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Após o incendiário show de Flag e TSOL em Amsterdã, Caixa Preta esteve por três dias em Londres à espera do Rebellion Festival, que acontece na cidade litorânea de Blackpool.

No cardápio londrino, rápida visita ao lendário 100 Club, uma espiada na Les Paul de Mick Jones -emoldurada numa loja em Oxford Street- e o tradicional café da manhã no Troubador, local do primeiro show de Bob Dylan na Inglaterra. Mas também alguns 'pints' de Guinness no pub The World's End, em Camden Town, que toca de Sepultura a Satyricon, e ainda uma esticada até Canary Wharf, onde funciona o The Grapes, taberna de propriedade do ator Ian McKellen e estabelecida no ano de 1583! Na última noite, jantar vegetariano na casa de Simon, guitarrista e vocalista da ótima banda punk Left For Dead.

A viagem de trem até Blackpool acontece num vagão repleto de punks e a chegada ao balneário turístico revela uma cidade tomada por gente com moicanos coloridos, jaquetas de couro e coturnos. E também muitos skinheads tradicionais de camisas Fred Perry, suspensórios e botas Doc Martens. Não falo de algumas dezenas ou centenas deles, mas de milhares.

A cidade recebe muito bem a fauna punk que lota seus bares e hotéis. Os rebeldes ingleses do fim dos anos 70 são agora respeitáveis senhores de 50 anos, com divisas suficientes para movimentar a economia de um destino turístico de verão.

O Rebellion Festival acontece anualmente no luxuoso complexo de entretenimento The Winter Gardens, construído no ano de 1896, e que possui 12 ambientes, incluindo o teatro The Opera House, com 3 mil lugares, e o suntuoso Empress Ballroom, um dos maiores salões de baile do mundo, com quase 1.200 metros quadrados e onde até os Beatles já se apresentaram. Ao longo de 120 anos de existência, o Winter Gardens trocou de mãos algumas vezes e chegou a ser comprado pela EMI no final da década de 1960.

O Rebellion Festival já faz parte do calendário de eventos de Blackpool e, em 2016, comemorou sua 20ª edição e os 40 anos da explosão punk. O banquete foi farto: cerca de 200 bandas e ainda palestras, entrevistas e shows acústicos. E pela primeira vez, o Rebellion teve shows ao ar livre numa arena em Tower Street. Resultado: toda a carga de 10 mil ingressos vendida antecipadamente. Um sucesso.

Com o programa do festival embaixo do braço e a pulseira de identificação que permite sair e entrar de todos os ambientes, montei minha agenda. Ainda no hotel, ouço ecos da música de CJ Ramone, que vem desde o palco aberto, e, logo às seis da tarde, depois de uma espiada nos shows de Drongos for Europe e da banda de ska Buster Shuffle, surge o primeiro impasse: rever o poderoso Flag ou assistir aos dementes americanos do Dwarves? É o tipo de dúvida que frita os miolos do público durante os quatro dias de festival.

O que há em comum em qualquer show é a quase completa ausência de smartphones filmando e fotografando as apresentações. O estafe do festival é grande e o controle de entrada e saída, sempre cuidadoso. Mas, assim como no Melkweg, ninguém passa pela revista de seguranças. Também não há patrocinadores e logotipos de empresas estampados em balões. E há uma feira com cerca de 20 estandes vendendo LPs, CDs, compactos, camisetas, livros, DVDs e materiais diversos de todas as bandas imagináveis. É para falir qualquer um.

No Opera House, aconteceram também entrevistas com figuras especialíssimas do naipe de Captain Sensible, Handsome Dick Manitoba, dos Dictators, e Dave Dictor, do MDC. Mas um certo Jello Biafra roubou a cena com um bate papo acontecido à meia-noite diante de um teatro lotado, e conduzido por John Robb, vocalista do Goldblade e baixista dos Membranes. Sabe aqueles discos de 'spoken word' que Biafra lançou aos montes nos anos 90? É aquilo, só que mais divertido e informal.

A seguir, um pouco de tudo que vimos no Rebellion 2016.

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QUINTA, 04 DE AGOSTO

FLAG - Foto: Dod Morrison

BUSTER SHUFFLE
Ska modesto com um vocalista hiperativo surrando um teclado e uma cantora negra metida numa camisa Fred Perry fazendo os backing vocals. Não deixaram saudades.

DRONGOS FOR EUROPE
Punk rock bem europeu, com público a favor e tocando no maior palco do festival. Tem tudo certinho e no lugar, mas falta alguma coisa.

FLAG
Depois do nocaute aos sentidos no Melkweg, eles atacam com o mesmo set-list, mas à luz do dia e sem o clima de baderna de Amsterdã. A experiência não é igualmente transcendental, mas o show teria sido bom mesmo se desse tudo errado. Flag é absolutamente sensacional.

TSOL
Jack Grisham feliz da vida outra vez, e a guitarra de Ron Emory com seus timbres belíssimos. A formação clássica do TSOL funciona às mil maravilhas no palco e não deveria se separar nunca mais.

DESCENDENTS
Começam com "Everything Sucks Today", minha favorita, e seguem com uma canção atrás da outra, a mil por hora, para um Empress Ballroom lotado até a última molécula de espaço. A qualidade de som, surpreendentemente, não faz jus às tripas que a banda entrega no palco. Exausto pela viagem e pelos shows anteriores, cochilo de pé, no meio da multidão, e depois reconheço que deveria ter optado por ver os Dickies, ao ar livre, banda que gosto mais.

THE VARUKERS
Os vi num fim de noite, em um palco menor, e com o som alto a perfurar os tímpanos após uma maratona de shows. Rat é figurinha carimbada do hardcore britânico e os Varukers têm seu lugar cativo na história.

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SEXTA, 05 DE AGOSTO

BUZZCOCKS - Foto: Getty Images

REAGAN YOUTH
Banda reformada e com um vocalista com pinta de ex-integrante do Mucky Pup. Fazem tudo certo, mas não empolgam. O guitarrista, chefão do grupo, toca usando bandana e faz mil solos de guitarra. Soa melhor nos discos gravados há 30 anos.

