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O Bad Religion já esteve inúmeras vezes no Brasil e vê-los ao vivo não é exatamente uma novidade. Ainda assim, quem se aventurar no Lollapalooza, neste sábado, pode acabar testemunhando um pedacinho da história. E tudo porque o grupo pode incluir em seu repertório uma canção chamada "Billy Gnosis".

A execução dessa música ao vivo, como ademais qualquer material originário do álbum "Into the Unknown", de 1983, é desejo antigo e utópico de muitos fãs.

Concebido por Greg Graffin (voz) e Brett Gurewitz (guitarra), "Into the Unknown" desagradou de cara Jay Bentley e Pete Finestone, baixista e baterista da banda. Ambos abandonaram o barco antes mesmo de se iniciarem as gravações e foram substituídos por Paul Dedona e Davy Goldman.

Boa parte das 10 mil cópias existentes do disco acabaram devolvidas pelas lojas e terminaram estocadas num armazém. Com o tempo, os LPs foram sumindo do estoque até evaporarem de vez. E o álbum tornou-se uma autêntica relíquia.

"Into the Unknown" é um caso peculiar de disco que já nasceu maldito. Gurewitz recorda que a banda foi a San Francisco lançar o álbum no lendário Mabuhay Gardens, e deparou-se com uma plateia de 12 gatos pingados. Isso mesmo: DOZE. Rapidamente perceberam que o público havia recusado a nova proposta musical do grupo e que o repertório do disco deveria ser enterrado na história.



Dois anos mais tarde, e já sem Brett Gurewitz, internado numa clínica de desintoxicação, o Bad Religion, com o ex-Circle Jerks Greg Hetson no time, lançou um EP para sepultar de vez as lembranças do disco fracassado. Trocaram o desconhecido, para onde tinham se aventurado em "Into the Unknown", pelo conhecido hardcore/punk de 1980. E batizaram o EP comicamente de "Back to the Known" ("De volta ao conhecido").

Até 2010, o Bad Religion manteve-se em silêncio sobre esse capítulo singular de sua biografia.

No restante da década de 80, tornaram-se bastiões do punk americano. Com o fim de Minor Threat e Misfits em 1983, e de Dead Kennedys e Black Flag em 86, coube ao Bad Religion manter a chama do hardcore acesa. O grupo ganhou muitos adeptos nos EUA e na Europa, e seu álbum "Suffer", lançado em 1988, obteve o status imediato de clássico.

Alguns anos depois, na esteira do grunge e da febre alternativa, assinaram com a 'major' Atlantic Records e experimentaram o sucesso no mainstream do rock. "Recipe for Hate", de 1992, gerou os hits radiofônicos "American Jesus" e "Struck a Nerve", e "Stranger Than Fiction", lançado em 94, ganhou disco de ouro na América com 500 mil cópias vendidas.

A febre baixou e o Bad Religion retornou naturalmente para a Epitaph Records, selo fundado por Brett Gurewitz e que o fez milionário com o sucesso colossal do Offspring. E então, em 2010, através de um box-set especial com 15 LPs lançado pela própria Epitaph, o obscuro e esquecido "Into the Unknown" ganhou nova luz.

Fãs de diferentes gerações puderam, enfim, descobrir o que há no álbum que quase arruinou a carreira do Bad Religion, que fez Jay Bentley afastar-se provisoriamente do grupo e implodiu a turnê de divulgação por completo desinteresse do público.

A grande história por trás de "Into the Unknown" é que Graffin e Gurewitz, de um jeito torto, fizeram a coisa mais punk que era possível fazer em 1983: tocar rock progressivo! Após a fama imediata conquistada com o álbum de estreia, "How the Hell Could be Any Worse?", o Bad Religion chutou o balde e gravou um disco repleto de sintetizadores e com a faixa mais longa de toda sua carreira - "Time and Disregard", com sete minutos de duração. Ninguém entendeu bulhufas. E quem entendeu não gostou.

"Into the Unknown", analisado em retrospecto, é um álbum bastante curioso. O Bad Religion não tinha cacife e nem dinheiro para gravar rock progressivo. Sua abordagem exótica e ingênua resultou numa mistura estranha de prog, punk e hard rock americano do fim dos 70's. E o disco está longe de ser ruim. Mesmo com a produção inadequada e com arranjos nada convencionais, ainda soa como Bad Religion e oferece uma audição alternativa para o hardcore melódico que o grupo ajudou a criar.

Desde o relançamento do LP como parte do box-set -em CD, permanece inédito-, a banda resolveu resgatar para os palcos aquela que é a melhor canção de "Into the Unknown". Há registros ao vivo de "Billy Gnosis" tão recentes quanto junho de 2015.  E a música é executada com elegância e sem sombra de constrangimento. Até mesmo o site oficial do grupo presta agora certo respeito ao disco: "Através do tempo, o mundo terminou por alcançá-lo e 'Into the Unknown' tornou-se um item muito procurado por colecionadores. E merecidamente, pois se você deixar de lado sua parcialidade de cabelos punk espetados, descobrirá um álbum verdadeiramente fascinante".

Quem sabe o público brasileiro terá um gostinho de "Into the Unknown" na arena do Lollapalooza?

