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Para tirar o blog da hibernação em 2017, republicamos no Caixa Preta a resenha do show do Korn, realizado no mês passado em São Paulo, e que cobrimos com exclusividade para o portal Rock On Board. Em breve tem novas colunas por aqui e, finalmente!, o anúncio oficial da estreia de AUDIO ATTACK, nosso programa de rádio. Fiquem de olho!

KORN
19/04/2017
Espaço das Américas
São Paulo – SP

Parece que foi outro dia, mas o Korn, em 2017, já é banda veterana. São os últimos bastiões do nu metal, um subgênero que viveu dias de glória no fim dos anos 1990, gerando assombrosas vendagens de discos. O tempo foi cruel com o estilo e seus outros famosos representantes foram abandonados à irrelevância.

 Já o Korn, com um disco novo embaixo do braço, desembarcou no Brasil com farto espaço nas editorias de entretenimento. E a razão não era “The Serenity of Suffering”, seu décimo-segundo álbum em 24 anos de carreira, mas um fato bastante inusitado: a presença de um moleque de 12 anos integrando sua tão conhecida e sólida formação. Aumentou o frisson o fato de o menino, Tye, ser filho de Rob Trujillo, baixista do Metallica e ex-Ozzy Osbourne e Suicidal Tendencies. A salada estava posta.

Crianças não combinam com bandas de rock. Ponto. E ainda pior quando a banda em questão segue a vertente mais pesada, cantando sobre temas sombrios que muitas vezes envolvem maldades perpetradas contra crianças – não se trata de apologia, pelo contrário, mas esse fato sozinho já aumenta a estranheza.

Os fãs não deixaram de prestigiar o grupo por conta da ausência temporária de Reginald Arvizu. Três mil deles, ou mais, ocuparam a maior parte desse lugar estranho chamado Espaço das Américas, com seu salão amplo e que parece perfeito para festas de formatura.

Muitos aficionados pela banda seguem a moda ditada por eles, de tranças e dreadlocks nos cabelos, além dos indefectíveis agasalhos esportivos sempre bem largos. Não é exatamente o público de outros shows de rock pesado e surpreende que o nu metal, à essa altura, ainda tenha seus próprios e fieis adeptos.

A luz azulada e o som similar ao de uma sirene anunciaram o Korn. E a massa bramiu entusiasmada. Jonathan Davis, de saia estampada, seus comparsas Brian Shaffer e James Welch, de dreadlocks emaranhados, o talentosíssimo Ray Luzier nas baquetas e, à sua direita, sobre uma plataforma que atenuava a baixa estatura, o convidado Tye Trujillo. Todos os olhos nele e o menino, compenetrado, seguia à risca sua função, enquanto a banda executava “Right Now” e “Here to Stay”. Excursionando com o Korn, o tecladista convidado Davey Oberlin colaborava para deixar a experiência mais climática.

O repertório da noite teve canções pinçadas de pelo menos dez discos, sem grande favorecimento a uma fase sobre outra. A irresistível “Word Up”, que em estúdio exibe uma faceta mais pop do Korn, foi interpretada ao vivo de forma fria e desleixada, sequer tocada até o final. Sem dúvida, o ponto baixo da apresentação.

Tye Trujillo, por sua vez, pulverizava as suspeitas sobre a pouca idade e, surpreendentemente, misturava-se com naturalidade aos adultos. Com postura, boa técnica e metido numa camiseta da banda sueca Meshuggah, subia e descia da plataforma, às vezes entusiasmado em poder chacoalhar a cabeleira ao lado do guitarrista Brian “Head” Welch.

A iluminação deixava o palco quase sempre muito claro, e as guitarras, saturadas, com a famosa afinação baixa do nu metal, criavam um clima estranho; quase estéril. Tudo é parte da receita que fez a música do Korn resistir bravamente ao teste do tempo. São diversas faixas baseadas em riffs repetitivos e que criam pequenos mantras, estendidos até explodirem em algum refrão que manda tudo às favas. “Blind”, parte do repertório do show, é ótimo exemplo dessa fórmula que influenciou muita gente, de Sepultura a Linkin Park.

A apresentação teve ainda solo de bateria, Jonathan Davis causando com sua gaita de foles, um dueto de baixo e bateria para prestigiar o baixista mirim, muito aplaudido, e a poderosíssima “Make Me Bad”. “A.D.I.D.A.S”, dessa vez, ficou de fora.

O bis, previsível, trouxe os dois maiores êxitos comerciais do Korn. “Falling Away From Me”, com sua introdução misteriosa e atmosférica, é das melhores coisas que o grupo já produziu e gerou uma tremenda ovação assim que a banda retornou ao palco.

“Freak on a Leash”, por fim, fez todo mundo voltar a 1998, momento em que o Korn foi dos grupos mais populares do planeta, liderando a parada da Billboard e indicado a nove prêmios no Video Music Awards, da MTV. Funciona bem ainda hoje e também como uma pequena cápsula do tempo, que ajuda a explicar sobre os estertores da última boa década da música pop.

Trechos do show do Korn no Espaço das Américas

 *Foto de abertura: Francisco Cepeda.
Saiu há poucos dias o novo disco do Anthrax, "For All Kings". É o segundo esse ano de bandas pertencentes ao Big Four, congregação que autocelebra os quatro maiores nomes do thrash metal. O outro lançamento foi "Dystopia", do Megadeth, que marcou a estreia do guitarrista brasileiro Kiko Loureiro. Em 2015, o Slayer, mais um integrante do tal quarteto, já havia lançado "Repentless".

