Black Sabbath são meus Beatles. Sempre estiveram lá, como uma espécie de instituição.
Primeira lembrança talvez seja o álbum "Heaven and Hell" -justamente o primeiro sem Ozzy, vejam só!- que conheci uns três anos após o lançamento. As memórias se misturam com a carreira solo de Ozzy Osbourne, seus clipes no programa Som Pop, o show no primeiro Rock in Rio, que vi pela TV, e o disco duplo ao vivo "Speak of the Devil", só com repertório do Sabbath.
Em algum momento da mesma época um primo mais velho me emprestou duas preciosidades: as versões nacionais de "Paranoid" e "Master of Reality". Ambas com capas muito bem impressas e o icônico rótulo da Vertigo no centro do vinil. Detalhe curioso: a edição brasileira de "Master of Reality", de 1971, tem o nome da banda escrito com uma letra em cada cor; bem diferente do roxo da versão original.
Em 1990 ou 91, para inaugurar meu primeiro CD player, comprei o primeiríssimo álbum de carreira do Sab. A ideia era colecionar a obra da banda em formato compact disc e, preferencialmente, na ordem cronológica. Demorou, mas consegui. E, de quebra, comprei também os dois discos solo do baterista Bill Ward, bootlegs e picture discs.
O Sabbath passou pelo Brasil pela primeira vez em 1992, com a digna formação do álbum "Mob Rules", e lá estava eu para vê-los ao vivo. Tocaram boa parte de seus clássicos, privilegiando os discos que gravaram com Ronnie James Dio. Mas como tornou-se praxe na carreira do grupo, esse line-up logo se esfarelou. Sete anos mais tarde, juntaram-se a Ozzy e Ward para uma reunião que resultou num disco ao vivo e que, por algum motivo chato, também foi interrompida prematuramente. E anos depois, de novo com Dio e Appice sob o nome Heaven & Hell. Pouco senso de ocasião e muitas idas e vindas.
Levou três décadas, mas vi, enfim, na última sexta-feira, meus Beatles ao vivo. Sem Ward, mas com Ozzy, e na esteira do grande momento registrado no álbum "13" - o primeiro de inéditas com Oz em 35 anos. A aura de grandiosidade histórica do grupo parece capaz de ofuscar quase todos os artistas em atividade. E você percebe isso quando vê gente de todas as idades e lugares formarem uma multidão ávida para louvar e desfrutar canções com mais de 40 anos.
A entrada na Praça da Apoteose logo revela os três telões de LED com o clássico logo da banda -sim, aquele do "Master of Reality"- e o adolescente em mim se contém para não derramar as primeiras lágrimas. Nem mesmo o bom set de abertura da banda americana Rival Sons, e seu caldo que mistura hard rock e blues, Free e Led Zeppelin, é capaz de me distrair do fato que dali a instantes teríamos o Black Sabbath no palco.
E então as luzes se apagam. E uma animação nos telões termina com o logo do grupo em chamas. Tony Iommi, recuperado da leucemia que quase lhe tirou a vida, surge com aspecto mais saudável e empunhando sua mítica Gibson SG. A canção "Black Sabbath" abre o show como também inaugurou os próprios anos 70, encerrando a fantasia flower power sessentista e retratando a distopia pós-hippie.
Ozzy é um sobrevivente como Iggy Pop e, tal como o Iguana, epitomiza o próprio rock'n'roll. Geezer é pura elegância, um autêntico lorde inglês e um dos melhores contrabaixistas de sua época. Faltou Bill, que está vivo e bem na Califórnia, mas magoado com seus ex-companheiros. Tommy Cufletos, o substituto várias décadas mais jovem, é ótimo baterista, mas não tem o swing e a imprevisibilidade jazzística do mestre. Em se tratando de Sabbath, não se pode ter tudo e estamos mais do que no lucro.
