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Passei as últimas horas ouvindo LPs. De Run-DMC a Trio Mocotó, passando por Black Sabbath, Meat Puppets e o chato de galochas Giorgio Moroder.

Eu não ouvia um LP há anos. E a razão para isso é banal: apreciar os velhos discos de vinil dá trabalho.

Quando o fonocaptador -popular agulha- do meu toca-discos foi para o espaço, encostei o aparelho e mantive meus ouvidos entretidos pelas centenas de CDs e os muitos gigabytes de MP3.

Você não compra uma agulha de vitrola na loja da esquina, afinal de contas.

Mas confesso que, de vez em quando, eu olhava para o toca-discos empoeirado -e não é modo de dizer- e sentia certa culpa. O aparelho é antigo, claro, mas supimpa: um Gradiente semiautomático S-126 com tração por correia (belt drive). Não é o supra-sumo das pick-ups, longe disso, mas também não faz feio.

Acontece que botar o bicho pra funcionar não era exatamente uma prioridade. Por isso, a nova agulha da LeSon chegou com apenas cinco anos de atraso.

Comprei a substituta na manhã deste sábado numa loja bacana da Santa Ifigênia (onde mais?) por 40 pratas. Nada barato, mas considerando que virou uma peça de reposição para o trabalho de DJs -e fetiche de saudosistas- o valor é compreensível.

Puxei um álbum aleatório para ressuscitar o toca-discos, que responde também para um receiver Gradiente S-126. Saiu da pilha Raising Hell, um clássico do rap old school que merece mesmo ser ouvido em vinil.

Coloquei a bolacha pra rodar e tive que suspender o braço da vitrola imediatamente. O disco estava sujo e o chiado parecia o de um gato afiando as unhas num quadro negro. Passei uma flanela e a qualidade do áudio mostrou-se relativamente boa, ainda mais para uma prensagem nacional.

Distraído em outras tarefas, tive que atravessar a casa minutos depois para virar o lado do disco e soprar uma bolinha de poeira da agulha.

Os LPs demandam atenção triplicada do ouvinte e não tenho dúvidas que foi justamente essa exigência que formou gerações de audiófilos. O vinil caiu porque o mundo mudou. Convenhamos, nada mais acrônico nos dias atuais do que pausar a vida multitarefa para se sentar e ouvir um disco.

Mas velhos hábitos escondem novas recompensas.

No fim do dia, tive a ideia de visitar meus pais e vasculhar os LPs da infância. Meu pai, por acaso, foi dono de um comércio vizinho à Rádio Record nos anos 70. Ganhou discos promocionais de montão. De singles de Dee Dee Jackson e do maestro Paul Mauriat, até trilhas orquestrais cubanas para ouvir em cruzeiros marítimos.

Achei intactos os compactos da clássica série "Disquinho"-relançada em CD pela Warner- e os sequestrei por tempo indeterminado. Curioso, apresentei o formato vinil para minha filha de três anos. Ela vibrou quando viu a capa da edição com a história da Branca de Neve.

Puxei a bolachinha da capa e perguntei se sabia o que era aquilo. "Um DVD?", perguntou ela. Achei sagaz a associação e expliquei que era quase isso, mas não tinha imagem. "E como faz?", indagou a pequena.

Levei-a para ver o toca-discos e mostrei o funcionamento da geringonça. Ela adorou ver o disquinho girando e, como qualquer criança normal, tentou pará-lo com o dedo. Mas quando ouviu a pomposa trilha incidental da Branca de Neve ecoando pela casa, pôs as mãos sobre a boca e arregalou os olhinhos.

Não piscou até a bolacha parar de girar.

  Parte 1 de 4 do documentário "John Peel's Record Box", sobre a monstruosa coleção do lendário radialista inglês. Os discos contam a nossa vida