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Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.

"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.

Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.

Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.

Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.



O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.

Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).

E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.

A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.

Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...



Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top

Quem se apressou a resenhar o derradeiro álbum de David Bowie, provavelmente quebrou a cara. Em 48 horas, "Blackstar" deixou de ser o possível início de uma nova fase do artista, como muitos apregoaram, para virar uma espécie de álbum-testamento. Trata-se do mais rápido caso de revisionismo da história da música pop.

O título do disco passou a ser entendido como o da estrela -ele, Bowie- que se apaga. E o tema da canção "Lazarus", acompanhado de um vídeo impactante, ganhou significado épico. E tudo porque o artista, ao invés de anunciar publicamente sua luta contra o câncer, optou por transformar em arte a própria finitude. Coisa de gênio.

Aos mais atentos, o recado já vinha sendo dado desde "The Next Day", o disco anterior e que quebrou um hiato de dez anos em que Bowie manteve-se longe do olho público, sem gravar ou excursionar. "Where Are We Now?", o emocionante single do álbum, é uma canção que agora conecta-se perfeitamente ao epitáfio de "Blackstar". David Bowie já previa o fim de sua passagem estelar e refletia sobre a mortalidade.


Antes dele, em um caso louco demais até para a ficção, Warren Zevon, grande menestrel do rock americano, previu o descobrimento de uma doença terminal. Zevon gravou em 2000 um álbum quase monotemático, com o sugestivo título "Life'll Kill Ya", em que desfia seu humor corrosivo sobre a fragilidade humana e a ideia de que a morte chega para todos.

"My Shit's Fucked Up", uma das grandes canções do disco, detalha, em primeira pessoa, uma visita de rotina ao médico seguida de um terrível diagnóstico.

Em tradução livre:

Bem, eu fui ao médico
E disse, "Estou meio zoado"
Ele respondeu, "Vou te falar a real, filho. Seu bagulho está fodido"

Eu disse, "meu bagulho está fodido?
Bem, eu não vejo como..."
E ele falou, "O bagulho que costuma funcionar -
Não vai mais funcionar agora."

Sim, sim, meu bagulho está fodido
Acontece aos melhores de nós
Os caras ricos sofrem como a gente
E isso vai acontecer com você


E que tal a faixa que dá nome ao álbum:

Do presidente dos Estados Unidos
Ao mais vagabundo astro do rock and roll
O doutor chegou e vai te atender agora

Ele não quer saber quem você é
Alguns têm terríveis, terríveis doenças
Alguns levam facadas, outros levam bala
Alguns morrem durante o sono
Na idade de cento e um
 

A vida vai te matar
É o que eu disse
A vida vai te matar
E então você estará morto
A vida vai te achar
Onde quer que você vá
"Que ele descanse em paz"
Foi tudo o que ela escreveu




Dois anos mais tarde, Warren Zevon passou a sofrer com enjoos e tonturas frequentes. Convencido por seu dentista, procurou um clínico e, tal qual como nas letras pessimistas de "Life'll Kill Ya", descobriu portar ele mesmo um câncer raro e inoperável.

Ao contrário de Bowie, Zevon tornou pública a sua condição. E assim como o inglês, apressou-se em gravar um último disco. O câncer devastador do artista, famoso pelo hit "Werewolves of London", comoveu a América e virou um documentário de partir o coração chamado Warren Zevon: Keep Me In Your Heart.

Dave Letterman, o mais notório e declarado fã de Warren, o convidou para uma espécie de despedida em rede nacional. Ao perguntar sobre o que este, diante da iminência da morte, aprendera sobre a vida, teve como resposta uma frase que tornou-se, desde então, um bordão muito repetido: "Aproveite cada sanduíche".

David Bowie e Warren Zevon, cada qual à sua maneira, nos ensinaram muito sobre viver e morrer. 


Os últimos dias de Warren Zevon mostrados com rara sensibilidade. Separe os lenços
Pense em dois caras imortais, daquele tipo raro que ganha o status de lenda ainda em vida. Artistas que romperam barreiras e amealharam fãs das mais diversas origens e gerações. Rebeldes, ousados, transgressores. Frutos de um mundo que não existe mais.