Fiz de tudo para evitar spoilers e não li qualquer coisa sobre o set list da turnê de despedida. Queria estar aberto a surpresas, mas tive poucas. "After Forever" e "Dirty Women" foram as escolhas menos óbvias, mas o restante do repertório foi pinçado a dedo para agradar as plateias pelo mundo afora. Das treze canções executadas, nada menos que onze são extraídas dos três primeiros discos do Sabbath, que são também seus mais populares. Não há nada de álbuns colossais como "Sabbath Bloody Sabbath" e "Sabotage", e tampouco de "Never Say Die" ou "13". Uma pena, mas para isso criei o set list dos (meus) sonhos no final do post.
Se te falarem que Ozzy está desafinando em algumas músicas, acredite. Ele já fazia isso antes, até em estúdio. Se te disserem que a banda toca agora em ritmo mais cadenciado, também é verdade. Mas eles são os arquitetos do doom e Black Sabbath nunca teve a ver com velocidade. E ainda, se repetirem por aí que som ao vivo não tinha o volume esperado, olha, é bem possível que também seja verdade. Em 1992 eles também não tocaram tão alto assim.
Mas são detalhes. E irrelevantes perto do que é ver as faíscas que ainda resultam da química entre esses gigantes. A obra do grupo, não à toa, é uma mais influentes dos últimos 50 anos. Está em tudo que foi feito na música de forma rebelde desde 1970. E isso é muita coisa.
Obrigado por tudo, Sabbath.
-------
SET LIST Rio de Janeiro, 02/11/16
Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the Void
Snowblind
War Pigs
Behind the Wall of Sleep
Bassically/N.I.B.
Rat Salad
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
Paranoid
SET LIST Caixa Preta
Black Sabbath
Sabbra Cadabra
Killing Yourself to Live
Sabbath Bloody Sabbath
Never Say Die
Planet Caravan
War Pigs
Hard Road
N.I.B
Iron Man
Supernaut
Symptom of the Universe
God is Dead?
Cornucopia
Snowblind
Paranoid
(Republico abaixo coluna que escrevi em 16 de janeiro último, para o blog da Red Star Recordings, a respeito da morte Kim Fowley).
Kim Fowley, produtor das Runaways e excêntrico personagem da cena musical de Los Angeles, morreu aos 75 anos de idade. Foi ele quem concebeu a ideia da banda feminina de punk, apresentou as integrantes umas às outras e produziu o disco epônimo de 1976, além de Queens of Noise e Waitin' for the Night. Fowley também co-escreveu o grande hit do grupo: "Cherry Bomb".
Em 2001, o jornalista e escritor Marc Spitz -da revista Spin e autor da última biografia de David Bowie- juntou-se a Brendan Mullen, ex-proprietário do Masque, templo underground de Los Angeles, para escrever um livro sobre as origens da cena punk de LA. Adotaram a mesma fórmula do famoso "Mate-me, por favor", de Legs McNeil, e entrevistaram todos os importantes personagens que colocaram a cidade no mapa do punk, hardcore e new wave. O livro "We Got the Neutron Bomb" é ótimo, mas, infelizmente, nunca foi lançado no Brasil.
Selecionei abaixo trechos de depoimentos de Kim Fowley no capítulo do livro dedicado às Runaways e que também traz, claro, as opiniões de Joan Jett, Cherrie Curie e outras pessoas ligadas ao grupo.
"A solidão de um visionário é você ser a única pessoa em dado instante do universo a perceber a magia. Eu sou uma pessoa mágica, então reconheço outras pessoas mágicas. Precisa de alguém assim para identificar outro igual".
"O mundo é dos homens, já dizia James Brown. E ele estava certo. Quando você pega mulheres para fazer coisas tradicionais masculinas, você terá controvérsia e combustão. As Runaways foram minha ideia, e eu fui atrás de encontrar as pessoas para integrar o grupo. E através de uma sequência de confusão, sorte e bom gosto, cinco garotas foram selecionadas".
