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(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
Em tempos de festivais com palcos diversos, gigantescos telões, tirolesas, rodas gigantes e bares temáticos, parece estranho usar a mesma designação para descrever um evento bem mais modesto, no qual três bandas tocam sem grandes firulas em um clube fechado. Mas aí, bem, você se lembra que esse grupos vêm todos do exterior, pertencem ao mesmo selo e esse selo é simplesmente a Sub Pop Records. Sim, estamos falando de um festival.

A gravadora de Seattle, que escreveu um capítulo na cultura pop ao descobrir e lançar o Nirvana, trouxe ao Brasil em 15 de maio último aquele que permanece seu principal expoente –o veterano Mudhoney–, além de duas bandas da nova geração. Claro que os pais do grunge foram tratados como a grande atração da noite e arrebanharam a maioria dos presentes, mas os outros grupos certamente saíram dali com novos admiradores.

The Obits é um quarteto americano fundado em 2006 e que tem na bagagem três álbuns de estúdio. Fazem um power pop bastante consistente e com canções diretas no queixo,  mas também apresentam temas climáticos e passagens com boas tramas instrumentais. Seu guitarrista solo, Sohrab Habibion, que tocou vestindo uma camiseta com um Gene Simmons toscamente pintado à mão, parece um híbrido de Frank Black e Andy Gill – tem a aparência do primeiro e algo do estilo do segundo. O grupo tocou para um terço da casa, mas conquistou o público pela qualidade de seu repertório e a execução competente.

Metz, mais conhecido por aqui, veio na sequência e fez um set ensurdecedor; aqueles para deixar o tímpano em frangalhos. Me lembro de poucos concorrentes à altura: Motörhead, Mummies e Primal Scream são os primeiros que vêm à mente. O problema, no caso do Metz, é que parece muito barulho por nada. Há quem diga que em disco o material do grupo é coisa séria, mas ao vivo suas canções funcionam como um massacre aos sentidos: timbres metálicos e perfurantes, paredes de distorção e excesso de feedback - tudo em um volume absurdo. A experiência atinge um nível tão extremo que, de um jeito torto, termina por fazer sentido. O trio canadense, que tocou diante de bem mais gente que o Obits, e foi efusivamente aplaudido, soa mais rock’n’roll em sua demência que a maioria dos nomes que pululam nos festivais descolados. É alguma coisa.


E então, para separar homens de meninos, Mark Arm e companhia surgem no palco e mostram como se põe a casa abaixo. Bem ensaiados, coesos e com completo domínio de palco, atacaram de cara com “Slipping Away” e, logo em seguida, com seu novo hit “I Like it Small”, do recente álbum Vanishing Point. Foi o primeiro gol de placa da noite, com o público –algo em torno de 1.000 presentes–, pulando e berrando o refrão. Não demorou e “Suck You Dry”, uma pérola que merece lugar em qualquer antologia noventista, causou alvoroço e a sempre bem-vinda visão do povo enlouquecido na pista.

Durante a primeira metade do set, Arm acumulou as vezes de guitarrista e auxiliou Steve Turner na execução de sua minuciosa fórmula sonora que mistura garageira sessentista, surf, proto-punk e o espírito da Seattle de 25 anos atrás. Mais tarde, livre do instrumento, Mark Arm assume sua persona de frontman. Outras pérolas como “Sweet Young Thing” e “Touch Me, I’m Sick” mantêm a temperatura elevada até o grupo abandonar o palco e retornar para um bis dos mais explosivos.

“Here Comes Sickness” proporciona o início de uma farra de stage diving que deixa seguranças atônitos. Uma lourinha sobe ao palco e, antes de se atirar de volta, tasca um beijo na bochecha de Turner. Minutos mais tarde, reaparece para fazer o mesmo com Arm e despentear atrevidamente seu cabelo. A faixa viajante “When Tomorrow Hits” oferece um breve momento de introspecção e é seguida de “In ‘N’ Out of Grace”. O clima de animosidade entre público e seguranças parece antever algum atrito mais ríspido, mas, então, a mesma lourinha sobe ao palco, levanta a blusa e, sem sutiã, mostra o que a natureza lhe deu. A farra era total, e o Mudhoney apagou fogo com gasolina em uma incendiária sequência com covers de Fang, Dicks e Black Flag.  

