ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador NOFX. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador NOFX. Mostrar todas as postagens

No gelado outono argentino, as amplas calçadas ficam cobertas de folhas. Pelas paredes de Villa Crespo, vê-se uma miríade de inscrições em estêncil com frases libertárias e o onipresente escudo do Club Atlético Atlanta.

Na alta madrugada, os chamados 'maxi kioskos' vendem guloseimas e bebidas através do vão das grades. Salões de sinuca e confeitarias também têm seus boêmios tradicionais, porque, a despeito do frio e da garoa, há sempre quem se disponha a encostar no balcão para engolir uma empanada ou tomar uma 'pinta' de chope Quilmes.

-- 26 DE MAIO --

O funcionário do hotel interfona para avisar que nosso amigo, Martín Berriolo, encostou seu VW branco e nos aguarda para partir. Em quinze minutos, estamos no Club Social Y Deportivo La Cultura Del Barrio. Descarregamos os instrumentos e uma mala repleta de material do Flicts.

Uma escadaria dá acesso ao primeiro andar, onde existem um bar e o espaço de shows. No segundo piso, funciona uma academia de boxe frequentada por garotos do bairro, punks e SHARPs. O Cultura Del Barrio, em sua primeira encarnação, tornou-se conhecido por reportagens em cadernos culturais e a fama atraiu indesejadas inspeções da prefeitura local. Desde então, e para fugir da burocracia, mudaram-se para a atual sede, cujo endereço não é divulgado sequer em cartazes de show. Quem conhece, conhece.

As bandas Scarponi e Aliento de Perro tocam para uma centena de pessoas e socializamos com  frequentadores do 'club' ao sabor da ótima cerveja Imperial. Falamos de punk rock argentino ("O Flema é a melhor banda daqui. Não, espere, pensando bem é a pior..."), futebol ("Somos todos Atlanta, orgulho de Villa Crespo. O estádio é logo ali!") e teorias conspiratórias ("Dizem que Hitler morreu em Bariloche, há fortes indícios. Menghele foi o médico pessoal dele, antes de fugir para o Brasil").

Vamos até o palco estender o 'backdrop' do Flicts e descobrimos a existência de um misterioso fosso com três metros de profundidade, autêntica armadilha. Diante dele, um Marshall descansa apoiado sobre engradados de cerveja.

Fãs empunhando garrafas de vidro e cigarros acesos juntam-se numa roda de pogo quando o Flicts começa a tocar. Arthur (guitarra e voz), Jeferson (baixo) e Rafael (bateria) interagem com o público em bom espanhol. Ao final do set, ouvem um singular pedido de bis: "E dale, dale, Flicts, ô, ô, ô! E dale, dale, Flicts, ô, ô, ô!". Sim, você sabe.

Os vinis, CDs e camisetas do grupo logo evaporam da banquinha. Entornamos os últimos goles de Imperial e, de lá, vamos terminar a noite no Gauchito, um boteco que funciona até o fim da madrugada e serve o maior sanduíche de bife à milanesa conhecido pelo homem.

-- 27 DE MAIO --

"O NOFX já fez um show secreto por aqui", revela um frequentador habitual do Salón Pueyrredon. "Havia tanta gente naquela noite que o público foi ocupando as escadas e chegou até a calçada!".

O lugar, situado na Avenida Santa Fé, em Palermo, é um casarão de charme decadente, mistura de alguma antiga casa de tango com saloon de faroeste. O público aparece ali para beber, ver shows, jogar dardos e comprar livros e discos na lojinha do Salón.

A noite de sexta-feira, com seis bandas e shows começando por volta das onze, promete ser interminável. Anuncia-se a formação de nuvens de fumaça -a lei anti-fumo não pegou na Argentina- e ouvidos zunindo até a manhã seguinte. Do jeito que gostamos.

O Acto Fallido é o segundo a se apresentar. Quarteto com duas guitarras que trazem boas tramas instrumentais, uma garota no contrabaixo e competente baterista. O vocalista, bonachão, toca o tempo todo metido numa capa de chuva amarela que parece saída do episódio do Pica-Pau nas Cataratas do Niágara. Já o As de Monos, que tocou logo em seguida, é formado por músicos cinquentões e algum ex-integrante de Los Violadores, lendário grupo argentino do final dos anos 70. Apresentam uma parede de guitarras repletas de 'feedback' e que remetem ao americano TAD e grupos desta seara. Ótima surpresa.