"Quando eu conheci Kari Krome, ela era muito letrada e estava muito mais interessada em Jack Kerouac do que em Chuck Berry. Ela não tinha pontencial para rock star. Ela é uma garota bonita de se olhar, mas você precisa ser Steven Tyler ou Iggy Pop. Kari Krome também não era Patti Smith. Patti estava interessada nas mesmas coisas que Kari Krome, mas acontece que uma delas (Patti) era uma performer e a outra (Kari) escrevia letras para os outros interpretarem".
"Por que não poderia haver um Elvis garota, ou os Beatles femininos, ou uma Little Richard ou Bo Diddley de saias? Sempre houve a versão feminina de tudo na música, mas ninguém jamais havia recrutado cinco garotas e dito: 'Essas cinco meninas são mágicas, e se elas tocarem essas canções e tiverem certo estilo, o público vai comprar'. Foi como fazer uma seleção de elenco para um filme de cinema".
"Fui eu quem disse às Runaways o que era bom e o que era mau. Era um navio apertado e a tripulação se rebelou. Elas eram meninas, não mulheres; elas tinham realmente a idade que nós alardeávamos. Todas tinham dezesseis anos, estavam no colegial... Houve episódios internos de histeria adolescente, do tipo: 'Você usou tal peça de roupa da mesma cor que eu, e vou brigar por isso agora'. Ou então era: 'Não fale com o meu namorado ou vou furar seus olhos, vadia'".
"Eu já tinha visto Darby Crash e Pat Smear [dos Germs] antes. Eles eram groupies masculinos à espreita das Runaways. Eram mais como irmãozinhos, mas havia alguma atitude de groupie por trás da postura deles".
Penetrar na mente de artistas que criaram obras complexas e originais sempre foi o desejo de jornalistas culturais, fãs e outros criadores. É como se ouvir o autor falar de seu trabalho nos desse acesso a uma chave para entender todo o processo criativo e um pouco mais.
Já tive esse tipo de curiosidade sobre gente tão diferente quanto Frank Zappa e David Lynch. Nesses casos específicos, tive sorte. Há livros e entrevistas de sobra a respeito dessas figuras.
Mas e quando o interesse recai sobre um artista bem menos popular? Posso dizer que no caso de Dave Wyndorf, líder do Monster Magnet, as informações disponíveis não são lá grande coisa.
Um dos maiores cantores do rock nos últimos 30 anos, letrista singular e compositor de finíssima estirpe, Wyndorf não é exatamente um astro. Ao contrário, seu talento gigantesco se esconde hoje no circuito underground que restou para o ainda poderoso Magnet.
Em 2004, tentei, eu mesmo, entrevistar Dave e arrancar dele algumas revelações sobre suas letras indecifráveis que juntam Stonehenge com Vietnã, bruxaria com alienígenas, e a sonoridade que transita entre space rock lisérgico, baladas viajandonas e hard rock mundano. Consegui apenas uma entrevista com seu braço direito, o talentoso guitarrista Ed Mundell.
A névoa de mistério sobre o xamã espacial continuava.
Ouvi coisas engraçadas sobre Wyndorf e que jamais comprovei. Um amigo, que é colecionador compulsivo e fã de stoner rock, me disse certa vez que Dave tinha fundado uma religião. Achei a história incrível, mas, varrendo a internet, não encontrei uma linha a respeito. Folclore, claro, mas bem que podia ser verdade.
Há alguns dias, ouvi, enfim, uma boa entrevista com Dave Wyndorf. Aconteceu faz pouco mais de dois meses e foi concedida a ninguém menos que Tom Scharpling, o produtor da popular série de TV "Monk".
Wyndorf conta histórias curiosas, algumas até bem engraçadas, mas revela-se um cara mais comum que se poderia supor. Por trás da fachada de deus do stoner rock, esconde-se um fã de música que descobriu Hawkwind e Stooges no início dos anos 70 e alimentou sua imaginação com pilhas de gibis de super-heróis. Aos 56 anos, continua um fanático por rock e quadrinhos; algo reminiscente aos personagens dos filmes de Kevin Smith, não por acaso também moradores de New Jersey.
