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Se você é de São Paulo ou Rio de Janeiro, não pode perder as apresentações da veterana e espetacular banda suíça The Young Gods ao lado dos heróis do manguebit, Nação Zumbi. Os grupos se apresentam em 22/05 na Virada Cultural, em 26/05 no Cine Jóia, e no dia seguinte, um sábado, no Circo Voador.

O evento ocorre como parte das comemorações de 20 anos do já clássico álbum "Afrociberdelia", de Chico Science & Nação Zumbi, e está sendo tratado como uma prévia do que os dois grupos apresentarão, juntos, na próxima edição do famoso Festival de Montreaux, na Suíça.

Difícil imaginar uma combinação de artistas mais criativa e original. Os suíços, liderados por Franz Treichler, são tratados como um dos pilares do que se convencionou chamar industrial music. Sua obra faz intersecções com grupos tão diversos quanto Einstürzende Neubauten, Coil, Ministry, U2 e Killing Joke. Mas não apenas. Sua formação inicial também era inusitada: não havia baixista ou guitarrista; apenas o cantor Franz Treichler, o baterista Frank Bagnoud e o sampleador/programador Cesare Pizzi.

A estreia dos Young Gods em estúdio, ocorrida em 1987, trouxe um amálgama de música eletrônica e rock pesado, que, à época, não encontrava paralelos. Mesmo com o repertório em francês, o importante jornal inglês Melody Maker conferiu ao álbum, homônimo, o prêmio de disco do ano.

Do segundo lançamento em diante, o trio suíço esteve mais longe ou mais perto do rock em diversas ocasiões. Em "L'Eau Rouge", de 1989, que saiu no Brasil, em vinil, pela extinta gravadora Stiletto, o grupo vai da melancolia à agressividade sonora, de climas soturnos à música de cabaré. No mesmo ano, partem para um projeto completamente diverso: "The Young Gods Play Kurt Weill", um disco inteiro dedicado a regravações do compositor alemão Kurt Weill, autor de música para câmara e orquestra, e parceiro de Bertold Brecht na famosa "A Ópera dos Três Vinténs".

Ainda antes que Chico Science & Nação Zumbi começassem sua revolução no pop brasileiro, os Young Gods chegaram ao quarto disco de estúdio, adotando, pela primeira vez, o inglês em material autoral. E é do álbum "T.V. Sky", de 1992, a canção mais conhecida do grupo. "Skin Flowers", a reboque de um vídeo-clipe, foi seguidamente exibida por Fabio Massari em seu programa Lado B, na MTV Brasil.

Mesmo assim, os Young Gods nunca deslancharam comercialmente. São uma banda bastante singular, com uma propensão ao estranho, e mais alinhada à cena artística europeia e ao avant garde. Em 1994, quase tocaram no Brasil pela primeira vez. Estavam escalados para o festival BHRIF, em Belo Horizonte, mas cancelaram sua participação depois que as bases do disco "Only Heaven" foram acidentalmente apagadas no estúdio. Foi essa, ao menos, a história que se contou à época.




Nesse mesmo período, Chico Science & Nação Zumbi começam a sacodir a música brasileira com sua mistura original e cosmopolita. Tambores com guitarras, riffs de metal com maracatu, pitadas de hip hop e raggamuffin', e letras que conectavam o rico imaginário nordestino ao futuro digital. A reportagem que apresentou o manguebit ao Brasil foi escrita pelo então VJ Gastão Moreira e publicada na revista Mixer. Ali, descobrimos a quantidade de bandas egressas do Recife e a efervescência de sua cena musical.

O primeiro lançamento de CSNZ, "Da Lama Ao Caos", foi editado pelo selo Chaos, da Sony, que apostava em novos grupos como Planet Hemp e Skank. O impacto foi enorme e Recife tornou-se, por algum momento, a equivalente brasileira de Seattle. Da capital fora do eixo saíram grupos como Mundo Livre S/A, Eddie, Jorge Cabeleira, Sheik Tosado e Devotos do Ódio.

