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Aconteceu no último domingo, em Los Angeles, a 88ª edição do Oscar. Uma audiência de alardeados 900 milhões de telespectadores aguentou as torturantes quatro horas e meia do evento para assistir aos discursos xaroposos de sempre e todas as piadinhas sem graça que vimos em edições anteriores.

A surpresa da vez, para os aficionados por música, mais especificamente punk rock, foi o Oscar para Melhor Edição de Som. Ganharam Mark Mangini e David White. O primeiro é um sujeito com 40 anos de experiência no cinema e que chegava à sua quarta indicação na categoria. O segundo, menos conhecido, é um designer de som cujos créditos computam 27 produções, entre curtas, longas e documentários.

O que poucos sabem é que havia no departamento som de "Mad Max: Estrada da Fúria", que também levou a estatueta de Melhor Mixagem de Som, uma certa engenheira de áudio chamada Kira Roessler.


Formada pela UCLA na década de 80, Roessler trabalhou como editora de diálogos em filmes como "Confissões de uma Mente Perigosa",  "Crepúsculo: Lua Nova" e muitos outros. E já arrebatou um prêmio Emmy por seu trabalho na minissérie de TV "John Adams". Antes de tudo, no entanto, ela ficou conhecida de punks e fãs de música underground como Kira, a baixista do seminal Black Flag.

Ainda sobre seu trabalho no cinema, ela explica, em entrevista ao zineiro Mark Prindler, em 2003: "Eu trabalho mais com edição de diálogo, algo que as pessoas não costumam entender o que é. Sabe quando eles não gravam [uma cena] com som direto, e juntam tudo no processo de edição? Então, quando o material chega até mim, está todo bagunçado e ferrado, e é meu trabalho 'limpar' o som. Eu faço muitos consertos no áudio. Tipo, quando há um problema com uma palavra, eu posso substituí-la por uma sílaba de outro 'take' ou algo assim. Em um nível muito preciso de detalhe, eu faço o som dos diálogos soar tão bem quanto possível".

Kira Roessler integrou uma das mais importantes encarnações do Black Flag, ao lado do chefe Greg Ginn, do lendário vocalista Henry Rollins e do prolífico baterista Bill Stevenson (das bandas Descendents e ALL). Foi admitida em 1983, em lugar de Chuck Dukowski, e permaneceu com o grupo até 1985. Sobre seu ingresso na banda, ela relembra: "O relacionamento [de Greg] com Chuck era bom. Não havia conflitos de personalidade. Mas ele tinha um estilo como baixista que estava começando a ir contra o que Greg estava tocando. Então, você sabe... Eu ensaiei com eles uma vez e me disseram: 'Yeah, é isso que queremos. Precisávamos de alguém que tocasse desse jeito'. Eu só posso descrever 'esse jeito' pela forma como eles tocavam na época - é quase como se você pulasse e galopasse na frente e na frente da batida, ou que realmente ficasse por trás e por trás e por trás da batida. E meu estilo foi sempre esse de ficar atrás, e calhou de ser o que eles estavam procurando. No meu caso, por outro lado, [a saída da banda] foi mais uma questão de personalidade, de eles não quererem tocar mais comigo. Ou pelo menos foi o que soube por Chuck Dukowski quando me chutaram da banda".

No ano seguinte à demissão de Kira, o Black Flag encerraria as atividades de sua fase clássica. Os registros do grupo com a participação da baixista são numerosos. Quatro discos de estúdio -"Family Man", "Slip It In", "Loose Nut" e "In My Head"-, além de EPs, com o ótimo "Annihilate This Week".

Em seu livro "Get in the Van: On the Road with Black Flag", é perceptível que Rollins não era lá um grande amigo de Kira, embora admita que ela era talentosa e aprendeu o repertório da banda muito rapidamente. O vocalista tinha pouco em comum com a contrabaixista e eles quase não se falavam durante as longas e excruciantes turnês de furgão pelos Estados Unidos. Se reencontraram muitos anos mais tarde. "Temos uma certa camaradagem agora", Kira relembra. "Volta e meia nos falamos por email e é muito cordial e interessante. E [o reencontro] foi pura coincidência. Henry topou com meu irmão no estúdio e disse: ' Diga a Kira para me telefonar, quero que ela trabalhe em algo comigo'. Então cantei num show dele no Whisky A Go-Go e fiz backing vocals em algumas músicas, ao vivo".

