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Keith Richards está no interior de uma choupana com jeitão de New Orleans. A sala é decorada com uma porção de caveirinhas. Na vitrola, por trás de uma névoa azulada de cigarros, rola um disco de blues. Acredite: os 80 minutos seguintes de "Keith Richards: Under the Influence" vão passar voando.

O documentário dirigido pelo especialista Morgan Neville é um presente para todos os fãs de música, em especial aqueles que nutrem paixão por instrumentos, ritmos de raiz e estúdios de gravação. O filme, produzido pelo Netflix e disponível para os assinantes no Brasil, não é uma biografia de Keef ou tampouco uma exaltação de sua 'persona' - aquele rockeiro excêntrico que fuma um baseado e chacoalha uma garrafa de Jack Daniel's no meio da rua, dizendo palavrões porque a 'liquor store' mais próxima já está fechada. Nada disso: "Under the Influence" é uma reverência ao músico Keith Richards. Um cara que pode discorrer por horas a fio sobre um tipo específico de afinação ou explicar, de seu jeito singular, como determinado arranjo remete ao blues primitivo de tal artista.

Keith Richards é um grande personagem do rock'n'roll, mas um tipo que só está realmente em casa e à vontade quando tem um instrumento à mão e, vá lá, um cigarrinho metido entre os lábios. Neste filme você verá Richards tocando flamenco, tocando piano e cantando blues, mandando ver no contrabaixo e desfilando seu estilo através de uma cabulosíssima coleção de violões e guitarras, com peças tão antigas quanto um item de 1928. O stone, por trás do visual 'cool', com cabelos desgrenhados, óculos escuros, bandana e blazer de couro de cobra, é músico até a medula.


Se você já teve o prazer de ler a belíssima autobiografia "Vida" (escrevi sobre o livro aqui), vai se deliciar com algumas das mesmas histórias, mas agora contadas oralmente pelo autor e de maneira totalmente informal. Richards começa explicando, por ocasião do lançamento de seu disco solo, "Crosseyed Heart", como a música americana tradicional lhe enfeitiçou na já distante Inglaterra do pós-guerra. Cita as audições proporcionadas por sua mãe, uma grande fã de música que caçava as poucas frequências de rádio disponíveis na época. E também os chiados das estações piratas inglesas, por meio das quais descobriu o country norte-americano.

A longa conversa acontece em estúdios, às vezes ao lado do baterista e produtor Steve Jordan, e continua no interior de automóveis de passagem por cidades caras ao guitarrista: Nova York, Chicago e Nashville. Keith é um malaco com estofo intelectual. Sua prosa mescla grandes sacadas sobre a vida com comentários absolutamente rigorosos sobre o estado das coisas em determinado período histórico. Por trás dos vícios e dos excessos que ele tanto cultivou, existia uma mente afiada captando tudo ao seu redor. Compreendeu o sul segregado da América nos anos 60, as extravagâncias e o lado barra-pesada dos cantores country e a efervescência cultural da Jamaica dos início dos 70's, onde morou.

Algumas passagens, sozinhas, já valeriam o filme. É sensacional ver Keith Richards e Buddy Guy sorvendo um whisky de milho enquanto disputam uma partida de sinuca e relembram como os Stones, na década de 60, ajudaram a ressuscitar os esquecidos cantores de blues. Ou então as imagens de arquivo do esporro clássico que Richards levou de Chuck Berry durante os ensaios para o show que virou o filme "Hail! Hail! Rock'n'Roll". E ainda uma breve visita à casa onde viveu o monstro do blues Muddy Waters e na qual Keef conta ter saído carregado de uma festa de arromba para terminar a noite na casa de outro mito, mister Howlin' Wolf.

E para os Stones maníacos, recomendo, enquanto não chegam os shows no Brasil, uma espiada nos trechos em que Richards explica como o grupo compôs e arranjou os clássicos "Street Fighting Man" e "Sympathy for the Devil" - ambos devidamente documentados em película, sendo o último com imagens extraídas do cultuado filme "One Plus One", do cineasta Jean-Luc Godard.

Longa vida, Keith Richards. Que viva mais cem anos.

LEIA TAMBÉM: Rolling Stones: 50 anos em 5 regravações
E AINDA: As Mil Vidas de Keith Richards



Trailer de "Keith Richards: Under the Influence". Bola dentro do Netflix


Um ótimo pretexto para compartilhar "Struggle", sensacional canção do disco "Talk is Cheap" ;)
Até o recente lançamento de Do to the Beast, o último álbum de estúdio da cultuada banda Afghan Whigs era 1965, lançado em 1998, portanto ainda no século passado.

Greg Dulli, a figura central do grupo, andou envolvido nesse intervalo com outro dissidente da cena noventista, Mark Lanegan, ex-Screaming Trees, na dupla batizada de The Gutter Twins - provavelmente em referência aos Glimmer Twins Keith Richards e Mick Jagger. Participou também de uma faixa do disco Moon Chi Chi, do All Systems Go; banda de power pop formada por ex-integrantes do canadense The Doughboys e do americano Big Drill Car.