Lemmy Kilmister e David Bowie morreram. E como será o mundo sem eles?

Ian Fraser e David Jones nasceram na mesma Inglaterra do pós-guerra. O primeiro, criado pela mãe e a avó. O segundo, filho de uma família em que abundavam casos de doenças psiquiátricas. Ambos apaixonados pelo rock'n'roll americano e que terminaram salvos, e por extensão também nos salvaram, graças à música.

Lemmy teve um discreto sucesso local com o Rockin' Vickers na década de 1960 e até tocou guitarra em um disco de Sam Gopal, veículo para o músico da Malásia tocar sua tabla em canções viajandonas. Bowie, por sua vez, foi saxofonista em bandas largamente ignoradas e queimou um cartucho atrás do outro até terminar empregado em uma agência de publicidade. Os dois ralaram até conquistar o sucesso, que veio primeiro para David Bowie, com "Space Oddity", provando que o jovem artista já era, naquela altura, uma antena de sua época. Lemmy ainda passaria pelo lendário grupo de space rock Hawkwind, onde contribuiria com seu único e pequeno sucesso comercial, "Silver Machine", até fundar o bem-sucedido Motörhead.


A fama de Bowie é incomparavelmente maior, assim como seu impacto na cultura popular. Viveu duzentas vidas numa só e estendeu sua influência para a moda, os costumes e as artes visuais. É um farol de nosso tempo. Reinou no glam rock, criou Ziggy Stardust e enlouqueceu uma geração. Depois se reinventou tantas outras vezes, passeando pelo funk, soul, new wave e a eletrônica. Imprimiu sua marca em todos os produtos da cultura pop.

Lemmy contentou-se com um feito mais modesto: estabelecer o arquétipo definitivo do que deve ser um rock star. Íntegro, carismático, verdadeiro. Viveu a vida que pregou até seus últimos dias. Como seu finado amigo Phil Lynnot, do Thin Lizzy, Lemmy era do tipo que saía para as compras de jaqueta de couro, óculos escuros e botinas. Era um rockeiro em tempo integral. Não importava se estivesse em cima do palco, diante de milhares de fãs, ou numa espelunca qualquer, apostando numa máquina de caça-níqueis.

A morte de Lemmy Kilmister me atingiu como uma bomba. O mundo todo na frequência das festas de fim de ano e vem a notícia de que aquele cara que julgávamos à prova de tudo tinha sucumbido a um câncer agressivo, descoberto apenas dois dias antes. O inglês de Stoke-O-Trent, mas que morava em Los Angeles, morreu de pé. Quinze dias antes ainda estava excursionando pelo mundo, como fizera durante os 40 anos anteriores. O baixista do Alice in Chains, Mike Inez, previra no documentário "Lemmy: 51% Motherfucker, 49% Son of a Bitch" que o líder do Motörhead teria um funeral de chefe de estado. E a comoção internacional teve quase essa proporção.

A morte de David Bowie, ao contrário, me deixou inicialmente desorientado. Um tipo estranho de dèja-vu. Porque o inglês de Londres, mas que morava em Nova York, também acabara de completar seu aniversário. As coincidências com a morte de seu compatriota não faziam sentido. E ainda, no caso de Bowie, com o choque amplificado pelo lançamento do ótimo álbum "Blackstar" e o atordoante vídeo de "Lazarus", que transformou sua morte numa expressão de grande arte. De Paul McCartney a Madonna, de Mike Ness a Vernon Reid, o mundo se curvou à sua grandiosidade.

E é apenas o começo do fim. Somos a geração que terá o carma de enterrar seus últimos heróis.


O coup de grace de Bowie: transformar a proximidade do fim no último capítulo de sua obra


Lemmy Kilmister caiu atirando. Um derradeiro álbum em 2015 e shows até seus últimos dias

PS: Alguns leitores contactaram o blog para avisar que a foto que ilustra essa coluna é uma montagem de Internet. Fica então o registro. Mas vamos mantê-la publicada, pois é tão boa que deveria ter existido. ;)
(Republico abaixo coluna que escrevi em 16 de janeiro último, para o blog da Red Star Recordings, a respeito da morte Kim Fowley).