O Flicts foi a quarta de seis bandas na programação e fez um set inspirado. A versão em espanhol de "Latinoamérica", içada do EP "Sonhos Corrompidos", emplacou entre os hermanos. À certa altura, um fã mais exaltado torceu o tornozelo na roda de pogo e saiu dali diretamente para o pronto socorro. Punk rock.

A congelante madrugada se esticou entre magníficos chopes artesanais e conversas com malucos argentinos e uruguaios. Uma fã que vira o Flicts na véspera, no Cultura Del Barrio, aproximou-se com perguntas bem específicas sobre certas passagens das letras. Outro, cobrou enfaticamente a reedição em CD do clássico álbum "Canções de Batalha".

-- 28 DE MAIO --

Seguranças de walkie-talkie abrem espaço entre o público para entrarmos no clube. Mesmo embaixo de garoa, filas já se formam na porta da Groove. Expectativa de casa cheia. Lá dentro, técnicos de som e funcionários andam de um lado para o outro e a experiência em nada lembra a das noites anteriores.

A produção providencia camarim exclusivo para o Flicts e geladeira repleta de Quilmes. "Se quiserem, mandamos vir uma pizzas", oferece Chino Biscotti, baterista do Cadena Perpetua, banda local muitíssimo popular. Antes deles, toca o veterano Bulldog, outro grupo bastante conhecido. Juntas, as bandas arrastam grandes plateias em todo o país.

Recebemos nos bastidores a visita de Jão, guitarrista do Ratos de Porão, recém-chegado à Argentina para uma turnê de oito shows. Engatamos uma prosa, mas o funcionário da casa interrompe e anuncia: "cinco minutos!". O Flicts leva suas armas para o palco e, sob ótimas condições técnicas, faz um show bastante consistente. Certa parcela do público abraça o som do grupo e aplaude bastante após cada canção. Estes mesmos fãs cercariam a banda horas mais tarde, na saída da Groove, atrás de CDs e informações. "!Concha de tu hermana!", grita um deles, entusiasmado, afirmando reconhecer o verdadeiro punk rock quando o escuta.

Por questões práticas, declinamos o convite de Jão para encontrar o restante do RDP em um restaurante, noutra parte da cidade, e ir de lá para o show do Nervosa. Permanecemos na Groove e, do mezanino, vemos a pista e os camarotes lotarem completamente com cerca de 2.000 pessoas. A plateia canta fervorosamente cada música de Bulldog e Cadena Perpetua, bandas que migraram do punk para o pop radiofônico e amealharam legiões de fãs. De nossa parte, trabalhamos com afinco para esgotar a cota de Quilmes.

Em um concorrido camarim de rock stars, com constante entra e sai de fãs, comemos e bebemos ao lado de integrantes de Cadena, Bulldog e também do guitarrista Sam, ex-Historia Del Crimen e atual Motorama. Do lado de fora, sob nevoeiro e baixíssimas temperaturas, uma última rodada ainda nos aguardava em um bar de Villa Crespo.

Flicts no Cultura Del Barrio
La Cultura Del Barrio
La Cultura Del Barrio



Salón Pueyrredon

Flicts no Salón Pueyrredon
Groove Palermo

Flicts na Groove


Fotos: Eduardo Abreu | Caixa Preta Blog



As de Monos, melhor banda que conhecemos em BsAs. Sub Pop: olho neles!
http://www.weirdretro.org.uk/uploads/3/8/2/1/38217449/5660787_orig.jpg

Repercutiu hoje na Internet, de blogs a canais como o Noisey, da Vice, a agressão sofrida por uma fã durante show do conjunto pop-punk The Story So Far.

Aconteceu em Toronto, no Canadá, e o vídeo não é bonito de se ver (link no final do post). Em um rompante de imbecilidade e auto-indulgência, o vocalista Parker Cannon desferiu uma voadora nas costas de uma jovem que, sem qualquer noção de espaço, preparava-se para tirar uma 'selfie' sobre o palco. A solução do cantor, no entanto, extrapolou os limites do razoável e funcionou como uma estúpida demonstração de misoginia.