Consta que o Sub Pop Festival voltará em 2015. Se depender do sucesso da primeira edição, os promotores devem estar bastante animados.

Nós também.


"Here Comes Sickness" em São Paulo: o início de um bis incendiário
Há algumas semanas, um amigo resolveu vender sua coleção de CDs. Aproveitei a liquidação para garimpar algumas relíquias.

Achei barganhas como o primeiro do Naked City a 10 pratas e o crocante "Eat 'em and Smile", do David Lee Roth - um dos meus feelgood albums favoritos.

Entre as aquisições nostálgicas, um item me surpreendeu: "The Eagle Has Landed", disco ao vivo do Saxon, gravado em 1982.

Passei toda a adolescência sem ouvir sequer um LP de estúdio desses decanos do metal britânico. E até hoje continuo sem ouvir. Mas em 1986, com meus 15 anos de idade, talvez motivado pelo clipe de "Power and the Glory", que rolava direto no programa Clip Trip, comprei o famoso álbum ao vivo. Rodou no meu toca-discos até cansar e passou os útimos 20 anos repousando numa prateleira.

A faxina na coleção de CDs do camarada serviu pra me revelar outra vez esse momento de rara inspiração em plena febre da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal).

Ouvir "The Eagle Has Landed" em 2012 é grata surpresa. Incrível notar como o Saxon, na época, se parecia com um primo mais melódico do Motörhead. Muitos riffs e arranjos parecem escritos pelo próprio Fast Eddie Clark. É rápido, sem firulas e tem solos bacanas. Biff Byford não tem a voz pigarrenta do Lemmy e soa como um herdeiro contido do hard rock original.

Apesar das ridículas calças Spandex, que resultaram em chacotas sem fim da revista inglesa Kerrang, Byford tinha até certa elegância no cantar.


Vocalista e banda se superam em "747 (Strangers in the Night)", um delicioso hard rock que fala sobre uma pane área que separa um casal. O refrão meio tristonho deve ter acompanhado as madrugadas de muitos metalheads no início dos anos 80. Dá até pra imaginar "747" reproduzida com o chiado de alguma estação de AM. Combina.

O resto do álbum mantém o pique e desfila canções boas -e às vezes muito boas- como "Motorcycle Man", "Princess of the Night", "Wheels of Steel" e as pedradas "Machine Gun" e "20,000 ft".

Essa inesperada redescoberta do Saxon me levou a espiar a internet atrás das gravações originais do repertório que virou "The Eagle Has Landed". Tá certo que lá se vão mais de 30 anos, mas a sensação é de certa decepção: no estúdio, alguns maneirismos vêm à tona e Byford, com a voz em primeiro plano, faz desnecessários floreios vocais. Aquelas músicas nunca soaram tão bem quanto nos shows.

Depois de "Eagle", o Saxon entrou em parafuso. Perambulou pelo metal farofa, adotou roupas de lantejoulas, voltou ao couro e chafurdou na chatice épica. Passo bem sem.

Mas vale menção honrosa para esse que é um dos melhores discos do heavy metal tradicional britânico. Estranhamente, é como se a razão de existir do Saxon tenha sido registrar aquele abençoado show de 1982 e garantir uma página na história.


"747 (Strangers in the Night)" em 1983: não tão boa quanto em "The Eagle Has Landed", mas ainda cativante.
Não consigo imaginar um cenário em que a música seja mais mal tratada que um festival como o Rock in Rio. É tudo fake: conceito, público, cobertura midíatica e, em certa medida, os próprios artistas.

Reclamar que o festival é mais pop que rock virou lugar comum. Mas quem, com um pingo de juízo, esperava por uma curadoria séria num negócio milionário como esse?

Faz todo o sentido a presença de gente como Rihanna, Shakira e Katy Perry num evento em que a música só parece atrapalhar. Sim, porque o RIR tem roda gigante, tirolesa e até salão de beleza, no que está mui conectado à relação da juventude com a música.

Em 1985, quando eu tinha 14 anos incompletos, já questionava as presenças de Elba Ramalho e Ivan Lins no festival. Um quarto de século depois, a queixa por "mais rock" soa datada.

E há outra coisa que incrivelmente não mudou: o tratamento global para algo tão assimilado e estabelecido como o rock'n'roll. Os "rockeiros" são mostrados em sua faceta mais gloriosamente débil, o que apenas justifica o empacotamento da festa como a diversão segura que de fato é.