É interessante ver que o thrash metal resistiu ao tempo e que seus principais arquitetos ainda estão em atividade. O Exodus, que não é um dos Big Four, mas certamente um dos artífices do estilo, também soltou um disco de inéditas em 2015, "Blood In Blood Out".

Ouvindo todos esses álbuns recentes, fica clara a intenção dos veteranos em manter a música feita hoje ainda conectada aos fundamentos clássicos do gênero. Não existe um Ramones do thrash metal, que escreve sempre a mesma música e lança os mesmos e ótimos discos, mas estabelecer laços com o passado parece uma preocupação.

O novo trabalho do Anthrax comprova também a constante depuração técnica e o esmero com execução e registro em estúdio. E tudo porque o público de thrash metal pode ser bem nerd e exigente, em algum aspecto lembrando os fãs de rock progressivo. Esmiuçam discos e fichas técnicas, comparam os desempenhos de guitarristas e bateristas com o que fizeram no passado e não deixam escapar qualquer detalhe. Só baixam a guarda quando o aspecto nostálgico entra em cena.


Quem comprou "For All Kings" -que saiu no Brasil em edição limitada e numerada, com CD extra trazendo quatro faixas ao vivo e o EP de covers "Anthems"- conhece o Anthrax do avesso. Não é banda para neófitos. E esse segundo álbum desde o retorno de Joey Belladonna, cantor de quatro discos clássicos do grupo entre 1985 e 1990, mostra uma banda que há muito ficou adulta. Idos são os tempos em que usavam bermudas floridas e faziam galhofas como lançar um debochado EP de hip hop - por ironia, o item mais vendido de sua discografia.

O Anthrax ficou sério ainda na virada dos anos 90, e mais claramente quando arregimentaram o vocalista John Bush. Com ele a bordo, sobreviveram ao declínio do thrash metal e flertaram com o pop e o grunge à la Alice in Chains. São dessa fase dois de seus maiores hits: "Only", muito executada nas rádios rock de São Paulo- e "Safe Home", com direito a vídeo-clipe estrelado por Keanu Reeves.

A revalorização do thrash metal, percebida nos primeiros anos do milênio e que arrebatou novos e jovens fãs, todos dedicados a escavar antigas novidades oitentistas, levou o grupo a encerrar a era Bush -sem trocadilhos-, que já durava 13 anos. Até o Metallica, que em algum momento tornou-se gigantesco e comercial demais para o gueto do thrash, tentou bandear de volta para onde tudo começou.

Com as voltas de Belladonna e do guitarrista Dan Spitz em 2005, o Anthrax atendeu às demandas saudosistas e excursionou tocando na íntegra sua obra-prima "Among the Living", de 1987. Foi a centelha para que o grupo mergulhasse de volta no metal clássico e apagasse da memória a interessante produção com John Bush - seus discos sequer constam do catálogo da banda no Spotify.

Spitz, aposentado, caiu fora após a turnê de reunião, e o grupo, entre idas e vindas chatas demais para explicar aqui, lançou, em 2011, com Joey Belladonna, o disco "Worship Music". Se você conhece o álbum, sabe mais ou menos o que esperar de "For All Kings". Não é mais o Anthrax rápido, com backing vocals punks e a ironia corrosiva dos anos 80. Há lampejos disso, claro, como na boa "Evil Twin" e na ótima "Zero Tolerance", que fecha o novo disco. Mas os novaiorquinos parecem agora mais comedidos e interessados em investir num tipo de heavy metal classudo, com muita melodia, e que combina com a voz de Belladonna feito feijão e arroz. O retorno às raízes thrash, alardeado de lá e de cá, ficou no meio do caminho.

Charlie Benante, dono da banda ao lado de Scott Ian, mostra-se ainda um senhor baterista. Talvez o melhor que o thrash metal produziu. Ou talvez tão bom quanto outro gigante, Dave Lombardo, ex-Slayer. Ian, por sua vez, é o judeu boa praça, fanático por KISS e classic rock americano, e um dos engenheiros que criou a palhetada de guitarra que é a própria epítome do thrash metal, mas que agora é usada pelo próprio com alguma parcimônia.

"For All Kings" tem tudo no lugar e soa como o esforço de uma banda séria e coesa, comprometida com sua imagem e os 35 anos de carreira. Ao mesmo tempo, parece um disco pensado e estudado demais, e que nunca chega a decolar.

O CD bônus da edição especial, que mostra o Anthrax interpretando à perfeição canções de Rush, Journey e Cheap Trick, é simbólico. Talvez tenham se tornado clássicos demais e perigosos de menos.



"Breathing Lightning", candidata a hit, é um dos destaques de "For All Kings"
A inesperada morte de Jeff Hanneman, já há alguns anos convalescendo de uma condição tão bizarra que parecia material de trabalho para letras do próprio Slayer, sinaliza o fim de uma era. Tanto mais significativo que o guitarrista saia de cena no ano em que "Show No Mercy", álbum de estreia do grupo, completa 30 anos de seu lançamento.

Entre todas as bandas que ajudaram a criar o subgênero thrash metal, o Slayer é a que melhor canalizou a fúria juvenil; aquela que vem acompanhada do desrespeito a figuras de autoridade e a inescapável sensação de imortalidade. O thrash estava sendo inventado enquanto o Slayer gravava, em 1983, a bomba atômica "Show No Mercy". O disco resultou numa combinação de música e conceito tão radicais que fazia impossível, à época, imaginar sua co-optação pelo mundo capitalista adulto.

Ser fã do Slayer e de bandas que circulavam em sua órbita era uma espécie de declaração de intenções: somos nós contra eles. Não era o rock que seus pais podiam apreciar ou sequer o heavy metal de outrora, que já havia perdido a dignidade na época do laquê e das calças Spandex. O thrash, como fizera antes o punk, fornecia perfeito material para catalisar a rebeldia adolescente.


