ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador Hank Williams. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hank Williams. Mostrar todas as postagens
Na semana em que completam 50 anos de carreira, daria para falar muito sobre os Rolling Stones. Inclusive, e principalmente, sobre o evento quase surreal que é manter uma banda de rock ativa por meio século.

Lembre-se: os Stones são contemporâneos dos Beatles e, seja como testemunhas ou como protagonistas, passaram por todas as metamorfoses musicais das últimas cinco décadas.

Poderia falar também sobre minhas lembranças de infância com os clipes de "Start Me Up" e "Emotional Rescue", da história bizarra de um amigo que salvou Mick Taylor de ser atropelado por um ônibus em São Paulo (sim, aconteceu!) ou defender a subestimada obra dos Stones nos anos 80. O assunto dá caldo.

Parece mais divertido, no entanto, medir a influência do songwriting de Jagger e Richards, os Glimmer Twins, na música pop. Se foram extremamente impactados pela música negra norteamericana, os ingleses devolveram a dose sendo regravados pelos principais baluartes da soul music - de Tina Turner a Marvin Gaye, de Otis Redding a Aretha Franklin.

Mas quanto mais estranhas e virulentas as regravações, melhor o resultado. Ao longo dos últimos 30 anos, o material dos Rolling Stones foi simplesmente virado do avesso.

Abaixo, uma pequena lista que resume 50 anos de carreira em 5 covers sensacionais:



Sympathy for the Devil

LAIBACH
(1990)
Dois anos antes de "coverizar" esse clássico dos Stones, a banda da antiga Iugoslávia -atual Slovenia- havia regravado integralmente o álbum "Let it Be", dos Beatles. O resultado aqui é tão incrível quanto: ritmos marciais sob uma ambientação de industrial music. O suíngue dos ingleses é transformado em gelo no Leste Europeu. De arrepiar.

Under My Thumb
MINISTRY
(2008)

O Social Distortion regravou "Under My Thumb" duas vezes em estúdio. A versão de 1996 é, provavelmente, a melhor gravação que existe dessa canção. Mas não a mais original. O velhaco Al Jourgensen misturou tecladinhos oitentistas com guitarras distorcidas e sua voz cavernosa para criar um hit que faria sucesso nas pistas de dança do inferno.


I'm Free

SOUP DRAGONS
(1990)
É a canção que fecha a versão inglesa do álbum "Out of Our Heads", de 1965. Na América, a faixa foi limada do LP, mas ganhou sobrevida em 1990, quando virou o hit solitário da banda britânica Soup Dragons. Transformada num pop dançante, com slide guitars, wah-wah, coral soul e uma incursão pelo raggamuffin. Ganhou as paradas e tocou até cansar nas rádios brasileiras. É a cara do início dos 90's.



(I Can't Get No) Satisfaction

DEVO
(1978)
Quem ouve a versão absolutamente genial do Devo para "Satisfaction" não poderia imaginar que no futuro o riif feérico de Keith Richards seria usurpado pela publicidade para vender todo tipo de porcaria. Mark Mothersbaugh, no auge, implode as convenções e transforma o clássico sessentista numa pérola da maluquice funk-new wave. Um dos melhores covers de qualquer coisa em qualquer época.



Honky Tonk Women
THE POGUES
(1988)
Canção escrita por Mick e Keef numa fazenda do Mato Grosso (!) em fins dos anos 60. Richards lembra que quando dava descarga no banheiro do lugar, dezenas de sapos pretos subiam boiando na água... O ambiente influenciou para que a música soasse como um country à la Hank Williams, mas mudou com os arranjos do recém-chegado Mick Taylor. A versão do Pogues, por sua vez, traz uma mistura do que eles sempre fizeram de melhor: irish folk com pegada punk. Na versão de estúdio, quem canta é o guitarrista Spider Stacy. Já naquela época, o lendário Shane MacGowan estava em condições lamentáveis para gravar.


A reação ao novo disco do Social Distortion, "Hard Times & Nursery Rhymes", lançado no mês passado, coloca, pela primeira vez, os fãs da banda de Orange County em cantos diferentes do ringue.

O álbum -lançado pela Epitaph, do midas Brett Gurewitz- está levando o Social D a novos patamares de popularidade. "Hard Times & Nursery Rhymes" estreou em um inédito 4º lugar da Billboard -segundo informações obtidas no site SXDX- e teve mais de 100.000 cópias vendidas nos EUA nas primeiras duas semanas. Nada mal para uma banda com 30 anos de carreira.

Mas ouvindo opiniões de amigos e acompanhando as discussões em fóruns pela internet, não é difícil perceber que existe, sim, uma minoria bastante desapontada com o caminho escolhido pelo grupo para seu sétimo álbum de estúdio.

A queixa é simples: "Hard Times & Nursery Rhymes" não é pesado o suficiente ou tampouco tem aquele clima de "faca nos dentes" que Mike Ness sabe tão bem empregar em suas interpretações. Além disso, o disco tem backing vocals femininos, algo meio gospel até, e um piano que insiste em se enfiar onde não é chamado. A quantidade de baladas também é maior que a de seu predecessor, "Sex, Love and Rock'n'Roll", embora o lado baladeiro de Ness tenha surgido ainda nos anos 80, com o disco "Prison Bound".

A maioria que defende o novo álbum fica entre a devoção pura e a sensação de que Mike Ness amadureceu como compositor a ponto de arriscar-se em novos territórios enquanto mantém algumas das marcas registradas do Social Distortion.