Dave mora na mesma casa em que nasceu e, hoje, está longe de ostentar aquele visual que misturava a fuça de um bandido mexicano com o shape de Iggy Pop. Era o rock'n'roller por excelência. Passados alguns anos de uma overdose quase fatal, Dave parou com as drogas, mas ganhou um peso que não condiz com o personagem.
Assim, o criador é desconstruído, sai de sua névoa de mistério, mas revela-se, por outro lado, um artista ainda mais incrível. David Albert Wyndorf fundou o Monster Magnet e criou junto o Dave Wyndorf que nós queríamos que existisse.
Ele desmistifica, por exemplo, a ideia de que a obra do Magnet tenha sido escrita à base de drogas alucinógenas. Diz que apenas juntou tudo que gostava num único projeto musical: ficção científica barata, pré-punk, biker movies, gibis, space rock e psicodelia.
Sua prosa desenrolada, com a voz grave e um tanto rouca, é boa de ouvir. Ele relembra, às gargalhadas, um encontro bizarro com Gene Simmons no CBGB's em meados dos 70's. Conta que sua primeira banda, Shrapnel, empresariada por Legs McNeil, futuro autor de "Mate-me por favor", chegou a tocar numa festa na casa do escritor Norman Mailer e que Woody Allen estava entre os presentes.
Dave lembra também da tímida pressão da gravadora por melhores vendagens e de ter respondido: "Hey, meu trabalho é compor e gravar, vocês é que têm que vender. Querem o quê, que eu enfie mulher pelada e dinheiro na capa dos discos?". Parou, pensou e viu que, na brincadeira, tinha sacado uma ótima ideia.
Nascia "Powertrip", classicaço de 1998 e único álbum do Magnet a ganhar um disco de ouro.
Longa vida a Dave Wyndorf.
Clipe de "Medicine", pedrada do primeiro disco do Monster Magnet, de 1992. Atemporal.
"The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é um desses raros álbuns que teriam tornado o artista uma lenda mesmo que não tivesse feito nada antes ou depois. (…) Se toda a carreira de Bowie nos anos 60 e comecinho dos 70 não tivesse existido, e se ele fosse atropelado por um ônibus de dois andares na primavera de 1972, ainda estaríamos falando sobre ele. (…) Essa é a magnitude de Ziggy, o disco".
O parágrafo acima é um dos melhores nas mais de 400 páginas que compõem "Bowie", recente biografia de David Bowie escrita pelo jornalista Marc Spitz.
Há uns 10 anos li outro livro de Spitz, também muito bom, chamado "We Got the Neutron Bomb", cuja fórmula repete exatamente aquela do badalado "Mate-me, por favor": depoimentos de gente da fauna musical remontando um momento histórico. No caso, o punk de Los Angeles.
Em "Bowie", Spitz vai além do trabalho de repórter e editor, e conta a história de David Bowie à sua maneira. O jornalista fez um minucioso trabalho de pesquisa. Visitou a casa onde Bowie nasceu, conheceu os bares e clubes que ele frequentava, entrevistou muita gente e leu-assistiu-ouviu muito do que seria a fonte de inspiração do artista. De antigos seriados e programas de TV até bandas obscuras dos anos 60.
O formato segue a cronologia clássica, mas com muitos insights e observações em primeira pessoa. O autor garante, logo no prefácio, que o desafio de fazer o livro foi equilibrar o jornalista e o fã assumido. Talvez por isso, Spitz tenha escolhido imprimir um estilo pessoal para contar a vida de outra pessoa. Não é como se o autor fosse um narrador neutro. Ele próprio faz o papel de um observador que, vez ou outra, ilustra como foi afetado pessoalmente pela música de Bowie.
Os highlights na carreira do biografado são mais que conhecidos. Mas "Bowie", o livro, tem farto material para devoradores de cultura pop e que começa ainda na infância do menino David Jones.
