ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe

Crossover: substantivo
Na música popular:
- o ato de migrar de estilo, normalmente com a intenção de obter apelo comercial junto a um público mais amplo;
- música que atravessa estilos, compartilhando atributos de vários outros gêneros musicais e, portanto, muitas vezes atingindo uma maior audiência.
O dicionário não mente: as primeiras bandas punks americanas a incorporar elementos do thrash metal, o fizeram por questão de sobrevivência. E o fato desse subgênero musical chamar-se "crossover" não é mero acidente.
Na próxima terça-feira, dia 22, um dos fundadores desse estilo se apresentaria no Brasil. A turnê, que incluiria datas no México, Chile e Argentina, terminou cancelada por problemas com as agências organizadoras. O grupo em questão é o D.R.I., sigla para Dirty Rotten Imbeciles, fundado em 1982 na cidade de Houston, Texas. Eles definiram os pilares do gênero e também o batizaram, através do emblemático álbum "Crossover", de 1987.
Mas antes de falar da cena criada a partir da fusão desses estilos musicais, é importante conhecer o contexto em que ela surgiu. Em depoimento ao jornalista Marc Spitz, o vocalista do Bad Religion, Greg Graffin, revelou: “Por volta de 1985-86, não existiam [nos EUA] mais bandas de
punk rock na definição clássica. Havia pouquíssimos selos punk. Esse
era o contexto da época e também uma das razões pelas quais o Bad
Religion foi considerado revigorante quando lançou o álbum ‘Suffer’. Na Alemanha, nos chamavam de salvadores da chama punk e tocávamos
para plateias de mil pessoas, enquanto nos EUA tínhamos sorte se
conseguíssemos tocar em um clube minúsculo de Orange County…”.
O crossover surgiu nessa época e, mais do que uma experiência sonora, representou o esforço de bandas hardcore/punk em se aproximarem dos fãs de
metal. Musicalmente, essa mistura só deu caldo porque trabalhou com estilos que eram primos entre si, pois que o thrash metal, originalmente, já havia bebido na fonte de Bad Brains, Black Flag e companhia.
Não é fácil definir o disco que trouxe a primeira gravação de
crossover. “Animosity”, do Corrosion of Conformity, lançado em 1985, é
citado por muitos como a pedra fundamental do estilo. Nos anos
seguintes, várias bandas embarcaram nessa sonoridade criada a partir da
velocidade do hardcore e dos arranjos, riffs e solos de
guitarra herdados do thrash. Suicidal Tendencies, Crumbsuckers, English
Dogs, Agnostic Front, Gang Green
e Cryptic Slaughter são alguns dos grupos que promoveram essa fusão. E o fato de todas essas bandas serem egressas da cena punk só confirma outra vez o que diz o dicionário.
Outro indício que o público-alvo desse subgênero eram os adeptos do thrash é que os principais álbuns de crossover foram editados por gravadoras
como Metal Blade e Combat. O hardcore mudava para sobreviver e era vendido em nova embalagem a plateias metaleiras.
 |
| D.R.I. em 1987 |
|
O
D.R.I., autor do disco que encapsulou todos os parâmetros do estilo, é a banda que terminou mais identificada com o crossover. Gravaram apenas outros três álbuns desde 1987, e todos seguindo a cartilha do gênero, com maior ou menor sucesso.
Olhando retrospectivamente, o crossover fechou o círculo que conecta dois estilos musicais nascidos nas ruas e avessos às fórmulas existentes. Tanto thrash quanto hardcore sobreviveram à margem do rock comercial, com bandas excursionando em velhos
furgões, tocando em
espeluncas e dependendo da divulgação de fanzines e programas de
rádio malditos. Os grupos oriundos do punk expressavam essa dura realidade com letras críticas ao 'establishment' e influenciaram parte do thrash metal. Sacred
Reich, Vio-lence e Megadeth, entre outros, adotaram também um discurso ácido e repleto de críticas sociais.
Essa
troca de influências explica a existência de álbuns como “Speak English
or Die”, do S.O.D., e também os elementos punk que contaminaram o som
dos novaiorquinos Anthrax e Nuclear Assault. E como em toda onda,
houve também aqueles pegaram o trem em movimento e já nasceram tocando
crossover – casos de Mucky Pup, Excel e Ludichrist.