Mas nada disso teria funcionado se, por trás do radicalismo, não houvesse também boas ideias musicais. Jeff Hanneman e Kerry King revelaram-se os artífices do som do Slayer. Foi a capacidade da dupla de criar riffs sobrenaturais e sacá-los da cartola no momento exato -fórmula já insinuada no álbum de estreia, e elevada à uma particular forma de arte em "Reign in Blood"- que colocou o Slayer num patamar acima de seus pares. Enquanto King executava solos de guitarra lindamente toscos, Hanneman era o sujeito que emprestava melodias quase assobiáveis no meio da rifferama infernal do Slayer. A combinação dos dois guitarristas é uma dessas faíscas de invenção que raramente se produz.

O tempo passou, o thrash metal esgotou suas fórmulas e alguns de seus principais representantes caíram no ostracismo. Em momento emblemático da década de 90, enquanto o Metallica, oriundo da mesma cena, tornava-se grande e comercial demais, o Slayer nadava sozinho. Nenhuma outra banda foi capaz de carregar sua identidade radical com tamanha firmeza durante tantas modas e tendências. A ideia de que o Slayer era um porto seguro à prova de comercialismo, um grupo cuja música não se podia usurpar para fins pouco nobres, transformou muitos fãs originais em adeptos de longa data.

Assim, é impossível não saber da morte de Jeff Hanneman sem rememorar o ano de 1985, quando adquiri, por simples identificação, uma cópia de "Show No Mercy". Não sabia nada sobre o Slayer, mas a capa tosca, as faixas com títulos infames e as fotos dos músicos, que pareciam personagens de algum filme de terror, foram suficientes para capturar minha imaginação. E o pacote completo revelou-se com o poderio sônico que se escondia em riffs como o de "Antichrist" ou na pancadaria punk de "Evil Has No Boundaries". O estrago estava feito.

Vinte e oito anos mais tarde, é fácil entender que nossos heróis não são eternos, mas que sempre haverá uma centelha de rebeldia gravada em disco para nos permitir voltar à juventude.

Hail, Slayer!

"Show No Mercy": 30 anos em 35 minutos.
Não consigo imaginar um cenário em que a música seja mais mal tratada que um festival como o Rock in Rio. É tudo fake: conceito, público, cobertura midíatica e, em certa medida, os próprios artistas.

Reclamar que o festival é mais pop que rock virou lugar comum. Mas quem, com um pingo de juízo, esperava por uma curadoria séria num negócio milionário como esse?

Faz todo o sentido a presença de gente como Rihanna, Shakira e Katy Perry num evento em que a música só parece atrapalhar. Sim, porque o RIR tem roda gigante, tirolesa e até salão de beleza, no que está mui conectado à relação da juventude com a música.

Em 1985, quando eu tinha 14 anos incompletos, já questionava as presenças de Elba Ramalho e Ivan Lins no festival. Um quarto de século depois, a queixa por "mais rock" soa datada.

E há outra coisa que incrivelmente não mudou: o tratamento global para algo tão assimilado e estabelecido como o rock'n'roll. Os "rockeiros" são mostrados em sua faceta mais gloriosamente débil, o que apenas justifica o empacotamento da festa como a diversão segura que de fato é.

O setor VIP, essa coisa tão brasileira, também pede passagem. Famosos saem do armário ao vivo: uma atriz jura que é fã dos Chili Peppers desde criancinha; outra confessa que gosta mesmo é de samba, mas que o Sepultura tem uma "guitarra gostosa". Sério.

O deserto de bandas brasileiras minimamente relevantes assusta. É como se não tivesse surgido ninguém em décadas para suceder a geração 80. Um modorrento encontro de Titãs e Paralamas manda o recado, enquanto o Capital Inicial, em sua incansável cantilena sobre o rock de Brasília, e com um Dinho Ouro Preto tão messiânico quanto gagá, bate os últimos pregos no caixão.

O line-up do festival em seu primeiro final de semana é deliciosamente confuso. O Snow Patrol encara 100 mil pessoas armado de um hit solitário e derrapa na introdução da faixa. "Isso é bastante incomum, mas pelo menos você vão ter os Chili Peppers depois", lamentou o vocalista com algum humor.

Só que o quarteto angeleno aparece sem brilho, numa performance que foi repetidamente chamada de "arrasadora" pelo jornalismo silvícola. Anthony Kiedis, zilionário, não se constrange em fazer um merchan safado para a Brahma. Já Flea, mais discreto, se restringe a homenagear o país com a camisa da Seleção. Bastante original.

Ao final de um set list mais frio que quente, outra homenagem, dessa vez ao falecido filho da global Cissa Guimarães. Um inocente e bem orquestrado aperitivo para os megaeventos internacionais que se avizinham e que terão as mãos e os braços dos Marinho, de Nizan Guanaes e companhia. Vá se preparando.

A famosa e concorrida "noite do metal", que começou em 1985, com AC/DC, Ozzy Osbourne e outros, é onde, dizem, está o rock que dá nome ao festival. Mas a sensação de artificialidade permanece. O que justifica a histeria do público pelo Motörhead, que toca todo ano no Brasil e que há apenas 6 meses excursionava por aqui? Talvez, como Zeca Camargo, os metaleiros de ocasião acreditavam tratar-se da primeira vez da banda em nosso país.