SUBHUMANS
Topei com o lendário vocalista Dick Lucas nos corredores do hotel em que estava hospedado. Ele sempre muito louco e acompanhado de gente ainda mais excêntrica. No palco, que é onde vale, o Subhumans faz belíssimo show. São os mensageiros do anarcho-punk e oferecem flertes com reggae e ska. Lucas ainda se apresentou no festival com o Citizen Fish.

DISCHARGE
Os inventores do 'D-Beat' voltaram a fazer o que sabem melhor. Com os irmãos Tezz e Bones nas guitarras, o viajandão "Rainy" Wainwright com seu baixo Flying-V e um novo vocalista, Jeff Janiak, eles soam como o Discharge que todo mundo adora. Um show preciso, matemático, e com aquela sonoridade pós-apocalíptica que influenciou dois milhões e meio de bandas.

ANTI-NOWHERE LEAGUE
Animal é um malandrão inglês que no palco parece ficar com três metros de altura. É o frontman punk por excelência. A seu lado, um guitarrista que se parece com a versão viking do Jared Leto. Tiveram a seu dispor um excelente som ao vivo e a multidão cantando tudo: "(We Are) The League", "Streets of London" e "For You". Fabuloso!

BUZZCOCKS
É como ver a Seleção Brasileira da Copa de 70. Um desfile de elegância. Pete Shelley velhinho, de barba branca e encolhido pela idade, e Steve Diggle com energia juvenil, dando um show à parte. Repertório poderoso e público emocionado. É Buzzcocks, afinal.

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SÁBADO, 06 DE AGOSTO

THE DAMNED - Foto: Vicky Pea

CHRON GEN
Ficaram parados por muitos e muitos anos. Voltaram à ativa e gravaram novo disco, apenas o segundo da carreira e que sucede o cultuado "Chronic Generation", de 1982. O trio mistura punk com hard rock à Billy Idol. Não é para todos, mas é honesto.

JFA
Dave Peligro, baterista dos Dead Kennedys, cansou de usar uma camiseta dessa banda que pertence a uma geração clássica do hardcore americano. Ao vivo, fazem uma maçaroca sonora com teclados e que abre espaço para excentricidades, como o tema do desenho animado "Snoopy". Passo.

HARD SKIN
A banda oi! mais carismática do mundo toca no pequeno palco Pavillion, do Winter Gardens, e faz a festa de um público que canta junto cada refrão. O baixista e vocalista Fat Bob é um fanfarrão que emenda uma série de piadas a cada intervalo. "We're just brilliant!", diz ele em algum momento. E quem somos nós para discordar?

GBH
Em ótima forma, precisos, e com o vocalista Collin aparentando uns 20 anos a menos que a idade. Tocaram clássicos como "City Baby Attacked By Rats", "Alcohol", "Gimme Fire" e outras mais. Por duas vezes convidam garotas de outras bandas a assumirem os instrumentos.

THE DAMNED
O Cock Sparrer tocava para 5 mil pessoas no Empress Ballroom, num dos shows mais aguardados do festival, mas optei por ver o Damned. E agradeço por isso. Uma equipe de dez roadies monta o palco e a banda surge com um som cristalino. Dave Vanian, vampiresco, de casaco de couro, luvas e óculos escuros, e Captain Sensible com sua inseparável camisa rubro-negra listrada e a indefectível boina vermelha. Fazem um show gigante e que culmina com um final apoteótico: "Neat Neat Neat", "New Rose" e "Smash it Up". Épico!

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DOMINGO, 07 DE AGOSTO

Jello Biafra - Foto por: Dod Morrison

COCK SPARRER
Mais que uma banda, o Cock Sparrer é uma espécie de religião para punks e skinheads ingleses. Na ativa desde 1972, o grupo vive uma nova onda de popularidade desde a virada do milênio e suas apresentações ao vivo têm o aspecto de missas campais. O show extra, batizado de "hangover set", acontece na arena da Tower St e em lugar da banda Street Dogs, que cancelou sua ida ao festival. Mais de metade do clássico álbum "Shock Troops" no setlist e uma multidão de punhos em riste, cantando como se não houvesse amanhã. No fundo do palco, Jello Biafra assiste ao show sorridente e, à certa altura, é cumprimentado calorosamente pelo vocalista Colin McFaull.

DAG NASTY
Está aí um grupo que nunca imaginei que veria ao vivo. Há anos em estado de hibernação, a banda post-hardcore de Washington DC voltou surpreendentemente à ativa em 2015. E com sua formação original, que conta, entre outros, com o vocalista afro-americano Shawn Brown e o lendário guitarrista Brian Baker, de Minor Threat e Bad Religion. Show acima das expectativas e com momentos instrumentais intrincados que remetem ao grande Fugazi.

JELLO BIAFRA & TGSOM
Aproveitando a garoa e o frio que estragavam o verão de Blackpool no último dia de festival e que fazia o público se recolher nos intervalos dos shows, me posicionei na cara do palco para ver Jello Biafra & The Guantanamo School of Medicine. Artista de primeira grandeza, Jello comandou a banda numa apresentação arrebatadora. Repertório que mesclou canções atuais, clássicos dos Dead Kennedys e a bomba atômica "Forkboy", do Lard, que provocou abalos sísmicos no litoral inglês. Entremeado por discursos políticos corrosivos, o único 'stagedive' do festival e uma versão ácida de "Nazi Punks Fuck Off", que virou "Nazi Trumps Fuck Off".

STIFF LITTLE FINGERS
Coube à clássica banda de Ulster fechar o festival sob a garoa e o frio cortante do palco da Tower Street. Abriram o show com nada menos que "Wasted Life", canção-manifesto sobre o período mais turbulento da Irlanda do Norte e desfilaram seu poderoso repertório até o grand finale, com os hinos punks "Suspect Device" e a emocionante "Alternative Ulster".
Em quase 35 anos de carreira, o Ministry jamais se apresentou no Brasil. A banda que surgiu em Chicago por obra do cubano Al Jourgensen, fazia no início um synth-pop inofensivo, como se pode ouvir no disco de estreia, "With Simpathy". Alguns anos mais tarde, no entanto, criaram uma pequena revolução no som pesado ao misturar elementos eletrônicos com guitarras distorcidas, samples, vocais cavernosos e uma pegada punk/metal. Tornaram-se para muitos os pais do estilo conhecido como "industrial music".
O álbum "The Land of Rape and Honey", de 1988, uma autêntica trilha sonora para o fim do mundo, foi o primeiro a cair no radar dos fãs de música pesada. Depois dele, o caminho estava aberto para Jourgensen e seu comparsa Paul Barker, que se tornaram uma referência de seu tempo. Os dois discos seguintes -"Mind is a Terrible Thing to Taste" e "Psalm 69"- viraram clássicos imediatos. Do primeiro, saíram os singles "Thieves" e "So What". E de "Psalm 69" foram içadas faixas bombásticas como "N.W.O.", "Just One Fix" e "Jesus Built My Hotrod" - todas lançadas com o apoio de clipes cabulosos e que foram seguidamente exibidos pela extinta MTV Brasil.