E por que teria o crossover passado anos como um fóssil underground, até ser
redescoberto pela nova geração? Talvez tenha sumido em
decorrência da curva descendente do thrash, que perdeu a popularidade na
virada para a década 90. Agnostic Front e English Dogs, por exemplo, descartaram os
elementos de metal e reassumiram a sonoridade punk/HC depois de uns anos. Já o Corrosion of Conformity foi mais longe: explodiu a ponte e terminou metido no
stoner e southern rock.
Quase três décadas após seu auge, o crossover experimentou um 'revival'
proporcionado pela redescoberta do thrash. O gênero passou a produzir novos grupos que decalcam
não apenas o som, mas também a estética e a moda de rua daqueles tempos –
bandanas, bonés de aba invertida, bermudas coloridas e tênis de skate.
Difícil mesmo vai ser gravarem discos tão originais quanto esses abaixo.
-------
Discografia básica do crossover:

Animosity – Corrosion of Conformity (1985)

Speak English or Die – S.O.D. (1985)

Cause for Alarm – Agnostic Front (1986)

The Age of Quarrel – Cro-Mags (1986)

Crossover – D.R.I (1987)

Join the Army – Suicidal Tendencies (1987)

Immaculate Deception – Ludichrist (1987)

Can’t You Take a Joke? – Mucky Pup (1987)

You Got It – Gang Green (1987)

The Joke’s On You – Excel (1989)
Com o objetivo de resgatar algumas importantes entrevistas que realizei na última década e meia, estreia agora no blog a série "Caixa Preta Entrevista".
Nesse 'post' inaugural, republico, na íntegra, a conversa que tive com Mike Muir, líder do Suicidal Tendencies. A entrevista, realizada por telefone, foi capa da edição nº 67 da revista Rock Press (reprodução abaixo) e realizada em ocasião do festival Claro Q É Rock. O Suicidal, escalado para se apresentar no evento, terminou cancelando sua participação por conta de um problema de saúde do próprio Mike Muir.
Confira abaixo o resultado da conversa com esse sujeito que fez história no hardcore, no thrash metal e que ainda aprontou com os funks do Infectious Grooves.
Você vem produzindo muita música de uns anos
pra cá. Seja com o Suicidal Tendencies,
com o Infectious Grooves ou com seu projeto solo, Cyco Miko. Isso tem alguma relação com o fato de você
ter montado seu próprio selo?
MIKE MUIR – O mais irônico nisso é que, se ainda
estivéssemos na Sony, teríamos mais material lançado, pois, hoje, gravamos
muita coisa que não lançamos. Quando
você está numa 'major', você precisa
gravar discos e eles te providenciam estúdio, te pagam por isso. Você tem que cumprir todo um processo. E agora nós temos nosso próprio estúdio e,
até porque não precisamos lançar nada, vamos lá tocar apenas pela curtição. Às vezes convidamos nossos amigos para tocar
conosco e gravamos algumas coisas, mas sabemos que não temos obrigação de
lançar aquilo. Mas se estivéssemos na
Sony, eles viriam até nós e diriam: “Hey, o que está havendo? Vocês precisam
lançar um disco, precisam sair em turnê!’.
E como eu passei por uma cirurgia nas costas há um ano e meio, isso, de
certa forma, nos impediu de excursionar.
Então, eu pensei: “É melhor não
lançar nenhum disco agora”. Por causa
disso, tivemos a possibilidade de compor muita música e pela simples razão de
que gostamos disso. Hoje em dia, quando
queremos ir para o estúdio, não temos que gastar nada, mas antes tinha alguém
pagando por isso. A música não nos custa
nada agora e isso evita que a gente tenha aqueles compromissos negativos. O lado bom é que podemos compor porque
gostamos, sem ter a preocupação de lançar alguma coisa. Por outro lado, temos que negociar (o lançamento dos discos) com cada país
separadamente e gastamos bastante tempo cuidando de negócios, quando
preferiríamos estar apenas tocando. Mas
no fim das contas, estamos mais satisfeitos agora.
É uma sensação melhor do que estar numa 'major'?