Daqui a pouco saberemos.


Ainda inédito em CD e no Spotify, "Into the Unknown" pode ser ouvido na íntegra, e em toda sua glória proggy-punk, no Youtube
Com o objetivo de resgatar algumas importantes entrevistas que realizei na última década e meia, estreia agora no blog a série "Caixa Preta Entrevista".

Nesse 'post' inaugural, republico, na íntegra, a conversa que tive com Mike Muir, líder do Suicidal Tendencies. A entrevista, realizada por telefone, foi capa da edição nº 67 da revista Rock Press (reprodução abaixo) e realizada em ocasião do festival Claro Q É Rock. O Suicidal, escalado para se apresentar no evento, terminou cancelando sua participação por conta de um problema de saúde do próprio Mike Muir.

Confira abaixo o resultado da conversa com esse sujeito que fez história no hardcore, no thrash metal e que ainda aprontou com os funks do Infectious Grooves.

Você vem produzindo muita música de uns anos pra cá.  Seja com o Suicidal Tendencies, com o Infectious Grooves ou com seu projeto solo, Cyco Miko.  Isso tem alguma relação com o fato de você ter montado seu próprio selo?
MIKE MUIR – O mais irônico nisso é que, se ainda estivéssemos na Sony, teríamos mais material lançado, pois, hoje, gravamos muita coisa que não lançamos.  Quando você está numa 'major', você precisa gravar discos e eles te providenciam estúdio, te pagam por isso.  Você tem que cumprir todo um processo.  E agora nós temos nosso próprio estúdio e, até porque não precisamos lançar nada, vamos lá tocar apenas pela curtição.  Às vezes convidamos nossos amigos para tocar conosco e gravamos algumas coisas, mas sabemos que não temos obrigação de lançar aquilo.  Mas se estivéssemos na Sony, eles viriam até nós e diriam: “Hey, o que está havendo? Vocês precisam lançar um disco, precisam sair em turnê!’.  E como eu passei por uma cirurgia nas costas há um ano e meio, isso, de certa forma, nos impediu de excursionar.  Então, eu pensei: “É  melhor não lançar nenhum disco agora”.  Por causa disso, tivemos a possibilidade de compor muita música e pela simples razão de que gostamos disso.  Hoje em dia, quando queremos ir para o estúdio, não temos que gastar nada, mas antes tinha alguém pagando por isso.  A música não nos custa nada agora e isso evita que a gente tenha aqueles compromissos negativos.  O lado bom é que podemos compor porque gostamos, sem ter a preocupação de lançar alguma coisa.  Por outro lado, temos que negociar (o lançamento dos discos) com cada país separadamente e gastamos bastante tempo cuidando de negócios, quando preferiríamos estar apenas tocando.  Mas no fim das contas, estamos mais satisfeitos agora.

É uma sensação melhor do que estar numa 'major'?
MIKE MUIR – Sim. E o mais engraçado é que ainda tenho muitos amigos que trabalham para gravadoras, e eles sempre dizem: “Quando quiser gravar um disco, me telefone” (risos).  E alguns deles me falam: “Poderíamos conseguir algo, mas não sei você ficaria satisfeito.  As coisas mudaram, houve essa mudança louca (na indústria)…”.  E também há outros que dizem: “Vamos arranjar um contrato e eu te garanto que há muita gente aqui que ama a banda.  Podemos ir a departamentos de promoção e falar com todas as pessoas que viram vocês ao vivo antes de trabalharem aqui”.  Esse tipo de coisa.  Para nós, isso volta àquela questão: seria ótimo para agradar o ego, porque saberíamos que nossa música estaria sendo ouvida por muito mais gente.  Mas, pessoalmente, prefiro estar na posição que estou: dando essa entrevista para você, indo tocar num festival em que muita gente não saberá quem somos e onde vamos encontrar gente louca que ama o Suicidal (risos) ou aqueles que ainda eram muito jovens da última vez que tocamos aí, há oito anos.  Acontece muitas vezes de pessoas irem ver uma banda que gostam e nem sabem quem somos.  E após do show muitos deles já estão gritando (entusiasmado): “Suicidal! Suicidal!”.  Depois disso, eles começam a mostrar a banda para os amigos e…  Foi assim que eu me liguei em música!  Quando meus amigos gostavam muito de uma banda, eles sempre me apresentavam à música dela.  Mas agora, com a MTV e as estações de rádio comerciais, há muita gente, especialmente nessa onda de pop-punk, que começa uma banda hoje e vende 1 milhão de discos amanhã.  Infelizmente, esse é o objetivo deles.  Essa não é a nossa praia.  Lançamos nosso primeiro disco há 22 anos e ainda existe gente que o escuta.  Isso é mais importante.  Há muitos álbuns que saíram em 1983 e venderam bem mais que o nosso, mas os quais ninguém nunca mais comprou.  Preferimos que a música dê o recado.