Todos têm um pouco de razão.

Em certa medida, "Hard Times & Nursery Rhymes" promete mais do que entrega. A primeira música de trabalho, "Machine Gun Blues", é Social D em sua essência. Mas a audição do álbum, na íntegra e com o devido cuidado, revela a opção por uma produção limpa e com alguma orientação radiofônica, além de uma escolha de arranjo e repertório que tira o fã de sua zona de conforto.


Abaixo, Caixa Preta disseca o disco:

"Road Zombie" é uma instrumental envenenada que vem sendo tocada ao vivo já há algum tempo e abre os trabalhos dando as pistas erradas. Lá pela metade do álbum, ficará evidente que a introdução destoa completamente do repertório.

"California (Hustle and Flow)" traz um riff de guitarra reto, reminescente de um AC/DC, o que não é ruim, claro, mas bem diferente. E por diferente, ainda, temos cantoras fazendo os vocais de apoio no refrão. Parece um cruzamento mais "radio friendly" de "Highway 101", do trabalho anterior, com alguma coisa de Black Crowes. A música, no entanto, é melhor que a descrição faz crer.

"Gimme the Sweet and Lowdown" pode tornar-se um dos carros-chefe do disco. Recupera o som do Social D de 15 anos atrás, com a mesma marcação de bateria e tudo, mas, claro, sem a angústia daquela época. A música de Mike Ness reflete sua vida e, já há algum tempo, o junkie deu lugar a um pai de família e músico bem sucedido. Ness parece feliz e sua honestidade como compositor não lhe permite voltar ao fundo do poço com a verdade de anos atrás.

"Diamond in the Rough", a quarta faixa do álbum, brilha com arranjos de guitarra bluesy e aquele clima de "Sometimes I Do", do clássico "Somewhere Between and Hell", de 1992. Assim como em "Sex, Love & Rock'n'Roll", há muito esmero nos back-up vocals. A canção é um dos destaques do álbum.

"Machine Gun Blues" é puro Social D, talvez apenas um pouco suavizado pela produção. Apesar do ceticismo, o disco se segura muito bem até aqui. "Machine Gun Blues" tem um pegajoso riff de guitarra e letra que exalta a cultura gangster da década de 30, tema recorrente, como, de resto, são os versos de outras canções do álbum que repetem clichês como "junkies, winos, pimps and whores", citações ao casal de foras-da-lei Bonnie e Clyde, pin-ups, carrões e tatuagens.

"Bakersfield" foi muitíssimo elogiada pela crítica. Em qualquer resenha que se leia, é tratada como uma peça de blues profunda e de alta intensidade emocional. Mesmo que sua introdução, Deus me perdoe, lembre alguma balada de Lenny Kravitz saída do álbum "5". Um Hammond bem colocado e, mais uma vez, backings bem arranjados, levam a música a um nível de composição que os defensores do disco chamam de "maduro". E, honestamente, até seus 4:30, não soa tão diferente de outros temas confessionais do vocalista. Mas, aí, um desnecessário monólogo esbarra na auto-indulgência do Ness produtor. Material como esse poderia ter sido guardado para um terceiro álbum solo de Mike.

"Far Side of Nowhere" é outra canção ensolarada e com o dedo visível de Johnny Wickersham. É o Social D na auto-estrada, de capota baixa e de bem com a vida. Já diz o refrão: "Put the pedal to the metal / Baby, turn the radio on". Quer pessimismo e amargura? Volte a 1996 ou salte para a próxima canção.

"Alone and Forsaken", original de Hank Williams, foi lançada como um lado B nos anos 90. Aqui, Ness dá novo tratamento a esse tema de um seus cantores country prediletos. Dá para imaginar que será uma requisição do repertório ao vivo da turnê.

"Writing on the Wall" é uma balada fora de hora e que complica as coisas pela primeira vez. Sem o arranjo açucarado e o desnecessário piano, passaria sem sustos.

"Can't Take it With You", por outro lado, soa como uma versão refrescante de algum material gravado em 1990 e no qual as cantoras de apoio só acrescentam. Tem o mesmo pianinho, suposto vilão de outras canções, mas aqui a serviço de um rock'n'roll suculento. Social D em grande forma.

"Still Alive" tem ecos de "Far Behind", faixa gravada em 2007 como bônus para o CD de "Greatest Hits". Versão mais melódica e emotiva da fórmula que a banda consagrou, porém com um escorregão no final e um piano que, de alguma forma, diz muito sobre o disco.

====

A versão em vinil de "Hard Times & Nursery Rhymes" traz duas canções adicionais. Um amigo do Caixa Preta fez a gentileza de ripar as faixas de seu LP e nos mandar em gloriosos arquivos MP3.

Vamos a elas:

"Take Care of Yourself", com seu charme meio anos 80, seria, fácil, um dos destaques da versão normal do disco. Bela linha de voz e um riff de guitarra"catchy". Difícil entender como ficou de fora do tracklist do álbum.

"I Won't Run no More" repete a dose de "Take Care of Yourself". Mais uma canção que vai direto ao ponto com a fluidez criativa que Ness esbanja quando joga em seu território. Poderia ser essa a orientação musical do disco? Ouça e tire a dúvida.


Social D toca no popular programa de entrevistas de Conan O'Brien em 18.01.2011.