com seus 17 minutos de paranóia oitentista.

Naqueles tempos, eu assinava a Maximumrockandroll, o lendário fanzine punk de San Francisco, e me deparei com um curioso anúncio. O D.O.A. voltava à carga divulgando seu último lançamento, o disco 13 Flavours of Doom, mas, sutilmente, mandava o recado: "Queremos tocar na América do Sul!".

A surpresa era ainda maior porque, até aquela época, poucas bandas punks estrangeiras tinham tocado por aqui. Me ocorrem os caóticos shows de Ramones e Toy Dolls no fim dos 80's, com batalhas campais e pessoas esfaqueadas. E apenas na metade da década seguinte, três shows incendiários do Agnostic Front para 200 pessoas por noite no mitológico Black Jack Bar.

Houve outros, claro, mas eventos tão espaçados que podem ser mapeados pela memória. Já a desejada turnê sulamericana do D.O.A. nunca chegou a acontecer.

Mas os punks de Vancouver continuam vivos e bem. Pelo menos Joey Keithley. Desde 1992, lançaram nada menos que 8 álbuns de estúdio. Um dos últimos é Northern Avenger, de 2008, produzido por ninguém menos que Bob Rock, o homem por trás do multiplatinado black album do Metallica.

Foi Bob Rock, aliás, que cunhou o termo "northern avenger" (vingadora do norte) para se referir à lendária Gibson SG de Joey Shithead. O apelido pegou e virou o título do disco que, diga-se, é inspirado e muito bem produzido.

A indefectível voz de Shithead canta refrões que são um convite à baderna: de sacadas bem-humoradas ("Golden State") a temas recorrentes do ethos punk ("Police Brutality" e "This Machine Kills Fascists"), passando por reminiscências de uma vida no underground ("Still a Punk").

Para quem já leu a autobiografia de Joey -"I, Shithead: A Life in Punk"-, não é surpresa a inclusão de um reggae ("Poor Poor Boy") e uma regravação do Creedence Clearwater Revival ("Who Will Stop the Rain"). O canadense conta no livro como uma viagem à Jamaica, quando criança, o tornou um admirador do reggae original e porque, para ele, a folk music e o punk são "filosoficamente próximos".

O livro, aliás, traz dezenas de histórias imperdíveis, como, por exemplo, um encontro surreal com David Lee Roth, no auge do Van Halen, ou a revelação de que Kurt Cobain e Courtney Love teriam se conhecido num show do D.O.A...

Mas a boa notícia mesmo é que Northern Avenger, o disco, foi lançado no Brasil. E o selo Red Star quer, ainda por cima, materializar um antigo sonho do D.O.A. e trazer os caras para a América do Sul.

Joey Shithead já disse que topa.

-----------------------------

Atualização (30/08/11)
: turnê do D.O.A. no Brasil confirmada!

Apresentação em SP: 19/11/11
Local: Hangar 110
Com shows de Olho Seco e Agrotóxico
Ingressos: 1º lote: R$ 30,00; 2º lote: R$ 40,00; Porta: R$ 50,00

• Ingressos online através do Ticket Brasil: www.ticketbrasil.com.br
• Outras informações: (11) 3229-7442


D.O.A. bota pra quebrar em "Human Bomb", clipe promocional de Northern Avenger.


E aqui, a sensacional versão de 1982 para "War", hit original do soulman de Detroit Edwin Starr.