MIKE MUIR – Sim. E o mais engraçado é que ainda tenho muitos amigos
que trabalham para gravadoras, e eles sempre dizem: “Quando quiser gravar um
disco, me telefone” (risos). E alguns deles me falam: “Poderíamos
conseguir algo, mas não sei você ficaria satisfeito. As coisas mudaram, houve essa mudança louca (na indústria)…”. E também há outros que dizem: “Vamos arranjar
um contrato e eu te garanto que há muita gente aqui que ama a banda. Podemos ir a departamentos de promoção e falar
com todas as pessoas que viram vocês ao vivo antes de trabalharem aqui”. Esse tipo de coisa. Para nós, isso volta àquela questão: seria
ótimo para agradar o ego, porque saberíamos que nossa música estaria sendo
ouvida por muito mais gente. Mas,
pessoalmente, prefiro estar na posição que estou: dando essa entrevista para
você, indo tocar num festival em que muita gente não saberá quem somos e onde
vamos encontrar gente louca que ama o Suicidal (risos) ou aqueles que ainda eram muito jovens da última vez que
tocamos aí, há oito anos. Acontece muitas
vezes de pessoas irem ver uma banda que gostam e nem sabem quem somos. E após do show muitos deles já estão gritando
(entusiasmado): “Suicidal!
Suicidal!”. Depois disso, eles começam a
mostrar a banda para os amigos e… Foi
assim que eu me liguei em música! Quando
meus amigos gostavam muito de uma banda, eles sempre me apresentavam à música
dela. Mas agora, com a MTV e as estações
de rádio comerciais, há muita gente, especialmente nessa onda de pop-punk, que
começa uma banda hoje e vende 1 milhão de discos amanhã. Infelizmente, esse é o objetivo deles. Essa não é a nossa praia. Lançamos nosso primeiro disco há 22 anos e ainda
existe gente que o escuta. Isso é mais
importante. Há muitos álbuns que saíram
em 1983 e venderam bem mais que o nosso, mas os quais ninguém nunca mais
comprou. Preferimos que a música dê o
recado.
Nos anos 80 vocês não eram a única banda que
misturava hardcore, punk e metal. Havia
todo um contexto em que isso acontecia, com grupos com Excel, D.R.I, Corrosion
of Conformity e outros. Você sente que,
hoje em dia, o Suicidal está sozinho ou faz parte de algum cenário?
MIKE MUIR – Veja só, quando nosso primeiro disco saiu, uma revista
de punk disse: “Dane-se! Isso é metal”.
Quando o segundo álbum foi lançado, a mesma revista afirmou que nosso
disco de estréia, que eles haviam dito ser uma droga, tinha se tornado, do
nada, um clássico do punk rock e que, agora sim, nós tínhamos virado
metal! Aí o terceiro saiu e publicaram
algo como: “Os dois primeiros eram tão bons, mas dessa vez eles se
transformaram pra valer numa banda de metal” (risos). Havia toda essa
situação naquela época, mas nós não dávamos a mínima. Durante todo aquele período, vimos muita
gente mudar. Banda convictas de metal
passaram a usar calças spandex e maquiagem.
Nós nunca mudamos a maneira que nos vestimos ou nosso jeito de fazer as
coisas. Você pode notar nossa influência
em muitas bandas, mas boa parte disso se perde no caminho. Então, acho que éramos uma banda muito viável
e o que vai acontecer nesse festival (no
Brasil), é que, após o show, muita gente vai pensar: “Como eu nunca tinha
ouvido falar dessa banda antes?”. E
alguém vai virar pra eles e dizer: “O primeiro disco dos caras saiu há 22
anos”. E eles vão se surpreender: “Sem chance! Eles não podem estar ser tão velhos!” (risos).
Então, é por aí… Nós não somos os Rolling Stones, que só estão dando
umas voltas por aí. Nós ainda estamos
detonando, botando pra quebrar! Quando
perdermos esse pique, não teremos mais nada a dizer.
Você falou sobre a influência que o Suicidal exerceu
sobre outras bandas e realmente é fácil notar que há muita gente por aí
imitando a música e o visual de vocês.
Houve algum momento específico em que você se deu conta de como tinha
gente te copiando?
MIKE MUIR – Acho que isso aconteceu algumas vezes. Pessoas que não nos conheciam, tentavam nos
comparar com alguém: “Hey, por que vocês tentam se vestir de skatistas?”. E eu respondia: “Cara, os skatistas nunca se
vestiram assim”. Meu irmão era skatista
profissional (N.E.: Jim Muir) e eu
fui a primeira pessoa a sair na capa da revista Thrasher sem ser skatista. Se você olhar as edições antigas da revista,
vai ver que, antes disso, todo mundo usava shorts colados e coisas do tipo. Depois do Suicidal, é que começaram a usar
roupas largas. Mudou tudo. E é interessante que há um ano, numa edição
da Thrasher, saiu essa matéria “O que está na moda e o que está por fora” e o
Suicidal estava “na moda” (risos). E muitas das coisas que eles afirmaram estar
“por fora”, são bem mais novas que o Suicidal!