Nos anos 80 vocês não eram a única banda que misturava hardcore, punk e metal.  Havia todo um contexto em que isso acontecia, com grupos com Excel, D.R.I, Corrosion of Conformity e outros.  Você sente que, hoje em dia, o Suicidal está sozinho ou faz parte de algum cenário?
MIKE MUIR – Veja só, quando nosso primeiro disco saiu, uma revista de punk disse: “Dane-se! Isso é metal”.  Quando o segundo álbum foi lançado, a mesma revista afirmou que nosso disco de estréia, que eles haviam dito ser uma droga, tinha se tornado, do nada, um clássico do punk rock e que, agora sim, nós tínhamos virado metal!  Aí o terceiro saiu e publicaram algo como: “Os dois primeiros eram tão bons, mas dessa vez eles se transformaram pra valer numa banda de metal” (risos).  Havia toda essa situação naquela época, mas nós não dávamos a mínima.  Durante todo aquele período, vimos muita gente mudar.  Banda convictas de metal passaram a usar calças spandex e maquiagem.  Nós nunca mudamos a maneira que nos vestimos ou nosso jeito de fazer as coisas.  Você pode notar nossa influência em muitas bandas, mas boa parte disso se perde no caminho.  Então, acho que éramos uma banda muito viável e o que vai acontecer nesse festival (no Brasil), é que, após o show, muita gente vai pensar: “Como eu nunca tinha ouvido falar dessa banda antes?”.  E alguém vai virar pra eles e dizer: “O primeiro disco dos caras saiu há 22 anos”.  E eles vão se surpreender: “Sem chance!  Eles não podem estar ser tão velhos!” (risos).  Então, é por aí… Nós não somos os Rolling Stones, que só estão dando umas voltas por aí.  Nós ainda estamos detonando, botando pra quebrar!  Quando perdermos esse pique, não teremos mais nada a dizer.

Você falou sobre a influência que o Suicidal exerceu sobre outras bandas e realmente é fácil notar que há muita gente por aí imitando a música e o visual de vocês.  Houve algum momento específico em que você se deu conta de como tinha gente te copiando?
MIKE MUIR – Acho que isso aconteceu algumas vezes.  Pessoas que não nos conheciam, tentavam nos comparar com alguém: “Hey, por que vocês tentam se vestir de skatistas?”.  E eu respondia: “Cara, os skatistas nunca se vestiram assim”.  Meu irmão era skatista profissional (N.E.: Jim Muir) e eu fui a primeira pessoa a sair na capa da revista Thrasher sem ser skatista.  Se você olhar as edições antigas da revista, vai ver que, antes disso, todo mundo usava shorts colados e coisas do tipo.  Depois do Suicidal, é que começaram a usar roupas largas.  Mudou tudo.  E é interessante que há um ano, numa edição da Thrasher, saiu essa matéria “O que está na moda e o que está por fora” e o Suicidal estava “na moda” (risos).  E muitas das coisas que eles afirmaram estar “por fora”, são bem mais novas que o Suicidal!  A mesma coisa aconteceu 17 anos antes, com esse lance do que está ou não por dentro.  Eu não me importo em ser o cara do momento ou a novidade, mas poucas pessoas realmente conseguem ser vistas dessa forma há tanto tempo.  Muita gente pode dizer: “Ah, você só está tentando vender sua imagem”.  E eu respondo: “Quer saber?  Não diga isso.  Eu posso não gostar de tal banda, mas eles me disseram que eram glam até conhecerem o Suicidal” (risos).  Então, é interessante…nós não mudamos, mas muita gente mudou.  Obviamente ninguém se vestia como nós, mesmo porque as pessoas que usavam essas roupas não tocavam em bandas, não faziam música.  O que acontece é que muita gente se apropria do que considera 'cool', e a ironia disso é que nós mesmos nunca tentamos ser 'cool'.  Pelo contrário, nós sempre nos esforçamos para não ser 'cool'.

Falando de skate, qual é sua opinião sobre toda essa badalação em volta do documentário "Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou" e do longa-metragem "Reis de Dogtown"?  Você acha que retraram bem aquela época e lugar?
MIKE MUIR – Veja só, eu convivi com os velhos skatistas, e meu irmão era um dos Z-Boys originais e ainda é dono da Dogtown Skates. Jay Adams, um dos meus melhores amigos, é mostrado no filme de Hollywood ("Reis de Dogtown") indo a um show com um estilo Suicidal.  Na verdade, ele era um dos 'suicidal dudes' originais.  De certa forma, eles mostraram isso no filme.  Mas, da mesma maneira, há o retrato incorreto da mãe de Jay.  Ela era uma grande pessoa e uma tremenda batalhadora, mas não é assim que ela é mostrada no filme.  Isso me chateia porque eu a conhecia e ela, inclusive, faleceu recentemente.  Eles não precisavam ter feito aquilo, mas foi tudo escrito pelo Stacy (Peralta), que está no filme e também dirigiu o documentário ("Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou").  Ele era skatista e isso meio que....  Bem, o que eu quero dizer é que se fossem fazer um filme sobre os primeiros dias do Suicidal, eu não poderia participar, entendeu?  Como eu estava lá, teria que ser feito por outra pessoa.  E o Stacy, nesse caso, se colocou numa posição complicada.  Mesmo assim, muitas daquelas pessoas e o jeito como as coisas eram (em Venice), foram retratados corretamente.  Meu irmão e muitos outros skatistas daquela época terão (graças ao filme) uma visibilidade maior por algum tempo.  Também vai ter muita gente entrando nessa para ser 'cool', mas esses vão desaparecer em um ano.  E há muitas pessoas que normalmente não seriam expostas (ao skate) e que agora estão sendo.  É daí que sairão os Jay Adams da nova geração.  De certa forma, é o que acontece com a música.  Todas as vezes que tocamos em lugares que eram mainstream, demos uma oportunidade às pessoas de se identificarem conosco.  Mas é claro que, por outro lado, existe uma comercialização maciça, com a Nike e outras marcas.  Havendo mercado e coisas para vender, eles sempre estarão lá.  Infelizmente, esse é o mundo em que vivemos.