Como outros artistas de sua geração, Bowie cresceu numa modesta família de classe média baixa. Sua infância foi passada no ambiente do pós-guerra europeu e, até por viver com adultos ainda assombrados pelo passado recente do nazismo, teve o imaginário capturado pela efervescência e prosperidade que reinavam do outro lado do oceano.
Na pré-adolescência, testemunhou e se apaixonou pela primeira geração do rock'n'roll. Ganhou uma guitarra do pai -um ex-empresário cultural falido- e, mais tarde, tornou-se aluno de Owen Frampton, pai do aspirante a guitarrista Peter Frampton.
Virou mod, hippie, rockeiro psicodélico e adepto da folk music. Bowie era uma esponja e muito do que ele ouviu e das pessoas com quem se relacionou, foi parar em sua biblioteca mental para ser, a seu tempo, reprocessado de forma singular.
E não pense que foi fácil: David integrou várias bandas mal sucedidas nos anos 60. Seu amigo, contemporâneo e rival criativo Marc Bolan atingiu o sucesso muito antes, fomentou a onda de idolatria batizada de T. Rextasy e depois virou poeira perto do sucesso colossal de Bowie. Quando morreu, num acidente de carro, sua obra já estava congelada no tempo.
Bowie fez o contrário. Se meteu com o povo do teatro, da mímica e das artes plásticas. Foi influenciado por muita gente, como Dylan, Iggy Pop e Velvet Underground, mas influenciou não apenas o triplo de artistas como, pelo menos, três gerações inteiras de fãs. Tornou-se um ícone cultural da década de 70 e relevante até os anos 00.
Algumas passagens do livro são imperdíveis, como a "fase Los Angeles", pós-Ziggy, em que Bowie, um então cocainômano incontrolável, foi morar na casa de Glenn Hughes, na ocasião baixista do Deep Purple. O criador de "Space Oddity" e "Starman" estava, na época, com a cabeça literalmente nas estrelas. Fruto de uma família com diversos casos de esquizofrenia -incluindo seu meio-irmão, Terry Jones, que foi consumido pela doença-, David desembestou a falar sobre extraterrestres, OVNIs, magia negra e magia branca. Nessa fase, ficava 72 horas sem dormir e recomeçava, do mesmo ponto, conversas que havia tido dias antes.
Quando desmantelou a banda de apoio Spiders from Mars e aposentou o herói glitter Ziggy Stardust, deixou órfã toda uma legião de fãs. Cherry Currie, cantora das Runaways, viu um show de Bowie na turnê "Philly Dogs", em que reinterpretava o material do disco Diamond Dogs com a pegada do soul da Filadélfia. Quando viu o ex-alien andrógino metido num, como diz o autor, "terno de michê porto-riquenho", ficou horrorizada.
Interessantíssima também a descrição do período que levou à criação de Ziggy e ao sucesso de Alladin Sane, em que Bowie era empresariado pelo astuto advogado Tony Defries, fundador da produtora MainMan. A agência empresariava gente como Lou Reed, Iggy Pop e alguns maluquetes egressos da trupe de Andy Warhol. Bowie era o centro de tudo e sua influência pode ser medida por ter, inclusive, mixado o clássico Raw Power, dos Stooges.
A leitura faz com que os anos 70 se passem em frente aos nossos olhos. Sem ter estado lá, dá para criar conexões imaginárias entre o modus operandi da MainMan e da produtora de cinema independente BBS -do trio Bert Schneider, Bob Rafelson e Steve Blauner- que lançou alguns filmes, como o emblemático Easy Rider - Sem Destino, que definiram aquele mesmo período e implodiram a antiga Hollywood. A cultura popular estava em ebulição.
Mas há muito mais para ler e se impressionar. A vida de Bowie em Berlim, quando aliou-se ao cerebral produtor Brian Eno para criar a experimental "Trilogia de Berlim" -formada pelos discos Low, Heroes e Lodger- que influenciou, de uma única vez, a new wave, o pós-punk e o rock industrial. Ou então o sucesso arrebatador de Let's Dance e as diversas parcerias de sucesso com produtores como Tony Visconti e Nile Rodgers, e músicos do quilate de Robert Fripp, Mick Ronson, Trent Reznor e Carlos Alomar.