O setor VIP, essa coisa tão brasileira, também pede passagem. Famosos saem do armário ao vivo: uma atriz jura que é fã dos Chili Peppers desde criancinha; outra confessa que gosta mesmo é de samba, mas que o Sepultura tem uma "guitarra gostosa". Sério.

O deserto de bandas brasileiras minimamente relevantes assusta. É como se não tivesse surgido ninguém em décadas para suceder a geração 80. Um modorrento encontro de Titãs e Paralamas manda o recado, enquanto o Capital Inicial, em sua incansável cantilena sobre o rock de Brasília, e com um Dinho Ouro Preto tão messiânico quanto gagá, bate os últimos pregos no caixão.

O line-up do festival em seu primeiro final de semana é deliciosamente confuso. O Snow Patrol encara 100 mil pessoas armado de um hit solitário e derrapa na introdução da faixa. "Isso é bastante incomum, mas pelo menos você vão ter os Chili Peppers depois", lamentou o vocalista com algum humor.

Só que o quarteto angeleno aparece sem brilho, numa performance que foi repetidamente chamada de "arrasadora" pelo jornalismo silvícola. Anthony Kiedis, zilionário, não se constrange em fazer um merchan safado para a Brahma. Já Flea, mais discreto, se restringe a homenagear o país com a camisa da Seleção. Bastante original.

Ao final de um set list mais frio que quente, outra homenagem, dessa vez ao falecido filho da global Cissa Guimarães. Um inocente e bem orquestrado aperitivo para os megaeventos internacionais que se avizinham e que terão as mãos e os braços dos Marinho, de Nizan Guanaes e companhia. Vá se preparando.

A famosa e concorrida "noite do metal", que começou em 1985, com AC/DC, Ozzy Osbourne e outros, é onde, dizem, está o rock que dá nome ao festival. Mas a sensação de artificialidade permanece. O que justifica a histeria do público pelo Motörhead, que toca todo ano no Brasil e que há apenas 6 meses excursionava por aqui? Talvez, como Zeca Camargo, os metaleiros de ocasião acreditavam tratar-se da primeira vez da banda em nosso país.

Uma falha no amplificador de Lemmy é espertamente escondida na edição ao vivo, enquanto Phil Campbell enche lingüiça. Na saída do palco, o cinegrafista encurrala Lemmy, que é flagrado discutindo com um técnico. Cabe a Campbell enxotar, ao vivo, o cameraman abelhudo. Corta para o estúdio do Multishow, e o baterista Mikkey Dee lamenta as falhas técnicas. As apresentadoras se surpreendem: "Olha, ele tá falando de alguns probleminhas, mas a gente nem percebeu, viu".

As bobagens se sucedem. "Os caras do Metallica são uns fofos, pais de família e que estão sossegados na casinha deles lá na Califórnia". Aham. E a colega da apresentadora retruca: "Nossa, e já tem 12 anos que eles não tocam no Brasil, né?". Que tal 2010?

Teipes com os destaques do dia tapam buraco na transmissão ao vivo do tal Palco Mundo. O ótimo Mondo Cane -possivelmente a grande atração artística do festival- é mostrado em 20 segundos, nos quais Mike Patton nada canta. Sensibilidade zero. Já o Korzus e uma coisa chamada "punk metal all stars" -que tinha até East Bay Ray, veja só- foi privilegiado com uma música exibida na íntegra e na qual o vocalista puxa um côro do hino nacional. Mas hein?

Slipknot é uma das encrencas que sobrou do enfadonho nu metal. Mesmo assim, e estranhamente, eles trazem algo que faltava ao festival: esculacho. No meio de tanta brodagem e entretenimento seguro, alguns riffs emprestados do death metal, os dedos médios em riste e as fantasias escrotas cumprem o papel de avacalhar com a assepsia geral. Pena que a música seja indicada unicamente a rockeiros imberbes.

Sobrou ao Metallica, ex-banda em atividade, surpreendente momento de lucidez. James Hetfield parece ter descoberto, ainda que tardiamente, que não precisa morrer com os cacoetes vocais da década de 90 e que é melhor respeitar seus clássicos do que assassiná-los.