"Afrociberdelia", de 1996, com seu CD em caixa translúcida cor de laranja e linguagem gráfica moderna, trouxe uma das canções mais marcantes do período. A releitura de "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner, colocava o pop do Recife conectado ao que havia de mais descolado no planeta. A canção, não por acaso, tornou-se uma trilha marcante nos tempos gloriosos da MTV Brasil e, adequadamente, foi o último clipe exibido pela emissora, em 2013, antes de sair do ar.

Chico Science morreu no ano seguinte, em um acidente automobilístico, aos 30 anos de idade. O grupo seguiu sem ele e firmou-se como uma das grandes forças criativas do pop nacional. Os dois álbuns de CSNZ ganharam a chancela de medalhões da MPB e terminaram rapidamente içados à condição de clássicos. Em matéria especial da Rolling Stone, em 2007, ambos estão listados entre os 100 maiores da música brasileira. E não só: ocupam, respectivamente, a 13ª e a 18ª posições. Top 20, portanto.

Os Young Gods seguiram em frente e passearam pela ambient music, por frequências herdadas do trip hop e por viagens lisérgicas à moda dos anos 60. Encontraram, ao longo do caminho, uma alma gêmea capaz de compreender a singularidade de sua obra. Mike Patton, o prolífico vocalista do Faith No More, passou a editar os lançamentos do grupo nos EUA através de seu selo, Ipecac Records, e também apresentou-se ao vivo com eles. Em 2008, o trio veio finalmente ao Brasil e fez três apresentações históricas em São Paulo. Como nota curiosa, os shows deveriam alternar repertórios elétrico e acústico, mas, por limitações do SESC Pompeia, apenas os sets acústicos foram apresentados. Dizem que a banda ficou furiosa, mas, para o público, valeu -e muito- ter assistido à apresentação do belíssimo álbum "Knock On Wood". E é incrível como, ao vivo, mais até do que em estúdio, a voz de Franz Treichler se parece com a de Bono Vox!

Em 2016, você tem a chance de ver esse encontro nos palcos: The Young Gods e Nação Zumbi. Eu não perderia por nada. 

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Foi lançado há alguns dias, via Nuclear Blast, o álbum homônimo do Surgical Meth Machine, novo projeto de Al Jourgensen. Apesar dos rumores de sua aposentadoria, Uncle Al continua produzindo música com bastante frequência - lançou, de quatro anos pra cá, um disco de inéditas do Ministry e outro projeto, Buck Satan and The 666 Shooters, com o veteraníssimo Rick Nielsen, do Cheap Trick.

O disco do Surgical Meth Machine não é muito diferente de experiências sonoras já feitas por Jourgensen, especialmente com o próprio Ministry. Há muitas colagens, samplers, bateria eletrônica, barulho e uma ambiência apocalíptica bastante característica. É também um álbum debochado e que, nesse aspecto, lembra um pouco a irreverência do Revolting Cocks, outro de seus conhecidos projetos e que alcançou certa visibilidade pop com a escrachada regravação de "Do Ya Think I'm Sexy?", de Rod Stewart.

Na nova fornada de canções, se é que o termo se aplica, chama a atenção "I'm Invisible", faixa que encerra o disco. Nela, pode-se ouvir a voz limpa de Al Jourgensen, sem efeitos de estúdio, e que remete a um período perdido do Ministry. Quem conhece "With Simpathy", o primeiro trabalho do grupo, de 1983, sabe que nem sempre Uncle Al cantou de maneira cavernosa e com a voz soterrada por efeitos. Pelo contrário, o synthpop que ele hoje renega era música feita para rádios e pistas de dança; inspirada nas bandas inglesas da mesma vertente.

As mudanças na carreira desse cubano radicado nos EUA e nascido Alejandro Ramirez, dariam filme. Do já citado início, em que teve o luxo de arregimentar músicos top para sua banda de apoio e chegou a abrir um show para o Police na megaturnê do disco "Synchronicity", até as glórias do início dos anos 90, período em que o Ministry frequentou grandes festivais e teve clipes exibidos em alta rotação na MTV.