Uma falha no amplificador de Lemmy é espertamente escondida na edição ao vivo, enquanto Phil Campbell enche lingüiça. Na saída do palco, o cinegrafista encurrala Lemmy, que é flagrado discutindo com um técnico. Cabe a Campbell enxotar, ao vivo, o cameraman abelhudo. Corta para o estúdio do Multishow, e o baterista Mikkey Dee lamenta as falhas técnicas. As apresentadoras se surpreendem: "Olha, ele tá falando de alguns probleminhas, mas a gente nem percebeu, viu".

As bobagens se sucedem. "Os caras do Metallica são uns fofos, pais de família e que estão sossegados na casinha deles lá na Califórnia". Aham. E a colega da apresentadora retruca: "Nossa, e já tem 12 anos que eles não tocam no Brasil, né?". Que tal 2010?

Teipes com os destaques do dia tapam buraco na transmissão ao vivo do tal Palco Mundo. O ótimo Mondo Cane -possivelmente a grande atração artística do festival- é mostrado em 20 segundos, nos quais Mike Patton nada canta. Sensibilidade zero. Já o Korzus e uma coisa chamada "punk metal all stars" -que tinha até East Bay Ray, veja só- foi privilegiado com uma música exibida na íntegra e na qual o vocalista puxa um côro do hino nacional. Mas hein?

Slipknot é uma das encrencas que sobrou do enfadonho nu metal. Mesmo assim, e estranhamente, eles trazem algo que faltava ao festival: esculacho. No meio de tanta brodagem e entretenimento seguro, alguns riffs emprestados do death metal, os dedos médios em riste e as fantasias escrotas cumprem o papel de avacalhar com a assepsia geral. Pena que a música seja indicada unicamente a rockeiros imberbes.

Sobrou ao Metallica, ex-banda em atividade, surpreendente momento de lucidez. James Hetfield parece ter descoberto, ainda que tardiamente, que não precisa morrer com os cacoetes vocais da década de 90 e que é melhor respeitar seus clássicos do que assassiná-los.

Basta dizer que, das 5 primeiras canções do show, 4 foram tiradas de Ride the Lightning, disco anterior ao primeiro Rock in Rio, o que, por si só, já diz muita coisa.

No meio do set, uma improvável execução da instrumental "Orion" faz a banda ressurgir dos mortos. Um dos poucos momentos em que o RIR mostrado na TV valeu à pena.


Obra do acaso: Metallica surpreende no Rock in Rio
Amada por muitos, odiada por outros tantos, a balada "Under the Bridge", do Red Hot Chili Peppers, dominou as paradas entre 1991-92.

O sucesso da canção veio à reboque de um video-clipe dirigido pelo cultuado cineasta Gus Van Sant e exibido em alta rotação na MTV. No video, o vocalista Anthony Kiedis zanzava pelas ruas de Los Angeles usando uma camiseta do D.O.A.

A informação, quase subliminar para a massa que acendia isqueiros e outros artefatos ao som da lassidão dos Chili Peppers, não passou batida para quem sabia do retorno da banda punk canadense.

Explica-se: em 1992, quando "Under the Bridge" bombava, o D.O.A. retomava discretamente suas atividades após uma aposentadoria relâmpago.

Em 1990, a banda anunciou que iria se separar e, à convite do já falecido Dirk Dirksen, ex-road manager dos Doors e agitador cultural de San Francisco, realizou uma turnê de despedida que culminou com um show gravado e lançado no DVD The End. O show tem, inclusive, uma energética participação de Jello Biafra, que canta duas músicas do disco Last Scream of the Missing Neighbors -gravado em parceria com o D.O.A.-, entre as quais a sombria "Full Metal Jackoff", com seus 17 minutos de paranóia oitentista.

Naqueles tempos, eu assinava a Maximumrockandroll, o lendário fanzine punk de San Francisco, e me deparei com um curioso anúncio. O D.O.A. voltava à carga divulgando seu último lançamento, o disco 13 Flavours of Doom, mas, sutilmente, mandava o recado: "Queremos tocar na América do Sul!".

A surpresa era ainda maior porque, até aquela época, poucas bandas punks estrangeiras tinham tocado por aqui. Me ocorrem os caóticos shows de Ramones e Toy Dolls no fim dos 80's, com batalhas campais e pessoas esfaqueadas. E apenas na metade da década seguinte, três shows incendiários do Agnostic Front para 200 pessoas por noite no mitológico Black Jack Bar.

Houve outros, claro, mas eventos tão espaçados que podem ser mapeados pela memória. Já a desejada turnê sulamericana do D.O.A. nunca chegou a acontecer.

Mas os punks de Vancouver continuam vivos e bem. Pelo menos Joey Keithley. Desde 1992, lançaram nada menos que 8 álbuns de estúdio. Um dos últimos é Northern Avenger, de 2008, produzido por ninguém menos que Bob Rock, o homem por trás do multiplatinado black album do Metallica.

Foi Bob Rock, aliás, que cunhou o termo "northern avenger" (vingadora do norte) para se referir à lendária Gibson SG de Joey Shithead. O apelido pegou e virou o título do disco que, diga-se, é inspirado e muito bem produzido.

A indefectível voz de Shithead canta refrões que são um convite à baderna: de sacadas bem-humoradas ("Golden State") a temas recorrentes do ethos punk ("Police Brutality" e "This Machine Kills Fascists"), passando por reminiscências de uma vida no underground ("Still a Punk").

Para quem já leu a autobiografia de Joey -"I, Shithead: A Life in Punk"-, não é surpresa a inclusão de um reggae ("Poor Poor Boy") e uma regravação do Creedence Clearwater Revival ("Who Will Stop the Rain"). O canadense conta no livro como uma viagem à Jamaica, quando criança, o tornou um admirador do reggae original e porque, para ele, a folk music e o punk são "filosoficamente próximos".