Interessante você citar isso, pois no livro do fotógrafo Glen E. Friedman, "Fuck You Heroes", ele confessa que o entusiasmo dele pela cena skate vem da época mais underground, em que as pessoas andavam em piscinas vazias na Califórnia.  Quando o skate virou um esporte profissional e com grandes patrocinadores, ele perdeu o interesse.  Você também acha que o espírito mudou?
MIKE MUIR – Há uma grande contradição aí, pois ele também está vendendo o livro.  Ele é o cara que diz que copyrights não interessam, mas quando alguém usa uma foto dele sem pagar, é processado.  Há uma grande contradição a respeito do Sr. Friedman.  Eu acho que isso é lamentável, porque ele tenta agir e dizer as coisas certas, saca?  E a realidade é a seguinte: ninguém jamais imaginaria que algum dia fariam um filme sobre aquela época.  Essa é a verdade.  Poderia acontecer com qualquer um que estivesse lá, como Stecyk, que na verdade era fotógrafo e escritor, e o trabalho dele era brilhante.  E essa é outra ironia, pois como a cena era muito pequena, ninguém se dava conta de quão talentoso ele era.  E a forma como ele foi retratado no filme ("Reis de Dogtown") foi terrível.  Eis um cara que pode usar o nome de Dogtown acima de todo o resto.  Eu li um artigo que Stecyk escreveu sobre Dogtown e te faz sentir uma vontade incrível de ter vivido naquela época.  E eu acho que Stecyk provavelmente tem mais a ver com tudo aquilo (que Glen. E Friedman).  Ele poderia ter trabalhado em qualquer coisa e ficado realmente rico, mas ele preferiu manter-se fiel ao lance em que ele acredita.  Mas há muita gente que adora dizer: “Eu fui a primeira pessoa a entrar na cena e a primeira a sair”. É o fator 'cool', saca?  E além do mais, já naquela época, Glen andava de Mercedes em todos aqueles lugares, portanto…

Voltando ao Suicidal.  É perceptível que em "Freedumb" vocês resgataram uma sonoridade mais crua, mais old school, porém, no álbum seguinte, "Free Your Soul and Save my Mind", já se pode detectar algumas músicas meio “funkeadas”.  Você já foi criticado por não dar ao público o que ele quer?
MIKE MUIR – Sempre!  Tem aquela revista que comentei com você antes e também a Spin, que é uma grande publicação americana, e sempre que esse pessoal resenhava nossos discos, dizia que eram horríveis.  Só que aí, quando saía um novo álbum, eles escreviam: “Que pena! Esse disco é uma droga e o anterior era tão legal!”.  Ou seja, o disco que eles diziam ser “tão legal”, era o mesmo que eles tinham taxado anteriormente de “horrível”.  Quando nosso primeiro álbum saiu, todos os punks reclamaram: “Ah, é muito metal!”.  E aí, quando gravamos o seguinte, eles disseram: “Que saco! O primeiro era clássico e agora eles viraram metal!”.  Sempre foi assim e…

…você nem se importa mais.
MIKE MUIR – Na verdade, eu nunca me importei.  Tenho um amigo, e é engraçado como às vezes a gente esquece dessas coisas, que a primeira vez que esteve na minha casa viu um quadro com vários recortes de críticas dizendo todo tipo de merda sobre nós.  E ele me perguntou: “Cara, por que você colocou isso na parede?!  Todas essas críticas falam mal de vocês!”.  E eu respondi: “Porque eu não me importo! Eu não ligo para o que as pessoas dizem” (risos).  Ele ficou meio assustado, mas, tempos depois, me falou que na época não tinha entendido aquilo, e que só depois percebeu que eu realmente não dou a mínima.  Se você não se importar, não te afeta.  São as pessoas que dão força às palavras.  Há zilhões de bandas que surgiram e desapareceram desde que começamos, de todos os estilos, mas nenhuma como o Suicidal.  Isso é mais importante para mim.  E outra coisa que percebi é que há muita gente que não entende direito a música que fazemos, então querem nos atacar por outros motivos, como a mistura racial da banda, a forma como nos vestimos e tudo o que você possa imaginar. Deixa pra lá.  Nós levamos isso para o palco.  Agora vamos para o Brasil e deixaremos as pessoas decidirem o que acham de nós.

