Repercutiu hoje na Internet, de blogs a canais como o Noisey, da Vice, a agressão sofrida por uma fã durante show do conjunto pop-punk The Story So Far.
Aconteceu em Toronto, no Canadá, e o vídeo não é bonito de se ver (link no final do post). Em um rompante de imbecilidade e auto-indulgência, o vocalista Parker Cannon desferiu uma voadora nas costas de uma jovem que, sem qualquer noção de espaço, preparava-se para tirar uma 'selfie' sobre o palco. A solução do cantor, no entanto, extrapolou os limites do razoável e funcionou como uma estúpida demonstração de misoginia.
Impossível não lembrar como Ian MacKaye, cofundador do Minor Threat e artífice da cena straight edge, se comportava diante de inconvenientes durante os shows. Nas quatro ocasiões em que vi o Fugazi ao vivo, entre 1994 e 97, MacKaye interrompeu a apresentação em algum momento para encerrar a baderna de fãs em cima do palco. Dava um caprichado sermão e a banda logo emendava a canção de alerta "The Long Division".
Até hoje, não posso ouvir essa faixa do álbum "Steady Diet of Nothing", de 1991, e logo me recordo dessas ocorrências e da forma dura, mas educada, com que MacKaye resolvia suas questões. O palco para ele era sagrado e até mesmo o 'slam dancing', versão mais agressiva da roda de pogo, era censurado pelo grupo. O punk de Washington, DC não queria que prejudicassem o andamento dos shows e, muito menos, que ameaçassem a integridade física dos fãs mais pacatos.
Mas nem todo mundo é Ian MacKaye. E muitos têm seus momentos de Parker Cannon. Seria destempero? Comportamento irascível? Ou apenas um vacilo numa noite ruim?
Abaixo, três casos de punks norteamericanos que bateram em fãs diante da plateia. E só um deles tinha licença para isso.
>> BEN WEASEL (Screeching Weasel)
O líder da cultuada banda de Chicago não se satisfez em atacar apenas uma mulher durante show ocorrido no festival SXSW, em 2011 - bateu logo em duas! A primeira agressão teria ocorrido após uma integrante da plateia ter, repetidamente, espirrado um tipo de líquido no vocalista. A segunda, depois que outra mulher tentou intervir. A polêmica ganhou destaque na Spin e na Rolling Stone, e Ben "Weasel" Foster se explicou:
"Quero pedir desculpas ao dono do clube e à integrante do público (...). Ainda que suas ações estivessem forado meu controle, a reação lamentável é minha total responsabilidade.Quaisquer que sejamminhas opiniões sobre fãs que ultrapassam os limites, eugostaria de poder voltar atrás e lidar com aquilo da mesma forma com que fiz nos primeiros 60 minutos de show. Como não posso, um pedido de desculpas é tudo o que tenho e espero sinceramente que essas pessoas o aceitem (...). Como marido, pai e músico profissional, entendo que é meu dever assumir a responsabilidade de forma socialmente aceitável, e mais especialmente em face do confronto".
>> FAT MIKE (NOFX)
Durante um show realizado em Sidney, na Austrália, em 2014, o
guitarrista e vocalista da famosa banda californiana NOFX perdeu a
compostura. Fat Mike empurrou um fã identificado como Alexander Medak e
desferiu um pontapé em seu rosto.
No dia seguinte,
através do Twitter, Medak enviou uma mensagem para o músico juntamente
com uma foto de seu lábio inchado. "Obrigado pelo nocaute, Mike. Não
doeu muito. E desculpe por ter te assustado, mas os shows são um pouco
diferentes por aqui".
Fat Mike respondeu: "Me desculpe
também, Alex. Eu estava com uma dor terrível [no pescoço] durante toda a
noite. Quando você me agarrou, eu reagi defensivamente... e
ofensivamente. Se você for ao show na sexta-feira, te pago uma cerveja.
Só não a jogue em mim".
>> GG ALLIN (GG Allin & The Murder Junkies)
Para o maior terrorista do rock'n'roll, bater em membros da
plateia era o mínimo que podia acontecer durante os shows. O público que
o acompanhava praticamente pedia por isso. Muitas
vezes, Allin arrebentava a fuça de seus fãs. Em outras ocasiões, era espancando e terminava a noite sem dentes e com o braço
engessado.
GG Allin, nascido Jesus Christ Allin, passou
boa parte dos anos 80 e o comecinho dos 90 metido em confusões. Foi
preso, violou a condicional, ficou amigo do serial killer John Wayne
Gacy, o famoso "Palhaço Assassino", e terminou expulso de várias cidades
e casas de shows. Bateu em fãs de ambos os sexos, sem preconceito,
inclusive durante suas palestras niilistas.
