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Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.

"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.

Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.

Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.

Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.



O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.

Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).

E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.

A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.

Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...



Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top

Rock'n'Roll High School
(Rock'n'Roll High School, 1979)
Misture um clipe do Twisted Sister com qualquer filme retardado sobre fraternidades estudantis, de preferência com um aloprado como John Belushi, e você tem Rock'n'Roll High School. Anárquico até o caroço e com a participação dos Ramones como a banda endeusada pelos alunos rebeldes. Já valeria pela imperdível cena com Dee Dee Ramone tocando baixo no banheiro da maluquete Riff Randell.

Estranhos no Paraíso
(Stranger Than Paradise, 1984)
O cineasta cult Jim Jarmusch viu e ouviu tanto punk rock na vida que é o único não-músico entrevistado no documentário Punk: Attitude, de Don Letts. Isso diz alguma coisa. O clássico "I Put a Spell on You", de Screamin Jay Hawkins, dá liga nessa história minimalista sobre um cool e entediado novaiorquino que recebe a inesperada visita de uma prima vinda da Hungria.

Repoman - A Onda Punk
(Repoman, 1984)
Participação do Circle Jerks, ponta do lendário disc-jóquei Rodney Bingenheimer e ótima música-tema de Iggy Pop num dos roteiros mais absurdos de todos os tempos. Mistura de punk rock, OVNI's e teorias conspiratórias com o submundo da busca e apreensão de veículos. Não entendeu? Assista.

Um amor e uma .45
(Love and a .45, 1994)
É o filme que Eddie Spaghetti teria feito se fosse cineasta. Road movie psicodélico sobre um casal de foras-da-lei que foge para o México após se meter numa série de confusões. Tem Peter Fonda como um hippie sequelado pelo ácido e Reverend Horton Heat -em pessoa- tocando num bordel imaginário ao sul da fronteira. Direção musical de Tom Verlaine e trilha sonora faiscante com Butthole Surfers, Flaming Lips, Meat Puppets e Johnny Cash.

Velvet Goldmine
(Velvet Goldmine, 1998)
O herói (ficcional) do glam rock Brian Slade desaparece do mapa após incendiar a década de 70 e forjar a própria morte. Em 84, um jornalista britânico tem a tarefa de encontrar Slade e passar a limpo sua história selvagem na música pop. Livremente inspirado em David Bowie, fase-Ziggy, e em Iggy Pop, via o personagem Curtis Wild, intepretado com vigor por Ewan McGregor.


Quase Famosos
(Almost Famous, 2000)
Cameron Crowe faz um relato semi-autobiográfico sobre sua adolescência como repórter da Rolling Stone. No filme, um garoto de 15 anos embarca na turnê da banda Stillwater -mui inspirada nos Almann Brothers- para conseguir sua primeira matéria. Uma história sobre a perda da inocência, os excessos e a megalomania do rock dos anos 70 entupida de referências.

C.R.A.Z.Y.
(C.R.A.Z.Y, 2005)
Produção canadense traz um drama familiar singular, repleto de referências pop e o melhor uso de Pink Floyd no cinema. O protagonista, Zac, em conflito com a sexualidade, viaja em seu mundo particular ouvindo "Space Oddity", de Bowie, mas tem que lidar com um pai machão cujo maior objeto de fetiche é um LP da cantora country Patsy Cline. Um dos melhores filmes dos anos 00.

Tenacious D - Uma Dupla Infernal
(Tenacious D in the Pick of Destiny, 2006)
Um músico de rua de meia-idade, sustentado pela mãe, ganha um fã incondicional e monta com ele uma dupla que busca chegar ao megaestrelato. Antes disso, porém, eles precisam encontrar uma palheta de guitarra mágica e feita com lascas do chifre do capeta. Participação hilária de Ronnie James Dio e um Jack Black incontrolável.

Adventures of Power
(Adventures of Power, 2008)
Já imaginou escrever um roteiro baseado em personagens que praticam air guitar? Então esqueça: Adventures of Power é mais pirado que isso. O filme trata de um nerd apaixonado por música e com zero talento musical que descobre no air drums sua verdadeira vocação. E tudo vai mudar quando ele se conectar ao submundo dos aspirantes a air drummers. Um besteirol surreal inédito no Brasil.