Dois anos após deixar o Black Flag, Kira Roessler casou-se com Mike Watt, fundador do Minutemen e substituto de Dave Alexander na volta dos Stooges. Criou ao lado dele uma dupla muito peculiar, com dois contrabaixos, apropriadamente chamada Dos.

A baixista colaborou ainda com outros projetos de Watt, como a banda fIREHOSE, e compôs algumas faixas para o derradeiro álbum do Minutemen, "3-Way Tie".

Apesar de terem se separado em 1994, Kira e Watt admitem que continuam casados com o Dos. A dupla lançou seu último álbum -"Dos Y Dos"- há cinco anos, mas permanece ativa.





Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.

Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.

Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.


O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.

Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.

Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.

Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.


O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.

Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.

Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.

Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".

Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.

Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".


Howard Stern Show (2001)
Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998)
Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
"Como é o ódio puro? O tipo de ódio que leva a pessoa a cometer um assassinato sem sentido. Acho que você é apenas um poser com seu ódio até matar alguém. Então você cruza a linha e seu ódio se torna tangível".

Trecho da anotação do diário de Joe Cole em 15 de fevereiro de 1986, de passagem por uma cidade do Oklahoma.

Cole foi roadie na última das mitológicas turnês do Black Flag. Ficou nada menos que seis meses zanzando pela América num comboio de três vans que levavam o resto da equipe e também as bandas Gone e Painted Willie. O tipo de turnê que, provavelmente, não existe mais.

Ele tinha 25 anos de idade e há pouco tinha desistido da carreira de tenista. Fã de música, era amigo de Henry Rollins e, a convite deste, virou roadie por acaso.

Suas memórias da turnê foram anotadas num caderninho. Escrevia normalmente na van, após descarregar e montar os equipamentos.

Joe Cole tinha dificuldade de socializar, sentia-se perdido no meio dos músicos punks e seu humor era uma verdadeira montanha russa. O que mais curtia na experiência eram as longas viagens pelas estradas americanas ao som de Devo e Swans e os papos com Rollins.

Descobriu o ácido durante a turnê e teve viagens alucinantes. Algumas delas em salas de cinema, junto com a trupe punk, assistindo repetidamente ao filme "Brazil", de Terry Gilliam.

Outras vezes atrás do volante, vendo o céu cor-de-rosa e demônios de todo tipo. Numa delas, entrou numa transferência paranoica com o técnico de som Ratman -com quem mantinha clima de constante animosidade- e, alucinado, socou o para-brisa do furgão até quebrar. Dirigiram assim até a próxima cidade numa bad trip de 48 horas.


O roadie por acidente também testemunhou a truculência policial nos estados do sul e meio-oeste, onde, muito comumente, os shows do Black Flag eram interrompidos ou proibidos de acontecer.

De sujeito pacato e de poucas palavras, Cole aprendeu a expulsar punks trogloditas e skinheads do palco a pontapés. Saiu-se bem em algumas brigas e fez até um ogro a quem quebrou o nariz lhe pedir desculpas na frente de um policial.

Teve esparsas aventuras sexuais com garotas punks, sempre um combustível para melhorar seu humor e render anotações eróticas no diário.

Testemunhou seu chapa Henry Rollins esmurrar um fã obtuso e arrancar, com uma baqueta, dois olhos de uma cabeça de alce que foi atirada no palco e que viraram petisco.

Se divertiu também vendo o Black Flag tocar na mesma noite que o Venom em uma biboca de New Jersey, no que ele descreve como um espetáculo "spinaltapiano".

Foram as últimas turnês selvagens antes do hiato punk da segunda metade dos anos 80. Certamente, o fim de uma era.

Mas Cole não tinha essa percepção e vivia atormentado por seus próprios demônios. A ideia do futuro o assombrava. Sabia que não era um roadie de verdade e também não queria ser. Enxergava um lado da cena punk que achava banal e tinha consciência de ser um mero assistente na viagem particular de outros. Queria ser ele, Joe Cole, o protagonista.

