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Black Sabbath são meus Beatles. Sempre estiveram lá, como uma espécie de instituição.

Primeira lembrança talvez seja o álbum "Heaven and Hell" -justamente o primeiro sem Ozzy, vejam só!- que conheci uns três anos após o lançamento. As memórias se misturam com a carreira solo de Ozzy Osbourne, seus clipes no programa Som Pop, o show no primeiro Rock in Rio, que vi pela TV, e o disco duplo ao vivo "Speak of the Devil", só com repertório do Sabbath.

Em algum momento da mesma época um primo mais velho me emprestou duas preciosidades: as versões nacionais de "Paranoid" e "Master of Reality". Ambas com capas muito bem impressas e o icônico rótulo da Vertigo no centro do vinil. Detalhe curioso: a edição brasileira de "Master of Reality", de 1971, tem o nome da banda escrito com uma letra em cada cor; bem diferente do roxo da versão original.

Em 1990 ou 91, para inaugurar meu primeiro CD player, comprei o primeiríssimo álbum de carreira do Sab. A ideia era colecionar a obra da banda em formato compact disc e, preferencialmente, na ordem cronológica. Demorou, mas consegui. E, de quebra, comprei também os dois discos solo do baterista Bill Ward, bootlegs e picture discs.

O Sabbath passou pelo Brasil pela primeira vez em 1992, com a digna formação do álbum "Mob Rules", e lá estava eu para vê-los ao vivo. Tocaram boa parte de seus clássicos, privilegiando os discos que gravaram com Ronnie James Dio. Mas como tornou-se praxe na carreira do grupo, esse line-up logo se esfarelou. Sete anos mais tarde, juntaram-se a Ozzy e Ward para uma reunião que resultou num disco ao vivo e que, por algum motivo chato, também foi interrompida prematuramente. E anos depois, de novo com Dio e Appice sob o nome Heaven & Hell. Pouco senso de ocasião e muitas idas e vindas.

Levou três décadas, mas vi, enfim, na última sexta-feira, meus Beatles ao vivo. Sem Ward, mas com Ozzy, e na esteira do grande momento registrado no álbum "13" - o primeiro de inéditas com Oz em 35 anos. A aura de grandiosidade histórica do grupo parece capaz de ofuscar quase todos os artistas em atividade. E você percebe isso quando vê gente de todas as idades e lugares formarem uma multidão ávida para louvar e desfrutar canções com mais de 40 anos.

A entrada na Praça da Apoteose logo revela os três telões de LED com o clássico logo da banda -sim, aquele do "Master of Reality"- e o adolescente em mim se contém para não derramar as primeiras lágrimas. Nem mesmo o bom set de abertura da banda americana Rival Sons, e seu caldo que mistura hard rock e blues, Free e Led Zeppelin, é capaz de me distrair do fato que dali a instantes teríamos o Black Sabbath no palco.

E então as luzes se apagam. E uma animação nos telões termina com o logo do grupo em chamas. Tony Iommi, recuperado da leucemia que quase lhe tirou a vida, surge com aspecto mais saudável e empunhando sua mítica Gibson SG. A canção "Black Sabbath" abre o show como também inaugurou os próprios anos 70, encerrando a fantasia flower power sessentista e retratando a distopia pós-hippie.

Ozzy é um sobrevivente como Iggy Pop e, tal como o Iguana, epitomiza o próprio rock'n'roll. Geezer é pura elegância, um autêntico lorde inglês e um dos melhores contrabaixistas de sua época. Faltou Bill, que está vivo e bem na Califórnia, mas magoado com seus ex-companheiros. Tommy Cufletos, o substituto várias décadas mais jovem, é ótimo baterista, mas não tem o swing e a imprevisibilidade jazzística do mestre. Em se tratando de Sabbath, não se pode ter tudo e estamos mais do que no lucro.

Fiz de tudo para evitar spoilers e não li qualquer coisa sobre o set list da turnê de despedida. Queria estar aberto a surpresas, mas tive poucas. "After Forever" e "Dirty Women" foram as escolhas menos óbvias, mas o restante do repertório foi pinçado a dedo para agradar as plateias pelo mundo afora. Das treze canções executadas, nada menos que onze são extraídas dos três primeiros discos do Sabbath, que são também seus mais populares. Não há nada de álbuns colossais como "Sabbath Bloody Sabbath" e "Sabotage", e tampouco de "Never Say Die" ou "13". Uma pena, mas para isso criei o set list dos (meus) sonhos no final do post.

Se te falarem que Ozzy está desafinando em algumas músicas, acredite. Ele já fazia isso antes, até em estúdio. Se te disserem que a banda toca agora em ritmo mais cadenciado, também é verdade. Mas eles são os arquitetos do doom e Black Sabbath nunca teve a ver com velocidade. E ainda, se repetirem por aí que som ao vivo não tinha o volume esperado, olha, é bem possível que também seja verdade. Em 1992 eles também não tocaram tão alto assim.