Basta dizer que, das 5 primeiras canções do show, 4 foram tiradas de Ride the Lightning, disco anterior ao primeiro Rock in Rio, o que, por si só, já diz muita coisa.

No meio do set, uma improvável execução da instrumental "Orion" faz a banda ressurgir dos mortos. Um dos poucos momentos em que o RIR mostrado na TV valeu à pena.


Obra do acaso: Metallica surpreende no Rock in Rio
Vi o Motörhead ao vivo em sua primeira turnê pelo Brasil no já mui distante ano de 1989. Os shows em São Paulo aconteceram no Ginásio do Ibirapuera.

À época, dada a ausência de casas de espetáculo particulares e com capacidade para abrigar um bom público, o Ginásio do Ibirapuera era bastante requisitado. Foi ali que também assisti -pela primeira e única vez- a um show do Metallica. Dois anos depois, em 1991, vi o The Cult na esteira do sucesso do disco Sonic Temple. E nunca mais voltei ao ginásio.

A verdade é que o lugar não foi projetado para shows musicais e a acústica era, para ser condescendente, bem meia-boca. Pior: na época, o público ainda era judiado pela ausência de um DJ minimamente preparado para esquentar o clima.

No show do Motörhead, a plateia teve de ouvir o álbum Back in Black, do AC/DC, na íntegra. Seria ótimo, se o disco não tivesse sido tocado pelo menos umas sete vezes seguidas. Ninguém aguentava mais.

As bandas de abertura, Viper e Vodu, representavam um tipo de heavy metal paulista feito na época. Eu não gostava de nenhum dos dois grupos, mas estava lá para ver Lemmy, naquele tempo já com 44 anos de idade - e todos se espantavam que ele ainda estivesse na ativa...

Achei uma resenha minha da época. Foi publicada em um fanzine carioca muito bem produzido, com capa em papel couché e tudo, chamado Revenge. Era o texto de um garoto de 17 para 18 anos, e ainda embasbacado com as descobertas do rock.

Não preciso recorrer à velha crítica de show para me lembrar que o Motörhead abriu a noite com "Dr. Rock", do ainda recente álbum Orgasmatron, gravado apenas 3 anos antes. O resto foi basicamente um desfile de pérolas da clássica formação Lemmy-Eddie-Taylor (e sim, o Animal tinha retornado e era o baterista naquela época). Abaixo, o set-list do show de 11 de março de 1989:
  1. Doctor Rock
  2. Stay Clean
  3. Traitor
  4. Metropolis
  5. Dogs
  6. I'm So Bad (Baby I Don't Care)
  7. Stone Deaf in the U.S.A.
  8. Built for Speed
  9. Just 'Cos You Got the Power
  10. Eat the Rich
  11. Orgasmatron
  12. Killed by Death
  13. Ace of Spades
Paguei ingresso para ver o show da arquibancada do ginásio, mas, convencido pela porralouquice dos amigos, fui pulando grades e mais grades até chegar na pista. A sensação de, ao mesmo tempo, burlar a lei e ver o show de perto, no meio do tipo de moshpit insano que acontecia na década de 80, foi incrível.

A noite seguinte foi uma zona. Não estive lá, mas ouvi relatos de quem esteve. Deu pau geral no sistema de som e o show foi interrompido após duas músicas. O público ficou furioso e Walcir Chalas, da Woodstock Discos, foi ao microfone acalmar a turba e avisar que a apresentação continuaria em outra data e local. O evento foi transferido para o já extinto Projeto SP, no bairro de Santa Cecília, lugar que acolheu shows de artistas como Iggy Pop e Stray Cats naquela mesma década.

O Motörhead andava em plena forma em 1989 e certamente quebrou tudo também no show (quase) extra. Mas o amadorismo das turnês internacionais, em comparação com a infraestrutura de hoje, era notável.

Fiquei quase 20 anos sem ver o Motörhead ao vivo. Quando esbarrei acidentalmente em Lemmy, nos EUA, contei pra ele só a parte boa -que estava lá em 1989- e tomei uma bronca: "Por que você não foi aos outros shows que fizemos lá depois?". Respondi que tinha estado em todos, mas que o primeiro é sempre especial. Lemmy foi gentil e concordou: "Eu entendo o que você quer dizer". Mas a verdade é que nunca mais tinha visto a banda ao vivo e, em minha memória afetiva, tudo que podia lembrar era da multidão no Ibirapuera e as explosões pirotécnicas seguidas de "Dr. Rock".