O livro, aliás, traz dezenas de histórias imperdíveis, como, por exemplo, um encontro surreal com David Lee Roth, no auge do Van Halen, ou a revelação de que Kurt Cobain e Courtney Love teriam se conhecido num show do D.O.A...

Mas a boa notícia mesmo é que Northern Avenger, o disco, foi lançado no Brasil. E o selo Red Star quer, ainda por cima, materializar um antigo sonho do D.O.A. e trazer os caras para a América do Sul.

Joey Shithead já disse que topa.

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Atualização (30/08/11)
: turnê do D.O.A. no Brasil confirmada!

Apresentação em SP: 19/11/11
Local: Hangar 110
Com shows de Olho Seco e Agrotóxico
Ingressos: 1º lote: R$ 30,00; 2º lote: R$ 40,00; Porta: R$ 50,00

• Ingressos online através do Ticket Brasil: www.ticketbrasil.com.br
• Outras informações: (11) 3229-7442


D.O.A. bota pra quebrar em "Human Bomb", clipe promocional de Northern Avenger.


E aqui, a sensacional versão de 1982 para "War", hit original do soulman de Detroit Edwin Starr.
O metal underground dos anos 80 é imbatível. Inspirado pelo espírito de rebeldia e independência, implodiu as fórmulas criadas pelos veteranos do gênero e cunhou uma sonoridade radical e com mínimo potencial comercial.

Os protagonistas do thrash metal e seus subgêneros eram punks na essência: subiam ao palco com as camisetas e jeans surrados do dia-a-dia, falavam de bebedeiras, violência e questionavam a autoridade - seja da Igreja ou dos chefes de estado em tempos de Guerra Fria.

Num piscar de olhos, as estrelas do heavy metal de então pareciam velhas e ultrapassadas. A vitalidade e o poder de invenção do thrash também colocaram o hardcore numa encruzilhada. De um lado, os veteranos do metal britânico se refugiavam no odioso hair metal. De outro, alguns punks dissidentes aprendiam solos de guitarra e deixavam o cabelo crescer para criar o subgenênero batizado de crossover.

O tempo encarregou-se de absorver a influência estética e comportamental do thrash metal, um gênero essencialmente underground, e canonizar alguns de seus fundadores. A popularidade do Metallica engoliu metade da música pop nos primeiros anos da década de 90, enquanto Anthrax e Megadeth, cada qual à sua medida, vendiam milhões de discos.


Mas apenas o Slayer, formado desde sempre por um chileno, um cubano e dois americanos, reinou absoluto quando o thrash metal caiu no ostracismo.

O quarteto de Los Angeles, com seus riffs que pareciam içados das profundezas, sempre soou mais radical e extremo que seus pares mais famosos. Mas, em última análise, foi o fato de seus integrantes nunca se colocarem em situações públicas embaraçosas ou cobiçarem a aceitação pop que lhes trouxe a inabalável reputação.

Nos anos 90, o insano guitarrista Kerry King manter seus braceletes com pregos de 15 centímetros, enquanto o Metallica tocava alguma balada country, era quase um statement.

Comprei o disco de estreia do grupo -Show no Mercy- no início de 1986 na mitológica e hoje finada Woodstock Discos. Ouvir o álbum na íntegra modificou alguns padrões de percepção. E, no mesmo ano, esses padrões precisariam ser revistos com o lançamento da bomba atômica Reign in Blood, tocada em primeira mão, e na íntegra, pelo programa Rádio Corsário.

Desde então, o Slayer conquistou uma aura de importância próxima aos grandes dos anos 70. Deixou de ser uma banda comum e virou uma entidade.

Apesar dos temas pouco palatáveis e da violência sonora, o grupo expandiu sua influência para além do círculo fechado do metal. Foi regravado pela cantora pop Tori Amos, numa lúgubre interpretação de "Raining Blood", sampleado pelo Public Enemy, em um rap do épico It Takes a Nation of Millions to Hold us Back, virou tema popular no game Guitar Hero e cedeu músicas para diversos filmes.

Desfalcado momentaneamente do guitarrista Jeff Haneman, que contraiu uma doença bizarra que parece saída das próprias letras do grupo, o Slayer volta ao Brasil após 5 anos. Na próxima quarta, eles implodem o Master Arena, em Curitiba e, na quinta, devem lotar mais uma vez o Via Funchal.

Cumpra sua obrigação cívica e compareça.


Maturidade sem frescuras: em 1990, o Slayer lança o elaborado Seasons in the Abyss


Em 1985, o esporro juvenil de "The Antichrist" ajuda a demolir o heavy metal tradicional
Vi o Motörhead ao vivo em sua primeira turnê pelo Brasil no já mui distante ano de 1989. Os shows em São Paulo aconteceram no Ginásio do Ibirapuera.

À época, dada a ausência de casas de espetáculo particulares e com capacidade para abrigar um bom público, o Ginásio do Ibirapuera era bastante requisitado. Foi ali que também assisti -pela primeira e única vez- a um show do Metallica. Dois anos depois, em 1991, vi o The Cult na esteira do sucesso do disco Sonic Temple. E nunca mais voltei ao ginásio.

A verdade é que o lugar não foi projetado para shows musicais e a acústica era, para ser condescendente, bem meia-boca. Pior: na época, o público ainda era judiado pela ausência de um DJ minimamente preparado para esquentar o clima.

No show do Motörhead, a plateia teve de ouvir o álbum Back in Black, do AC/DC, na íntegra. Seria ótimo, se o disco não tivesse sido tocado pelo menos umas sete vezes seguidas. Ninguém aguentava mais.