A volta dos Whigs, no final de 2011, foi tão inesperada quanto bem recebida. Público e crítica se impressionaram com a ótima forma da banda, ainda mais afiada no palco que em seus tempos dourados de heróis do rock alternativo. Dali para entrar no circuito de festivais e tocar em programas de TV foi um pulo. E a primeira consagração foi o posto de atração principal em um dos eventos do festival SXSW, em Austin. Na ocasião, o grupo fez uma inesperada jam com Usher, o mega-astro do rap, e carimbou o passaporte que lhe garantiu o retorno à ribalta - ou algo próximo disso.

Afghan Whigs em São Paulo - 22/05/14
Do to the Beast, o primeiro disco de inéditas do Afghan Whigs em 16 anos, lançado pela Sub Pop, traz uma das melhores fornada de canções já produzidas por Greg Dulli. Seus dramas épicos de corações partidos vêm sustentados por um instrumental de primeiríssima, com direito a arranjos elaborados de cello, violino, piano, slide guitar e percussão. A qualidade das composições chega a um novo patamar com clássicos imediatos como "Algiers" -um tema com o verniz das trilhas de spaghetti western do maestro italiano Ennio Morricone-, "Parked Outside", "The Lottery", "Royal Cream" e a incendiária "Matamoros". Tudo bem tocado, bem gravado e impecavelmente produzido.

A alquimia do alt-rock venenoso com o soul de branco nunca soou tão bem. E Dulli, que sempre caminhou na linha estreita entre ser um cantor visceral e um hipster-blasé desafinado, capaz de entregar um refrão esculhambado para canções de outra forma perfeitas, como o funk "Blame, Etc", mostra que é um artista mais completo em 2014. O resultado da experiência, inspiração e transpiração é que Do to the Beast já caminha gloriosamente para a lista dos grandes discos de 2014.

A reboque da promoção do álbum, os Whigs tocaram no festival Coachella; defenderam o novo repertório no ótimo programa de Jools Holland, na BBC, e tocaram ainda nos estúdios da rádio KEXP, de Seattle.

Na última semana, a turnê chegou a América do Sul. Greg Dulli e companhia desembarcaram no Brasil pela primeira vez e apresentaram um show arrebatador no Audio Club, em São Paulo, para um público que fez bonito.

A volta do Afghan Whigs é daquelas triunfais e Do to the Beast merece muito ser ouvido. Agora.



Sergio Leone encontra David Lynch no clipe da sensacional "Algiers"
Na semana em que completam 50 anos de carreira, daria para falar muito sobre os Rolling Stones. Inclusive, e principalmente, sobre o evento quase surreal que é manter uma banda de rock ativa por meio século.

Lembre-se: os Stones são contemporâneos dos Beatles e, seja como testemunhas ou como protagonistas, passaram por todas as metamorfoses musicais das últimas cinco décadas.

Poderia falar também sobre minhas lembranças de infância com os clipes de "Start Me Up" e "Emotional Rescue", da história bizarra de um amigo que salvou Mick Taylor de ser atropelado por um ônibus em São Paulo (sim, aconteceu!) ou defender a subestimada obra dos Stones nos anos 80. O assunto dá caldo.

Parece mais divertido, no entanto, medir a influência do songwriting de Jagger e Richards, os Glimmer Twins, na música pop. Se foram extremamente impactados pela música negra norteamericana, os ingleses devolveram a dose sendo regravados pelos principais baluartes da soul music - de Tina Turner a Marvin Gaye, de Otis Redding a Aretha Franklin.

Mas quanto mais estranhas e virulentas as regravações, melhor o resultado. Ao longo dos últimos 30 anos, o material dos Rolling Stones foi simplesmente virado do avesso.

Abaixo, uma pequena lista que resume 50 anos de carreira em 5 covers sensacionais:



Sympathy for the Devil

LAIBACH
(1990)
Dois anos antes de "coverizar" esse clássico dos Stones, a banda da antiga Iugoslávia -atual Slovenia- havia regravado integralmente o álbum "Let it Be", dos Beatles. O resultado aqui é tão incrível quanto: ritmos marciais sob uma ambientação de industrial music. O suíngue dos ingleses é transformado em gelo no Leste Europeu. De arrepiar.

Under My Thumb
MINISTRY
(2008)

O Social Distortion regravou "Under My Thumb" duas vezes em estúdio. A versão de 1996 é, provavelmente, a melhor gravação que existe dessa canção. Mas não a mais original. O velhaco Al Jourgensen misturou tecladinhos oitentistas com guitarras distorcidas e sua voz cavernosa para criar um hit que faria sucesso nas pistas de dança do inferno.