Impossível não lembrar como Ian MacKaye, cofundador do Minor Threat e artífice da cena straight edge, se comportava diante de inconvenientes durante os shows. Nas quatro ocasiões em que vi o Fugazi ao vivo, entre 1994 e 97, MacKaye interrompeu a apresentação em algum momento para encerrar a baderna de fãs em cima do palco. Dava um caprichado sermão e a banda logo emendava a canção de alerta "The Long Division".

Até hoje, não posso ouvir essa faixa do álbum "Steady Diet of Nothing", de 1991, e logo me recordo dessas ocorrências e da forma dura, mas educada, com que MacKaye resolvia suas questões. O palco para ele era sagrado e até mesmo o 'slam dancing', versão mais agressiva da roda de pogo, era censurado pelo grupo. O punk de Washington, DC não queria que prejudicassem o andamento dos shows e, muito menos, que ameaçassem a integridade física dos fãs mais pacatos.

Mas nem todo mundo é Ian MacKaye. E muitos têm seus momentos de Parker Cannon. Seria destempero? Comportamento irascível? Ou apenas um vacilo numa noite ruim?

Abaixo, três casos de punks norteamericanos que bateram em fãs diante da plateia. E só um deles tinha licença para isso.

>> BEN WEASEL (Screeching Weasel)

O líder da cultuada banda de Chicago não se satisfez em atacar apenas uma mulher durante show ocorrido no festival SXSW, em 2011 - bateu logo em duas! A primeira agressão teria ocorrido após uma integrante da plateia ter, repetidamente, espirrado um tipo de líquido no vocalista. A segunda, depois que outra mulher tentou intervir. A polêmica ganhou destaque na Spin e na Rolling Stone, e Ben "Weasel" Foster se explicou:

"Quero pedir desculpas adono do clube e à integrante do público (...). Ainda que suas ações estivessem fora do meu controle, a reação lamentável é minha total responsabilidade. Quaisquer que sejam minhas opiniões sobre fãs que ultrapassam os limites, eu gostaria de poder voltar atrás e lidar com aquilo da mesma forma com que fiz nos primeiros 60 minutos de show. Como não posso, um pedido de desculpas é tudo o que tenho e espero sinceramente que essas pessoas o aceitem (...). Como marido, pai e músico profissional, entendo que é meu dever assumir a responsabilidade de forma socialmente aceitável, e mais especialmente em face do confronto".

>> FAT MIKE (NOFX)

Durante um show realizado em Sidney, na Austrália, em 2014, o guitarrista e vocalista da famosa banda californiana NOFX perdeu a compostura. Fat Mike empurrou um fã identificado como Alexander Medak e desferiu um pontapé em seu rosto.

No dia seguinte, através do Twitter, Medak enviou uma mensagem para o músico juntamente com uma foto de seu lábio inchado. "Obrigado pelo nocaute, Mike. Não doeu muito. E desculpe por ter te assustado, mas os shows são um pouco diferentes por aqui".

Fat Mike respondeu: "Me desculpe também, Alex. Eu estava com uma dor terrível [no pescoço] durante toda a noite. Quando você me agarrou, eu reagi defensivamente... e ofensivamente. Se você for ao show na sexta-feira, te pago uma cerveja. Só não a jogue em mim".

>> GG ALLIN (GG Allin & The Murder Junkies)

Para o maior terrorista do rock'n'roll, bater em membros da plateia era o mínimo que podia acontecer durante os shows. O público que o acompanhava praticamente pedia por isso. Muitas vezes, Allin arrebentava a fuça de seus fãs. Em outras ocasiões, era espancando e terminava a noite sem dentes e com o braço engessado.

GG Allin, nascido Jesus Christ Allin, passou boa parte dos anos 80 e o comecinho dos 90 metido em confusões. Foi preso, violou a condicional, ficou amigo do serial killer John Wayne Gacy, o famoso "Palhaço Assassino", e terminou expulso de várias cidades e casas de shows. Bateu em fãs de ambos os sexos, sem preconceito, inclusive durante suas palestras niilistas.

O nativo de New Hampshire, que morreu de overdose em 1993, aos 36 anos, nunca pediu desculpas a ninguém. No entanto, uma de suas frases mais famosas pode servir de explicação:

"Minha mente é uma metralhadora, meu corpo são as balas e o público é o alvo".

------

Park Cannon age como cafajeste em Toronto:



Ben Weasel apela para a baixaria em Austin:



Fat Mike perde o juízo em Sidney:


    GG Allin desce a porrada em todas as cidades
    (Material NÃO recomendado para leitores mais sensíveis).