Revi o Motörhead apenas em 2007. Depois em 2009. E mais uma vez no sábado passado, dia 16/04/2011. Os set-lists não são mais surpresa -embora o deste ano até tenha sido, ainda que não necessariamente uma boa supresa- e a presença de palco é quase holográfica. Lemmy é uma lenda viva e sua presença tem algo de irreal.

Talvez seja a (minha) idade, mas o volume absurdo que a banda impõe a seus shows não me impressiona. Ao contrário, contribui para uma leve fadiga auditiva.

Não acho justo, por outro lado, esperar algo mais de Lemmy e companhia. Eles são o que são e, só o fato de estarem na ativa, em 2011, gravando e excursionando, é motivo de satisfação. Até alguns discos recentes -confesso que tenho ouvido poucos- são bem palatáveis. Inferno, de 2002, tem um punhado de faixas legais.

Mais do que isso: Lemmy está quase na moda. Estrelou comercial de cerveja, é o astro do clipe novo do Foo Fighters, o documentário sobre sua vida acabou de estrear e o Motörhead vai até tocar no Rock in Rio. Não é pouco.

Mas na minha imaginação, gostaria de ver o Motörhead tocar um disco como Ace of Spades ou Another Perfect Day na íntegra, este último de preferência com Brian Robertson na guitarra e Animal Taylor na bateria. Seria revigorante e nostálgico ao mesmo tempo.

Mas você sabe, se o Motörhead voltar em 2013, e deve voltar, estarei por lá. Todos estaremos. Como aquele filme que já assistimos 20 vezes, mas que não conseguimos largar quando passa em algum canal de TV.

Em tempo: assinei uma resenha completa do show e que deve estar publicada em algum lugar do Portal Rock Press. Procure por lá.


No meu show imaginário, Lemmy chamaria de volta Brian "Robbo" Robertson e Phil "Animal" Taylor para tocar Another Perfect Day na íntegra.

E o seu show imaginário do Motörhead, como seria?
O Motörhead toca amanhã no Via Funchal. Horas depois, em plena madrugada, o Misfits se apresenta no centro de São Paulo pela Virada Cultural. O mitológico Skatalites também está no Brasil. E, no domingo, tem show do D.R.I, banda que ajudou a arquitetar o gênero crossover.

Em meio a tudo isso, está passando levemente despercebida a vinda do seminal Los Straitjackets ao país.

O quarteto de Nashville também está escalado como uma das atrações da Virada Cultural e toca no próximo domingo, às 15h00, no Largo do Arouche. Show imperdível.

Los Straitjackets é citado com a mais cultuada banda de surf music em atividade, mas sua música vai além dessa convenção.

Veículo para o incrível guitarrista Eddie Angel, os Straitjackets passeam por gêneros como swing, rock'a'billy, garage e todo o espectro de som instrumental retrô. E como parece regra no revival surf, têm muito senso de humor: se apresentam sempre com bizarras máscaras de "lucha libre" mexicana.
Entre as fórmulas musicais congeladas no tempo, a surf music é aquela pela qual tenho mais simpatia. As bandas que ganharam notoriedade na esteira do sucesso de "Pulp Fiction", cuja trilha sonora ressuscitou a carreira do rei Dick Dale, foram espertas o suficiente para revisitarem o estilo com irreverência e identidade próprias.

O californiano Phantom Surfers, por exemplo, adotou o visual smoking & máscara, abusando de títulos sacanas para seus discos, como: "The Exciting Sounds Of Model Road Racing" e o ótimo "Skaterhater". E, musicalmente, são bastante competentes em recriar à sua maneira, e com algum teor de escracho, o som que embalava as festinhas da Califórnia nos anos 60.

A banda tocou no popular festival B.A. Stomp, em Buenos Aires, nos anos 90, e um amigo próximo teve a incumbência de hospedar e ciceronear um dos Phantom Surfers numa rápida passagem por São Paulo. O grupo, porém, não chegou a se apresentar por aqui.