I'm Free

SOUP DRAGONS
(1990)
É a canção que fecha a versão inglesa do álbum "Out of Our Heads", de 1965. Na América, a faixa foi limada do LP, mas ganhou sobrevida em 1990, quando virou o hit solitário da banda britânica Soup Dragons. Transformada num pop dançante, com slide guitars, wah-wah, coral soul e uma incursão pelo raggamuffin. Ganhou as paradas e tocou até cansar nas rádios brasileiras. É a cara do início dos 90's.



(I Can't Get No) Satisfaction

DEVO
(1978)
Quem ouve a versão absolutamente genial do Devo para "Satisfaction" não poderia imaginar que no futuro o riif feérico de Keith Richards seria usurpado pela publicidade para vender todo tipo de porcaria. Mark Mothersbaugh, no auge, implode as convenções e transforma o clássico sessentista numa pérola da maluquice funk-new wave. Um dos melhores covers de qualquer coisa em qualquer época.



Honky Tonk Women
THE POGUES
(1988)
Canção escrita por Mick e Keef numa fazenda do Mato Grosso (!) em fins dos anos 60. Richards lembra que quando dava descarga no banheiro do lugar, dezenas de sapos pretos subiam boiando na água... O ambiente influenciou para que a música soasse como um country à la Hank Williams, mas mudou com os arranjos do recém-chegado Mick Taylor. A versão do Pogues, por sua vez, traz uma mistura do que eles sempre fizeram de melhor: irish folk com pegada punk. Na versão de estúdio, quem canta é o guitarrista Spider Stacy. Já naquela época, o lendário Shane MacGowan estava em condições lamentáveis para gravar.


Keith Richards recebeu alardeados 7 milhões de dólares para escrever a autobiografia Life (Vida, na edição brasileira). Se o valor é astronômico, o título da obra, no singular, é modesto. Keef viveu muitas vidas numa só.

Viveu uma infância simplória em Dartford, pantonoso subúrbio de Londres, em tempos de reconstrução pós-guerra. Na mesma existência, virou protagonista numa Inglaterra enlouquecida pelo rock'n'roll e a beatlemania. Ficou milionário, tornou-se um notório junkie, ganhou status de ícone e é um guitarrista cultuado.

Mas também constituiu loucamente uma família com Anita Pallenberg, ex de Brian Jones, então viciada em heroína e ao lado de quem perdeu um filho de poucos meses em circunstâncias mal explicadas.

De todas as facetas de Keith, talvez a mais predominante seja mesmo a do músico. O cara discorre durante páginas sobre determinado riff ou acorde com incrível paixão. Explica como demorou anos para descobrir como tocar corretamente tal e tal lick de Jimmy Reed ou Chuck Berry. Um workshop quase gratuito para guitarristas.

Keef revela, ainda, como ter optado por uma guitarra com 5 cordas e adotado a afinação aberta transformou-se em sua assinatura musical. Fala também das histórias por trás da composição de riffs monstruosos como "Jumpin' Jack Flash" que, segundo ele, é mais ou menos "Satisfaction" tocada de trás pra frente. E não é?


No calhamaço de mais de 600 páginas, há causos e revelações às pencas. Da famosíssima sessão de gravação do clássico Exile on Main St. até os incontáveis flertes com a morte. Da vida glamourosa com temporadas na costa da França, na Roma do CineCittà e na misteriosa Marrakech, até lembranças do massacre no festival de Altamont, evento que, metaforicamente, e ao lado dos assassinatos Tate-LaBianca, iniciou o processo de distopia que desembocou nos anos 70.

A década, aliás, é tratada por Keith como um verdadeiro buraco negro em que foi tragado pelo vício frenético em heroína. O guitarrista não se gaba da fama de junkie, mas explica como seu modus operandi e o uso de drogas farmacêuticas de ótima procedência, como a cocaína da Merck, evitaram um desastre maior. A carcaça resistiu, mas idas ao tribunal foram muitas -algumas realmente hilárias-, e também deprimentes momentos de sarjeta.

Nas memórias de Richards, Charlie Watts é sempre lembrado pela elegância no trato e no ofício de baterista. Brian Jones era um causador de problemas e Bill Wyman, quase um anônimo. Mick Jagger, alma-gêmea de Keith, claro, é merecedor de muitos parágrafos ao longo de quatro décadas de reminiscências: do amigo inseparável e possessivo a um pop star distante e deslumbrado com o jet-set.

O trânsito livre pelo mundo da música rendeu dedicadas incursões na cultura rasta jamaicana, viagens de ácido com John Lennon, uma tarde de jam session com Jerry Lee Lewis, namoro com Ronnie Spector, um histórico encontro com Chuck Berry e seu esquecido baterista, e discos solo com a charmosa banda de apoio X-Pensive Winos.

Por trás das excentricidades, Richards revela-se um homem culto e com uma afiada, ainda que singular, visão de mundo. E viveu, mas viveu muito.


Os puristas que me desculpem: toda a maestria de Keith Richards em "Rock and a Hard Place"