    Na semana passada, o canal GNT exibiu "Pais e Punks", documentário que revela como alguns integrantes de bandas punk lidam com a paternidade e seus efeitos.

    O tema é quente. Há alguns anos, a MaximumRockandRoll dedicou uma edição especial a respeito. A ideia era entender como um punk rocker pode se tornar um pai de família sem repetir os padrões impostos socialmente.

    O documentário esbarra nessa abordagem, mas ao invés de veganos que alimentam a prole com dietas radicais ou punks ortodoxos que vivem numa bolha alheia ao mundo do consumo, a diretora Andrea Blaugrund Nevins entrevistou membros de bandas conhecidas e que vivem de música.

    Nesse sentido, foi bastante acertada a escolha de Jim Lindberg, vocalista do Pennywise, como protagonista do filme. Pai de três filhas, Lindberg passa meses em turnê para sustentar a família e vive num eterno dilema para conciliar seus papeis.

    O empresário da banda e o idealizador do festival itinerante Warped Tour não vêem conflito na situação. É tudo business. "Não vejo porque o Pennywise não possa estar aí daqui a 10 ou 20 anos. Se continuarem levando a carreira a sério, trabalhando duro e entretendo o público, vão durar muito tempo", diz Andy Somers, o agente.

    Mas há dois temas espinhosos pelo caminho: manter relações familiares quando se passa cinco meses por ano longe de casa e preservar o espírito punk tocando toda noite por dinheiro.

    Jim Lindberg não aguenta uma coisa nem outra. Confessa que trocaria a adulação e a vida na estrada por estar ao lado das filhas. E que pinta o cabelo e o cavanhaque pra que a molecada skatista não perceba que o vocalista do Pennywise é um coroa.

    Vários outros entrevistados deixam as máscaras caírem. 

    Casos de Tony Adolescent, que diz não ter mais vigor físico para aguentar o ritmo das apresentações do Adolescents. De Fat Mike, do NOFX, que revela encher a cara antes de subir no palco. E de Duane Peters, o porra-louca do US Bombs, que confessa sentir-se um palhaço de circo tocando a mesma música toda noite. Pesado.

    Todos fazem isso para sustentar seus filhos, o que pode frustar a utopia punk de manter a música e a mensagem puras. Talvez seja apenas o tipo de entrevistado escolhido para o filme. Ou talvez seja apenas a realidade.

    Mas é no segmento final de "The Other F Word" -o título original brinca com o "f" de "family" em lugar "fuck"- que o bicho pega no lado emocional.

    Flea, o milionário baixista do Red Hot Chili Peppers e punk de ocasião, que num passado longíquo tocou no Fear, fala sério como poucas vezes. Enxuga as lágrimas relembrando sua família disfuncional e se comove ao afirmar que ter sido pai lhe deu uma segunda vida.

    Tony Adolescent também remexe nas más experiências da infância e conta como jamais superou o trauma de ter perdido um filho às vésperas do nascimento. Até Duane Peters, radical skatista da primeira geração e um dos vocalistas mais alucinados do punk rock, chora de soluçar ao lembrar do filho morto num trágico acidente automobilístico.

    É fácil ligar os pontos e entender porque vários desses músicos, filhos de pais alcoólatras e mães fanáticas por religião, encontraram no punk rock sua válvula de escape. E mais ainda: porque se tornaram pais amorosos e que não querem destruir a infância de suas crianças. 

    Alguns se tornaram pais de família quase convencionais. Outros, como Lars Frederiksen, do Rancid, não são mais do que moleques crescidos. Poucos, como Ron Reyes, ex-Black Flag, largaram tudo para trás. Mas todos foram profundamente afetados por esse terremoto chamado paternidade.

    Como reflete Jim Lindberg, após largar o Pennywise para assumir o papel integral de pai: talvez o jeito de mudar o mundo seja educando melhor as crianças.

    Faz sentido.

    No início dos anos 90, chegou às minhas mãos uma cópia em VHS do documentário "Another State of Mind". O filme, lançado em 1984, mostra as desventuras das bandas Youth Brigade e Social Distortion pela América do Norte em uma pioneira turnê independente.

    Eu não havia visto nada do gênero até então - provavelmente porque não existia nada como aquilo. Um documentário profissional registrando um momento histórico na cena punk americana. O impacto foi tremendo.