As bandas de abertura, Viper e Vodu, representavam um tipo de heavy metal paulista feito na época. Eu não gostava de nenhum dos dois grupos, mas estava lá para ver Lemmy, naquele tempo já com 44 anos de idade - e todos se espantavam que ele ainda estivesse na ativa...

Achei uma resenha minha da época. Foi publicada em um fanzine carioca muito bem produzido, com capa em papel couché e tudo, chamado Revenge. Era o texto de um garoto de 17 para 18 anos, e ainda embasbacado com as descobertas do rock.

Não preciso recorrer à velha crítica de show para me lembrar que o Motörhead abriu a noite com "Dr. Rock", do ainda recente álbum Orgasmatron, gravado apenas 3 anos antes. O resto foi basicamente um desfile de pérolas da clássica formação Lemmy-Eddie-Taylor (e sim, o Animal tinha retornado e era o baterista naquela época). Abaixo, o set-list do show de 11 de março de 1989:
  1. Doctor Rock
  2. Stay Clean
  3. Traitor
  4. Metropolis
  5. Dogs
  6. I'm So Bad (Baby I Don't Care)
  7. Stone Deaf in the U.S.A.
  8. Built for Speed
  9. Just 'Cos You Got the Power
  10. Eat the Rich
  11. Orgasmatron
  12. Killed by Death
  13. Ace of Spades
Paguei ingresso para ver o show da arquibancada do ginásio, mas, convencido pela porralouquice dos amigos, fui pulando grades e mais grades até chegar na pista. A sensação de, ao mesmo tempo, burlar a lei e ver o show de perto, no meio do tipo de moshpit insano que acontecia na década de 80, foi incrível.

A noite seguinte foi uma zona. Não estive lá, mas ouvi relatos de quem esteve. Deu pau geral no sistema de som e o show foi interrompido após duas músicas. O público ficou furioso e Walcir Chalas, da Woodstock Discos, foi ao microfone acalmar a turba e avisar que a apresentação continuaria em outra data e local. O evento foi transferido para o já extinto Projeto SP, no bairro de Santa Cecília, lugar que acolheu shows de artistas como Iggy Pop e Stray Cats naquela mesma década.

O Motörhead andava em plena forma em 1989 e certamente quebrou tudo também no show (quase) extra. Mas o amadorismo das turnês internacionais, em comparação com a infraestrutura de hoje, era notável.

Fiquei quase 20 anos sem ver o Motörhead ao vivo. Quando esbarrei acidentalmente em Lemmy, nos EUA, contei pra ele só a parte boa -que estava lá em 1989- e tomei uma bronca: "Por que você não foi aos outros shows que fizemos lá depois?". Respondi que tinha estado em todos, mas que o primeiro é sempre especial. Lemmy foi gentil e concordou: "Eu entendo o que você quer dizer". Mas a verdade é que nunca mais tinha visto a banda ao vivo e, em minha memória afetiva, tudo que podia lembrar era da multidão no Ibirapuera e as explosões pirotécnicas seguidas de "Dr. Rock".

Revi o Motörhead apenas em 2007. Depois em 2009. E mais uma vez no sábado passado, dia 16/04/2011. Os set-lists não são mais surpresa -embora o deste ano até tenha sido, ainda que não necessariamente uma boa supresa- e a presença de palco é quase holográfica. Lemmy é uma lenda viva e sua presença tem algo de irreal.

Talvez seja a (minha) idade, mas o volume absurdo que a banda impõe a seus shows não me impressiona. Ao contrário, contribui para uma leve fadiga auditiva.

Não acho justo, por outro lado, esperar algo mais de Lemmy e companhia. Eles são o que são e, só o fato de estarem na ativa, em 2011, gravando e excursionando, é motivo de satisfação. Até alguns discos recentes -confesso que tenho ouvido poucos- são bem palatáveis. Inferno, de 2002, tem um punhado de faixas legais.

Mais do que isso: Lemmy está quase na moda. Estrelou comercial de cerveja, é o astro do clipe novo do Foo Fighters, o documentário sobre sua vida acabou de estrear e o Motörhead vai até tocar no Rock in Rio. Não é pouco.

Mas na minha imaginação, gostaria de ver o Motörhead tocar um disco como Ace of Spades ou Another Perfect Day na íntegra, este último de preferência com Brian Robertson na guitarra e Animal Taylor na bateria. Seria revigorante e nostálgico ao mesmo tempo.

Mas você sabe, se o Motörhead voltar em 2013, e deve voltar, estarei por lá. Todos estaremos. Como aquele filme que já assistimos 20 vezes, mas que não conseguimos largar quando passa em algum canal de TV.

Em tempo: assinei uma resenha completa do show e que deve estar publicada em algum lugar do Portal Rock Press. Procure por lá.


No meu show imaginário, Lemmy chamaria de volta Brian "Robbo" Robertson e Phil "Animal" Taylor para tocar Another Perfect Day na íntegra.

E o seu show imaginário do Motörhead, como seria?
No próximo fim de semana, o Misfits se apresenta em São Paulo como parte da Virada Cultural.

Exatos três meses depois, em 16 de julho, será a vez de Danzig, a auto-indulgente banda de seu vocalista original, retornar ao país. A primeira e última apresentação do grupo por aqui aconteceu em 1995.

Danzig e o Misfits são bem melhores juntos que separados.

A obra escrita por eles entre 1977 e 1983 é algo do melhor no punk rock. Com elementos emprestados de Alice Cooper, Ed Wood, Elvis Presley e Bela Lugosi, o Misfits criou seu próprio universo de terror barato, rebeldia adolescente e três acordes.