Jourgensen e Barker também se meteram em diversos outros projetos no período, como Revolting Cocks (do infame cover "Do Ya Think I'm Sexy?", de Rod Stewart), Pigface, 10,000 Homo DJs, Pailhead (com Ian MacKaye) e o sensacional Lard, com Jello Biafra, que deixou 2 álbuns e 2 EPs (a faixa "Fork Boy", do primeiro disco, foi usada na cena de rebelião em "Assassinos por Natureza", de Oliver Stone).

Ministry

Ao longo da década de 90, o Ministry produziu ainda grandes discos como "Filth Pig" (que tem a impressionante regravação de "Lay, Lady, Lay", de Bob Dylan) e "Dark Side of the Spoon", cujo título em inglês ("O Lado Escuro da Colher") é um trocadilho com os hábitos heroinômanos de Al Jourgensen. É desse álbum também a música "Bad Blood", usada na trilha sonora de "Matrix".

A associação do Ministry com o cinema foi ainda mais marcante no filme "AI - Inteligência Artificial", de Steven Spielberg, em que aparecem tocando num tipo de rodeio de destruição de robôs. O convite partiu de ninguém menos que Stanley Kubrick, o gênio responsável por obras-primas como "2001: Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica", "O Iluminado", entre outras; e que há anos vivia recluso na Inglaterra. Al Jourgensen conta que ao receber o telefonema de Kubrick, achou que se tratasse de uma trote. Soube depois que o lendário cineasta conhecera a música da banda no set de seu último filme, "De Olhos Bem Fechados". Na primeira década do novo milênio, o Ministry gravou dois álbuns praticamente conceituais e que protestavam contra o governo fascista de George W. Bush: "The Last Sucker" e "Rio Grande Blood". Paul Barker deixou o grupo depois de longos anos e Jourgensen seguiu sozinho, até acabar com o Ministry e voltar para mais um disco e uma turnê.

Seu mais recente álbum, "From Beer to Eternity", de 2013, é versátil e tenta resgatar um pouco de cada fase da carreira, com faixas mais experimentais, um maior uso de electronica e o peso arrebatador de sempre. A boa notícia é que, dessa vez, o Ministry finalmente passará pelo Brasil! O show acontece dentro de três semanas na Audio Club, em São Paulo, e a banca da Red Star Recordings estará por lá com todo o catálogo do selo e diversos títulos nacionais e importados.

 Gibby Haynes, do Butthole Surfers, assume os vocais nessa bomba atômica dos anos 90.
A MaximumRockandRoll me foi apresentada por Fábio, vocalista da banda WCHC, numa madrugada qualquer dos anos 80. Enquanto fazia hora para entrar no Rainbow Bar, um pequeno clube underground no bairro do Jabaquara, folheava maravilhado o fanzine que, já naquela época, era tido e havido como "a" fonte de informações sobre a cena punk internacional.

Só fui botar as mãos em outra MRR em 1993, quando visitei uma lojinha punk de Milão chamada New Zabriskie Point. Comprei a edição do mês com o proprietário, Stiv Valli, ele próprio um importante fanzineiro italiano que foi matéria de capa da MaximumRockandRoll.

Quando voltei ao Brasil, resolvi imediatamente assinar a MRR. Ao longo dos anos, perdi a conta de quantas bandas conheci nas páginas do zine de San Francisco: Los Crudos, Man is the Bastard, New Bomb Turks, The Queers.

Mas o grande barato da Maximum nunca foi exatamente a crítica ou o jornalismo musical. A MRR, ao contrário do famoso e influente Flipside, seu equivalente de Los Angeles, sempre tratou o punk como uma subcultura com um código de ética rígido e sem concessões.

E a grande arena para o debate ideológico eram as páginas de colunistas. Por ali passaram escritores punk, donos de selos independentes, jornalistas, músicos e observadores do movimento. De Larry Livermore, da Lookout Records, a Ben Weasel, líder da popular banda Screeching Weasel. De Lefty Hooligan e seu pensamento leninista ao quase conservador Jeff Bale.


No centro de tudo estava o editor Tim Yohannan, uma das figuras mais complexas do punk americano. Mesmo com toda a influência conquistada pelo fanzine em décadas de atividade, Tim Yo jamais quis que a MRR deixasse de ser operada como um coletivo. Ele optou por manter um emprego no ambiente acadêmico e seu radicalismo levou à perda de conhecidos anunciantes, como a Alternative Tentacles, de Jello Biafra, que Tim alegava divulgar lançamentos de discos que não eram punks.

A personalidade difícil de Yohannan o fez colecionar muitos desafetos ao longo dos anos. Alguns "shitworkers" saíram para fundar seus próprios fanzines -como os influentes Punk Planet e HeartattaCk- e leitores famosos, como Billie Joe Armstrong, do Green Day, guardam rancor de décadas pelas críticas ácidas do patrono punk.

Entre 1999 e 2001, conheci dois famosos colunistas da MRR que passaram por São Paulo: o escritor Mykel Board e Dave Dictor, vocalista da lendária banda hardcore MDC. Board, que escreve para o fanzine desde o início dos 80's, afirma que Tim Yo era um dos únicos punks que jamais se venderiam. E as opiniões de Dictor reforçaram a reverência.

Por isso, quando Yohannan morreu de linfoma, em 1998, muito se especulou sobre o fim da MRR. Mas o fanzine permaneceu ativo graças ao esforço de uma nova geração de colaboradores e completa impressionantes 30 anos de atividade em 2012.