O nativo de
New Hampshire, que morreu de overdose em 1993, aos 36 anos, nunca pediu
desculpas a ninguém. No entanto, uma de suas frases mais famosas pode
servir de explicação:
"Minha mente é uma metralhadora, meu corpo são as balas e o público é o alvo".
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Park Cannon age como cafajeste em Toronto:
Ben Weasel apela para a baixaria em Austin:
Fat Mike perde o juízo em Sidney:
GG Allin desce a porrada em todas as cidades
(Material NÃO recomendado para leitores mais sensíveis).
Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.
Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.
Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.
O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.
Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.
Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.
Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.
O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.
Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.
Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.
Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".
Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.
Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".
Howard Stern Show (2001) Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.
Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998) Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.
Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).
Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora?
Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário.
A eles.
Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.
The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.
Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.
Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.
Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.
ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.
Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.
Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.
Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.
Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
O Motörhead toca amanhã no Via Funchal. Horas depois, em plena madrugada, o Misfits se apresenta no centro de São Paulo pela Virada Cultural. O mitológico Skatalites também está no Brasil. E, no domingo, tem show do D.R.I, banda que ajudou a arquitetar o gênero crossover.
Em meio a tudo isso, está passando levemente despercebida a vinda do seminal Los Straitjackets ao país.
O quarteto de Nashville também está escalado como uma das atrações da Virada Cultural e toca no próximo domingo, às 15h00, no Largo do Arouche. Show imperdível.
Los Straitjackets é citado com a mais cultuada banda de surf music em atividade, mas sua música vai além dessa convenção.
Veículo para o incrível guitarrista Eddie Angel, os Straitjackets passeam por gêneros como swing, rock'a'billy, garage e todo o espectro de som instrumental retrô. E como parece regra no revival surf, têm muito senso de humor: se apresentam sempre com bizarras máscaras de "lucha libre" mexicana. Entre as fórmulas musicais congeladas no tempo, a surf music é aquela pela qual tenho mais simpatia. As bandas que ganharam notoriedade na esteira do sucesso de "Pulp Fiction", cuja trilha sonora ressuscitou a carreira do rei Dick Dale, foram espertas o suficiente para revisitarem o estilo com irreverência e identidade próprias.
O californiano Phantom Surfers, por exemplo, adotou o visual smoking & máscara, abusando de títulos sacanas para seus discos, como: "The Exciting Sounds Of Model Road Racing" e o ótimo "Skaterhater". E, musicalmente, são bastante competentes em recriar à sua maneira, e com algum teor de escracho, o som que embalava as festinhas da Califórnia nos anos 60.
A banda tocou no popular festival B.A. Stomp, em Buenos Aires, nos anos 90, e um amigo próximo teve a incumbência de hospedar e ciceronear um dos Phantom Surfers numa rápida passagem por São Paulo. O grupo, porém, não chegou a se apresentar por aqui.
Mas um de seus contemporâneos, ao contrário, foi protagonista de shows antológicos no Brasil durante a década de 90. Man or Astro-man?, a banda space-surf do Alabama, se apresentou por aqui algumas vezes e, em São Paulo, chegou fazer dois sets num mesmo dia, tal a demanda de público.
Vi duas apresentações do Man or Astro-Man?, ambas absolutamente incendiárias. A primeira, memorável, na casa de shows Broadway (atual Eazy) e a segunda, no Sesc Pompéia, quando tocaram ao lado do também americano Trans-Am que, literalmente, quebrou tudo.
O Man or Astro-Man? é como um filho bastardo de Dick Dale com Mark Mothersbaugh, do Devo. Tocam uma surf music envenenada, com um repertório quase que integralmente instrumental, e uma viagem retrô-espacial com direito a trajes de astroanauta e projeções de vídeos que parecem saídos de algum arquivo da NASA dos anos 60.
O último disco do Man or Astro-Man?,"A spectrum of Infinite scale", expandiu sua música para uma fronteira mais experimental, com direito à uma faixa com título em português: "Um espectro sem escala".
Mas nada como ter testemunhado o rei da surf guitar ao vivo e a cores. Em 1996, Dick Dale, que então excursionava pelo mundo com uma carreira revigorada pelo uso da bombástica "Misirlou", de 1962, na abertura de "Pulp Fiction", esteve no Brasil para uma série de shows.
Tocou no hoje extinto Olympia, na mesma noite em que o Fugazi atordoava o público com um set radical na Broadway. O conflito de datas foi contornado. Assisti ao Fugazi e, dias depois, me mandei para Santos ver Dick Dale tocar numa discoteca chamada Twister.
