ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador Nardwuar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nardwuar. Mostrar todas as postagens
Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.

Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.

Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.


O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.

Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.

Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.

Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.


O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.

Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.

Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.

Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".

Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.

Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".


Howard Stern Show (2001)
Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998)
Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
Joey "Shithead" Keithley é uma das personalidades mais importantes do punk na América do Norte. Para os canadenses, então, é um autêntico godfather.

Aos 55 anos de idade, Joey permanece ativo com sua banda D.O.A. Já são mais de 3 décadas de carreira, 15 álbuns de estúdio, dois livros, um disco solo e outro, seminal, ao lado de Jello Biafra. 

No momento em que esta coluna é escrita, o D.O.A. está encerrando sua primeira turnê pelo Brasil. Foram três shows: o primeiro em Curitiba, o segundo em São Paulo (foto abaixo) e o último, deste domingo, no Rio de Janeiro.

A banda aterrissou no Brasil na quinta passada, dia 17, e fui convidado para um jantar de boas-vindas aos canadenses. Por um desses acasos, meu lugar na mesa era aquele ao lado de Joey Shithead. Apreciador de uma boa conversa, não se importou em relembrar inúmeras histórias sobre os primórdios do punk na América do Norte, o rock canadense e muito mais.

Joey me contou, por exemplo, como foi abrir um show do David Lee Roth em Vancouver.

"Estava programado para que o Poison tocasse, mas um integrante deles quebrou o braço e fomos convidados em cima da hora pra susbtitui-los. Tinha quase 15 mil pessoas no lugar e muita gente na primeira fila atirando moedas em nós. Os seguranças do David gostaram da gente e começaram a dar porrada em quem jogava coisas no palco. Depois, nos camarins, aprontamos várias e fomos expulsos pelo empresário dele. Mas David é um cara direto, sem frescuras. E na época era um completo 'party animal'. Cheirava várias e frequentava todos os inferninhos".

O Canadá tem assuntos variados na cultura rock. Citei alguns nomes menos óbvios e deixei Joey discorrer, entre uma e outra garfada num delicioso siri.

"Nardwuar é um bom entrevistador. Tem um grande conhecimento musical. Mas da primeira vez que ele me entrevistou, quase saí andando depois de 5 minutos. Não tinha entendido qual era a daquele personagem. O Razor? Não sei nada sobre eles, exceto que fizeram um documentário a respeito dos caras. Ah, esse é o Anvil? Não sei quem é quem. E nunca vi o documentário. O Michel [Langevin, baterista do Voivod] já tocou com a gente em um show beneficente. Ensaiamos por uma tarde e ele tocou umas 12 músicas. É um cara bacana. Do BTO [Bachman-Turner Overdrive] tenho boas lembranças: fizemos um show com eles em um presídio de segurança máxima no norte do Canadá. Era a primeira apresentação do BTO com a formação original em uns 20 anos".


Joey me perguntou se eu recomendava alguma loja de discos em São Paulo. Expliquei o que era a Galeria do Rock e de como Jello Biafra comprou uma enormidade de LPs por lá.

"Sim, eu posso imaginar. Ele tem uma coleção enorme. Uma grande sala com álbuns do chão até o teto. E tudo organizado alfabeticamente! Se você perguntar a ele sobre um LP qualquer, ele dá uma olhada rápida e já puxa o disco da estante. É incrível. Existe um tipo de colecionador que compra de tudo, e existe aquele que só coleciona o que realmente gosta. Jello faz parte do segundo tipo. Não sei quantos álbuns ele tem, mas, baseado em um veterano radialista de Vancouver a quem ajudei a remover 40 mil LPs, eu arriscaria dizer que Jello tem uns 20 mil discos".

Não dá pra papear com um ícone punk sem falar de outros protagonistas. Mencionei que, em 1999, hospedei Mykel Board, célebre colunista da MaximumRockandRoll, e que o mesmo me disse que só havia duas pessoas em toda a cena punk pelas quais ele colocaria a mão no fogo. Uma delas era Tim Yohannan, fundador da própria MRR, falecido em 1998.

"Tim era uma grande figura. Você debatia com ele por 4 ou 5 horas sobre punk e política, e, no final da conversa, via que ele não tinha mudado uma vírgula em sua forma de pensar. Era muito teimoso e idealista. Mas o papo terminava e continuávamos amigos. Ian MacKaye também é muito íntegro. Mantém os mesmos princípios após todos esses anos. Mas quem é a outra pessoa que ele [Mykel Board] disse que não se venderia?".

Respondi que era G.G. Allin.

"Ah, não tenho muito respeito pelo G.G. Allin. O cara nunca escreveu uma música que preste. Era basicamente um encrenqueiro". Comentei que, mesmo assim, G.G. deixou sua marca. Joey concordou: "Bom, isso é verdade. E também não quero falar mal do cara. Ele nem está mais entre nós. Ah, deixa isso pra lá. Um brinde a ele!".

Erguemos as taças e brindamos G.G. Allin.

-----------------

Em breve no portal Rock Press, uma entrevista que realizei com Joey Shithead, no backstage do show do D.O.A em São Paulo, na qual ele revela como foi gravar com Jello Biafra, fala sobre Chuck Biscuits, a origem do hardcore e muito mais.


D.O.A toca a quintessencial "The Prisoner", em Vancouver, em 1992