Fábio, do WCHC, morreu tragicamente em um atropelamento poucos anos depois de me apresentar a MRR. O Rainbow Bar não demorou muito para fechar as portas. Flipside, Punk Planet e HeartattaCk deixaram de ser publicadas. A New Zabriskie Point também não existe mais.

Mas a MaximumRockandRoll resiste ao tempo.
Quer ver um show de máximo impacto, num dia da semana menos concorrido, num horário decente e com um banda de sangue quente? Não é um convite, é uma intimação: na próxima terça-feira, dia 6, o quarteto soul-punk The BellRays volta ao Brasil para show no Clash Club. Imperdível.

Acho que já disseram que os BellRays são uma mistura do pré-punk de Detroit com blues, garage rock e uma band leader enfeitiçada por divas do soul como Aretha Franklin e Odetta. E se não disseram, faço minha a descrição: os BellRays são isso ou quase isso.

A banda está na ativa desde o comecinho dos anos 90, mas, pra muita gente, só entrou mesmo no radar na última década. O quarteto passeou por vários selos independentes sem se vincular a nenhum. Teve, inclusive, uma passagem pela Alternative Tentacles, de Jello Biafra, selo cuja variedade de artistas levou ao banimento de anúncios pela MaximumRockandRoll com a alegação de promover lançamentos que não eram exatamente punks.

Quem se importa? Jello, um audiófilo qualificado, abrigou os BellRays na gravadora do morcego e lançou o disco The Red, White and Black, de 2004. O álbum, de certa forma, encerra o ciclo de uma sonoridade mais crua e sinaliza a transição para um formato mais sofisticado, mas não domesticado, do excelente Have a Little Faith, de 2006.

Foi com esse disco na bagagem que os BellRays aportaram no Brasil para botar mais fogo no Inferno. Estive na apresentação antológica, em 2007, e vi o público dançar e se esgoelar com canções como "Tell the Lie", "Time is Gone" e "Detroit Breakdown".


Lisa Kekaula, front woman sem o padrão de beleza universal, mas com a sensualidade natural de uma cantora negra de soul, se equilibrava sobre um par de saltos e desfilava imponente num vestido colado e cintilante. A seu lado, uma banda envenenada que ganhou cancha em 20 anos de estrada e com ouvidos para a Motown e o MC5.

Me vi, lá pelas tantas, cantando o refrão de "Highway to Hell", do AC/DC,  com o microfone estendido pela senhora Kekaula que, antes, em momento embascante, havia descido do palco para cantar, no meio do público, a belíssima balada "Have a Litte Faith". Êxtase garage-soul-punk.

Quando os marketeiros de Barack Obama usaram "Revolution Get Down", dos BellRays, para incendiar a esperança em uma nova América multiracial, sabiam o que estavam fazendo.

Política continua sendo só política, mas nos BellRays vale a pena acreditar.


Clipe de "Infection", do álbum Hard Sweet and Sticky, de 2008
Joey "Shithead" Keithley é uma das personalidades mais importantes do punk na América do Norte. Para os canadenses, então, é um autêntico godfather.

Aos 55 anos de idade, Joey permanece ativo com sua banda D.O.A. Já são mais de 3 décadas de carreira, 15 álbuns de estúdio, dois livros, um disco solo e outro, seminal, ao lado de Jello Biafra. 

No momento em que esta coluna é escrita, o D.O.A. está encerrando sua primeira turnê pelo Brasil. Foram três shows: o primeiro em Curitiba, o segundo em São Paulo (foto abaixo) e o último, deste domingo, no Rio de Janeiro.

A banda aterrissou no Brasil na quinta passada, dia 17, e fui convidado para um jantar de boas-vindas aos canadenses. Por um desses acasos, meu lugar na mesa era aquele ao lado de Joey Shithead. Apreciador de uma boa conversa, não se importou em relembrar inúmeras histórias sobre os primórdios do punk na América do Norte, o rock canadense e muito mais.

Joey me contou, por exemplo, como foi abrir um show do David Lee Roth em Vancouver.

"Estava programado para que o Poison tocasse, mas um integrante deles quebrou o braço e fomos convidados em cima da hora pra susbtitui-los. Tinha quase 15 mil pessoas no lugar e muita gente na primeira fila atirando moedas em nós. Os seguranças do David gostaram da gente e começaram a dar porrada em quem jogava coisas no palco. Depois, nos camarins, aprontamos várias e fomos expulsos pelo empresário dele. Mas David é um cara direto, sem frescuras. E na época era um completo 'party animal'. Cheirava várias e frequentava todos os inferninhos".

O Canadá tem assuntos variados na cultura rock. Citei alguns nomes menos óbvios e deixei Joey discorrer, entre uma e outra garfada num delicioso siri.

"Nardwuar é um bom entrevistador. Tem um grande conhecimento musical. Mas da primeira vez que ele me entrevistou, quase saí andando depois de 5 minutos. Não tinha entendido qual era a daquele personagem. O Razor? Não sei nada sobre eles, exceto que fizeram um documentário a respeito dos caras. Ah, esse é o Anvil? Não sei quem é quem. E nunca vi o documentário. O Michel [Langevin, baterista do Voivod] já tocou com a gente em um show beneficente. Ensaiamos por uma tarde e ele tocou umas 12 músicas. É um cara bacana. Do BTO [Bachman-Turner Overdrive] tenho boas lembranças: fizemos um show com eles em um presídio de segurança máxima no norte do Canadá. Era a primeira apresentação do BTO com a formação original em uns 20 anos".


Joey me perguntou se eu recomendava alguma loja de discos em São Paulo. Expliquei o que era a Galeria do Rock e de como Jello Biafra comprou uma enormidade de LPs por lá.

"Sim, eu posso imaginar. Ele tem uma coleção enorme. Uma grande sala com álbuns do chão até o teto. E tudo organizado alfabeticamente! Se você perguntar a ele sobre um LP qualquer, ele dá uma olhada rápida e já puxa o disco da estante. É incrível. Existe um tipo de colecionador que compra de tudo, e existe aquele que só coleciona o que realmente gosta. Jello faz parte do segundo tipo. Não sei quantos álbuns ele tem, mas, baseado em um veterano radialista de Vancouver a quem ajudei a remover 40 mil LPs, eu arriscaria dizer que Jello tem uns 20 mil discos".