A que você credita tantas mudanças de formação no Suicidal Tendencies?
MIKE MUIR – Isso é interessante.  Muitas vezes as pessoas não compreendem, mas há grupos que perdem apenas um integrante e já não conseguem continuar.  E muitas pessoas passaram pelo Suicidal, antes mesmo de gravarmos nosso primeiro disco.  Se não tivéssemos feito essas mudanças, talvez não houvesse sequer o primeiro disco.  E da mesma forma, se não fosse por isso, não teria havido um segundo disco.  Acho que tudo depende da situação e, para ser sincero, algumas pessoas mudam.  Não que eu tenha algo contra mudar, mas às vezes não é compatível, musical ou pessoalmente.  Às vezes acontecem coisas na vida que fazem com que as pessoas deixem de ter os mesmos objetivos. Pode ser tão difícil arranjar um músico quanto uma namorada. Vai ter sempre gente boa e ruim.  O que não dá é para viver o tempo todo discutindo com alguém.  Meus pais são casados há 40 anos e nunca brigaram.  Então eu percebi desde cedo que jamais me casaria com a primeira pessoa que conhecesse e sim, com aquela fosse minha melhor amiga.

Como você deve imaginar, os dois últimos álbuns de vocês não são tão conhecidos por aqui quanto aqueles que vocês gravaram pela Sony, especialmente "Art of Rebellion", que teve dois hits nas rádios do Brasil.  Baseado nisso, você pensa em preparar um set-list especial para essa ocasião?
MIKE MUIR – Essa é uma coisa curiosa e me leva de volta a outra pergunta que você fez.  Há três anos, uma jornalista veio da Inglaterra para um de nossos shows.  Depois de tocar, eu fui até o público, dei umas voltas e então me dirigi ao camarim para dar a entrevista.  Quando entrei, ela estava dizendo a nosso empresário: “Nossa, eu nunca vi nada assim!”.  E eu não sabia do que ela estava falando.  Até que percebi o motivo: eu estava ali de pé e vieram uns skatistas me cumprimentar.  “Cara, você são a melhor banda de skate rock que existe!”.  E depois, veio um grupo de garotos punks e eles disseram: “Vocês são a melhor banda de punk rock que existe!”.  E, finalmente, apareceu um cara de cabelo comprido: “Vocês são a melhor banda de metal que existe!” (risos).  Ou seja, se você se define de certo jeito, então é isso que você se torna.  E, nesse aspecto, cada um nos enxergava do seu jeito.  Foi isso que a jornalista disse nunca ter visto isso antes.  Ou seja. ela estava habituada a todas essas divisões (de tribos), mas nunca tinha visto as divisões caírem. E quanto a nós, jamais fomos uma banda que tenta agradar.  Antes de tocar no Brasil, vamos participar de um festival de três dias na Colômbia e eles nos disseram que seremos a atração principal do dia do metal.  Duas semanas depois desses shows, vamos fechar um evento no Olympic Auditorium, em Los Angeles, onde tocarão Germs, Dead Kennedys, Fear e todas essas bandas punks de verdade.  E o lance do Brasil será completamente diferente do resto.  Não vamos sentar para combinar o que tocaremos, pois o Suicidal é diferente de qualquer outra banda.  Estamos aqui para provar.  Claro que sabemos que quando se está numa 'major', muitas coisas são mais fáceis e isso é legal, mas na hora em que estamos em cima do palco, tocando para gente que não nos conhece, a responsabilidade é sempre nossa.  Não tem ligação com o DJ da rádio, isso ou aquilo.  Tem a ver com pessoas nos assistindo e julgando aquele momento.  Ainda gostamos da maioria das músicas que escrevemos e do que tocou nas rádios, mas, tipo, vai haver alguém (que foi ao show) que dirá: “Você precisa ouvir esses caras!”.  E para nós, esses shows também são uma grande oportunidade de tocar para pessoas que gostam da banda e que poderão nos ver ao vivo outra vez, lembrando porque gostam tanto de nós.  Elas terão a chance de levar seus irmãos e primos mais jovens ao show e, quem sabe, mostrar a eles porque acham que nossa música é melhor.  Pretendemos voltar ao Brasil uns seis meses após esse festival para fazermos um show só nosso e vocês podem contar com isso.  Eu descobri que quando você tem um sucesso nas rádios ao redor do mundo, pode atingir milhões e milhões de pessoas, e isso não tem preço.  Mas quer saber?  Eu me lembro de uns três momentos em que ouvi determinado disco pela primeira vez e nunca mais me esquecerei da sensação.  É essa a nossa onda…

Pela sua resposta, dá para antever um grande show.
MIKE MUIR – Um grande show, não: nós tentamos fazer o melhor show!  É por isso que estamos indo (para o festival).  Acho que temos algo a oferecer que os outros não têm.  Estaremos aí pela fidelidade a quem nos apoiou durante todos esses anos, e também pela oportunidade de mostrar a um público novo porque certas pessoas nos têm em alta consideração.  Como meu pai diz: toque o coração das pessoas.  É isso que queremos fazer.
O canal BIS vem exibindo em sua grade de programação o documentário “Hit So Hard”, de P. David Ebersole. Se ainda não viu, recomendo. Trata-se de um filme sobre Patty Schemel, ex-baterista do Hole, mas que revela-se bem mais do que isso. É um retrato sombrio do rock alternativo da década de 90, seus grandes personagens e as engrenagens da indústria que rodavam por trás deles.