A mesma coisa aconteceu 17 anos antes, com esse lance do que está ou não
por dentro. Eu não me importo em ser o
cara do momento ou a novidade, mas poucas pessoas realmente conseguem ser
vistas dessa forma há tanto tempo. Muita
gente pode dizer: “Ah, você só está tentando vender sua imagem”. E eu respondo: “Quer saber? Não diga isso. Eu posso não gostar de tal banda, mas eles me
disseram que eram glam até conhecerem
o Suicidal” (risos). Então, é interessante…nós não mudamos, mas
muita gente mudou. Obviamente ninguém se
vestia como nós, mesmo porque as pessoas que usavam essas roupas não tocavam em
bandas, não faziam música. O que
acontece é que muita gente se apropria do que considera 'cool', e a ironia disso é que nós mesmos nunca tentamos ser 'cool'.
Pelo contrário, nós sempre nos esforçamos para não ser 'cool'.
Falando de
skate, qual é sua opinião sobre toda essa badalação em volta do documentário "Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou"
e do longa-metragem "Reis de Dogtown"? Você acha que retraram bem aquela época e
lugar?
MIKE MUIR – Veja só, eu convivi com os velhos skatistas, e meu
irmão era um dos Z-Boys originais e ainda é dono da Dogtown Skates. Jay Adams, um dos meus melhores amigos, é
mostrado no filme de Hollywood ("Reis de
Dogtown") indo a um show com um estilo Suicidal. Na verdade, ele era um dos 'suicidal dudes' originais. De certa forma, eles mostraram isso no
filme. Mas, da mesma maneira, há o
retrato incorreto da mãe de Jay. Ela era
uma grande pessoa e uma tremenda batalhadora, mas não é assim que ela é
mostrada no filme. Isso me chateia
porque eu a conhecia e ela, inclusive, faleceu recentemente. Eles não precisavam ter feito aquilo, mas foi
tudo escrito pelo Stacy (Peralta),
que está no filme e também dirigiu o documentário ("Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou"). Ele era skatista e isso meio que.... Bem, o que eu quero dizer é que se fossem
fazer um filme sobre os primeiros dias do Suicidal, eu não poderia participar,
entendeu? Como eu estava lá, teria que
ser feito por outra pessoa. E o Stacy, nesse
caso, se colocou numa posição complicada.
Mesmo assim, muitas daquelas pessoas e o jeito como as coisas eram (em Venice), foram retratados
corretamente. Meu irmão e muitos outros
skatistas daquela época terão (graças ao
filme) uma visibilidade maior por algum tempo. Também vai ter muita gente entrando nessa
para ser 'cool', mas esses vão
desaparecer em um ano. E há muitas
pessoas que normalmente não seriam expostas (ao skate) e que agora estão sendo.
É daí que sairão os Jay Adams da nova geração. De certa forma, é o que acontece com a
música. Todas as vezes que tocamos em
lugares que eram mainstream, demos
uma oportunidade às pessoas de se identificarem conosco. Mas é claro que, por outro lado, existe uma
comercialização maciça, com a Nike e outras marcas. Havendo mercado e coisas para vender, eles sempre
estarão lá. Infelizmente, esse é o mundo
em que vivemos.
Interessante
você citar isso, pois no livro do fotógrafo Glen E. Friedman, "Fuck You Heroes", ele confessa que o
entusiasmo dele pela cena skate vem da época mais underground, em que as
pessoas andavam em piscinas vazias na Califórnia. Quando o skate virou um esporte profissional
e com grandes patrocinadores, ele perdeu o interesse. Você também acha que o espírito mudou?
MIKE MUIR – Há uma grande contradição aí, pois ele também está
vendendo o livro. Ele é o cara que diz
que copyrights não interessam, mas
quando alguém usa uma foto dele sem pagar, é processado. Há uma grande contradição a respeito do Sr.