Repetiu a experiência em 1987, na primeira turnê da Rollins Band. Alguns shows para 30 ou 40 pessoas. Outros realmente intensos, de uma banda que começava a nascer.

Nunca esteve tão deprimido, mas nunca transou com tantas garotas. Chegou a cogitar embarcar para a turnê europeia da Rollins Band, mas, por fim, declinou do convite. Queria voltar logo para Los Angeles e decidir o que faria da vida.

Quatro anos mais tarde, em 1991, a convite de Henry Rollins, organizou e datilografou os diários que manteve durante as duas turnês para transformá-los em livro.

Duas semanas após concluir a tarefa, foi assassinado.


O clipe de "100%" é uma homenagem do Sonic Youth a Joe Cole. Henry Rollins não gostou.
Dezembro é um mês de trágicas mortes no mundo da música. De John Lennon e Dimebag Darrell -assassinados por fãs psicopatas- a Darby Crash, do Germs, que cumpriu um pacto suicida com a namorada.

Essa também foi a época em que Phil Lynott, líder do Thin Lizzy, deu seus últimos suspiros. O vocalista morreu logo após as festas de fim ano, mais precisamente em 4 de janeiro, em decorrência de anos de consumo enlouquecido de drogas. Seus órgãos simplesmente pararam de funcionar com a quantidade de veneno ingerida ao longo da vida. Um desfecho mais sombrio e doloroso que uma overdose.

Caixa Preta se antecipa às homenagens que certamente acontecerão daqui a um ano, quando se completará a data de 25 anos de sua morte, e relembra aqui mais um ano sem o pai do rock irlandês.


Imagine você o que deve ter sido crescer filho de mãe solteira e único negro da escola, do bairro e da cidade inteira na Irlanda dos anos 50?

Agora imagine que, contra todos os prognósticos, esse alvo perfeito de bullying veio a se tornar o mais adorado rock star do país, dono de uma estátua no centro de Dublin e com sua efígie estampada em selos comemorativos dos correios.

E Lynott percorreu uma trajetória igualmente improvável na música. A versão do Thin Lizzy para a cantiga popular "Whiskey in the Jar" fez mais pela auto-estima do povo irlandês, então vivendo numa pindaíba, do que todo o progresso socio-econômico das décadas seguintes.

Um negro irlandês transformar folk em rock no ano de 1973 e ainda emplacar o Top 10 parece obra de ficção.

O documentário "Out of Ireland", exibido há alguns anos no Eurochannel e inédito em DVD, remonta a árvore genealógica do rock'n'roll na Irlanda e dedica ao Thin Lizzy e, mais especialmente a Phil Lynott, um capítulo generoso.

No filme, Bono Vox rasga elogios ao baixista/vocalista e Bob Geldof revela que Lynott vivia o personagem "astro do rock" em tempo integral. "Ia de óculos escuros e jaqueta de couro ao supermercado ao meio-dia".

Filho de um suposto e desconhecido marinheiro brasileiro, Phil é cultuado pela belíssima voz, o carisma, a inteligência e a presença de espírito de um autêntico rock star.

A carreira de Lynott com o Thin Lizzy é irremediavelmente ligada ao hard rock e heavy metal, embora interpretassem esses gêneros de maneira singular e, em seu DNA, fossem pura e simplesmente uma banda de rock'n'roll. E, vez ou outra, com o vocalista justificando sua pele e enveredando pela soul music em temas magníficos.

Difícil classificar o Lizzy, mas sua influência. essa sim, parece não ter fim. De Henry Rollins, que no livro "Get in the Van" declara-se um fã, ao suecos do Cardigans - autores de uma versão açucarada de "The Boys are Back in Town".

Em 2007, o Motörhead incluiu um cover de "Rosalie" em seu show em São Paulo. Na ocasião, Lemmy perguntou se havia fãs do Thin Lizzy na casa. Uns poucos se manifestaram. Decepcionado, disse: "Vamos lá, o cara era brasileiro".

Em 2010, o Supersuckers supreendeu ao abrir seu show em Sampa com um cover de "Are you Ready" - pedrada de um B-side do Thin Lizzy.

Mais de duas décadas de sua morte e a lenda de Phil Lynott sobrevive.