Diferente de todas as outras bandas punk de sua geração, e tremendamente influente para as que vieram depois, o Misfits gravou pouco, saiu de cena e entrou para a antologia do gênero.

Porém, em 1996, após um longo imbróglio judicial, a banda voltou às atividades. Musicalmente, o retorno foi pouco inspirado e seguido por uma encarnação completamente picareta.

Enquanto isso, Glenn Danzig lançou o Samhain -uma extensão do Misfits com uma sonoridade, digamos assim, mais lúgubre- e teve momento de popularidade nos anos 90 com a exibição frequente do video-clipe de "Mother", um hit que, por algum tempo, o colocou em algum lugar entre o underground e o mainstream.

Me lembro de ouvir o spot promocional do show de Danzig, no já extinto Olympia, há 16 anos. Por uma razão ou outra, acabei perdendo.

Mas estive na primeira visita do Misfits ao Brasil e posso garantir que, pelo menos em 1998, a nostalgia funcionava. Na ocasião, ainda sob o impacto de sua recente volta e tocando para um público que jamais os tinha visto ao vivo, o Misfits convenceu.

Com os irmãos Doyle de um lado e Jerry Only de outro, a banda preservava algo do carisma e teatralidade originais, ainda que eu não faça ideia de quem tenha cantado com eles naquela noite.

O restante público também não se importou e cantou junto em alguns clássicos de escracho adolescente como "Last Caress" e "Teenagers from Mars".

Desde então, a banda se perdeu em projetos esquisitos, line-ups irreconhecíveis e até uma versão baile da saudade com Marky Ramone, em que assassinavam clássicos de Misfits e Ramones para plateias órfãs de Joey e Dee Dee. Uma vergonha.

Com essa formação, lotaram a tradicional casa de shows Palace (Citibank Hall), em São Paulo. Depois, já sem Marky, o truque não deu certo e tiveram um show cancelado, de véspera, sob a mirabolante alegação que Only estaria sofrendo com os efeitos de uma vacina contra febre amarela recebida em algum país sulamericano.


Em 2011, Danzig e o Misfits permanecem separados naquele que é um dos reencontros mais aguardados e improváveis do rock.

Talvez o Misfits não se aposente porque Only mantenha consigo o prazer de subir ao palco, mas também, e principalmente, porque trata-se de uma grande marca. Qualquer peça de merchandising que leve a estampa do mascote Crimson Ghost tem chance de ser um sucesso. A figura é tão emblemática que tornou-se um ícone pop e pode ser vista em filmes e camisetas de celebridades. Com a banda na ativa, esse efeito é apenas potencializado.

Em 2004, tive a oportunidade de entrevistar Jerry Only e o próprio me confidenciou que a banda é integralmente financiada por merchandising - uma espécie de Kiss do underground (leia a entrevista na íntegra aqui).

Danzig, por sua vez, sumiu dos holofotes. E, acreditem, o cara já foi popular. Em 1994, excursionou com o Metallica, para quem cantava 3 músicas todas as noites. Teve ainda uma de suas canções -"Thirteen"- regravada com extrema beleza por ninguém menos que Johnny Cash. Fundou uma editora de quadrinhos e tem uma fanbase adolescente que consome vorazmente seus produtos.

Mas Glenn, em seu mundo paralelo de hedonismo e feitiçaria de boutique, tornou-se um personagem irreal no nível de Chuck Norris. Suas histórias de excentricidade geram "facts" que povoam a imaginação de fãs de rock. Em foruns pela internet, é possível encontrar discussões hilárias como: "O que Danzig estaria fazendo nesse momento?", "Como Danzig agiria nessa situação?", etc. Virou personagem.

Em sua imperdível série "Metal Real Estate" ("As propriedades dos metaleiros"), o divertidíssimo site americano Metal Inquisition publicou fotos e opiniões sobre a residência de Glenn Danzig. A casa tem uma antena old school no telhado, uma parede inacabada de tijolos no jardim e ervas daninhas crescendo por toda parte.

Para o bem ou para o mal, Misfits e Danzig, mesmo separados, certamente vão divertir o público brasileiro.


Acima, o Misfits em uma performance explosiva com seu line-up clássico.


Danzig-personagem: uma das montagens mais engraçadas da internet. Aqui, um (bom) cover de Glenn Danzig faz um dueto bizarro com a colombiana Shakira. Repare no surrealismo da letra.
Um colega de escola, precoce e ávido colecionador de discos importados e caríssimos de heavy metal, foi o primeiro a me falar do canadense Anvil.

Na época, estamos falando de 1986, não conheci a banda o suficiente para fazer um julgamento. E, ainda por cima, toda minha atenção era sequestrada por grupos como Slayer e Metallica que, naquela altura, lançavam os discos de suas vidas.

O tempo passou e meu colega largou o interesse por rock para transformar-se no manda-chuva da maior torcida organizada de futebol do Brasil. Quando seu time foi rebaixado para a Série B, lá estava ele nos noticiários: entrou no ônibus do clube e distribuiu sopapos em vários jogadores.

É evidente que para esse sujeito e muitos outros, uma banda como o Anvil é uma pálida recordação da adolescência. O grupo jamais estourou, embora tenha pelo menos dois discos que fizeram a cabeça de muitos metaleiros dos anos 80: "Metal on Metal" e "Forged on Fire".

Eu mesmo só descobri que estavam na ativa, vinte e tantos anos depois, quando li a sinopse do documentário "Anvil! The Story of Anvil", exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Contrariando qualquer prognóstico, o filme causou frisson em vários festivais pelo planeta e conquistou admiradores como Michael Moore e Keanu Reeves.