Friedman. Eu acho que isso é lamentável,
porque ele tenta agir e dizer as coisas certas, saca? E a realidade é a seguinte: ninguém jamais
imaginaria que algum dia fariam um filme sobre aquela época. Essa é a verdade. Poderia acontecer com qualquer um que
estivesse lá, como Stecyk, que na verdade era fotógrafo e escritor, e o
trabalho dele era brilhante. E essa é
outra ironia, pois como a cena era muito pequena, ninguém se dava conta de quão
talentoso ele era. E a forma como ele
foi retratado no filme ("Reis de Dogtown")
foi terrível. Eis um cara que pode usar
o nome de Dogtown acima de todo o resto.
Eu li um artigo que Stecyk escreveu sobre Dogtown e te faz sentir uma
vontade incrível de ter vivido naquela época.
E eu acho que Stecyk provavelmente tem mais a ver com tudo aquilo (que Glen. E Friedman). Ele poderia ter trabalhado em qualquer coisa
e ficado realmente rico, mas ele preferiu manter-se fiel ao lance em que ele
acredita. Mas há muita gente que adora
dizer: “Eu fui a primeira pessoa a entrar na cena e a primeira a sair”. É o
fator 'cool', saca? E além do mais, já naquela época, Glen andava
de Mercedes em todos aqueles lugares, portanto…
Voltando ao
Suicidal. É perceptível que em "Freedumb" vocês resgataram uma sonoridade
mais crua, mais old school, porém, no
álbum seguinte, "Free Your Soul and Save
my Mind", já se pode detectar algumas músicas meio “funkeadas”. Você já foi criticado por não dar ao público
o que ele quer?
MIKE MUIR – Sempre! Tem
aquela revista que comentei com você antes e também a Spin, que é uma grande
publicação americana, e sempre que esse pessoal resenhava nossos discos, dizia
que eram horríveis. Só que aí, quando
saía um novo álbum, eles escreviam: “Que pena! Esse disco é uma droga e o
anterior era tão legal!”. Ou seja, o
disco que eles diziam ser “tão legal”, era o mesmo que eles tinham taxado
anteriormente de “horrível”. Quando
nosso primeiro álbum saiu, todos os punks reclamaram: “Ah, é muito
metal!”. E aí, quando gravamos o
seguinte, eles disseram: “Que saco! O primeiro era clássico e agora eles
viraram metal!”. Sempre foi assim e…
…você nem se importa mais.
MIKE MUIR – Na verdade, eu nunca me importei. Tenho um amigo, e é engraçado como às vezes a
gente esquece dessas coisas, que a primeira vez que esteve na minha casa viu um
quadro com vários recortes de críticas dizendo todo tipo de merda sobre
nós. E ele me perguntou: “Cara, por que
você colocou isso na parede?! Todas
essas críticas falam mal de vocês!”. E
eu respondi: “Porque eu não me importo! Eu não ligo para o que as pessoas dizem”
(risos). Ele ficou meio assustado, mas, tempos depois,
me falou que na época não tinha entendido aquilo, e que só depois percebeu que
eu realmente não dou a mínima. Se você
não se importar, não te afeta. São as
pessoas que dão força às palavras. Há
zilhões de bandas que surgiram e desapareceram desde que começamos, de todos os
estilos, mas nenhuma como o Suicidal.
Isso é mais importante para mim.
E outra coisa que percebi é que há muita gente que não entende direito a
música que fazemos, então querem nos atacar por outros motivos, como a mistura
racial da banda, a forma como nos vestimos e tudo o que você possa imaginar.
Deixa pra lá. Nós levamos isso para o
palco. Agora vamos para o Brasil e
deixaremos as pessoas decidirem o que acham de nós.
A que você
credita tantas mudanças de formação no Suicidal Tendencies?
MIKE MUIR – Isso é interessante.
Muitas vezes as pessoas não compreendem, mas há grupos que perdem apenas
um integrante e já não conseguem continuar.
E muitas pessoas passaram pelo Suicidal, antes mesmo de gravarmos nosso
primeiro disco. Se não tivéssemos feito
essas mudanças, talvez não houvesse sequer o primeiro disco. E da mesma forma, se não fosse por isso, não
teria havido um segundo disco. Acho que
tudo depende da situação e, para ser sincero, algumas pessoas mudam. Não que eu tenha algo contra mudar, mas às
vezes não é compatível, musical ou pessoalmente. Às vezes acontecem coisas na vida que fazem
com que as pessoas deixem de ter os mesmos objetivos. Pode ser tão difícil
arranjar um músico quanto uma namorada.