O documentário lança mão de um acervo de vídeos amadores, registrados pela protagonista durante sua permanência no grupo, e os intercala com entrevistas dos principais envolvidos. O painel, visto como um todo, explica algo da tendência autodestrutiva da época, a busca desenfreada pela fama e a combinação explosiva de dinheiro e drogas.

Patty Schemel começou a carreira em pequenas bandas punks. Ainda na adolescência, se viciou em álcool e numa porção de drogas. Chamou a atenção de Kurt Cobain quando tocava com Larry Schemel, seu irmão, em um grupo chamado Sybil. Perdeu a vaga de baterista do Nirvana para Dave Grohl, mas foi indicada por Cobain para assumir as baquetas do Hole.

Para compor o material que se tornaria “Live Through This”, o mais bem sucedido álbum da banda, Schemel foi morar com Kurt e Courtney em uma casa no meio do mato, no estado de Washington. As imagens captadas pela baterista com uma handycam trêmula intensificam a ideia de que o ninho dos Love/Cobain era uma bagunça completa. A casa parece frequentada por um monte de gente, Kurt faz macaquices sem sentido e Courtney ostenta o ar de doidona com o qual ficaria para sempre associada. No meio disso tudo, uma babá toma conta da pequena Frances Bean Cobain.

A convivência termina de maneira trágica com o suicídio de Kurt. Patty Schemel, Roddy Bottum -tecladista do Faith No More- e mais uns poucos voltam para a local após saberem da tragédia e terminam sitiados por um cerco de paparazzi. Temos rockeiros alternativos e junkies desorientados ocupando por dias o noticiário mundial. Courtney Love torna-se, da noite para o dia, a viúva mais famosa do mundo.

Dois meses mais tarde, ainda curando as feridas, Courtney recebe a notícia de que sua baixista, Kristen Pfaff, também com simbólicos 27 anos, morrera vítima de uma overdose fatal de heroína. A intensidade do rock’n’roll dos anos 90 reproduz as glórias e as tragédias dos 70. O comentário da baixista substituta, a jovem e bela canadense Melissa Auf der Maur, resume o espírito da época: “Entrei para a banda sabendo que lidaria com pessoas que brincavam com a morte”.


“Hit So Hard” ganha contornos dramáticos quando dirige seu olhar para as gravações do álbum “Celebrity Skin”. Patty Schemel, que passara boa parte da juventude entrando e saindo de clínicas de reabilitação, chega ao estúdio sóbria. Não ingeria drogas havia dois anos e estava pronta para o rock. Mas não na opinião do produtor Michael Beinhorn. As descrições das excruciantes sessões de gravação são de chorar, com Beinhorn sabotando Schemel através de jogos psicológicos, sempre na tentativa de vencê-la pelo cansaço. Beirando o escárnio, ordenava que a baterista repetisse takes atrás de takes, enquanto limitava-se a pressionar o botão talk back da sala de gravação, reduzindo o volume para 1/3 do original. Ela suava para entregar sua melhor performance e ele, entediado, folheava revistas. “Beinhorn tinha a reputação de destruir bandas e trocar os bateristas durante a gravação”, relembra Courtney Love. Em duas semanas, Schemel está arrebentada emocionalmente e o produtor chama seu baterista de estimação, Deen Castronovo, para salvar o dia. Seleciona o pior take de Patty e o apresenta para Courtney, lado ao lado com o registro preciso do músico de aluguel. A líder da banda, louca pelo sucesso pop, aceita a troca. Schemel abandona o barco, furiosa. “Eu era integrante do grupo, tinha ajudado a compor aquele repertório e sabia como tocá-lo. Estava sóbria. Não entendia a razão para ser substituída”.

Um dos técnicos do estúdio, em depoimento corajoso, revela ter ouvido que Beinhorn combinara de antemão com Castronovo que este tocaria no álbum. O desempenho de Patty Schemel tornara-se então um simples pretexto para o tipo de jogada sórdida do show business com o qual os punks incautos do Hole não estavam acostumados. A substituição da baterista, como tantas outras armações da história do rock, deveria ter ocorrido em segredo, com a conivência de todos os envolvidos. Ela continuaria na banda, tocaria na turnê e ganharia sua parte da grana. Coisa banal no modus operandi do KISS, por exemplo. Gene Simmons revelou que cansou de usar músicos de estúdio para gravar seus discos e que sequer lembra o nome deles. Mas o Hole tinha raízes no punk e no rock underground dos anos 80. Schemel crescera ouvindo Dead Kennedys e Melvins. Não ia funcionar.

 “É muito difícil quando seu talento é colocado em dúvida” – resumiu Roddy Bottum em depoimento preciso. “E para que outro lugar ela fugiria atrás de conforto numa hora dessas? Para as drogas, é claro”. E o que se segue é uma espiral de decadência que merece lugar nas memórias mais toscas e barra-pesada do rock, incluindo uso de crack, vida nas ruas, prisão, miséria e prostituição. Schemel, que sempre tivera problemas com o vício, terminou sem dinheiro e internada pela décima-primeira vez numa clínica de reabilitação. Várias bateristas de famosas bandas femininas como Go-Go’s, Luscious Jackson e Bangles, além da pioneira Fanny, dão seus depoimentos em apoio a Patty Schemel. E relembram, elas próprias, suas dificuldades em lidar com as desconfianças e os egos de suas vocalistas.