Não dá pra papear com um ícone punk sem falar de outros protagonistas. Mencionei que, em 1999, hospedei Mykel Board, célebre colunista da MaximumRockandRoll, e que o mesmo me disse que só havia duas pessoas em toda a cena punk pelas quais ele colocaria a mão no fogo. Uma delas era Tim Yohannan, fundador da própria MRR, falecido em 1998.

"Tim era uma grande figura. Você debatia com ele por 4 ou 5 horas sobre punk e política, e, no final da conversa, via que ele não tinha mudado uma vírgula em sua forma de pensar. Era muito teimoso e idealista. Mas o papo terminava e continuávamos amigos. Ian MacKaye também é muito íntegro. Mantém os mesmos princípios após todos esses anos. Mas quem é a outra pessoa que ele [Mykel Board] disse que não se venderia?".

Respondi que era G.G. Allin.

"Ah, não tenho muito respeito pelo G.G. Allin. O cara nunca escreveu uma música que preste. Era basicamente um encrenqueiro". Comentei que, mesmo assim, G.G. deixou sua marca. Joey concordou: "Bom, isso é verdade. E também não quero falar mal do cara. Ele nem está mais entre nós. Ah, deixa isso pra lá. Um brinde a ele!".

Erguemos as taças e brindamos G.G. Allin.

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Em breve no portal Rock Press, uma entrevista que realizei com Joey Shithead, no backstage do show do D.O.A em São Paulo, na qual ele revela como foi gravar com Jello Biafra, fala sobre Chuck Biscuits, a origem do hardcore e muito mais.


D.O.A toca a quintessencial "The Prisoner", em Vancouver, em 1992
Amada por muitos, odiada por outros tantos, a balada "Under the Bridge", do Red Hot Chili Peppers, dominou as paradas entre 1991-92.

O sucesso da canção veio à reboque de um video-clipe dirigido pelo cultuado cineasta Gus Van Sant e exibido em alta rotação na MTV. No video, o vocalista Anthony Kiedis zanzava pelas ruas de Los Angeles usando uma camiseta do D.O.A.

A informação, quase subliminar para a massa que acendia isqueiros e outros artefatos ao som da lassidão dos Chili Peppers, não passou batida para quem sabia do retorno da banda punk canadense.

Explica-se: em 1992, quando "Under the Bridge" bombava, o D.O.A. retomava discretamente suas atividades após uma aposentadoria relâmpago.

Em 1990, a banda anunciou que iria se separar e, à convite do já falecido Dirk Dirksen, ex-road manager dos Doors e agitador cultural de San Francisco, realizou uma turnê de despedida que culminou com um show gravado e lançado no DVD The End. O show tem, inclusive, uma energética participação de Jello Biafra, que canta duas músicas do disco Last Scream of the Missing Neighbors -gravado em parceria com o D.O.A.-, entre as quais a sombria "Full Metal Jackoff", com seus 17 minutos de paranóia oitentista.

Naqueles tempos, eu assinava a Maximumrockandroll, o lendário fanzine punk de San Francisco, e me deparei com um curioso anúncio. O D.O.A. voltava à carga divulgando seu último lançamento, o disco 13 Flavours of Doom, mas, sutilmente, mandava o recado: "Queremos tocar na América do Sul!".

A surpresa era ainda maior porque, até aquela época, poucas bandas punks estrangeiras tinham tocado por aqui. Me ocorrem os caóticos shows de Ramones e Toy Dolls no fim dos 80's, com batalhas campais e pessoas esfaqueadas. E apenas na metade da década seguinte, três shows incendiários do Agnostic Front para 200 pessoas por noite no mitológico Black Jack Bar.

Houve outros, claro, mas eventos tão espaçados que podem ser mapeados pela memória. Já a desejada turnê sulamericana do D.O.A. nunca chegou a acontecer.

Mas os punks de Vancouver continuam vivos e bem. Pelo menos Joey Keithley. Desde 1992, lançaram nada menos que 8 álbuns de estúdio. Um dos últimos é Northern Avenger, de 2008, produzido por ninguém menos que Bob Rock, o homem por trás do multiplatinado black album do Metallica.

Foi Bob Rock, aliás, que cunhou o termo "northern avenger" (vingadora do norte) para se referir à lendária Gibson SG de Joey Shithead. O apelido pegou e virou o título do disco que, diga-se, é inspirado e muito bem produzido.

A indefectível voz de Shithead canta refrões que são um convite à baderna: de sacadas bem-humoradas ("Golden State") a temas recorrentes do ethos punk ("Police Brutality" e "This Machine Kills Fascists"), passando por reminiscências de uma vida no underground ("Still a Punk").

Para quem já leu a autobiografia de Joey -"I, Shithead: A Life in Punk"-, não é surpresa a inclusão de um reggae ("Poor Poor Boy") e uma regravação do Creedence Clearwater Revival ("Who Will Stop the Rain"). O canadense conta no livro como uma viagem à Jamaica, quando criança, o tornou um admirador do reggae original e porque, para ele, a folk music e o punk são "filosoficamente próximos".

O livro, aliás, traz dezenas de histórias imperdíveis, como, por exemplo, um encontro surreal com David Lee Roth, no auge do Van Halen, ou a revelação de que Kurt Cobain e Courtney Love teriam se conhecido num show do D.O.A...

Mas a boa notícia mesmo é que Northern Avenger, o disco, foi lançado no Brasil. E o selo Red Star quer, ainda por cima, materializar um antigo sonho do D.O.A. e trazer os caras para a América do Sul.

Joey Shithead já disse que topa.

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Atualização (30/08/11)
: turnê do D.O.A. no Brasil confirmada!

Apresentação em SP: 19/11/11
Local: Hangar 110
Com shows de Olho Seco e Agrotóxico
Ingressos: 1º lote: R$ 30,00; 2º lote: R$ 40,00; Porta: R$ 50,00

• Ingressos online através do Ticket Brasil: www.ticketbrasil.com.br
• Outras informações: (11) 3229-7442


D.O.A. bota pra quebrar em "Human Bomb", clipe promocional de Northern Avenger.


E aqui, a sensacional versão de 1982 para "War", hit original do soulman de Detroit Edwin Starr.
Há seis meses -mais precisamente em setembro de 2010-, a banda canadense Voivod viria ao Brasil pela primeira vez em 25 anos de carreira.