Kim Fowley, produtor das Runaways e excêntrico personagem da cena musical de Los Angeles, morreu aos 75 anos de idade. Foi ele quem concebeu a ideia da banda feminina de punk, apresentou as integrantes umas às outras e produziu o disco epônimo de 1976, além de Queens of Noise e Waitin' for the Night. Fowley também co-escreveu o grande hit do grupo: "Cherry Bomb".

Em 2001, o jornalista e escritor Marc Spitz -da revista Spin e autor da última biografia de David Bowie- juntou-se a Brendan Mullen, ex-proprietário do Masque, templo underground de Los Angeles, para escrever um livro sobre as origens da cena punk de LA. Adotaram a mesma fórmula do famoso "Mate-me, por favor", de Legs McNeil, e entrevistaram todos os importantes personagens que colocaram a cidade no mapa do punk, hardcore e new wave. O livro "We Got the Neutron Bomb" é ótimo, mas, infelizmente, nunca foi lançado no Brasil.

Selecionei abaixo trechos de depoimentos de Kim Fowley no capítulo do livro dedicado às Runaways e que também traz, claro, as opiniões de Joan Jett, Cherrie Curie e outras pessoas ligadas ao grupo.

  Kim Fowley e Joan Jett
  • "A solidão de um visionário é você ser a única pessoa em dado instante do universo a perceber a magia. Eu sou uma pessoa mágica, então reconheço outras pessoas mágicas. Precisa de alguém assim para identificar outro igual".
  • "O mundo é dos homens, já dizia James Brown. E ele estava certo. Quando você pega mulheres para fazer coisas tradicionais masculinas, você terá controvérsia e combustão. As Runaways foram minha ideia, e eu fui atrás de encontrar as pessoas para integrar o grupo. E através de uma sequência de confusão, sorte e bom gosto, cinco garotas foram selecionadas".
  • "Quando eu conheci Kari Krome, ela era muito letrada e estava muito mais interessada em Jack Kerouac do que em Chuck Berry. Ela não tinha pontencial para rock star. Ela é uma garota bonita de se olhar, mas você precisa ser Steven Tyler ou Iggy Pop. Kari Krome também não era Patti Smith. Patti estava interessada nas mesmas coisas que Kari Krome, mas acontece que uma delas (Patti) era uma performer e a outra (Kari) escrevia letras para os outros interpretarem".
  • "Por que não poderia haver um Elvis garota, ou os Beatles femininos, ou uma Little Richard ou Bo Diddley de saias? Sempre houve a versão feminina de tudo na música, mas ninguém jamais havia recrutado cinco garotas e dito: 'Essas cinco meninas são mágicas, e se elas tocarem essas canções e tiverem certo estilo, o público vai comprar'. Foi como fazer uma seleção de elenco para um filme de cinema".
  • "Fui eu quem disse às Runaways o que era bom e o que era mau. Era um navio apertado e a tripulação se rebelou. Elas eram meninas, não mulheres; elas tinham realmente a idade que nós alardeávamos. Todas tinham dezesseis anos, estavam no colegial... Houve episódios internos de histeria adolescente, do tipo: 'Você usou tal peça de roupa da mesma cor que eu, e vou brigar por isso agora'. Ou então era: 'Não fale com o meu namorado ou vou furar seus olhos, vadia'".
  • "Eu já tinha visto Darby Crash e Pat Smear [dos Germs] antes. Eles eram groupies masculinos à espreita das Runaways. Eram mais como irmãozinhos, mas havia alguma atitude de groupie por trás da postura deles".

O ano de 2011 na música pop foi das mulheres.

O reinado do R&B vagabundo americano vai muito bem, obrigado. Suas estrelas nunca rebolaram tanto, nem ganharam tanto dinheiro. Na matriz, a morte de Amy Winehouse a transformou imediatamente em ícone e Adele está há trocentas semanas no topo das paradas.

De quebra, PJ Harvey sacodiu a poeira e gravou um dos discos mais aclamados de sua carreira: o poderoso e minimal Let England Shake. Com Polly Jean, não tem erro.