O filme trata “Celebrity Skin” como um esforço mal sucedido do Hole. Eric Erlandson, guitarrista e co-fundador, afirma que faltou alma ao disco, e credita esse defeito à ausência de Schemel. Mas tal apreciação do álbum é tendenciosa. “Celebrity Skin” é a versão mais polida e bem acabada das ideias que a banda antecipara em “Pretty on the Inside” e “Live Through This”. A despeito de suas medonhas histórias de bastidores, é possivelmente um dos 10 melhores discos de rock da década de 90 - o que não é pouca coisa. “Celebrity Skin” é também uma celebração de Courtney Love a Los Angeles e Hollywood, sua fauna excêntrica de astros e estrelas e o gosto do sucesso que ela enlouquecidamente perseguiu. O disco teve vendas na América pouca coisa inferiores ao badalado “Live Through This”: 1,4 milhão do primeiro contra 1,2 do segundo. Na corrida de longa distância, porém, “Celebrity Skin” é o álbum mais lembrado do Hole. A faixa título tem, até a publicação dessa coluna, mais de 12 milhões de execuções no serviço de streaming Spotify. É, de longe, a faixa mais ouvida da carreira da banda.

O Hole se desmantelou com a proximidade do fim do milênio. O rock alternativo que tomara o mundo de assalto com Kurt e Courtney não teria vez nos anos 00, e o que restava de integridade virou cinismo. O filme até oculta, mas Patty Schemel, após juntar os cacos, aceitou o convite para tocar em “America’s Sweetheart”, o terrível disco solo de Courtney Love, do qual salvam-se apenas os ótimos singles "Mono" e “Hold On To Me”.

Courtney, por sua vez, aprontou ainda um último e farsesco capítulo na trajetória do Hole. Em 2010, levando a cara de pau a novos patamares, convidou Michael Beinhorn, a quem chamara antes de nazista, para produzir o álbum "Nobody's Daughter". Para piorar, articulou a volta da banda sem a anuência de Eric Erlandson, com quem tinha um contrato por escrito resguardando o nome do grupo. O disco foi um fracasso comercial e Erlandson, à época, prometeu resolver a questão nos tribunais.


"Hit So Hard", o filme: a pancada foi grande



Hole, no auge da forma, entrega uma das melhores canções dos anos 90
Há seis meses -mais precisamente em setembro de 2010-, a banda canadense Voivod viria ao Brasil pela primeira vez em 25 anos de carreira.

Ainda que tenha perdido o sensacional guitarrista Dennis "Piggy" D'Amour em 2005, vítima de câncer, a banda optou por seguir na estrada. Recrutaram um substituto para a complexa tarefa e ainda contaram com o retorno em boa hora de Jean-Yves Theriault, o Blacky, baixista original, afastado desde 1990, que gravou quase todos os discos essenciais do Voivod.

Com 3/4 de seu line-up original, a banda tem viajado pelo mundo e tocado, na maioria das vezes, ao lado de outros veteranos da cena thrash dos anos 80. Não era exatamente o futuro que eu imaginava para o Voivod, mas, para eles, o gueto do metal é certamente um porto seguro.

O Brasil quase fez parte dessas andanças do Voivod pelo planeta. A apresentação foi cancelada em cima da hora e nossa entrevista pré-agendada com a banda também foi para o vinagre.

O motivo apresentado pela produtora é que os músicos não teriam obtido seus vistos de trabalho em tempo hábil. O show seria, então, remarcado para o início de 2011.

A versão extra-oficial dá conta de que o real motivo para o cancelamento teria sido a baixa procura antecipada por ingressos.

Seja qual for a verdade, o Voivod esteve, sim, na América do Sul no início de 2011. Na verdade, eles andaram por aqui há menos de 2 semanas, mas, no vácuo dos megashows de Iron Maiden e Ozzy Osbourne, a apresentação dos canadenses em Santiago do Chile mal reverberou no Brasil.


A experiência de ver o Voivod ao vivo em 2011 seria uma nostalgia do futuro. O quarteto de Quebec sempre esteve à frente de seus pares no quesito inovação. A cada novo disco, uma proposta musical mais avançada e complexa.

A banda nunca escreveu sobre bobagens satanistas, dragões ou mitologia. E também não me lembro de terem exaltado o "estilo de vida headbanger" em suas letras. A praia do Voivod sempre foi o hiper-espaço, a tecnologia controlando a espécie humana, os alienígenas espiando pela janela ou alguma autocracia num mundo imaginário. E a música sempre acompanhou essa onda.

Piggy tornou-se um ourives das dissonâncias, dos riffs intrincados e solos de guitarras lindamente tortos. E Snake deixou de gritar, tornando-se, cada vez mais, um cantor de fato.

O conceito em volta da banda era claramente a obra de artistas, coisa rara no metal. Em 1989, o baterista e designer Away criou a arte para a capa do clássico "Nothingface" em computador. É isso aí, ilustração digital em 1989. Modernidade sempre foi com esses caras.