Bowie, em 1969, interpreta seu primeiro hit, "Space Oddity". O personagem Major Tom seria citado novamente pelo próprio Bowie em "Ashes to Ashes", de 1980, e "Hallo Spaceboy", de 95. E também pelo alemão Peter Schiling em "Major Tom (Coming Home)", de 1983, seu único sucesso.
A belíssima "Life on Mars?", do clássico álbum Hunky Dory, foi escolhida pela revista Q, em 2007, como a terceira melhor canção pop de todos os tempos.
Vi o Motörhead ao vivo em sua primeira turnê pelo Brasil no já mui distante ano de 1989. Os shows em São Paulo aconteceram no Ginásio do Ibirapuera.
À época, dada a ausência de casas de espetáculo particulares e com capacidade para abrigar um bom público, o Ginásio do Ibirapuera era bastante requisitado. Foi ali que também assisti -pela primeira e única vez- a um show do Metallica. Dois anos depois, em 1991, vi o The Cult na esteira do sucesso do disco Sonic Temple. E nunca mais voltei ao ginásio.
A verdade é que o lugar não foi projetado para shows musicais e a acústica era, para ser condescendente, bem meia-boca. Pior: na época, o público ainda era judiado pela ausência de um DJ minimamente preparado para esquentar o clima.
No show do Motörhead, a plateia teve de ouvir o álbum Back in Black, do AC/DC, na íntegra. Seria ótimo, se o disco não tivesse sido tocado pelo menos umas sete vezes seguidas. Ninguém aguentava mais.
As bandas de abertura, Viper e Vodu, representavam um tipo de heavy metal paulista feito na época. Eu não gostava de nenhum dos dois grupos, mas estava lá para ver Lemmy, naquele tempo já com 44 anos de idade - e todos se espantavam que ele ainda estivesse na ativa...
Achei uma resenha minha da época. Foi publicada em um fanzine carioca muito bem produzido, com capa em papel couché e tudo, chamado Revenge. Era o texto de um garoto de 17 para 18 anos, e ainda embasbacado com as descobertas do rock.
Não preciso recorrer à velha crítica de show para me lembrar que o Motörhead abriu a noite com "Dr. Rock", do ainda recente álbum Orgasmatron, gravado apenas 3 anos antes. O resto foi basicamente um desfile de pérolas da clássica formação Lemmy-Eddie-Taylor (e sim, o Animal tinha retornado e era o baterista naquela época). Abaixo, o set-list do show de 11 de março de 1989:
Doctor Rock
Stay Clean
Traitor
Metropolis
Dogs
I'm So Bad (Baby I Don't Care)
Stone Deaf in the U.S.A.
Built for Speed
Just 'Cos You Got the Power
Eat the Rich
Orgasmatron
Killed by Death
Ace of Spades
Paguei ingresso para ver o show da arquibancada do ginásio, mas, convencido pela porralouquice dos amigos, fui pulando grades e mais grades até chegar na pista. A sensação de, ao mesmo tempo, burlar a lei e ver o show de perto, no meio do tipo de moshpit insano que acontecia na década de 80, foi incrível.
A noite seguinte foi uma zona. Não estive lá, mas ouvi relatos de quem esteve. Deu pau geral no sistema de som e o show foi interrompido após duas músicas. O público ficou furioso e Walcir Chalas, da Woodstock Discos, foi ao microfone acalmar a turba e avisar que a apresentação continuaria em outra data e local. O evento foi transferido para o já extinto Projeto SP, no bairro de Santa Cecília, lugar que acolheu shows de artistas como Iggy Pop e Stray Cats naquela mesma década.
O Motörhead andava em plena forma em 1989 e certamente quebrou tudo também no show (quase) extra. Mas o amadorismo das turnês internacionais, em comparação com a infraestrutura de hoje, era notável.