Vai ter sempre gente boa e ruim. O
que não dá é para viver o tempo todo discutindo com alguém. Meus pais são casados há 40 anos e nunca
brigaram. Então eu percebi desde cedo
que jamais me casaria com a primeira pessoa que conhecesse e sim, com aquela
fosse minha melhor amiga.
Como você deve
imaginar, os dois últimos álbuns de vocês não são tão conhecidos por aqui
quanto aqueles que vocês gravaram pela Sony, especialmente "Art of Rebellion", que teve dois hits nas rádios do Brasil. Baseado nisso, você pensa em preparar um
set-list especial para essa ocasião?
MIKE MUIR – Essa é uma coisa curiosa e me leva de volta a outra
pergunta que você fez. Há três anos, uma
jornalista veio da Inglaterra para um de nossos shows. Depois de tocar, eu fui até o público, dei
umas voltas e então me dirigi ao camarim para dar a entrevista. Quando entrei, ela estava dizendo a nosso
empresário: “Nossa, eu nunca vi nada assim!”.
E eu não sabia do que ela estava falando. Até que percebi o motivo: eu estava ali de pé
e vieram uns skatistas me cumprimentar.
“Cara, você são a melhor banda de skate rock que existe!”. E depois, veio um grupo de garotos punks e
eles disseram: “Vocês são a melhor banda de punk rock que existe!”. E, finalmente, apareceu um cara de cabelo
comprido: “Vocês são a melhor banda de metal que existe!” (risos). Ou seja, se você se
define de certo jeito, então é isso que você se torna. E, nesse aspecto, cada um nos enxergava do
seu jeito. Foi isso que a jornalista disse
nunca ter visto isso antes. Ou seja. ela
estava habituada a todas essas divisões (de
tribos), mas nunca tinha visto as divisões caírem. E quanto a nós, jamais
fomos uma banda que tenta agradar. Antes
de tocar no Brasil, vamos participar de um festival de três dias na Colômbia e
eles nos disseram que seremos a atração principal do dia do metal. Duas semanas depois desses shows, vamos
fechar um evento no Olympic Auditorium, em Los Angeles, onde tocarão Germs,
Dead Kennedys, Fear e todas essas bandas punks de verdade. E o lance do Brasil será completamente
diferente do resto. Não vamos sentar para
combinar o que tocaremos, pois o Suicidal é diferente de qualquer outra
banda. Estamos aqui para provar. Claro que sabemos que quando se está numa 'major', muitas coisas são mais fáceis e
isso é legal, mas na hora em que estamos em cima do palco, tocando para gente
que não nos conhece, a responsabilidade é sempre nossa. Não tem ligação com o DJ da rádio, isso ou
aquilo. Tem a ver com pessoas nos
assistindo e julgando aquele momento.
Ainda gostamos da maioria das músicas que escrevemos e do que tocou nas
rádios, mas, tipo, vai haver alguém (que
foi ao show) que dirá: “Você precisa ouvir esses caras!”. E para nós, esses shows também são uma grande
oportunidade de tocar para pessoas que gostam da banda e que poderão nos ver ao
vivo outra vez, lembrando porque gostam tanto de nós. Elas terão a chance de levar seus irmãos e
primos mais jovens ao show e, quem sabe, mostrar a eles porque acham que nossa
música é melhor. Pretendemos voltar ao
Brasil uns seis meses após esse festival para fazermos um show só nosso e vocês
podem contar com isso. Eu descobri que
quando você tem um sucesso nas rádios ao redor do mundo, pode atingir milhões e
milhões de pessoas, e isso não tem preço.
Mas quer saber? Eu me lembro de
uns três momentos em que ouvi determinado disco pela primeira vez e nunca mais me
esquecerei da sensação. É essa a nossa
onda…
Pela sua resposta, dá para antever um grande show.
MIKE MUIR – Um grande show, não: nós tentamos fazer o melhor show! É por isso que estamos indo (para o festival). Acho que temos algo a oferecer que os outros
não têm. Estaremos aí pela fidelidade a
quem nos apoiou durante todos esses anos, e também pela oportunidade de mostrar
a um público novo porque certas pessoas nos têm em alta consideração. Como meu pai diz: toque o coração das
pessoas. É isso que queremos fazer.