Ainda que tenha perdido o sensacional guitarrista Dennis "Piggy" D'Amour em 2005, vítima de câncer, a banda optou por seguir na estrada. Recrutaram um substituto para a complexa tarefa e ainda contaram com o retorno em boa hora de Jean-Yves Theriault, o Blacky, baixista original, afastado desde 1990, que gravou quase todos os discos essenciais do Voivod.

Com 3/4 de seu line-up original, a banda tem viajado pelo mundo e tocado, na maioria das vezes, ao lado de outros veteranos da cena thrash dos anos 80. Não era exatamente o futuro que eu imaginava para o Voivod, mas, para eles, o gueto do metal é certamente um porto seguro.

O Brasil quase fez parte dessas andanças do Voivod pelo planeta. A apresentação foi cancelada em cima da hora e nossa entrevista pré-agendada com a banda também foi para o vinagre.

O motivo apresentado pela produtora é que os músicos não teriam obtido seus vistos de trabalho em tempo hábil. O show seria, então, remarcado para o início de 2011.

A versão extra-oficial dá conta de que o real motivo para o cancelamento teria sido a baixa procura antecipada por ingressos.

Seja qual for a verdade, o Voivod esteve, sim, na América do Sul no início de 2011. Na verdade, eles andaram por aqui há menos de 2 semanas, mas, no vácuo dos megashows de Iron Maiden e Ozzy Osbourne, a apresentação dos canadenses em Santiago do Chile mal reverberou no Brasil.


A experiência de ver o Voivod ao vivo em 2011 seria uma nostalgia do futuro. O quarteto de Quebec sempre esteve à frente de seus pares no quesito inovação. A cada novo disco, uma proposta musical mais avançada e complexa.

A banda nunca escreveu sobre bobagens satanistas, dragões ou mitologia. E também não me lembro de terem exaltado o "estilo de vida headbanger" em suas letras. A praia do Voivod sempre foi o hiper-espaço, a tecnologia controlando a espécie humana, os alienígenas espiando pela janela ou alguma autocracia num mundo imaginário. E a música sempre acompanhou essa onda.

Piggy tornou-se um ourives das dissonâncias, dos riffs intrincados e solos de guitarras lindamente tortos. E Snake deixou de gritar, tornando-se, cada vez mais, um cantor de fato.

O conceito em volta da banda era claramente a obra de artistas, coisa rara no metal. Em 1989, o baterista e designer Away criou a arte para a capa do clássico "Nothingface" em computador. É isso aí, ilustração digital em 1989. Modernidade sempre foi com esses caras.

A cultura musical do Voivod veio da inspiração causada por gente como Venom, Discharge e Motörhead, mas sua imaginação passeou pelas obras de King Crimson e Pink Floyd (de quem fizeram dois covers extraordinários), materializando essa complexa teia de referências num disco pouco compreendido e de surpreendente sensibilidade pop chamado "Angel Rat".

A disposição de expandir sua atuação para além dos clichês do thrash metal criou uma aura de culto ao redor da banda. Jello Biafra escreveu sobre isso no prefácio de "Worlds Away: Voivod and the Art of Michel Langevin".

E o ex-líder dos Dead Kennedys não é o único célebre fã fora da tribo metal. Kim Thayil (Soundgarden) e Matt Cameron (Pearl Jam) são outros admiradores confessos do Voivod.

Dave Grohl, que dispensa apresentações, vai ainda mais longe. É possível assistir no YouTube a uma entrevista em que ele dedica quase 20 minutos (!) para esmiuçar a discografia, os solos de guitarra e as letras do Voivod.

Uma rápida visita ao Chile para ver esses lendários canadenses teria sido uma saudável loucura.



Acima, uma pequena amostra do Voivod, ao vivo e em alto astral, em Santiago, executando a colossal "Tribal Convictions".
No início dos anos 90, chegou às minhas mãos uma cópia em VHS do documentário "Another State of Mind". O filme, lançado em 1984, mostra as desventuras das bandas Youth Brigade e Social Distortion pela América do Norte em uma pioneira turnê independente.

Eu não havia visto nada do gênero até então - provavelmente porque não existia nada como aquilo. Um documentário profissional registrando um momento histórico na cena punk americana. O impacto foi tremendo.

Assisti ao filme várias outras vezes ao longo dos anos e, quando o comércio eletrônico surgiu, finalmente comprei uma cópia original.

"Another State of Mind" não apenas reforçou minha fé no espírito do faça-você-mesmo, que viveu seus dias de glória com o punk americano do início dos anos 80, como também me tornou admirador confesso das duas bandas que protagonizam a história.



O Social Distortion foi a parte que não agüentou as atribulações daquela turnê sem dinheiro ou conforto. Quem viu o filme sabe que Mike Ness se mandou de volta para Orange County antes da tour chegar ao final, uma atitude que dava pistas sobre seu futuro distanciamento do gueto punk e o perfil solitário - o perfeito oposto dos agregadores irmãos Stern, do Youth Brigade.

Ao longo de quase 3 décadas, os Stern idealizaram a turnê registrada em "Another State of Mind", fundaram o selo BYO Records e o clube punk Godzilla's, organizaram festivais e até o descolado torneio de boliche Punk Rock Bowling, em Las Vegas, que este ano completou 13 edições.

O clã é responsável por colocar o punk de Los Angeles no mapa, embora, estranha e injustamente, jamais tenha tido a mesma projeção e reconhecimento de seus pares mais famosos.

Em 1996, entrevistei o vocalista e guitarrista Shawn Stern por telefone. Na época, ele lançava o que seria -e é, pelo menos até então- o último álbum de estúdio do Youth Brigade: "To Sell the Truth".

Articulado e idealista, Shawn forma, ao lado de Jello Biafra e Ian MacKaye, uma espécie de núcleo intelectual dos valores punk nascidos no fim da década de 70.

Todos fundaram seus próprios selos, produziram discografias de respeito e mantiveram-se, dentro do que é humanamente possível, coerentes a seus princípios.

Há algumas semanas fui presenteado com uma peça de registro histórico: "Let Them Know - The story of Youth Brigade and BYO".

O item foi adquirido por um amigo das mãos do próprio Shawn Stern após um show do Youth Brigade, em Los Angeles, na última noite de 2010.