Fiquei quase 20 anos sem ver o Motörhead ao vivo. Quando esbarrei acidentalmente em Lemmy, nos EUA, contei pra ele só a parte boa -que estava lá em 1989- e tomei uma bronca: "Por que você não foi aos outros shows que fizemos lá depois?". Respondi que tinha estado em todos, mas que o primeiro é sempre especial. Lemmy foi gentil e concordou: "Eu entendo o que você quer dizer". Mas a verdade é que nunca mais tinha visto a banda ao vivo e, em minha memória afetiva, tudo que podia lembrar era da multidão no Ibirapuera e as explosões pirotécnicas seguidas de "Dr. Rock".
Revi o Motörhead apenas em 2007. Depois em 2009. E mais uma vez no sábado passado, dia 16/04/2011. Os set-lists não são mais surpresa -embora o deste ano até tenha sido, ainda que não necessariamente uma boa supresa- e a presença de palco é quase holográfica. Lemmy é uma lenda viva e sua presença tem algo de irreal.
Talvez seja a (minha) idade, mas o volume absurdo que a banda impõe a seus shows não me impressiona. Ao contrário, contribui para uma leve fadiga auditiva.
Não acho justo, por outro lado, esperar algo mais de Lemmy e companhia. Eles são o que são e, só o fato de estarem na ativa, em 2011, gravando e excursionando, é motivo de satisfação. Até alguns discos recentes -confesso que tenho ouvido poucos- são bem palatáveis. Inferno, de 2002, tem um punhado de faixas legais.
Mais do que isso: Lemmy está quase na moda. Estrelou comercial de cerveja, é o astro do clipe novo do Foo Fighters, o documentário sobre sua vida acabou de estrear e o Motörhead vai até tocar no Rock in Rio. Não é pouco.
Mas na minha imaginação, gostaria de ver o Motörhead tocar um disco como Ace of Spades ou Another Perfect Day na íntegra, este último de preferência com Brian Robertson na guitarra e Animal Taylor na bateria. Seria revigorante e nostálgico ao mesmo tempo.
Mas você sabe, se o Motörhead voltar em 2013, e deve voltar, estarei por lá. Todos estaremos. Como aquele filme que já assistimos 20 vezes, mas que não conseguimos largar quando passa em algum canal de TV.
Em tempo: assinei uma resenha completa do show e que deve estar publicada em algum lugar do Portal Rock Press. Procure por lá.
No meu show imaginário, Lemmy chamaria de volta Brian "Robbo" Robertson e Phil "Animal" Taylor para tocar Another Perfect Day na íntegra.
E o seu show imaginário do Motörhead, como seria?
Em 2001, me encontrei acidentalmente com Lemmy num local bastante apropriado: um cassino em Las Vegas.
O eterno líder do Motörhead estava vestido exatamente como já vimos em milhares de fotos e vídeos ao longo dos anos: camisa preta, jeans surrados e a velha bota de couro de cobra.
Embora tenha como mandamento quase sagrado respeitar a privacidade alheia, abri uma exceção e interpelei Lemmy para um prosa de uns 3 minutos. Contei que havia estado no primeiro show que o Motörhead realizou no Brasil, em 1989, e que lembrava o set-list de cabeça.
Lemmy achou graça, mas devolveu com um cruzado no queixo: "E nos outros shows que fizemos por lá depois, você não foi por quê?". Me esquivei do golpe. Disse que tinha ido a todos eles -mentira, claro- mas que o primeiro a gente não esquece. Lemmy assentiu: "Nisso você tem razão".
Foi a única vez que vi Lemmy fora do palco e me pareceu exatamente o tipo de cara que você imagina que ele seja. Boa praça, meio rabugento e absolutamente autêntico.
Aparentemente, essa é a opinião de grande parte do público masculino que tem entre 35 e 49 anos. Pelo menos é o que afirmam os espertos publicitários da geração X.