Mas um de seus contemporâneos, ao contrário, foi protagonista de shows antológicos no Brasil durante a década de 90. Man or Astro-man?, a banda space-surf do Alabama, se apresentou por aqui algumas vezes e, em São Paulo, chegou fazer dois sets num mesmo dia, tal a demanda de público.

Vi duas apresentações do Man or Astro-Man?, ambas absolutamente incendiárias. A primeira, memorável, na casa de shows Broadway (atual Eazy) e a segunda, no Sesc Pompéia, quando tocaram ao lado do também americano Trans-Am que, literalmente, quebrou tudo.

O Man or Astro-Man? é como um filho bastardo de Dick Dale com Mark Mothersbaugh, do Devo. Tocam uma surf music envenenada, com um repertório quase que integralmente instrumental, e uma viagem retrô-espacial com direito a trajes de astroanauta e projeções de vídeos que parecem saídos de algum arquivo da NASA dos anos 60.

O último disco do Man or Astro-Man?,"A spectrum of Infinite scale", expandiu sua música para uma fronteira mais experimental, com direito à uma faixa com título em português: "Um espectro sem escala".

Mas nada como ter testemunhado o rei da surf guitar ao vivo e a cores. Em 1996, Dick Dale, que então excursionava pelo mundo com uma carreira revigorada pelo uso da bombástica "Misirlou", de 1962, na abertura de "Pulp Fiction", esteve no Brasil para uma série de shows.

Tocou no hoje extinto Olympia, na mesma noite em que o Fugazi atordoava o público com um set radical na Broadway. O conflito de datas foi contornado. Assisti ao Fugazi e, dias depois, me mandei para Santos ver Dick Dale tocar numa discoteca chamada Twister.

À época com um power-trio turbinado, Dale, um dos revolucionários da guitarra elétrica, triturou sua Fender diante de 300 afortunados. Assisti ao show a um metro do palco e vi as palhetas literalmente virarem pó com a famosa palhetada de Dale que faz Scott Ian e James Hetfield parecerem guitarristas de alguma bandinha de igreja.

No próximo domingo, há outra oportunidade imperdível de assistir a um impactante set de surf music. Não espero nada menos que uma performance demolidora dos Straitjackets.

Se eu fosse você, não perderia por nada.


Acima, Los Straitjackets no vídeo da sensacional "Tempest".


E aqui, o clipe de "Nitro", uma pequena amostra do poder de Dick Dale quando retomava sua carreira nos anos 90.
Há seis meses -mais precisamente em setembro de 2010-, a banda canadense Voivod viria ao Brasil pela primeira vez em 25 anos de carreira.

Ainda que tenha perdido o sensacional guitarrista Dennis "Piggy" D'Amour em 2005, vítima de câncer, a banda optou por seguir na estrada. Recrutaram um substituto para a complexa tarefa e ainda contaram com o retorno em boa hora de Jean-Yves Theriault, o Blacky, baixista original, afastado desde 1990, que gravou quase todos os discos essenciais do Voivod.

Com 3/4 de seu line-up original, a banda tem viajado pelo mundo e tocado, na maioria das vezes, ao lado de outros veteranos da cena thrash dos anos 80. Não era exatamente o futuro que eu imaginava para o Voivod, mas, para eles, o gueto do metal é certamente um porto seguro.

O Brasil quase fez parte dessas andanças do Voivod pelo planeta. A apresentação foi cancelada em cima da hora e nossa entrevista pré-agendada com a banda também foi para o vinagre.

O motivo apresentado pela produtora é que os músicos não teriam obtido seus vistos de trabalho em tempo hábil. O show seria, então, remarcado para o início de 2011.

A versão extra-oficial dá conta de que o real motivo para o cancelamento teria sido a baixa procura antecipada por ingressos.

Seja qual for a verdade, o Voivod esteve, sim, na América do Sul no início de 2011. Na verdade, eles andaram por aqui há menos de 2 semanas, mas, no vácuo dos megashows de Iron Maiden e Ozzy Osbourne, a apresentação dos canadenses em Santiago do Chile mal reverberou no Brasil.


A experiência de ver o Voivod ao vivo em 2011 seria uma nostalgia do futuro. O quarteto de Quebec sempre esteve à frente de seus pares no quesito inovação. A cada novo disco, uma proposta musical mais avançada e complexa.