A cultura musical do Voivod veio da inspiração causada por gente como Venom, Discharge e Motörhead, mas sua imaginação passeou pelas obras de King Crimson e Pink Floyd (de quem fizeram dois covers extraordinários), materializando essa complexa teia de referências num disco pouco compreendido e de surpreendente sensibilidade pop chamado "Angel Rat".

A disposição de expandir sua atuação para além dos clichês do thrash metal criou uma aura de culto ao redor da banda. Jello Biafra escreveu sobre isso no prefácio de "Worlds Away: Voivod and the Art of Michel Langevin".

E o ex-líder dos Dead Kennedys não é o único célebre fã fora da tribo metal. Kim Thayil (Soundgarden) e Matt Cameron (Pearl Jam) são outros admiradores confessos do Voivod.

Dave Grohl, que dispensa apresentações, vai ainda mais longe. É possível assistir no YouTube a uma entrevista em que ele dedica quase 20 minutos (!) para esmiuçar a discografia, os solos de guitarra e as letras do Voivod.

Uma rápida visita ao Chile para ver esses lendários canadenses teria sido uma saudável loucura.



Acima, uma pequena amostra do Voivod, ao vivo e em alto astral, em Santiago, executando a colossal "Tribal Convictions".
Em pouco mais de 20 anos de jornalismo musical diletante, entrevistei alguns personagens importantes na história do punk americano.

Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), Jerry Only (Misfits), Mike Muir (Suicidal Tendencies), Shawn Stern (Youth Brigade), entre outros.

Faltava um dos maiores.

Na sexta-feira passada, dia 29, falei com Jello Biafra por telefone. A conversa durou cerca de 35 minutos e foi publicada hoje no Portal Rock Press como aquecimento para os shows certamente históricos que Jello realizará nos próximos dias no Brasil (leia mais aqui).

Biafra sintetiza tudo que se imagina de um artista que está umbilicalmente ligado à história do punk. É altamente politizado, sarcástico, um grande letrista e observador da sociedade. A coerência de sua obra musical e de seu ativismo são sustentados pelo binômio talento/integridade.



Conheci o Dead Kennedys em 1986, quando a emblemática banda de San Francisco se separava e, de tabela, aumentava o vazio numa época em que o punk começava a definhar (o Black Flag, só pra citar outro exemplo, acabou no mesmo ano).

Curiosamente, enquanto a ressaca tomava conta da cena na América e na Europa, um quase desapercebido boom de punk rock dominou a 'classe de 86' em São Paulo. As divertidas "Ashtma" e "Nellie the Elephant", do Toy Dolls, tocavam nas festinhas da época e o disco de estreia do Dead Kennedys, lançado originalmente em 80, era editado sem autorização por aqui através da gravadora Continental. Tocou até no rádio e, dizem, vendeu cerca de 30.000 cópias, das quais Jello Biafra e seus comparsas não viram um centavo sequer.



Três anos depois o vocalista reaparecia num projeto com a visceral banda canadense D.O.A e, daí por diante, comprei tudo que Jello gravou.

Ouvindo cada parte dessa discografia imponente, dá para entender a reverência com que o mais importante punk vivo será recebido no Brasil para divulgar o excepcional The Audacity of Hype.

Para preparar os ouvidos, o Caixa Preta montou um Top 20 com uma canção escolhida de cada disco gravado por nosso terrorista predileto (pra chegar no número, incluímos faixas inéditas de uma trilha sonora, uma coletânea e uma participação num álbum do Napalm Death).

Se tiver paciência, monte o tracklist e já entre no clima dos shows:

  1. Holiday in Cambodia (DK's, Fresh Fruits for Rotten Vegetables, 80)
  2. Nazi Punks Fuck Off (DK's, In God We Trust, Inc, 80)
  3. Moon Over Marin (DK's, Plastic Surgery Disasters, 82)
  4. This Could Be Anywhere (DK's, Frankenchrist, 85)
  5. Chickenshit Conformist (DK's, Bedtime for Democracy, 86)
  6. Full Metal Jackoff (w/ D.O.A., Last Scream of the Missing Neighbors, 89)
  7. Message from Our Sponsor (w/ Keith LeBlanc, Terminal City Ricochet, 89)
  8. The Power of Lard (Lard, The Power of Lard, 89)
  9. Fork Boy (Lard, The Last Temptation of Reid, 91)
  10. Fireball (Tumor Circus, s/t, 91)
  11. Bad (w/ Nomeansno, The Sky is Falling and I Want my Mommy, 91)
  12. Convoy in the Sky (w/ Mojo Nixon, Prairie Home Invasion, 94)
  13. Sidewinder (Lard, Pure Chewing Satisfaction, 97)
  14. Electronic Plantation (No WTO Combo, Live from the Battle in Seattle, 99)
  15. 70's Rock Must Die (Lard, 70's Rock Must Die, 00)
  16. Allah Save Queens (w/ Carpet Bombers for Peace, Salt in the Wound - EP, 03)
  17. Plethysmograph (w/ The Melvins, Never Breath what You Can't See, 04)
  18. Those Dumb Punk Kids (Will Buy Anything) (w/ The Melvins, Sieg Howdy, 05)
  19. The Great and the Good (w/ Napalm Death, The Code is Red..., 05)
  20. I Won't Give Up (JB & TGSOM, The Audacity of Hype, 09)