Em meio a tudo isso, houve espaço pra surgir um talento que roubou o brilho: uma inglesa, filha de pai italiano, chamada Anna Calvi. Seu primeiro disco saiu há exatamente um ano e a crítica o colocou no pedestal.

Mas, pelo menos por enquanto, você não vai ouvir Anna Calvi no rádio ou na trilha sonora da novela, ainda que a combinação da beleza gelada com o talento assombroso seja combustível suficiente para fazer dela uma estrela.


A adulação dos fashionistas de Paris é um primeiro sinal de aceitação e pode até repelir o público que desconfia desse tipo de associação marota. Mas não se engane: se Calvi teve seus préstimos requisitados pelo povinho da moda, é porque pouca coisa hoje soa tão cool.

Cantora de voz marcante, interpretações dramáticas e sem maneirismos neo-soul, é claramente inspirada por gente como Leonard Cohen, David Bowie e Elvis. Como Reverend Horton Heat, regravou também a eterna "Jezebel", de 1951, numa pista que mostra por onda anda seu imaginário.

Mas Anna Calvi é também guitarrista de fina estirpe. Suas incursões pelo vibratto surf remetem ao bad ass Link Wray e, mais ainda, ao mestre dos mestres, Ennio Morricone. É como se Calvi estivesse desfiando os nós deixados pelo maestro há 50 anos só pra que sejam, a seu devido tempo, surrupiados por Quentin Tarantino para alguma trilha imaginária.

O drama e a fúria de Anna Calvi são algo do melhor que 2011 nos deixou.


"Blackout": uma das grandes canções do disco de estreia de Anna Calvi


A bela e david-lynchiana "Suzanne And I"
Há alguns anos, Dave Grohl revelou em entrevista que durante uma turnê do Nirvana, Kurt Cobain tocava sem parar uma fitinha cassete com Smithereens e Celtic Frost. Dá para entender que a sensibilidade pop e o som sujo do Nirvana tenham saído de combinações bizarras como espremer "A Girl Like You" e "Morbid Tales" na mesma fórmula.

Muito longe de Seattle, Thomas Warrior, mentor do Celtic Frost, era também um secreto admirador de música pop. A banda suíça regravou, com diferentes resultados, canções de gente como Roxy Music, David Bowie e Wall of Voodoo.

A troca de influências entre artistas tão diferentes resultou em discos emblemáticos. Cobain foi o artesão que resgatou a nata dos sons underground e a reprocessou na forma de um álbum que, há 20 anos, promoveu uma das últimas revoluções na música popular, dando início a uma corrida do ouro atrás das mais quentes bandas lado B.

A obra do Nirvana teve fim abrupto com In Utero, atestado de um artista em rota de colisão com a fama e cuja válvula de escape era a autosabotagem pop. Seus sucessos eram impiedosamente descontruídos ao vivo e canções pouco palatáveis eram incluídas num repertório que vinha de estrondosa aclamação.

Tom Warrior correu riscos inversos: levou a inventividade a um gueto fechado e radical. O sinistro power trio de Zurique já tinha flertado com o crust punk e formatado o som do death/black/goth metal quando, em 1987, lançou o inclassificável Into the Pandemonium.

O álbum costurava a conhecida sonoridade pesada e sombria com material nada óbvio. Da regravação de um sucesso da new wave até uma peça com arranjo de cordas na voz da cantora belga Manü Moan, passando ainda por um torto tema orquestral, uma faixa eletrônica e o encontro do metal europeu com backing vocals reminiscentes de R&B.

A influência do Nirvana, em sua existência relâmpago, é incomensurável. Nevermind tem status de grande arte e Grohl, sobrevivente na selva do music business, equilibra hoje o estrelato do rock de arena do Foo Fighters com pequenos prazeres como gravar com Killing Joke e Queens of the Stone Age.

O Celtic Frost seguiu trajetória errática até o final. Tentou arruinar a própria carreira ao emular o metal farofa de Los Angeles no álbum Cold Lake, cujo resultado é uma divertida e pouco comercial mistura de glam com barulho. Em 2006, o grupo saiu da letargia para gravar seu apropriado epitáfio musical: o sombrio e depressivo Monotheist, disco de cabeceira para góticos e fãs de vampiro em geral.