A banda nunca escreveu sobre bobagens satanistas, dragões ou mitologia. E também não me lembro de terem exaltado o "estilo de vida headbanger" em suas letras. A praia do Voivod sempre foi o hiper-espaço, a tecnologia controlando a espécie humana, os alienígenas espiando pela janela ou alguma autocracia num mundo imaginário. E a música sempre acompanhou essa onda.

Piggy tornou-se um ourives das dissonâncias, dos riffs intrincados e solos de guitarras lindamente tortos. E Snake deixou de gritar, tornando-se, cada vez mais, um cantor de fato.

O conceito em volta da banda era claramente a obra de artistas, coisa rara no metal. Em 1989, o baterista e designer Away criou a arte para a capa do clássico "Nothingface" em computador. É isso aí, ilustração digital em 1989. Modernidade sempre foi com esses caras.

A cultura musical do Voivod veio da inspiração causada por gente como Venom, Discharge e Motörhead, mas sua imaginação passeou pelas obras de King Crimson e Pink Floyd (de quem fizeram dois covers extraordinários), materializando essa complexa teia de referências num disco pouco compreendido e de surpreendente sensibilidade pop chamado "Angel Rat".

A disposição de expandir sua atuação para além dos clichês do thrash metal criou uma aura de culto ao redor da banda. Jello Biafra escreveu sobre isso no prefácio de "Worlds Away: Voivod and the Art of Michel Langevin".

E o ex-líder dos Dead Kennedys não é o único célebre fã fora da tribo metal. Kim Thayil (Soundgarden) e Matt Cameron (Pearl Jam) são outros admiradores confessos do Voivod.

Dave Grohl, que dispensa apresentações, vai ainda mais longe. É possível assistir no YouTube a uma entrevista em que ele dedica quase 20 minutos (!) para esmiuçar a discografia, os solos de guitarra e as letras do Voivod.

Uma rápida visita ao Chile para ver esses lendários canadenses teria sido uma saudável loucura.



Acima, uma pequena amostra do Voivod, ao vivo e em alto astral, em Santiago, executando a colossal "Tribal Convictions".
Dezembro é um mês de trágicas mortes no mundo da música. De John Lennon e Dimebag Darrell -assassinados por fãs psicopatas- a Darby Crash, do Germs, que cumpriu um pacto suicida com a namorada.

Essa também foi a época em que Phil Lynott, líder do Thin Lizzy, deu seus últimos suspiros. O vocalista morreu logo após as festas de fim ano, mais precisamente em 4 de janeiro, em decorrência de anos de consumo enlouquecido de drogas. Seus órgãos simplesmente pararam de funcionar com a quantidade de veneno ingerida ao longo da vida. Um desfecho mais sombrio e doloroso que uma overdose.

Caixa Preta se antecipa às homenagens que certamente acontecerão daqui a um ano, quando se completará a data de 25 anos de sua morte, e relembra aqui mais um ano sem o pai do rock irlandês.


Imagine você o que deve ter sido crescer filho de mãe solteira e único negro da escola, do bairro e da cidade inteira na Irlanda dos anos 50?

Agora imagine que, contra todos os prognósticos, esse alvo perfeito de bullying veio a se tornar o mais adorado rock star do país, dono de uma estátua no centro de Dublin e com sua efígie estampada em selos comemorativos dos correios.

E Lynott percorreu uma trajetória igualmente improvável na música. A versão do Thin Lizzy para a cantiga popular "Whiskey in the Jar" fez mais pela auto-estima do povo irlandês, então vivendo numa pindaíba, do que todo o progresso socio-econômico das décadas seguintes.

Um negro irlandês transformar folk em rock no ano de 1973 e ainda emplacar o Top 10 parece obra de ficção.

O documentário "Out of Ireland", exibido há alguns anos no Eurochannel e inédito em DVD, remonta a árvore genealógica do rock'n'roll na Irlanda e dedica ao Thin Lizzy e, mais especialmente a Phil Lynott, um capítulo generoso.

No filme, Bono Vox rasga elogios ao baixista/vocalista e Bob Geldof revela que Lynott vivia o personagem "astro do rock" em tempo integral. "Ia de óculos escuros e jaqueta de couro ao supermercado ao meio-dia".

Filho de um suposto e desconhecido marinheiro brasileiro, Phil é cultuado pela belíssima voz, o carisma, a inteligência e a presença de espírito de um autêntico rock star.