    Assisti ao filme várias outras vezes ao longo dos anos e, quando o comércio eletrônico surgiu, finalmente comprei uma cópia original.

    "Another State of Mind" não apenas reforçou minha fé no espírito do faça-você-mesmo, que viveu seus dias de glória com o punk americano do início dos anos 80, como também me tornou admirador confesso das duas bandas que protagonizam a história.



    O Social Distortion foi a parte que não agüentou as atribulações daquela turnê sem dinheiro ou conforto. Quem viu o filme sabe que Mike Ness se mandou de volta para Orange County antes da tour chegar ao final, uma atitude que dava pistas sobre seu futuro distanciamento do gueto punk e o perfil solitário - o perfeito oposto dos agregadores irmãos Stern, do Youth Brigade.

    Ao longo de quase 3 décadas, os Stern idealizaram a turnê registrada em "Another State of Mind", fundaram o selo BYO Records e o clube punk Godzilla's, organizaram festivais e até o descolado torneio de boliche Punk Rock Bowling, em Las Vegas, que este ano completou 13 edições.

    O clã é responsável por colocar o punk de Los Angeles no mapa, embora, estranha e injustamente, jamais tenha tido a mesma projeção e reconhecimento de seus pares mais famosos.

    Em 1996, entrevistei o vocalista e guitarrista Shawn Stern por telefone. Na época, ele lançava o que seria -e é, pelo menos até então- o último álbum de estúdio do Youth Brigade: "To Sell the Truth".

    Articulado e idealista, Shawn forma, ao lado de Jello Biafra e Ian MacKaye, uma espécie de núcleo intelectual dos valores punk nascidos no fim da década de 70.

    Todos fundaram seus próprios selos, produziram discografias de respeito e mantiveram-se, dentro do que é humanamente possível, coerentes a seus princípios.

    Há algumas semanas fui presenteado com uma peça de registro histórico: "Let Them Know - The story of Youth Brigade and BYO".

    O item foi adquirido por um amigo das mãos do próprio Shawn Stern após um show do Youth Brigade, em Los Angeles, na última noite de 2010.

    "Let Them Know" é o que chamamos no Brasil de "livro de arte" - e que os americanos chamam de "coffee book table". Ou seja, um livro em formato grande, com capa dura e acabamento gráfico de primeira. Mas não é só isso.

    O livro traz, encartados, dois LPs prensados em vinil colorido com várias bandas do cast da BYO Records tocando covers umas das outras. A biografia oferece descobertas surpreendentes como a de que Matt Groening, futuro criador dos Simpsons, era um dos incentivadores da BYO, divulgando seus shows no períodico L.A. Reader do qual era crítico musical.



    Mas a cereja do bolo é um documentário de 90 minutos, também intitulado "Let Them Know", que mostra como a história do Youth Brigade e da BYO mistura-se a do punk de LA.

    É incrível rever, vinte e tantos anos depois, alguns rostos mostrados em "Another State of Mind" no auge da efervescência e rebeldia juvenis. E não falo apenas dos irmãos Stern, mas também de alguns integrantes da trupe. Outras figuras "icônicas" como Ian MacKaye, Fat Mike (NOFX), Kevin Seconds (7 Seconds) e Steve Soto (The Adolescents) oferecem seus insights sobre o Youth Brigade e a cultura punk da época.

    Há tantos causos e observações imperdíveis em "Let Them Know" que o assunto mereceria um texto à parte. Entre os destaques, as loucuras do squat Skinhead Manor, os festivais Youth Movement de 1982 e 83 e as memórias sobre a participação em "Another State of Mind" (entre as revelações, o fato de que Pete Stuart, co-diretor do documentário, é filho de Mel Stuart, o diretor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate"!).

    Se os Stern jamais tiveram o reconhecimento de outros ícones punk norte-americanos, uma pequena imersão em "Let Them Know" -o filme e o livro- fará qualquer um passar a lembrar desses judeus canadenses que imigraram para a Califórnia no início dos 70's, como co-inventores do faça-você-mesmo.

    E o melhor: a música do Youth Brigade é sensacional. Vá atrás!


    Assista acima ao trailer de "Let Them Know".


    E aqui, o Youth Brigade ao vivo, em plena forma, no ano de 1996.