À época com um power-trio turbinado, Dale, um dos revolucionários da guitarra elétrica, triturou sua Fender diante de 300 afortunados. Assisti ao show a um metro do palco e vi as palhetas literalmente virarem pó com a famosa palhetada de Dale que faz Scott Ian e James Hetfield parecerem guitarristas de alguma bandinha de igreja.
No próximo domingo, há outra oportunidade imperdível de assistir a um impactante set de surf music. Não espero nada menos que uma performance demolidora dos Straitjackets.
Se eu fosse você, não perderia por nada.
Acima, Los Straitjackets no vídeo da sensacional "Tempest".
E aqui, o clipe de "Nitro", uma pequena amostra do poder de Dick Dale quando retomava sua carreira nos anos 90.
Em pouco mais de 20 anos de jornalismo musical diletante, entrevistei alguns personagens importantes na história do punk americano.
Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), Jerry Only (Misfits), Mike Muir (Suicidal Tendencies), Shawn Stern (Youth Brigade), entre outros.
Faltava um dos maiores.
Na sexta-feira passada, dia 29, falei com Jello Biafra por telefone. A conversa durou cerca de 35 minutos e foi publicada hoje no Portal Rock Press como aquecimento para os shows certamente históricos que Jello realizará nos próximos dias no Brasil (leia mais aqui).
Biafra sintetiza tudo que se imagina de um artista que está umbilicalmente ligado à história do punk. É altamente politizado, sarcástico, um grande letrista e observador da sociedade. A coerência de sua obra musical e de seu ativismo são sustentados pelo binômio talento/integridade.
Conheci o Dead Kennedys em 1986, quando a emblemática banda de San Francisco se separava e, de tabela, aumentava o vazio numa época em que o punk começava a definhar (o Black Flag, só pra citar outro exemplo, acabou no mesmo ano).
Curiosamente, enquanto a ressaca tomava conta da cena na América e na Europa, um quase desapercebido boom de punk rock dominou a 'classe de 86' em São Paulo. As divertidas "Ashtma" e "Nellie the Elephant", do Toy Dolls, tocavam nas festinhas da época e o disco de estreia do Dead Kennedys, lançado originalmente em 80, era editado sem autorização por aqui através da gravadora Continental. Tocou até no rádio e, dizem, vendeu cerca de 30.000 cópias, das quais Jello Biafra e seus comparsas não viram um centavo sequer.
Três anos depois o vocalista reaparecia num projeto com a visceral banda canadense D.O.A e, daí por diante, comprei tudo que Jello gravou.
Ouvindo cada parte dessa discografia imponente, dá para entender a reverência com que o mais importante punk vivo será recebido no Brasil para divulgar o excepcional The Audacity of Hype.
Para preparar os ouvidos, o Caixa Preta montou um Top 20 com uma canção escolhida de cada disco gravado por nosso terrorista predileto (pra chegar no número, incluímos faixas inéditas de uma trilha sonora, uma coletânea e uma participação num álbum do Napalm Death).
Se tiver paciência, monte o tracklist e já entre no clima dos shows:
Holiday in Cambodia (DK's, Fresh Fruits for Rotten Vegetables, 80)
Nazi Punks Fuck Off (DK's, In God We Trust, Inc, 80)
Moon Over Marin (DK's, Plastic Surgery Disasters, 82)
This Could Be Anywhere (DK's, Frankenchrist, 85)
Chickenshit Conformist (DK's, Bedtime for Democracy, 86)
Full Metal Jackoff (w/ D.O.A., Last Scream of the Missing Neighbors, 89)
Message from Our Sponsor (w/ Keith LeBlanc, Terminal City Ricochet, 89)
The Power of Lard (Lard, The Power of Lard, 89)
Fork Boy (Lard, The Last Temptation of Reid, 91)
Fireball (Tumor Circus, s/t, 91)
Bad (w/ Nomeansno, The Sky is Falling and I Want my Mommy, 91)
Convoy in the Sky (w/ Mojo Nixon, Prairie Home Invasion, 94)
Sidewinder (Lard, Pure Chewing Satisfaction, 97)
Electronic Plantation (No WTO Combo, Live from the Battle in Seattle, 99)
70's Rock Must Die (Lard, 70's Rock Must Die, 00)
Allah Save Queens (w/ Carpet Bombers for Peace, Salt in the Wound - EP, 03)
Plethysmograph (w/ The Melvins, Never Breath what You Can't See, 04)
Those Dumb Punk Kids (Will Buy Anything) (w/ The Melvins, Sieg Howdy, 05)
The Great and the Good (w/ Napalm Death, The Code is Red..., 05)
I Won't Give Up (JB & TGSOM, The Audacity of Hype, 09)