Al Jourgensen admite que o sucesso obtido na década de 1990, época que viu a última corrida do ouro das grandes gravadoras, teve lá seus efeitos. Se lambuzou com os orçamentos para entregar os discos do Ministry para a Sire -subsidiária da Warner- e caiu de cabeça numa vida de sexo, drogas e rock'n'roll sem limites e que remonta às histórias mais excêntricas dos anos 70. Usou todas as drogas conhecidas, de heroína a crack, e viu sua produção musical decair na mesma proporção.

Passou anos num vai e vem de lucidez, aparecendo em público em variados estados de sanidade e aspecto físico, e perdeu a colaboração do baixista e produtor Paul Barker, seu grande parceiro musical. O período que se seguiu, e que é conhecido como a fase de El Paso, dada a mudança de Jourgensen para o Texas, gerou discos que eram verdadeiros manifestos contra a administração George W. Bush. Dá pra dizer que Al ficou completamente obcecado pelo tema: em "Houses of the Molé" todas as faixas começam com a letra W e em "The Last Sucker" e "Rio Grande Blood", o ex-presidente republicano aparece nas capas em montagens bizarras.

O envelhecimento e a distância dos holofotes parecem ter levado Jourgensen a cultivar sua fama de louco e excêntrico como uma espécie de cartada final. Encheu o rosto de piercings subdermais, escreveu uma biografia em que conta histórias horripilantes sobre drogas e prostituição ("The Lost Gospels According to Al Jourgensen") e estrelou um documentário igualmente extremo e não indicado a espectadores mais sensíveis ("Fix: The Ministry Movie").

Em 2015, esteve no Brasil pela primeira vez em 35 anos de carreira e fez um show antológico com o Ministry. Trajando uma camisa com estampa de Che Guevara, promoveu um verdadeiro bombardeio sonoro no palco da Audio Club, em São Paulo, amplificado pelas projeções de imagens apocalípticas e anti-imperialistas. A repercussão do show foi tamanha que o Ministry terminou convidado a voltar ao Brasil no mesmo ano para apresentar-se no palco Sunset, do Rock in Rio.

Nas entrevistas de divulgação do novo trabalho, Uncle Al não comenta sobre a aposentadoria que vem adiando há tempos. Mas detona, com sua prosa divertida, o que sobrou da indústria fonográfica e brinca com o interesse da gravadora alemã Nuclear Blast: "Acham que vão ganhar dinheiro com essa velha carcaça". Por fim, revela, em outra excêntrica jogada de autopromoção, que a radiografia na capa do disco é de seu próprio rosto. De acordo com ele, os dentes implantados, incluindo aqueles de vampiro, foram resultado dos anos de abuso de drogas. "O crack e a heroína me deixaram banguela".


Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.

"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.

Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.

Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.

Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.



O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.

Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).

E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.

A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.

Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...



Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top

Em quase 35 anos de carreira, o Ministry jamais se apresentou no Brasil. A banda que surgiu em Chicago por obra do cubano Al Jourgensen, fazia no início um synth-pop inofensivo, como se pode ouvir no disco de estreia, "With Simpathy". Alguns anos mais tarde, no entanto, criaram uma pequena revolução no som pesado ao misturar elementos eletrônicos com guitarras distorcidas, samples, vocais cavernosos e uma pegada punk/metal. Tornaram-se para muitos os pais do estilo conhecido como "industrial music".
O álbum "The Land of Rape and Honey", de 1988, uma autêntica trilha sonora para o fim do mundo, foi o primeiro a cair no radar dos fãs de música pesada. Depois dele, o caminho estava aberto para Jourgensen e seu comparsa Paul Barker, que se tornaram uma referência de seu tempo. Os dois discos seguintes -"Mind is a Terrible Thing to Taste" e "Psalm 69"- viraram clássicos imediatos. Do primeiro, saíram os singles "Thieves" e "So What". E de "Psalm 69" foram içadas faixas bombásticas como "N.W.O.", "Just One Fix" e "Jesus Built My Hotrod" - todas lançadas com o apoio de clipes cabulosos e que foram seguidamente exibidos pela extinta MTV Brasil.