Piratas do Rock
(The Boat that Rocked, 2009)
Na década de 60, um barco em águas internacionais hospeda uma rádio pirata flutuante com um bando de DJ's alucinados. Recriado com o mood ingênuo da época, o filme é uma homenagem ao rádio e aos swingin' sixties. Atuações imperdíveis de Phillip Seymour Hoffman e Bill Nighy, e uma trilha crocante com Kinks e Stones.

Gostou da lista? Comente e indique seus filmes.


Nada é impossível: air drums como tema de um longa-metragem


Em C.R.A.Z.Y., é melhor não brincar de imitar Ziggy Stardust
Toda sexta-feira é assim. Do meu escritório, ouço carros carros pra lá e pra cá com música no último volume.

Começa cedo, lá pelas 10 da manhã. Conforme a tarde avança, a quantidade de carros despejando detritos sonoros no ar só aumenta. Funk carioca, sertanejo pop, forró universário, mais funk carioca. Às vezes, um reggae malemolente. E mais funk proibidão.

Uma verdadeira tortura.

De vez em nunca, alguém foge à regra. Dia desses, passou um maluco ouvindo "Another Brick in the Wall". Soa totalmente fora de contexto também, mas já é um alento.

Decidi montar um antídoto para salvar as sextas-feiras do mau gosto alheio. Vejam como ficou e dêem suas dicas:

JOHNNY CASH - Murder
Se é pra ouvir música caipira, que tal começar o dia com uma compilação do Homem de Preto só com canções sobre morte e assassinato?
Essa belíssima coletânea foi lançada anos antes do revival causado pelo filme "Johnny & June" e faz parte de uma trilogia que tem ainda os volumes God e Love. O disco conta com uma simpática apresentação de Quentin Tarantino e traz clássicos absolutos do mestre como "Folsom Prison Blues" e "Long Black Veil".

TIM MAIA - Tim Maia Racional Vol. I e II
Se a sexta é o dia oficial do funk carioca, vamos respeitar os costumes e compartilhar com o povo os melhores discos da vida do Síndico: os dois volumes de Tim Maia Racional.
Essas gemas foram gravadas enquanto Tim estava enfiado na destrambelhada seita Universo em Desencanto e são imperdíveis.
Letras bizarras, groove pulsante, arranjos sofisticados e um fino trabalho do grande Paulinho Guitarra.
THE B-52's - Cosmic Thing
Não existe um antídoto pronto para a praga do forró universitário, mas a gente inventa.
Se a chegada do fim de semana faz os esqueletos sacolejarem, mostre aos pedestres e motoristas do seu pedaço que nem tudo é rala-coxa.
Abra os vidros de sua caranga para propagar os crocantes hits do melhor disco dos B-52's. Um álbum que tem canções ensolaradas como "Roam" -produzida pelo grande Nile Rodgers, do Chic- e "Love Shack", a afetada sofisticação de "Channel Z" e vocalizações sublimes do início ao fim, merece um lugar na trilha sonora de qualquer cidade.

ISAAC HAYES - Don't Let Go
A noite chegou e o povo se diverte, andando pra cima e pra baixo ouvindo mais proibidão. Não tem problema, vamos com um dos mais subestimados discos do deus do funk, Isaac Hayes. Gravado em 1979, durante a febre da disco music, Don't Let Go é diversão garantida e um desfile de arranjos riquíssimos e sacanagens sussurradas ao pé do ouvido.
A faixa-título e "Fever" botam fogo até numa reunião da Tupperware e, como é sexta-feira, você ainda pode lançar o truque com "A Few More Kisses to Go" e levar aquela gatinha para um lugar mais reservado. Eu garanto: ela não vai resistir.

TURBONEGRO - Apocalypse Dudes
Madrugada. Blitz da Lei Seca. E seu hálito já é suficiente para acender uma churrasqueira. À essa hora vale tudo: aumente o volume e bombardeie o carro do lado com um dos discos mais depravados do rock'n'roll.
Apocalypse Dudes é o clássico do norueguês Turbonegro. E não é por acaso. Do elogio à uma espelunca que serve as melhores pizzas ("Age of Pamparius") ao punk com slide guitar de "Prince of Rodeo", passando por faixas com lindos títulos como "Self Destructo Blast" e "Rock Against Ass". Olho na pista e pé na tábua!

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O povo quer funk? Isaac neles!


A letra já é um convite a cair na estrada. Aumente o volume e siga em frente!
No próximo fim de semana, o Misfits se apresenta em São Paulo como parte da Virada Cultural.