"Let Them Know" é o que chamamos no Brasil de "livro de arte" - e que os americanos chamam de "coffee book table". Ou seja, um livro em formato grande, com capa dura e acabamento gráfico de primeira. Mas não é só isso.

O livro traz, encartados, dois LPs prensados em vinil colorido com várias bandas do cast da BYO Records tocando covers umas das outras. A biografia oferece descobertas surpreendentes como a de que Matt Groening, futuro criador dos Simpsons, era um dos incentivadores da BYO, divulgando seus shows no períodico L.A. Reader do qual era crítico musical.



Mas a cereja do bolo é um documentário de 90 minutos, também intitulado "Let Them Know", que mostra como a história do Youth Brigade e da BYO mistura-se a do punk de LA.

É incrível rever, vinte e tantos anos depois, alguns rostos mostrados em "Another State of Mind" no auge da efervescência e rebeldia juvenis. E não falo apenas dos irmãos Stern, mas também de alguns integrantes da trupe. Outras figuras "icônicas" como Ian MacKaye, Fat Mike (NOFX), Kevin Seconds (7 Seconds) e Steve Soto (The Adolescents) oferecem seus insights sobre o Youth Brigade e a cultura punk da época.

Há tantos causos e observações imperdíveis em "Let Them Know" que o assunto mereceria um texto à parte. Entre os destaques, as loucuras do squat Skinhead Manor, os festivais Youth Movement de 1982 e 83 e as memórias sobre a participação em "Another State of Mind" (entre as revelações, o fato de que Pete Stuart, co-diretor do documentário, é filho de Mel Stuart, o diretor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate"!).

Se os Stern jamais tiveram o reconhecimento de outros ícones punk norte-americanos, uma pequena imersão em "Let Them Know" -o filme e o livro- fará qualquer um passar a lembrar desses judeus canadenses que imigraram para a Califórnia no início dos 70's, como co-inventores do faça-você-mesmo.

E o melhor: a música do Youth Brigade é sensacional. Vá atrás!


Assista acima ao trailer de "Let Them Know".


E aqui, o Youth Brigade ao vivo, em plena forma, no ano de 1996.
Impossível contar a história do rock sem citar John Lydon. O eterno líder do Sex Pistols é amado, odiado, imitado, criticado e reverenciado. Tudo ao mesmo tempo e com o mesmo fervor.

Aos 54 anos, Lydon resolveu reformar o magnífico PiL. Como parte do processo de botar a banda mais uma vez na estrada, o vocalista tem concedido as habituais entrevistas promocionais. Uma delas, de março deste ano, me pegou de surpresa.

Mais de uma vez li relatos que descrevem John Lydon como um sujeito arrogante e megalomaníaco. De outras fontes, ouvi que o cantor é alguém que vive em outro planeta.

O jornalista André Barcinski, por exemplo, conta que desistiu de entrevistar Lydon para seu livro "Barulho" após este ter exigido uma limousine para ir buscá-lo num hotel.

Pois bem, ao menos para este escriba a fama acaba de ser implodida.

O responsável pela façanha é o canadense Nardwuar, um impagável entrevistador sobre o qual escrevi um texto que já se evaporou da Caixa Preta. Nard conversou com Lydon por nada menos que 45 minutos. O resultado é diversão pura.

O gancho para a entrevista foi, claro, a reunião do bacanérrimo PiL - banda que não se apresentava ao vivo há 17 anos e que em 2010 foi headliner do badalado festival Coachella, entre outros.

E se apenas a notícia da volta do PiL já seria suficiente para animar qualquer ouvinte, a conversa -que você pode ouvir nos podcasts do iTunes- tem um aura de camaradagem que eu há muito não via.

Lydon, ao contrário da (má) fama, revela-se um daqueles ingleses fanfarrões e boa praça: não economiza nas gargalhadas e responde sobre tudo com supreendente simplicidade.


Pra começar, essa figura "icônica" do rock'n'roll mostra que não se fechou numa bolha e acompanhou muito do que se fez na música desde a revolução de costumes que ajudou a criar. Só pra citar um exemplo, John Lydon é fã do Exploited. Eu não imaginaria.

Como bom inglês, fala com gosto de seu time de futebol favorito, o londrino Arsenal, de quem cita vários jogadores da velha guarda. Mas também discorre sobre atividades prosaicas, como preferir DVDs ao cinema - local onde é tremendamente assediado.

Lydon se diz fã das bandas alemãs Magma e Can, gosta do Free, diz que o Clash não sabia tocar reggae direito e reclama que a herança do punk é lamentável: de um lado bandas obtusas e radicais, de outro o Green Day com cabelos espetados e jaquetas de couro.

Nardwuar é o melhor entrevistador que conheço. Mistura cara-de-pau com conhecimento enciclopédico de rock. Em uma de suas considerações, pergunta se Lydon conheceu "heróis do punk americano" - gente como, por exemplo, Jello Biafra.

A resposta é um contraponto curioso ao que eu mesmo havia perguntado a Jello há menos de um mês: "Ele fala demais e não tem humor. Tenta parecer intelectualizado e provar seu ponto de vista sobre as coisas. Parece que está sempre tentando vender essa imagem. Acho que às vezes temos que saber socializar e apenas bater um bom papo".

E isso Lydon provou que sabe fazer.



No vídeo acima, o PiL no auge da forma. Quem se aventura a trazer Lydon e banda para o Brasil?
Em 2001, me encontrei acidentalmente com Lemmy num local bastante apropriado: um cassino em Las Vegas.

O eterno líder do Motörhead estava vestido exatamente como já vimos em milhares de fotos e vídeos ao longo dos anos: camisa preta, jeans surrados e a velha bota de couro de cobra.

Embora tenha como mandamento quase sagrado respeitar a privacidade alheia, abri uma exceção e interpelei Lemmy para um prosa de uns 3 minutos. Contei que havia estado no primeiro show que o Motörhead realizou no Brasil, em 1989, e que lembrava o set-list de cabeça.

Lemmy achou graça, mas devolveu com um cruzado no queixo: "E nos outros shows que fizemos por lá depois, você não foi por quê?". Me esquivei do golpe. Disse que tinha ido a todos eles -mentira, claro- mas que o primeiro a gente não esquece. Lemmy assentiu: "Nisso você tem razão".