Jourgensen e Barker também se meteram em diversos outros projetos no período, como Revolting Cocks (do infame cover "Do Ya Think I'm Sexy?", de Rod Stewart), Pigface, 10,000 Homo DJs, Pailhead (com Ian MacKaye) e o sensacional Lard, com Jello Biafra, que deixou 2 álbuns e 2 EPs (a faixa "Fork Boy", do primeiro disco, foi usada na cena de rebelião em "Assassinos por Natureza", de Oliver Stone).

Ministry

Ao longo da década de 90, o Ministry produziu ainda grandes discos como "Filth Pig" (que tem a impressionante regravação de "Lay, Lady, Lay", de Bob Dylan) e "Dark Side of the Spoon", cujo título em inglês ("O Lado Escuro da Colher") é um trocadilho com os hábitos heroinômanos de Al Jourgensen. É desse álbum também a música "Bad Blood", usada na trilha sonora de "Matrix".

A associação do Ministry com o cinema foi ainda mais marcante no filme "AI - Inteligência Artificial", de Steven Spielberg, em que aparecem tocando num tipo de rodeio de destruição de robôs. O convite partiu de ninguém menos que Stanley Kubrick, o gênio responsável por obras-primas como "2001: Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica", "O Iluminado", entre outras; e que há anos vivia recluso na Inglaterra. Al Jourgensen conta que ao receber o telefonema de Kubrick, achou que se tratasse de uma trote. Soube depois que o lendário cineasta conhecera a música da banda no set de seu último filme, "De Olhos Bem Fechados". Na primeira década do novo milênio, o Ministry gravou dois álbuns praticamente conceituais e que protestavam contra o governo fascista de George W. Bush: "The Last Sucker" e "Rio Grande Blood". Paul Barker deixou o grupo depois de longos anos e Jourgensen seguiu sozinho, até acabar com o Ministry e voltar para mais um disco e uma turnê.

Seu mais recente álbum, "From Beer to Eternity", de 2013, é versátil e tenta resgatar um pouco de cada fase da carreira, com faixas mais experimentais, um maior uso de electronica e o peso arrebatador de sempre. A boa notícia é que, dessa vez, o Ministry finalmente passará pelo Brasil! O show acontece dentro de três semanas na Audio Club, em São Paulo, e a banca da Red Star Recordings estará por lá com todo o catálogo do selo e diversos títulos nacionais e importados.

 Gibby Haynes, do Butthole Surfers, assume os vocais nessa bomba atômica dos anos 90.
Sabe aqueles discos que desaparecem de vista como se nunca tivessem existido? O tipo de álbum sobre o qual você deixa de encontrar qualquer citação, que seus amigos desconhecem e que também não faz parte de sua coleção física ou digital? Pois outro dia tive a surpresa de topar com um desses.

Foi ao final de um show, na banquinha de uma distribuidora independente. Estava lá o tal disco fantasma, em uma cópia novinha, lacrada e em vinil. Falo de IX, terceiro registro de estúdio do Bulldozer, um grupo italiano de metal que é adorado por meia-dúzia de malucos. Não comprei o LP, mas dar com ele me levou a procurar por um upload completo no Youtube e terminar uma audição iniciada 25 anos atrás.

Não ouvia o álbum desde 1988. Fui apresentado ao disco em visita a um então conhecido promotor de shows. O sujeito recebia pilhas de discos do exterior numa época em que qualquer LP importado valia seu equivalente em ouro. E IX era novidade, tinha acabado de sair na Europa. Na ocasião, eu já conhecia o debut do Bulldozer, The Day of Wrath, e tinha achado o proto-black metal dos caras tosco e mal gravado. Mas IX era diferente: uma mistura de thrash, hardcore e outras vertentes do som extremo, com execução e gravação incomparavelmente melhores. O álbum parecia promissor, mas desde então nunca mais soube dele. No último quarto de século, sumiu de vista. Desapareceu. Virou enxofre.