Exatos três meses depois, em 16 de julho, será a vez de Danzig, a auto-indulgente banda de seu vocalista original, retornar ao país. A primeira e última apresentação do grupo por aqui aconteceu em 1995.

Danzig e o Misfits são bem melhores juntos que separados.

A obra escrita por eles entre 1977 e 1983 é algo do melhor no punk rock. Com elementos emprestados de Alice Cooper, Ed Wood, Elvis Presley e Bela Lugosi, o Misfits criou seu próprio universo de terror barato, rebeldia adolescente e três acordes.

Diferente de todas as outras bandas punk de sua geração, e tremendamente influente para as que vieram depois, o Misfits gravou pouco, saiu de cena e entrou para a antologia do gênero.

Porém, em 1996, após um longo imbróglio judicial, a banda voltou às atividades. Musicalmente, o retorno foi pouco inspirado e seguido por uma encarnação completamente picareta.

Enquanto isso, Glenn Danzig lançou o Samhain -uma extensão do Misfits com uma sonoridade, digamos assim, mais lúgubre- e teve momento de popularidade nos anos 90 com a exibição frequente do video-clipe de "Mother", um hit que, por algum tempo, o colocou em algum lugar entre o underground e o mainstream.

Me lembro de ouvir o spot promocional do show de Danzig, no já extinto Olympia, há 16 anos. Por uma razão ou outra, acabei perdendo.

Mas estive na primeira visita do Misfits ao Brasil e posso garantir que, pelo menos em 1998, a nostalgia funcionava. Na ocasião, ainda sob o impacto de sua recente volta e tocando para um público que jamais os tinha visto ao vivo, o Misfits convenceu.

Com os irmãos Doyle de um lado e Jerry Only de outro, a banda preservava algo do carisma e teatralidade originais, ainda que eu não faça ideia de quem tenha cantado com eles naquela noite.

O restante público também não se importou e cantou junto em alguns clássicos de escracho adolescente como "Last Caress" e "Teenagers from Mars".

Desde então, a banda se perdeu em projetos esquisitos, line-ups irreconhecíveis e até uma versão baile da saudade com Marky Ramone, em que assassinavam clássicos de Misfits e Ramones para plateias órfãs de Joey e Dee Dee. Uma vergonha.

Com essa formação, lotaram a tradicional casa de shows Palace (Citibank Hall), em São Paulo. Depois, já sem Marky, o truque não deu certo e tiveram um show cancelado, de véspera, sob a mirabolante alegação que Only estaria sofrendo com os efeitos de uma vacina contra febre amarela recebida em algum país sulamericano.


Em 2011, Danzig e o Misfits permanecem separados naquele que é um dos reencontros mais aguardados e improváveis do rock.

Talvez o Misfits não se aposente porque Only mantenha consigo o prazer de subir ao palco, mas também, e principalmente, porque trata-se de uma grande marca. Qualquer peça de merchandising que leve a estampa do mascote Crimson Ghost tem chance de ser um sucesso. A figura é tão emblemática que tornou-se um ícone pop e pode ser vista em filmes e camisetas de celebridades. Com a banda na ativa, esse efeito é apenas potencializado.

Em 2004, tive a oportunidade de entrevistar Jerry Only e o próprio me confidenciou que a banda é integralmente financiada por merchandising - uma espécie de Kiss do underground (leia a entrevista na íntegra aqui).

Danzig, por sua vez, sumiu dos holofotes. E, acreditem, o cara já foi popular. Em 1994, excursionou com o Metallica, para quem cantava 3 músicas todas as noites. Teve ainda uma de suas canções -"Thirteen"- regravada com extrema beleza por ninguém menos que Johnny Cash. Fundou uma editora de quadrinhos e tem uma fanbase adolescente que consome vorazmente seus produtos.

Mas Glenn, em seu mundo paralelo de hedonismo e feitiçaria de boutique, tornou-se um personagem irreal no nível de Chuck Norris. Suas histórias de excentricidade geram "facts" que povoam a imaginação de fãs de rock. Em foruns pela internet, é possível encontrar discussões hilárias como: "O que Danzig estaria fazendo nesse momento?", "Como Danzig agiria nessa situação?", etc. Virou personagem.

Em sua imperdível série "Metal Real Estate" ("As propriedades dos metaleiros"), o divertidíssimo site americano Metal Inquisition publicou fotos e opiniões sobre a residência de Glenn Danzig. A casa tem uma antena old school no telhado, uma parede inacabada de tijolos no jardim e ervas daninhas crescendo por toda parte.