Foi a única vez que vi Lemmy fora do palco e me pareceu exatamente o tipo de cara que você imagina que ele seja. Boa praça, meio rabugento e absolutamente autêntico.


Aparentemente, essa é a opinião de grande parte do público masculino que tem entre 35 e 49 anos. Pelo menos é o que afirmam os espertos publicitários da geração X.

Depois de usarem "Should I Stay or Should I Go", do Clash, em um comercial de TV, de plagiarem o logo e a capa de uma compilação do Minor Threat para o lançamento de um tênis e de transformarem Iggy Pop e John Lydon em garotos propaganda, agora é a vez de modificarem "Ace of Spades" com a permissão de seu autor.

Explica-se: a canção mais famosa do Motörhead, em versão alternativa, virou tema da campanha "Slow Down the Pace" -algo como "Diminua o ritmo"- para a cerveja Kronenbourg 1664.

O objetivo da marca é fazer com que pessoas como eu, e talvez como você, caro leitor, acreditem que se o Lemmy pode largar a vida de excessos e se contentar com uma cervejinha, porque nós, simples mortais, não podemos?
De acordo com o diretor de criação da agência responsável, o mais difícil não foi convencer Lemmy a participar do comercial - o notório apreciador de Jack Daniels com Coca-Cola já apareceu em propagandas de salgadinhos e chocolate antes.

O complicado, nas palavras do publicitário, foi lidar com a montanha de russa de humor de Lemmy durante a nova gravação de "Ace of Spades".

Como se sabe, o Motörhead jamais havia regravado seu maior clássico em estúdio e seu autor, pelo que consta, sempre protegeu a aura de clássico da canção.

Mas, no fim, a Kronenbourg 1664 ganhou uma versão blues de "Ace of Spades" para mostrar que até um bad motherfucker como Lemmy pode, por uma quantia substancial, "diminuir o ritmo".

Jello Biafra, que me confidenciou em entrevista ter passado mal fisicamente com o uso de "Search & Destroy", dos Stooges, em uma propaganda da Nike, com certeza não aprovaria.

Mas o carisma de Lemmy parece capaz de nos fazer achar o comercial da Kronenbourg a coisa mais cool do mundo.

Assista abaixo e me diga se não é legal...

Em pouco mais de 20 anos de jornalismo musical diletante, entrevistei alguns personagens importantes na história do punk americano.

Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), Jerry Only (Misfits), Mike Muir (Suicidal Tendencies), Shawn Stern (Youth Brigade), entre outros.

Faltava um dos maiores.

Na sexta-feira passada, dia 29, falei com Jello Biafra por telefone. A conversa durou cerca de 35 minutos e foi publicada hoje no Portal Rock Press como aquecimento para os shows certamente históricos que Jello realizará nos próximos dias no Brasil (leia mais aqui).

Biafra sintetiza tudo que se imagina de um artista que está umbilicalmente ligado à história do punk. É altamente politizado, sarcástico, um grande letrista e observador da sociedade. A coerência de sua obra musical e de seu ativismo são sustentados pelo binômio talento/integridade.



Conheci o Dead Kennedys em 1986, quando a emblemática banda de San Francisco se separava e, de tabela, aumentava o vazio numa época em que o punk começava a definhar (o Black Flag, só pra citar outro exemplo, acabou no mesmo ano).

Curiosamente, enquanto a ressaca tomava conta da cena na América e na Europa, um quase desapercebido boom de punk rock dominou a 'classe de 86' em São Paulo. As divertidas "Ashtma" e "Nellie the Elephant", do Toy Dolls, tocavam nas festinhas da época e o disco de estreia do Dead Kennedys, lançado originalmente em 80, era editado sem autorização por aqui através da gravadora Continental. Tocou até no rádio e, dizem, vendeu cerca de 30.000 cópias, das quais Jello Biafra e seus comparsas não viram um centavo sequer.



Três anos depois o vocalista reaparecia num projeto com a visceral banda canadense D.O.A e, daí por diante, comprei tudo que Jello gravou.

Ouvindo cada parte dessa discografia imponente, dá para entender a reverência com que o mais importante punk vivo será recebido no Brasil para divulgar o excepcional The Audacity of Hype.

Para preparar os ouvidos, o Caixa Preta montou um Top 20 com uma canção escolhida de cada disco gravado por nosso terrorista predileto (pra chegar no número, incluímos faixas inéditas de uma trilha sonora, uma coletânea e uma participação num álbum do Napalm Death).

Se tiver paciência, monte o tracklist e já entre no clima dos shows:

  1. Holiday in Cambodia (DK's, Fresh Fruits for Rotten Vegetables, 80)
  2. Nazi Punks Fuck Off (DK's, In God We Trust, Inc, 80)
  3. Moon Over Marin (DK's, Plastic Surgery Disasters, 82)
  4. This Could Be Anywhere (DK's, Frankenchrist, 85)
  5. Chickenshit Conformist (DK's, Bedtime for Democracy, 86)
  6. Full Metal Jackoff (w/ D.O.A., Last Scream of the Missing Neighbors, 89)
  7. Message from Our Sponsor (w/ Keith LeBlanc, Terminal City Ricochet, 89)
  8. The Power of Lard (Lard, The Power of Lard, 89)
  9. Fork Boy (Lard, The Last Temptation of Reid, 91)
  10. Fireball (Tumor Circus, s/t, 91)
  11. Bad (w/ Nomeansno, The Sky is Falling and I Want my Mommy, 91)
  12. Convoy in the Sky (w/ Mojo Nixon, Prairie Home Invasion, 94)
  13. Sidewinder (Lard, Pure Chewing Satisfaction, 97)
  14. Electronic Plantation (No WTO Combo, Live from the Battle in Seattle, 99)
  15. 70's Rock Must Die (Lard, 70's Rock Must Die, 00)
  16. Allah Save Queens (w/ Carpet Bombers for Peace, Salt in the Wound - EP, 03)
  17. Plethysmograph (w/ The Melvins, Never Breath what You Can't See, 04)
  18. Those Dumb Punk Kids (Will Buy Anything) (w/ The Melvins, Sieg Howdy, 05)
  19. The Great and the Good (w/ Napalm Death, The Code is Red..., 05)
  20. I Won't Give Up (JB & TGSOM, The Audacity of Hype, 09)