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Mostrando postagens com marcador John Zorn. Mostrar todas as postagens
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Em meados dos anos 90, trabalhei brevemente com um amigo que alimentou um sonho impossível: manter uma distribuidora de discos especializada nos selos mais originais do planeta. Da inglesa Recommended Records até os títulos casca-grossa da obscura Cenotaph, passando pelos lançamentos menos óbvios da celebrada SST.

No meio das importações, chegavam caixas abarrotadas de LPs e CDs de selos menores e que revelavam artistas ainda mais radicais e complexos. Cada disco, uma surpresa.

Claro que o projeto sucumbiu diante da então incipiente cena alternativa local, mas muitos daqueles discos -vendidos em sistema de mailorder- foram parar em cantos esquecidos do Brasil e fizeram a cabeça de fãs de música pouco ortodoxos.

Apresento abaixo um Top 5 com as estrelas da companhia. Ouça por sua conta e risco, e descubra que sua banda radical favorita pode parecer brincadeira de criança.


Bob Ostertag
Excêntrico manipulador de sons, Ostertag já se meteu com John Zorn e Mike Patton, e quase nada do que produz é palatável. O disco "Sooner or Later", de 1991, é uma bizarrice sem tamanho: mais de 40 minutos em que trechos do funeral de um guerrilheiro salvadorenho são reorganizados em várias combinações: uma criança chorando, pás cavando o túmulo e moscas sobrevoando o defunto. Lá pelo meio do disco, uns 20 segundos de guitarras tortas de outro maluco: Fred Frith, do Massacre e Naked City.


Sudden Infant
Projeto ultra-experimental do artista suíço Joke Lanz que é apreciado por umas 14 pessoas no mundo. O primeiro disco do Sudden Infant data do início dos anos 90 e se chama "Radiorgasm". Trata-se de uma sinfonia tonitruante de microfonias e ruídos de estática. A capa traz uma ilustração desagradável de gêmeos siameses. Foram prensadas 300 e poucas cópias do disco e depois, com o advento da internet, "Radiorgasm"ganhou alguma sobrevida. Lanz continua explorando possibilidades radicais com o Sudden Infant em intervenções artísticas por museus e galerias da Europa e EUA.


Zoogz Rift
Perambulou pela gravadora SST nos anos 80 e gravou uma penca de álbuns alucinados com uma banda de apoio de delinquentes musicais - os Shitheads. Guitarrista talentoso e compositor torto com predileção por arranjos irritantes, Zoogz Rift era também um campeão em criar títulos de discos: "Island of Living Puke" e "Idiots on the Miniature Golf Course" são algumas de suas pérolas. Maluco que só ele, entrou de cabeça no mundo da luta-livre estilo marmelada, ambiente no qual teve algum reconhecimento. Dizem que foi enxotado por Frank Zappa quando apareceu, devidamente imundo e esfarrapado, na casa deste. Editei a única entrevista de Zoogz para a imprensa brasileira, na qual o sujeito desanca Zappa e discorre sobre sua composição física ("98% do meu corpo é formado por água"). Morreu aos 57 anos de complicações causadas pela diabetes.


Wesley Willis
Cantor afro-americano portador de esquizofrenia crônica e que transformou-se em herói cult na cena alternativa. Suas letras bizarras, repletas de nonsense e obscenidades, versavam sobre super-heróis, fast food e outros músicos, sempre pontuadas por slogans de alguma marca conhecida. A música variava do punk rock primal a melodias deliciosamente esculhambadas sob o som de algum teclado de brinquedo. Outra curiosidade sobre Willis é que ele cultivava um tremendo galo na testa por conta de seu famoso cumprimento que consistia em dar uma cabeçada na testa de seus fãs e amigos. Morreu aos 40 anos, vítima de leucemia, e deixou um legado de mais de 50 álbuns.


Damião Experiença
Já imaginou se Captain Beefheart inventasse de regravar "Tim Maia Racional" à sua maneira e com Sun Ra de produtor? Pois bem, um baiano radicado no Rio de Janeiro chegou perto do som que provalvemente resultaria dessa combinação surreal. Artista radical e idiossincrático, Damião autofinanciou uma obra sem paralelos na música brasileira. Seus quase 30 discos têm capas aleatórias e boa parte do repertório é cantado no dialeto imaginário de seu Planeta Lamma. Aos 77 anos, vive numa favela do Rio e faz raras e pontuais aparições. É cultuado por um público jovem que o descobriu na internet.


Bob Ostertag & Fred Frith ao vivo: música também é isso


Confirmado: Sudden Infant não vai se apresentar no próximo SWU
John Zorn esteve em São Paulo há uma semana com sua banda Masada. Não pude ir ao show, fato pelo qual devo me penitenciar pela próxima década e meia.

Entre os músicos relevantes no planeta, Zorn é certamente o mais prolífico. Grava sem parar e mantém um nível assombroso de qualidade. Onde aparecer sua assinatura, vá em frente sem medo.

O primeiro contato que tive com o saxofonista novaiorquino foi em meados dos 90's, através do disco de estreia da banda Naked City. Um quinteto da pesada, integrado por músicos de carreiras estabelecidas, como o guitarrista Bill Frisell e o baterista Joey Baron, seguiu pela ideia torta de John Zorn de misturar jazz com colagens de trilhas sonoras, country, surf music, música clássica e uma pegada punk-grind.

Nesse sentido, trata-se de um álbum definidor: estabelece a ponte entre o senso comum de sofisticação com a brutalidade juvenil de um subgênero underground. Não é jazz-rock coxinha para público que gosta de moderação.

Zorn foi dos primeiros a enxergar valor artístico em estilos nada palatáveis e dominados pela testosterona como death metal e grindcore. Escreveu a respeito, explicou as escalas, os timbres, a afinação. Tornou-se um fã confesso.


Conceituadíssimo, foi convidado em 1989 a se apresentar no Free Jazz Festival, importante evento que fez parte do calendário de shows de São Paulo e Rio por mais de 15 anos. Zorn veio com o Naked City no auge da forma e subverteu, de cara, a figura do jazzista pra publicitário ver: apareceu na coletiva de imprensa do festival trajando uma camiseta da banda americana de crossover thrash The Accüsed.

Assisti ao show há muitos anos num velho VHS e me diverti com a cara de pastel do público brazuca da época: ninguém entendeu lhufas.

Dali pra frente, Zorn e o Naked City radicalizaram ainda mais na forma, ilustrando seus discos com fotos barra-pesada de S&M e apresentando dezenas de temas de jazz-grind que mal atingiam um minuto de duração. Zorn também deve ter se divertido bolando títulos hilários como "Sack of Shit", "Speedfreaks", "Pigfucker", "Igneous Ejaculation" e outros. O Naked City tinha humor.


John Zorn ainda se meteria em outra empreitada barulhenta com o trio Painkiller, cuja formação inusitada trazia o notório músico e produtor Bill Laswell no contrabaixo e o baterista Mick Harris, ex-Napalm Death.

Há muitos anos, li uma entrevista de Harris numa revista de bateria. Ele revelou que estava um pouco inseguro quando chegou ao estúdio para gravar com um músico da estatura de John Zorn. Quis conhecer o repertório pra saber como poderia tocá-lo de seu jeito, ao que Zorn respondeu: "Mas não tem repertório. Você toca o que quiser e a gente te acompanha".


Naked City ao vivo com o aloprado japonês Yamatsuka Eye, o sexto elemento da quadrilha