O Motörhead toca amanhã no Via Funchal. Horas depois, em plena madrugada, o Misfits se apresenta no centro de São Paulo pela Virada Cultural. O mitológico Skatalites também está no Brasil. E, no domingo, tem show do D.R.I, banda que ajudou a arquitetar o gênero crossover.
Em meio a tudo isso, está passando levemente despercebida a vinda do seminal Los Straitjackets ao país.
O quarteto de Nashville também está escalado como uma das atrações da Virada Cultural e toca no próximo domingo, às 15h00, no Largo do Arouche. Show imperdível.
Los Straitjackets é citado com a mais cultuada banda de surf music em atividade, mas sua música vai além dessa convenção.
Veículo para o incrível guitarrista Eddie Angel, os Straitjackets passeam por gêneros como swing, rock'a'billy, garage e todo o espectro de som instrumental retrô. E como parece regra no revival surf, têm muito senso de humor: se apresentam sempre com bizarras máscaras de "lucha libre" mexicana.
Entre as fórmulas musicais congeladas no tempo, a surf music é aquela pela qual tenho mais simpatia. As bandas que ganharam notoriedade na esteira do sucesso de "Pulp Fiction", cuja trilha sonora ressuscitou a carreira do rei Dick Dale, foram espertas o suficiente para revisitarem o estilo com irreverência e identidade próprias.
O californiano Phantom Surfers, por exemplo, adotou o visual smoking & máscara, abusando de títulos sacanas para seus discos, como: "The Exciting Sounds Of Model Road Racing" e o ótimo "Skaterhater". E, musicalmente, são bastante competentes em recriar à sua maneira, e com algum teor de escracho, o som que embalava as festinhas da Califórnia nos anos 60.
A banda tocou no popular festival B.A. Stomp, em Buenos Aires, nos anos 90, e um amigo próximo teve a incumbência de hospedar e ciceronear um dos Phantom Surfers numa rápida passagem por São Paulo. O grupo, porém, não chegou a se apresentar por aqui.
Mas um de seus contemporâneos, ao contrário, foi protagonista de shows antológicos no Brasil durante a década de 90. Man or Astro-man?, a banda space-surf do Alabama, se apresentou por aqui algumas vezes e, em São Paulo, chegou fazer dois sets num mesmo dia, tal a demanda de público.
Vi duas apresentações do Man or Astro-Man?, ambas absolutamente incendiárias. A primeira, memorável, na casa de shows Broadway (atual Eazy) e a segunda, no Sesc Pompéia, quando tocaram ao lado do também americano Trans-Am que, literalmente, quebrou tudo.
O Man or Astro-Man? é como um filho bastardo de Dick Dale com Mark Mothersbaugh, do Devo. Tocam uma surf music envenenada, com um repertório quase que integralmente instrumental, e uma viagem retrô-espacial com direito a trajes de astroanauta e projeções de vídeos que parecem saídos de algum arquivo da NASA dos anos 60.
O último disco do Man or Astro-Man?,"A spectrum of Infinite scale", expandiu sua música para uma fronteira mais experimental, com direito à uma faixa com título em português: "Um espectro sem escala".
Mas nada como ter testemunhado o rei da surf guitar ao vivo e a cores. Em 1996, Dick Dale, que então excursionava pelo mundo com uma carreira revigorada pelo uso da bombástica "Misirlou", de 1962, na abertura de "Pulp Fiction", esteve no Brasil para uma série de shows.
Tocou no hoje extinto Olympia, na mesma noite em que o Fugazi atordoava o público com um set radical na Broadway. O conflito de datas foi contornado. Assisti ao Fugazi e, dias depois, me mandei para Santos ver Dick Dale tocar numa discoteca chamada Twister.
À época com um power-trio turbinado, Dale, um dos revolucionários da guitarra elétrica, triturou sua Fender diante de 300 afortunados. Assisti ao show a um metro do palco e vi as palhetas literalmente virarem pó com a famosa palhetada de Dale que faz Scott Ian e James Hetfield parecerem guitarristas de alguma bandinha de igreja.
No próximo domingo, há outra oportunidade imperdível de assistir a um impactante set de surf music. Não espero nada menos que uma performance demolidora dos Straitjackets.
Se eu fosse você, não perderia por nada.
Acima, Los Straitjackets no vídeo da sensacional "Tempest".
E aqui, o clipe de "Nitro", uma pequena amostra do poder de Dick Dale quando retomava sua carreira nos anos 90.