Depois de usarem "Should I Stay or Should I Go", do Clash, em um comercial de TV, de plagiarem o logo e a capa de uma compilação do Minor Threat para o lançamento de um tênis e de transformarem Iggy Pop e John Lydon em garotos propaganda, agora é a vez de modificarem "Ace of Spades" com a permissão de seu autor.
Explica-se: a canção mais famosa do Motörhead, em versão alternativa, virou tema da campanha "Slow Down the Pace" -algo como "Diminua o ritmo"- para a cerveja Kronenbourg 1664.
O objetivo da marca é fazer com que pessoas como eu, e talvez como você, caro leitor, acreditem que se o Lemmy pode largar a vida de excessos e se contentar com uma cervejinha, porque nós, simples mortais, não podemos?
De acordo com o diretor de criação da agência responsável, o mais difícil não foi convencer Lemmy a participar do comercial - o notório apreciador de Jack Daniels com Coca-Cola já apareceu em propagandas de salgadinhos e chocolate antes.
O complicado, nas palavras do publicitário, foi lidar com a montanha de russa de humor de Lemmy durante a nova gravação de "Ace of Spades".
Como se sabe, o Motörhead jamais havia regravado seu maior clássico em estúdio e seu autor, pelo que consta, sempre protegeu a aura de clássico da canção.
Mas, no fim, a Kronenbourg 1664 ganhou uma versão blues de "Ace of Spades" para mostrar que até um bad motherfucker como Lemmy pode, por uma quantia substancial, "diminuir o ritmo".
Jello Biafra, que me confidenciou em entrevista ter passado mal fisicamente com o uso de "Search & Destroy", dos Stooges, em uma propaganda da Nike, com certeza não aprovaria.
Mas o carisma de Lemmy parece capaz de nos fazer achar o comercial da Kronenbourg a coisa mais cool do mundo.
Assista abaixo e me diga se não é legal...
No início de 2006, Dave Wyndorf tomou uma overdose de comprimidos e quase morreu.
Todos os compromissos de sua banda foram cancelados e chegou-se a duvidar que, aos 50 anos de idade, ele teria a energia necessária para retomar a carreira.
É como se a obra do Monster Magnet, grupo fundado por Wyndorf no final dos anos 80, dependesse diretamente dos excessos de seu criador. Arauto da cena stoner rock, o grupo de New Jersey sintetiza musicalmente o que qualquer psicotrópico faria com seu cérebro.
Delírios interplanetários, xamanismo, serpentes, ácido, pornografia. Imagine tratar de tudo isso ao mesmo tempo com a devida dose de loucura sob uma base sonora com um pé no space rock, outro no proto-punk e as antenas no hard rock dos 70's.
Manter a chama de uma discografia então formada por irretocáveis 6 álbuns de estúdio parecia trabalho demais para quem perdera o combustível alucinógeno.
Mas um ano depois da experiência quase fatal de seu mentor, o Monster Magnet lançou um colosso chamado 4-Way Diablo.
Os mais exigentes fizeram ressalvas de toda espécie. Desde as convencionais ("Eles nunca vão fazer outro Powertrip"), até as mais venenosas ("O álbum foi concebido antes da overdose e com canções escritas em vários momentos do tempo").
Wyndorf reapareceu transfigurado para a turnê de promoção do disco. De um "sleazy motherfucker" à la Iggy Pop, Dave virou uma espécie de Tad - aquele rockeiro balofo de Seattle. O definitivo rock star estava gordo e livre dos vícios.
Mas o tempo está ao lado deste xamã pós-moderno: nesta semana foi lançado o oitavo e novíssimo álbum de estúdio do Monster Magnet, Mastermind.
Intenso, viajante, coisa de louco.
Tudo que Wyndorf canta soa muito bem. Suas letras são únicas, o trabalho de guitarra do velho comparsa Ed Mundell é de outro planeta e cada composição é uma pequena gema de um rock'n'roll escrito à base de algum manual perdido dos 70's.
É a banda mais bacana em atividade. Neste e em qualquer planeta.
Stonehenge é aqui.
____
Assista abaixo ao primeiro clipe extraído de Mastermind.