Assisti ao documentário no ano passado e me vi enxugando as lágrimas por duas ou três vezes. O filme é comovente e a história de como ele tornou-se realidade é tão fascinante quanto o próprio filme.

A direção é de um inglês chamado Sacha Gervasi. Na década de 80, ele tornou-se amigo dos músicos Lips e Rob Reiner no camarim do lendário Marquee, em Londres. De lá, ainda menino, mandou-se para visitar o pai em Nova York nas férias e deu uma esticada até Toronto, onde reencontrou o Anvil e tornou-se roadie da banda. Não teve sequer o trabalho de avisar a família.

Duas décadas depois, o menino já era um prodígio roteirista de Hollywood cujos créditos incluíam o filme "O Terminal", estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg.

Num dia qualquer, Gervasi lembrou-se dos velhos amigos do Anvil e, imagino eu, ficou abismado com o fato de a banda continuar na ativa e pregando para meia-dúzia de fãs.

O resto é história.


Gervasi encontrou-se com o guitarrista e vocalista Lips e daí surgiu a centelha criativa para escrever e dirigir um documentário sobre a banda - mais precisamente sobre a louca amizada entre Lips e o baterista Rob Reiner.

O documentário botou abaixo todas as aparências e escancarou a dureza de vidas vividas com um pé no underground e outro no “mundo real”.

Muitos anos após o lampejo de fama no mundo do heavy metal, Lips trabalha entregando marmitas. Reiner pinta quadros em casa para manter a sanidade. Os parentes não se conformam com tanta teimosia. Afinal, por que a banda daria certo quando seus integrantes já entravam na casa dos cinquenta?

Lars Ulrich, Lemmy, Scott Ian, Slash e Tom Araya enchem a bola do Anvil logo na abertura do filme, mas ninguém é capaz de entender porque a banda não deu em nada.

A repercussão de "Anvil! The Story of Anvil" tirou os canadenses do limbo musical e os colocou de volta no circuito dos festivais. Um final feliz com o melhor do clichê sobre a vida, de fato, imitar a arte.

O triunfo dos amigos-irmãos Lips e Reiner comoveu gente do mundo todo. Gente que não era nascida quando o Anvil teve seu primeiro pico de popularidade, e gente que sequer gosta do metal à moda antiga que eles tocam.

No próximo domingo, dia 27, o Anvil se apresenta em São Paulo.

Assista ao filme e vá ao show.

Na década de 80, a baía de San Francisco tornou-se o epicentro da cena americana de thrash metal. De lá saíram bandas que definiram o gênero, como Metallica, Exodus, Possessed, Testament e Vio-lence.

Em meio a esse pessoal, surgiu uma banda de formação exótica e que parecia a grande promessa do Bay Area Thrash. Formado por cinco primos descendentes de filipinos, o Death Angel misturava a sonoridade característica do gênero com groove e algumas (boas) baladas. Tudo sob uma execução virtuosa e a voz levemente afetada de Mark Osegueda.

Do segundo álbum do grupo, Frolic Through the Park, saiu um video-clipe que ganhou espaço nos programas de metal da MTV americana e circulou no Brasil em coletâneas caseiras de VHS: "Bored".

A música tinha um riff pegajoso, vocais herdados do hard rock e um intrincado solo de guitarra usando a técnica do arpeggio.

O Death Angel ganhou projeção e foi contratado pela Geffen Records, selo que abrigava as duas bandas que definiram a passagem da década: Guns N' Roses e Nirvana.

Com o suporte da gravadora de David Geffen, que então tornara-se bilionário com a aquisição do selo pela MCA, os primos filipinos lançaram seu álbum mais ambicioso: Act III.



Gravado e produzido com um nível acima do que se costumava ouvir no thrash metal até então, o álbum parecia destinado a ocupar a prateleira de clássicos do gênero, ao lado de Master of Puppets, Among the Living e Reign in Blood.

Não foi bem o que aconteceu.

O ano de 1990 marcou o declínio daquela cena. Várias bandas se separaram, os grandes nomes mudaram a orientação musical e os poucos que se mantiveram fiéis às origens musicais entraram num período de ostracismo. Talvez apenas o Slayer, sob a batuta de Rick Rubin, tenha conseguido passar incólume à decadência do estilo.

Para piorar, um terrível acidente automobilístico no Arizona atrapalhou os projetos de carreira do Death Angel. O prodígio baterista Andy Galeon -que gravou o primeiro disco aos 14 anos de idade!- sofreu vários ferimentos e a Geffen tentou interferir em sua substituição.



No documentário Get Thrashed, os músicos contam que o acidente foi tão traumatizante que, de fato, levou ao fim da banda.

Confesso que não acompanhei o retorno do Death Angel em 2001, após o hiato de uma década em que muita água passou sob a ponte. Tampouco ouvi qualquer álbum lançado desde então. O site oficial dá conta que eles gravaram 3 discos desde a volta, sendo o mais recente Relentless Reunion, lançado no mês passado.

Da família filipina sobraram apenas o vocalista Mark Osegueda e o guitarrista Rob Kavestany. O incrível baterista Andy Galeon fez parte da reunião desde 2001, mas deixou a banda no ano passado.

Na próxima sexta, o Death Angel desembarca pela primeira vez no Brasil para realizar uma turnê que percorre 8 cidades. Em São Paulo, o show acontece no sábado, dia 23, no Clash Club.

Ver essa banda ao vivo é recuperar um pouco da história do gênero que implodiu o metal convencional e todos os seus piores clichês.

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Assista abaixo ao vídeo-clipe de "Seemingly Endless Time", faixa do álbum Act III e que frequentou o extinto programa Fúria Metal da MTV Brasil. Nunca as praias da Califórnia pareceram tão sombrias...