Após algumas semanas em silêncio, Caixa Preta retorna com o primeiro de dois, quem sabe três, posts especialíssimos.
Tudo porque estivemos, entre 30 de julho e 14 de agosto, peregrinando da Holanda ao Reino Unido através de casas de shows, lojas de discos e culminando com os quatro dias e 200 bandas do Rebellion, maior festival punk do planeta, que acontece anualmente em Blackpool, Inglaterra.
Antes do festival, no entanto, um aquecimento para não esquecer no Melkweg, em Amsterdã. O lugar, aberto em 1970, onde funcionara uma antiga fábrica de laticínios, abriga duas salas de shows, cinema, teatro e espaço para exposições. E tem o melhor som ao vivo que este blog já presenciou. Qualidade de áudio absolutamente cristalina e bem equalizada. Não bastasse, o Melkweg é ainda belíssimo como exemplo de arquitetura e o público entra no espaço sem sequer passar pela revista de seguranças.
E na noite de 30 de julho, apresentam-se por lá nada menos que The Adolescents, TSOL e Flag. Uma trinca de bandas que é parte da história do hardcore/punk americano. Juntos, os grupos oferecem uma paleta sonora que recupera o espírito inventivo e anárquico de toda uma época.
Infelizmente chegamos a tempo de ver apenas o desfecho do show dos Adolescents, com a sensacional canção "Kids of the Black Hole". Mas assim que o TSOL subiu ao palco, com 3/4 de sua formação clássica, tudo valeu à pena. Um set inspiradíssimo e repertório que privilegia a obra da banda que antecede o famoso álbum "Change Today?" - sim, aquele do hit radiofônico "Flowers by the Door".
Jack Grisham, o vocalista, vestido de paletó e calça com estampas extravagantes, irradiava felicidade. Contou a loucura que é dividir o camarim com outros sujeitos lendários e que, ainda em 2016, fica intimidado diante do ícone Keith Morris. Bom de papo, disse que quem for a Los Angeles pode telefonar pra ele e combinar uma visita. "Basta procurar por Jack Grisham no catálogo telefônico. Sou eu! Digo isso há anos, em todos os shows, e até hoje apenas um fã me procurou. O nome dele era Antônio e ela era do Brasil...".
Grisham, com cabelos negros, olhos azuis e um pança proeminente que lembra o Elvis Presley da fase Las Vegas, revelou ainda o título do aguardado novo disco do TSOL: "The Trigger Complex".
No intervalo entre os shows, uma visita às banquinhas de merchandising das três bandas e um papo com os fãs holandeses. Um deles, chamado Tyson, com seus 20 e poucos de idade, nos mostra orgulhoso uma tatuagem do TSOL. "É a maior banda do mundo!".
Na volta, o Flag implode Amsterdã com um show absolutamente incendiário. Bombástico. Inesquecível. Coisa de outro planeta. Difícil acreditar que, capitaneado pelo chefe Greg Ginn, o Black Flag esteja hoje em dia vagando pelas sombras do Flag; superbanda que reúne Keith Morris, Dez Cadena, Chuck Dukowski, Bill Stevenson e um reforço de luxo na segunda guitarra: Stephen Egerton, do Descendents.
Dukowski rouba a cena com sua postura de palco e aquele visual clássico que conhecemos das icônicas fotos de Glen E. Friedman: camisa havaiana, calça colorida e tênis de skatista. O sujeito tem 62 anos e, de tanta entrega, parece que pode tombar a qualquer momento vítima de um ataque cardíaco fulminante.
O repertório do grupo traz bombas atômicas como "Jealous Again", "Police Story", "Wasted", "Fix Me", "Gimmie Gimmie Gimmie" e "Nervous Breakdown". Keith Morris, 61 anos, ostenta seus imensos dreadlocks e impõe respeito. À certa altura, tira onda com uma fã que sobe ao palco para tirar uma foto sua. "Você quer ser a estrela do Instagram, é isso?".
Em "Rise Above", os punks holandeses saem do corpo (vídeo abaixo). Quem está perto do caos é tragado pela turba. E se cair, como foi meu caso, não há problema: rapidamente os membros da baderna esticam as mãos para ajudar. Punk rock.
Rumo ao fim do show, Dez Cadena bota a guitarra de lado e assume os vocais em faixas como "American Waste" e "Six Pack". Morris retorna para fechar o set com a famosa versão de "Louie Louie". Deixam o palco como quem saiu das trincheiras.
Um show que precisa obrigatoriamente passar pelo Brasil. É experiência transformadora.
Melkweg, Amsterdã.
Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.
"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.
Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.
Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.
Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.
O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.
Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).
E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.
A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.
Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...
Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top
O ano de 2011 na música pop foi das mulheres.
O reinado do R&B vagabundo americano vai muito bem, obrigado. Suas estrelas nunca rebolaram tanto, nem ganharam tanto dinheiro. Na matriz, a morte de Amy Winehouse a transformou imediatamente em ícone e Adele está há trocentas semanas no topo das paradas.
De quebra, PJ Harvey sacodiu a poeira e gravou um dos discos mais aclamados de sua carreira: o poderoso e minimal Let England Shake. Com Polly Jean, não tem erro.
Em meio a tudo isso, houve espaço pra surgir um talento que roubou o brilho: uma inglesa, filha de pai italiano, chamada Anna Calvi. Seu primeiro disco saiu há exatamente um ano e a crítica o colocou no pedestal.
Mas, pelo menos por enquanto, você não vai ouvir Anna Calvi no rádio ou na trilha sonora da novela, ainda que a combinação da beleza gelada com o talento assombroso seja combustível suficiente para fazer dela uma estrela.
A adulação dos fashionistas de Paris é um primeiro sinal de aceitação e pode até repelir o público que desconfia desse tipo de associação marota. Mas não se engane: se Calvi teve seus préstimos requisitados pelo povinho da moda, é porque pouca coisa hoje soa tão cool.
Cantora de voz marcante, interpretações dramáticas e sem maneirismos neo-soul, é claramente inspirada por gente como Leonard Cohen, David Bowie e Elvis. Como Reverend Horton Heat, regravou também a eterna "Jezebel", de 1951, numa pista que mostra por onda anda seu imaginário.
Mas Anna Calvi é também guitarrista de fina estirpe. Suas incursões pelo vibratto surf remetem ao bad ass Link Wray e, mais ainda, ao mestre dos mestres, Ennio Morricone. É como se Calvi estivesse desfiando os nós deixados pelo maestro há 50 anos só pra que sejam, a seu devido tempo, surrupiados por Quentin Tarantino para alguma trilha imaginária.
O drama e a fúria de Anna Calvi são algo do melhor que 2011 nos deixou.
"Blackout": uma das grandes canções do disco de estreia de Anna Calvi