A experiência de fazer uma nova audição de IX em 2014 foi como revisitar um tempo que acabou. Meus parâmetros mudaram, claro, assim como toda a conjuntura que permitiu o surgimento de bandas como o Bulldozer.  O arroubo juvenil está em cada letra e riff de guitarra do disco. Algumas letras, inclusive, ou a maioria delas, seriam impensáveis no mundo politicamente correto de hoje.

Em "Mysoginists" e "No Way", os milaneses esculhambam com o sexo feminino (!), apregoam a prática da masturbação e, por vezes, resvalam em um nada engraçado ranço moral italiano. Recuperam-se na antimilitarista "Desert!", e voltam ao deboche em "Ilona the Very Best", narrando, através de uma não-letra, as peripécias sexuais da atriz pornográfica Cicciolina, eleita naquele mesmo ano para o Parlamento Italiano. A faixa mais emblemática da porralouquice, no entanto, é "The Derby" - um hino de incitação ao hooliganismo que começa com gritos de torcida ("Milan! Milan!") e termina ao som de garrafas quebradas, bombas e sirenes.  O conteúdo, como se vê, é banquete farto para o apetite de adolescentes ogros. 

IX epitomiza o espírito niilista do auge do metal underground, período em que sobravam testosterona e uma vontade irrefreável de desconstruir figuras de autoridade e o próprio status quo. A ilustração da capa, que exibe o planeta em chamas e famosos monumentos aos pedaços, não está ali por mero acaso.

Mas em 1992, numa reviravolta surpreendente, o Bulldozer meteu-se a fazer um EP com o produtor de techno Fausto Guio, que participa do projeto na pele do misterioso rapper Dr D.O.P.E (um pseudônimo tão americano quanto os filmes de bangue-bangue de Bud Spencer e Terence Hill...). O resultado final, com o bem sacado título Dance Got Sick!, é esquisitíssimo, com ecos de eurobeat e o Ministry dos primórdios.

A aventura atirou o grupo no mais absoluto ostracismo e serviu de álibi para Alberto Contini, líder da tropa, cair de cabeça na cena dance. Ele fundou o selo A-Beat C, especializado em Italo Disco e J-Pop, e produziu, ao longo dos anos 90, uma série de hits que fizeram ferver as pistas de dança na Itália e no Japão.

Por essa, ninguém esperava.


"The Vision Never Fades": o thrash metal oitentista encontra o pós-punk em uma esquina de Milão
Fiquei sabendo, tardiamente, que Jeff Pezzati, ícone da cena alternativa de Chicago, vem sofrendo há alguns anos do mal de parkinson.

À frente da The Bomb, banda que fundou em fins da década de 90, Pezzati tem a bravura de continuar gravando e, principalmente, se apresentando ao vivo.

Não fala sobre sua condição, mas é visível que, mais do que sua conhecida timidez, a performance comedida no palco é um jeito de controlar os sintomas da doença.

Jeff Pezzati passou por um divórcio que quase o levou à ruína financeira, descobriu o parkison, mas continuou de pé. É um sobrevivente.

No início dos anos 80, integrou -como baixista- uma das bandas americanas mais cultuadas do período: o trio de noise punk Big Black. Começava ali sua amizade com o guitarrista colombiano Santiago Durango, com quem tocaria mais tarde no Naked Raygun, e com o idiossincrático músico e produtor Steve Albini, que viria a produzir, uma década e meia depois, dois álbuns da The Bomb.

A importância do Naked Raygun para o rock underground de Chicago é difícil de ser medida. Mas a afirmação de um crítico do jornal Chicago Tribune dá a ideia: "É simplesmente a maior banda que Chicago já produziu".

E estamos falando da cidade que deu origem a grupos como Jesus Lizard, Ministry, Smashing Pumpkins, The Dwarves, Wilco, Tortoise, Trouble e muitos mais.