As aventuras musicais de um lado e outro se chocariam em "Big Sky", faixa do álbum homônimo do Probot. À distância de um oceano, um pouco do Celtic Frost e do Nirvana finalmente se encontraram.

Impossível é nada.


Em 1985, o Celtic Frost ataca de "Circle of the Tyrants"


"Breed": uma das gemas de Nevermind ao vivo
Rock'n'Roll High School
(Rock'n'Roll High School, 1979)
Misture um clipe do Twisted Sister com qualquer filme retardado sobre fraternidades estudantis, de preferência com um aloprado como John Belushi, e você tem Rock'n'Roll High School. Anárquico até o caroço e com a participação dos Ramones como a banda endeusada pelos alunos rebeldes. Já valeria pela imperdível cena com Dee Dee Ramone tocando baixo no banheiro da maluquete Riff Randell.

Estranhos no Paraíso
(Stranger Than Paradise, 1984)
O cineasta cult Jim Jarmusch viu e ouviu tanto punk rock na vida que é o único não-músico entrevistado no documentário Punk: Attitude, de Don Letts. Isso diz alguma coisa. O clássico "I Put a Spell on You", de Screamin Jay Hawkins, dá liga nessa história minimalista sobre um cool e entediado novaiorquino que recebe a inesperada visita de uma prima vinda da Hungria.

Repoman - A Onda Punk
(Repoman, 1984)
Participação do Circle Jerks, ponta do lendário disc-jóquei Rodney Bingenheimer e ótima música-tema de Iggy Pop num dos roteiros mais absurdos de todos os tempos. Mistura de punk rock, OVNI's e teorias conspiratórias com o submundo da busca e apreensão de veículos. Não entendeu? Assista.

Um amor e uma .45
(Love and a .45, 1994)
É o filme que Eddie Spaghetti teria feito se fosse cineasta. Road movie psicodélico sobre um casal de foras-da-lei que foge para o México após se meter numa série de confusões. Tem Peter Fonda como um hippie sequelado pelo ácido e Reverend Horton Heat -em pessoa- tocando num bordel imaginário ao sul da fronteira. Direção musical de Tom Verlaine e trilha sonora faiscante com Butthole Surfers, Flaming Lips, Meat Puppets e Johnny Cash.

Velvet Goldmine
(Velvet Goldmine, 1998)
O herói (ficcional) do glam rock Brian Slade desaparece do mapa após incendiar a década de 70 e forjar a própria morte. Em 84, um jornalista britânico tem a tarefa de encontrar Slade e passar a limpo sua história selvagem na música pop. Livremente inspirado em David Bowie, fase-Ziggy, e em Iggy Pop, via o personagem Curtis Wild, intepretado com vigor por Ewan McGregor.


Quase Famosos
(Almost Famous, 2000)
Cameron Crowe faz um relato semi-autobiográfico sobre sua adolescência como repórter da Rolling Stone. No filme, um garoto de 15 anos embarca na turnê da banda Stillwater -mui inspirada nos Almann Brothers- para conseguir sua primeira matéria. Uma história sobre a perda da inocência, os excessos e a megalomania do rock dos anos 70 entupida de referências.

C.R.A.Z.Y.
(C.R.A.Z.Y, 2005)
Produção canadense traz um drama familiar singular, repleto de referências pop e o melhor uso de Pink Floyd no cinema. O protagonista, Zac, em conflito com a sexualidade, viaja em seu mundo particular ouvindo "Space Oddity", de Bowie, mas tem que lidar com um pai machão cujo maior objeto de fetiche é um LP da cantora country Patsy Cline. Um dos melhores filmes dos anos 00.

Tenacious D - Uma Dupla Infernal
(Tenacious D in the Pick of Destiny, 2006)
Um músico de rua de meia-idade, sustentado pela mãe, ganha um fã incondicional e monta com ele uma dupla que busca chegar ao megaestrelato. Antes disso, porém, eles precisam encontrar uma palheta de guitarra mágica e feita com lascas do chifre do capeta. Participação hilária de Ronnie James Dio e um Jack Black incontrolável.