A carreira de Lynott com o Thin Lizzy é irremediavelmente ligada ao hard rock e heavy metal, embora interpretassem esses gêneros de maneira singular e, em seu DNA, fossem pura e simplesmente uma banda de rock'n'roll. E, vez ou outra, com o vocalista justificando sua pele e enveredando pela soul music em temas magníficos.

Difícil classificar o Lizzy, mas sua influência. essa sim, parece não ter fim. De Henry Rollins, que no livro "Get in the Van" declara-se um fã, ao suecos do Cardigans - autores de uma versão açucarada de "The Boys are Back in Town".

Em 2007, o Motörhead incluiu um cover de "Rosalie" em seu show em São Paulo. Na ocasião, Lemmy perguntou se havia fãs do Thin Lizzy na casa. Uns poucos se manifestaram. Decepcionado, disse: "Vamos lá, o cara era brasileiro".

Em 2010, o Supersuckers supreendeu ao abrir seu show em Sampa com um cover de "Are you Ready" - pedrada de um B-side do Thin Lizzy.

Mais de duas décadas de sua morte e a lenda de Phil Lynott sobrevive.



Em 2001, me encontrei acidentalmente com Lemmy num local bastante apropriado: um cassino em Las Vegas.

O eterno líder do Motörhead estava vestido exatamente como já vimos em milhares de fotos e vídeos ao longo dos anos: camisa preta, jeans surrados e a velha bota de couro de cobra.

Embora tenha como mandamento quase sagrado respeitar a privacidade alheia, abri uma exceção e interpelei Lemmy para um prosa de uns 3 minutos. Contei que havia estado no primeiro show que o Motörhead realizou no Brasil, em 1989, e que lembrava o set-list de cabeça.

Lemmy achou graça, mas devolveu com um cruzado no queixo: "E nos outros shows que fizemos por lá depois, você não foi por quê?". Me esquivei do golpe. Disse que tinha ido a todos eles -mentira, claro- mas que o primeiro a gente não esquece. Lemmy assentiu: "Nisso você tem razão".

Foi a única vez que vi Lemmy fora do palco e me pareceu exatamente o tipo de cara que você imagina que ele seja. Boa praça, meio rabugento e absolutamente autêntico.


Aparentemente, essa é a opinião de grande parte do público masculino que tem entre 35 e 49 anos. Pelo menos é o que afirmam os espertos publicitários da geração X.

Depois de usarem "Should I Stay or Should I Go", do Clash, em um comercial de TV, de plagiarem o logo e a capa de uma compilação do Minor Threat para o lançamento de um tênis e de transformarem Iggy Pop e John Lydon em garotos propaganda, agora é a vez de modificarem "Ace of Spades" com a permissão de seu autor.

Explica-se: a canção mais famosa do Motörhead, em versão alternativa, virou tema da campanha "Slow Down the Pace" -algo como "Diminua o ritmo"- para a cerveja Kronenbourg 1664.

O objetivo da marca é fazer com que pessoas como eu, e talvez como você, caro leitor, acreditem que se o Lemmy pode largar a vida de excessos e se contentar com uma cervejinha, porque nós, simples mortais, não podemos?
De acordo com o diretor de criação da agência responsável, o mais difícil não foi convencer Lemmy a participar do comercial - o notório apreciador de Jack Daniels com Coca-Cola já apareceu em propagandas de salgadinhos e chocolate antes.

O complicado, nas palavras do publicitário, foi lidar com a montanha de russa de humor de Lemmy durante a nova gravação de "Ace of Spades".

Como se sabe, o Motörhead jamais havia regravado seu maior clássico em estúdio e seu autor, pelo que consta, sempre protegeu a aura de clássico da canção.

Mas, no fim, a Kronenbourg 1664 ganhou uma versão blues de "Ace of Spades" para mostrar que até um bad motherfucker como Lemmy pode, por uma quantia substancial, "diminuir o ritmo".

Jello Biafra, que me confidenciou em entrevista ter passado mal fisicamente com o uso de "Search & Destroy", dos Stooges, em uma propaganda da Nike, com certeza não aprovaria.

Mas o carisma de Lemmy parece capaz de nos fazer achar o comercial da Kronenbourg a coisa mais cool do mundo.

Assista abaixo e me diga se não é legal...