O Naked Raygun cantava sobre a vida dos jovens da classe operária. Seus integrantes se misturavam com o público e eram parte dele. Dirigiam a própria van nas turnês e circulavam pelos subúrbios com seus inseparáveis coturnos Doc Martens e os indefectíveis corte de cabelo escovinha. Eram uma espécie de Clash local, mas bebiam mesmo do songwriting do Buzzcocks.

Seu álbum de estreia, Throb Throb, de 1985, é uma gema do punk americano. Em impacto sônico, certamente está ao lado de discos como Wild in the Streets, do Circle Jerks, e Damaged, do Black Flag. Em qualidade de composição, está definitivamente acima.

Os primeiros 12 segundos do álbum, com o riff lancinante de "Rat Patrol", obra do talentoso John Haggerty, resultam no melhor início de um disco punk desde Nevermind the Bollocks.

E desta bolacha saíram outras preciosidades, como "Surf Combat", "Metastasis" -que conheci num passado longíquo através de uma coletânea da Flipside- e "Managua". Os riffs abrasivos e os famosos "hey-hey-hey" já estavam todos lá, incitando a tensão e a excitação de uma época.


Como uma nota curiosa, a capa de Throb Throb é assinada pelo importante quadrinista Mike Saenz, também natural de Chicago, e pioneiro absoluto na criação de gibis com arte gerada em computador ("Shatter", "Crash", etc).

O Naked Raygun gravaria uma seqüência de álbuns fundamentais na segunda metade dos 80's, como Jettison, All Rise e Understand?, até encerrar a carreira em 1991, pouco depois de lançar seu epitáfio: Raygun...Naked Raygun.

Desde 1999, quando gravou o belíssimo disco ao vivo Free Shit!, o Raygun faz apresentações bissextas para plateias ávidas em reviver momentos perdidos da juventude punk.

Jeff Pezzati está vivo.


Naked Raygun toca "Rat Patrol" ao vivo em 1988
Na semana em que completam 50 anos de carreira, daria para falar muito sobre os Rolling Stones. Inclusive, e principalmente, sobre o evento quase surreal que é manter uma banda de rock ativa por meio século.

Lembre-se: os Stones são contemporâneos dos Beatles e, seja como testemunhas ou como protagonistas, passaram por todas as metamorfoses musicais das últimas cinco décadas.

Poderia falar também sobre minhas lembranças de infância com os clipes de "Start Me Up" e "Emotional Rescue", da história bizarra de um amigo que salvou Mick Taylor de ser atropelado por um ônibus em São Paulo (sim, aconteceu!) ou defender a subestimada obra dos Stones nos anos 80. O assunto dá caldo.

Parece mais divertido, no entanto, medir a influência do songwriting de Jagger e Richards, os Glimmer Twins, na música pop. Se foram extremamente impactados pela música negra norteamericana, os ingleses devolveram a dose sendo regravados pelos principais baluartes da soul music - de Tina Turner a Marvin Gaye, de Otis Redding a Aretha Franklin.

Mas quanto mais estranhas e virulentas as regravações, melhor o resultado. Ao longo dos últimos 30 anos, o material dos Rolling Stones foi simplesmente virado do avesso.

Abaixo, uma pequena lista que resume 50 anos de carreira em 5 covers sensacionais:



Sympathy for the Devil

LAIBACH
(1990)
Dois anos antes de "coverizar" esse clássico dos Stones, a banda da antiga Iugoslávia -atual Slovenia- havia regravado integralmente o álbum "Let it Be", dos Beatles. O resultado aqui é tão incrível quanto: ritmos marciais sob uma ambientação de industrial music. O suíngue dos ingleses é transformado em gelo no Leste Europeu. De arrepiar.

Under My Thumb
MINISTRY
(2008)

O Social Distortion regravou "Under My Thumb" duas vezes em estúdio. A versão de 1996 é, provavelmente, a melhor gravação que existe dessa canção. Mas não a mais original. O velhaco Al Jourgensen misturou tecladinhos oitentistas com guitarras distorcidas e sua voz cavernosa para criar um hit que faria sucesso nas pistas de dança do inferno.