Adventures of Power
(Adventures of Power, 2008)
Já imaginou escrever um roteiro baseado em personagens que praticam air guitar? Então esqueça: Adventures of Power é mais pirado que isso. O filme trata de um nerd apaixonado por música e com zero talento musical que descobre no air drums sua verdadeira vocação. E tudo vai mudar quando ele se conectar ao submundo dos aspirantes a air drummers. Um besteirol surreal inédito no Brasil.

Piratas do Rock
(The Boat that Rocked, 2009)
Na década de 60, um barco em águas internacionais hospeda uma rádio pirata flutuante com um bando de DJ's alucinados. Recriado com o mood ingênuo da época, o filme é uma homenagem ao rádio e aos swingin' sixties. Atuações imperdíveis de Phillip Seymour Hoffman e Bill Nighy, e uma trilha crocante com Kinks e Stones.

Gostou da lista? Comente e indique seus filmes.


Nada é impossível: air drums como tema de um longa-metragem


Em C.R.A.Z.Y., é melhor não brincar de imitar Ziggy Stardust
"The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é um desses raros álbuns que teriam tornado o artista uma lenda mesmo que não tivesse feito nada antes ou depois. (…) Se toda a carreira de Bowie nos anos 60 e comecinho dos 70 não tivesse existido, e se ele fosse atropelado por um ônibus de dois andares na primavera de 1972, ainda estaríamos falando sobre ele. (…) Essa é a magnitude de Ziggy, o disco".

O parágrafo acima é um dos melhores nas mais de 400 páginas que compõem "Bowie", recente biografia de David Bowie escrita pelo jornalista Marc Spitz.

Há uns 10 anos li outro livro de Spitz, também muito bom, chamado "We Got the Neutron Bomb", cuja fórmula repete exatamente aquela do badalado "Mate-me, por favor": depoimentos de gente da fauna musical remontando um momento histórico. No caso, o punk de Los Angeles.

Em "Bowie", Spitz vai além do trabalho de repórter e editor, e conta a história de David Bowie à sua maneira. O jornalista fez um minucioso trabalho de pesquisa. Visitou a casa onde Bowie nasceu, conheceu os bares e clubes que ele frequentava, entrevistou muita gente e leu-assistiu-ouviu muito do que seria a fonte de inspiração do artista. De antigos seriados e programas de TV até bandas obscuras dos anos 60.

O formato segue a cronologia clássica, mas com muitos insights e observações em primeira pessoa. O autor garante, logo no prefácio, que o desafio de fazer o livro foi equilibrar o jornalista e o fã assumido. Talvez por isso, Spitz tenha escolhido imprimir um estilo pessoal para contar a vida de outra pessoa. Não é como se o autor fosse um narrador neutro. Ele próprio faz o papel de um observador que, vez ou outra, ilustra como foi afetado pessoalmente pela música de Bowie.


Os highlights na carreira do biografado são mais que conhecidos. Mas "Bowie", o livro, tem farto material para devoradores de cultura pop e que começa ainda na infância do menino David Jones.

Como outros artistas de sua geração, Bowie cresceu numa modesta família de classe média baixa. Sua infância foi passada no ambiente do pós-guerra europeu e, até por viver com adultos ainda assombrados pelo passado recente do nazismo, teve o imaginário capturado pela efervescência e prosperidade que reinavam do outro lado do oceano.

Na pré-adolescência, testemunhou e se apaixonou pela primeira geração do rock'n'roll. Ganhou uma guitarra do pai -um ex-empresário cultural falido- e, mais tarde, tornou-se aluno de Owen Frampton, pai do aspirante a guitarrista Peter Frampton.

Virou mod, hippie, rockeiro psicodélico e adepto da folk music. Bowie era uma esponja e muito do que ele ouviu e das pessoas com quem se relacionou, foi parar em sua biblioteca mental para ser, a seu tempo, reprocessado de forma singular.