Para o bem ou para o mal, Misfits e Danzig, mesmo separados, certamente vão divertir o público brasileiro.


Acima, o Misfits em uma performance explosiva com seu line-up clássico.


Danzig-personagem: uma das montagens mais engraçadas da internet. Aqui, um (bom) cover de Glenn Danzig faz um dueto bizarro com a colombiana Shakira. Repare no surrealismo da letra.
O Social Distortion nunca foi conhecido por ter uma produção musical prolífica. Da estreia ao segundo disco, a banda levou 5 anos.

Mais tarde, Mike Ness e seus comparsas viveram um período de alta atividade que rendeu alguns discos de ouro e um status que extrapola os guetos do punk.

Em seguida, com o afastamento da Sony Music, a banda precisou de infindáveis 7 anos recheados de todo tipo boato para lançar o álbum que a recolocou de vez na estrada.

Sair da confortável letargia custou, de cara, os serviços do já quarentão John Maurer, baixista que esteve com o grupo por 15 anos. O line-up, então já reformulado pela morte de Dennis Dannel, passou a ser quase uma banda de apoio para Mike Ness.

Foi com essa formação que o Social D aportou no Brasil esse ano pela primeira vez e tocou no Via Funchal, em São Paulo, para impressionantes 5.000 fãs.

Antes de ontem, saiu um comunicado que nos acostumamos a receber em longos intervalos (como da última vez, após 7 anos): o novo disco do Social Distortion está pronto. Sai em janeiro de 2011, com o single "Machine Gun Blues" estreando no mês que vem no iTunes e, por consequência, no resto da internet.


O que esperar do sétimo álbum de carreira da banda? O Caixa Preta aposta numa sonoridade que estará a um passo da faca nos dentes do raivoso White Light, White Heat, White Trash, de 1996, e a meio passo do ensolarado e otimista Sex, Love & Rock'n'Roll, de 2003.

Por trás de uma timidez que alguns têm como leseira, Ness é um artista sagaz. Soube muito bem batizar sua obra cujo perfil é quase autobiográfico. Da rebeldia punk dos 20 anos de idade de Mommy's Little Monster à heroína e ressaca do final dos 80's de Prison Bound, passando pelo reconhecimento artístico e o inferno particular de Somewhere Between Heaven & Hell.

A amargura de uma maturidade cheia de sequelas aparece em White Light, White Heat, White Trash. E o retorno, após um hiato durante o qual trocou a vida de junkie pela de pai e marido, vem com o registro de Sex, Love & Rock'n'Roll.

O novo disco, Hard Times and Nursery Rhymes, pode indicar uma tentativa de estabelecer a comunicação entre o passado turbulento e a placidez da quinta década de vida que se aproxima.

A única canção inédita registrada durante os últimos 7 anos é "Far Behind". Faixa ainda mais melodiosa e assobiável do que se ouviu em parte do repertório de Sex, Love & Rock'n'Roll. Poderia ser uma notícia boa para uns e ruim pra outros, mas a assinatura sonora de Mike Ness parece mesmo indelével.

Trata-se do primeiro, e talvez único, artista egresso do punk rock a incorporar elementos da música de raiz americana e, ainda assim, manter uma interessante conexão com seu passado.

Ness redescobriu Johnny Cash para um novo público em 1990, com a já famosa regravação de "Ring of Fire", nada menos que 15 anos antes da cinebiografia que colocou o "homem de preto" mais uma vez no mapa. O próprio Cash admirava o Social Distortion e Neil Young, outro apreciador, convidou a banda para abrir uma de suas turnês naquela época.

Não são apenas estes dois bastiões da boa música norteamericana que reconhecem em Mike Ness muito mais do que o punk bêbado do ótimo documentário Another State of Mind, de 1983. A deferência de Bruce Springsteen e Brian Setzer os levou a participar do primeiro disco solo de Ness, Cheating at Solitaire, uma mistura envenenada de country, bluegrass e rock'n'roll estradeiro.

Assim, à essa altura já parece pouco importante o quanto a vida de seu mentor pode interferir no sétimo capítulo da saga do Social Distortion.

Para o céu ou para o inferno, muita gente já aguarda ansiosa pelo primeiro mês de 2011.


Acima, Mike Ness e Bruce "The Boss" Springsteen em uma jam em 2009.