I'm Free

SOUP DRAGONS
(1990)
É a canção que fecha a versão inglesa do álbum "Out of Our Heads", de 1965. Na América, a faixa foi limada do LP, mas ganhou sobrevida em 1990, quando virou o hit solitário da banda britânica Soup Dragons. Transformada num pop dançante, com slide guitars, wah-wah, coral soul e uma incursão pelo raggamuffin. Ganhou as paradas e tocou até cansar nas rádios brasileiras. É a cara do início dos 90's.



(I Can't Get No) Satisfaction

DEVO
(1978)
Quem ouve a versão absolutamente genial do Devo para "Satisfaction" não poderia imaginar que no futuro o riif feérico de Keith Richards seria usurpado pela publicidade para vender todo tipo de porcaria. Mark Mothersbaugh, no auge, implode as convenções e transforma o clássico sessentista numa pérola da maluquice funk-new wave. Um dos melhores covers de qualquer coisa em qualquer época.



Honky Tonk Women
THE POGUES
(1988)
Canção escrita por Mick e Keef numa fazenda do Mato Grosso (!) em fins dos anos 60. Richards lembra que quando dava descarga no banheiro do lugar, dezenas de sapos pretos subiam boiando na água... O ambiente influenciou para que a música soasse como um country à la Hank Williams, mas mudou com os arranjos do recém-chegado Mick Taylor. A versão do Pogues, por sua vez, traz uma mistura do que eles sempre fizeram de melhor: irish folk com pegada punk. Na versão de estúdio, quem canta é o guitarrista Spider Stacy. Já naquela época, o lendário Shane MacGowan estava em condições lamentáveis para gravar.


Acaba de ser lançado um dos dois discos que mais me interessavam em 2010: "Absolute Dissent", do Killing Joke (o outro, para vocês saberem, é o novo do ZZ Top, com produção de Rick Rubin).

Demorei muito para prestar a devida atenção na banda de Jaz Coleman. Desde sempre ouvia falar, mas, por essas coisas que não se explicam, nunca tive um disco deles.

Há alguns anos um amigo me enviou uma cópia do álbum "Killing Joke", de 2003, aquele em que Dave Grohl é o baterista, e o DVD ao vivo "XXV Gathering! Let Us Prey". Pronto, corrigi rapidamente uma injustiça de décadas e me converti imediatamente.

As guitarras lancinantes de Geordie, com seu som gelado e metálico, e a voz sensacional de Coleman se adaptam a material pesado, pop, depressivo e atmosférico.

Revistando a carreira do grupo nos anos 80, época em que era objeto de culto, descobre-se um passado bem mais interessante do que, por exemplo, o do Ministry.

Se hoje os discos das duas bandas repousam na prateleira do industrial rock, o Killing Joke pode gabar-se de ter feito barulho muito antes. Ouça o consistente "Fire Dances", de 1983, e o compare com "With Simpathy", do Ministry, lançado no mesmo ano.



Com "Extremities, Dirt & Various Repressed Emotions", de 1990, o KJ passou a soar ainda mais pesado e brutal. A sequência de lançamentos que inclui "Pandemonium", "Democracy" e o já citado "Killing Joke" é impressionante.

Hoje tive uma prévia do novíssimo e aguardado álbum. Ouvi apenas 4 de suas 12 faixas: "Absolut Dissent", "The Great Cull", "This Word Hell" e "Endgame". E a primeira impressão é de que os rumores são verdadeiros: trata-se de mais um disco primoroso.

As revistas e sites estrangeiros têm tratado esse que é primeiro trabalho com o line-up original do Killing Joke desde 1982, com absoluta reverência.

Jaz Coleman afirma que é a melhor coisa que eles gravaram na vida.

As letras são ácidas e inteligentes e, sob 10 toneladas de peso, reside um groove irresistível. Se houver uma pista de dança no inferno, com certeza está tocando Killing Joke.

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Veja abaixo um clássico do KJ dos anos 80 executado em 2005, no aniversário de 25 anos da banda.