E não pense que foi fácil: David integrou várias bandas mal sucedidas nos anos 60. Seu amigo, contemporâneo e rival criativo Marc Bolan atingiu o sucesso muito antes, fomentou a onda de idolatria batizada de T. Rextasy e depois virou poeira perto do sucesso colossal de Bowie. Quando morreu, num acidente de carro, sua obra já estava congelada no tempo.

Bowie fez o contrário. Se meteu com o povo do teatro, da mímica e das artes plásticas. Foi influenciado por muita gente, como Dylan, Iggy Pop e Velvet Underground, mas influenciou não apenas o triplo de artistas como, pelo menos, três gerações inteiras de fãs. Tornou-se um ícone cultural da década de 70 e relevante até os anos 00.

Algumas passagens do livro são imperdíveis, como a "fase Los Angeles", pós-Ziggy, em que Bowie, um então cocainômano incontrolável, foi morar na casa de Glenn Hughes, na ocasião baixista do Deep Purple. O criador de "Space Oddity" e "Starman" estava, na época, com a cabeça literalmente nas estrelas. Fruto de uma família com diversos casos de esquizofrenia -incluindo seu meio-irmão, Terry Jones, que foi consumido pela doença-, David desembestou a falar sobre extraterrestres, OVNIs, magia negra e magia branca. Nessa fase, ficava 72 horas sem dormir e recomeçava, do mesmo ponto, conversas que havia tido dias antes.

Quando desmantelou a banda de apoio Spiders from Mars e aposentou o herói glitter Ziggy Stardust, deixou órfã toda uma legião de fãs. Cherry Currie, cantora das Runaways, viu um show de Bowie na turnê "Philly Dogs", em que reinterpretava o material do disco Diamond Dogs com a pegada do soul da Filadélfia. Quando viu o ex-alien andrógino metido num, como diz o autor, "terno de michê porto-riquenho", ficou horrorizada.

Interessantíssima também a descrição do período que levou à criação de Ziggy e ao sucesso de Alladin Sane, em que Bowie era empresariado pelo astuto advogado Tony Defries, fundador da produtora MainMan. A agência empresariava gente como Lou Reed, Iggy Pop e alguns maluquetes egressos da trupe de Andy Warhol. Bowie era o centro de tudo e sua influência pode ser medida por ter, inclusive, mixado o clássico Raw Power, dos Stooges.

A leitura faz com que os anos 70 se passem em frente aos nossos olhos. Sem ter estado lá, dá para criar conexões imaginárias entre o modus operandi da MainMan e da produtora de cinema independente BBS -do trio Bert Schneider, Bob Rafelson e Steve Blauner- que lançou alguns filmes, como o emblemático Easy Rider - Sem Destino, que definiram aquele mesmo período e implodiram a antiga Hollywood. A cultura popular estava em ebulição.

Mas há muito mais para ler e se impressionar. A vida de Bowie em Berlim, quando aliou-se ao cerebral produtor Brian Eno para criar a experimental "Trilogia de Berlim" -formada pelos discos Low, Heroes e Lodger- que influenciou, de uma única vez, a new wave, o pós-punk e o rock industrial. Ou então o sucesso arrebatador de Let's Dance e as diversas parcerias de sucesso com produtores como Tony Visconti e Nile Rodgers, e músicos do quilate de Robert Fripp, Mick Ronson, Trent Reznor e Carlos Alomar.

"Bowie" é escrito com conhecimento quase enciclopédico de cultura pop, o que, além de tudo, torna a experiência ainda mais enriquecedora. Como prega o autor, num de seus poucos clichês, é material para "ler no volume máximo".

LEIA TAMBÉM:

> Lemmy, David Bowie e o começo do fim

> David Bowie e Warren Zevon - lições de vida e de morte


Bowie, em 1969, interpreta seu primeiro hit, "Space Oddity". O personagem Major Tom seria citado novamente pelo próprio Bowie em "Ashes to Ashes", de 1980, e "Hallo Spaceboy", de 95. E também pelo alemão Peter Schiling em "Major Tom (Coming Home)", de 1983, seu único sucesso.


A belíssima "Life on Mars?", do clássico álbum Hunky Dory, foi escolhida pela revista Q, em 2007, como a terceira melhor canção pop de todos os tempos.