Mas são detalhes. E irrelevantes perto do que é ver as faíscas que ainda resultam da química entre esses gigantes. A obra do grupo, não à toa, é uma mais influentes dos últimos 50 anos. Está em tudo que foi feito na música de forma rebelde desde 1970. E isso é muita coisa.

Obrigado por tudo, Sabbath.

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SET LIST
Rio de Janeiro, 02/11/16

Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the Void
Snowblind
War Pigs
Behind the Wall of Sleep
Bassically/N.I.B.
Rat Salad
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
Paranoid

SET LIST
Caixa Preta

Black Sabbath
Sabbra Cadabra
Killing Yourself to Live
Sabbath Bloody Sabbath
Never Say Die
Planet Caravan
War Pigs
Hard Road
N.I.B
Iron Man
Supernaut
Symptom of the Universe
God is Dead?
Cornucopia
Snowblind
Paranoid


Para comemorar o Record Store Day, que acontece hoje, 16 de abril, recupero texto perdido de outra encarnação do Caixa Preta. Fica como homenagem a todas as lojas que mantêm viva a cultura do disco e também ao autor, Ronnie James Dio (1942-2010).


Ele está comigo há 30 anos. Perdido no meio de outros tantos LPs e ausente há bastante tempo do meu relativamente ativo toca-discos. E hoje resolvi dar-lhe uma chance. Enquanto a agulha desliza pelos sulcos do vinil, lembranças do ginásio e de toda uma época vão saindo do baú das memórias.

Meu primeiro disco foi adquirido com economias e trocados de viagens de ônibus, o famoso 5131-Praça da Sé, que me levava até o colégio. Já havia alguns anos que gostava de rock. Era refém dos poucos programas de clipes, o mais saudoso deles o Som Pop, da TV Cultura, que vez ou outra exibia filminhos de bandas de hard rock e heavy metal. Nada mais fascinante para um adolescente de 13 anos e que adorava o som de guitarras elétricas. Mas numa noite de domingo qualquer, foi o eterno programa Fantástico quem fez a surpresa: anunciaram para depois do intervalo um "musical" do ex-vocalista do Black Sabbath. À época, o departamento de jornalismo da emissora ainda não tinha aderido ao termo video-clipe, mas para mim não fazia diferença: a simples menção ao nome da banda sagrada fez meus olhos pularem das órbitas.

O locutor global anunciou "The Last in Line" como a ideia do cantor Ronnie James Dio sobre o fim do mundo e terminou o texto com uma tradução livre do título: "O Fim da Linha". O estrago estava feito. Imagens de um elevador que despenca até o inferno, a trilha musical recheada de riffs e solos faíscantes e toda aquela ideia de fim dos tempos me fascinaram. Lembre-se que era 1984 e existia ali um componente de rebeldia em relação à ordem das coisas. Para as FMs brasileiras, pré-Rock in Rio, a maior ousadia ainda era tocar coisas pavorosas como o grupo pop-rock Radio Taxi. E a TV, salvo o oásis do Som Pop, era ainda tão sem graça quanto hoje, embora com apenas cinco emissoras.

Da veiculação de "The Last in Line" no Fantástico até a compra do disco lá se foi quase um ano. Acumulei trocos da cantina do colégio e os somei às moedinhas que sobravam das viagens de ônibus, que eu normalmente pagava com passe escolar. O que faltava para adquirir o LP, provavelmente foi conquistado graças à eterna generosidade maternal.

Com o dinheiro contado, lá fui eu, a bordo do 5131, dessa vez até o ponto final, na Praça da Sé, atrás de meu primeiro disco. A loja escolhida foi a filial da Rua 7 de Abril da outrora importante rede Museu do Disco. Garimpei em cada casulo de vinil até me deparar com a capa em tons pastéis criada por Barry Jackson - o mesmo que assinara a arte do então recém-lançado "Afterburner", do ZZ Top. Naquele vinil estava não apenas a canção que iluminou um final de domingo qualquer, mas também, e principalmente, minha definitiva introdução aos prazeres do rock'n'roll.

Trinta anos depois, meu primeiro LP está girando no toca-discos. Orgulhoso, tenta disfarçar o efeito do tempo e deixa a agulha deslizar tranquila, sem reproduzir qualquer chiado, talvez na esperança de que seja tocado com mais frequência em minhas sessões nostálgicas.


O saudoso Ronnie James e seu guitarrista, o norte-irlandês Vivian Campbell, quebram tudo no clipe exibido para todo o Brasil em 1984

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PS: Caso esteja se perguntando, sim, a imagem que abre o 'post' é do meu próprio LP. Repare no encarte consertado com durex. :)