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Crossover: substantivo

Na música popular:
  1. o ato de migrar de estilo, normalmente com a intenção de obter apelo comercial junto a um público mais amplo;
     
  2. música que atravessa estilos, compartilhando atributos de vários outros gêneros musicais e, portanto, muitas vezes atingindo uma maior audiência.
O dicionário não mente: as primeiras bandas punks americanas a incorporar elementos do thrash metal, o fizeram por questão de sobrevivência. E o fato desse subgênero musical chamar-se "crossover" não é mero acidente.

Na próxima terça-feira, dia 22, um dos fundadores desse estilo se apresentaria no Brasil. A turnê, que incluiria datas no México, Chile e Argentina, terminou cancelada por problemas com as agências organizadoras. O grupo em questão é o D.R.I., sigla para Dirty Rotten Imbeciles, fundado em 1982 na cidade de Houston, Texas. Eles definiram os pilares do gênero e também o batizaram, através do emblemático álbum "Crossover", de 1987.

Mas antes de falar da cena criada a partir da fusão desses estilos musicais, é importante conhecer o contexto em que ela surgiu. Em depoimento ao jornalista Marc Spitz, o vocalista do Bad Religion, Greg Graffin, revelou: “Por volta de 1985-86, não existiam [nos EUA] mais bandas de punk rock na definição clássica. Havia pouquíssimos selos punk. Esse era o contexto da época e também uma das razões pelas quais o Bad Religion foi considerado revigorante quando lançou o álbum ‘Suffer’. Na Alemanha, nos chamavam de salvadores da chama punk e tocávamos para plateias de mil pessoas, enquanto nos EUA tínhamos sorte se conseguíssemos tocar em um clube minúsculo de Orange County…”.

O crossover surgiu nessa época e, mais do que uma experiência sonora, representou o esforço de bandas hardcore/punk em se aproximarem dos fãs de metal. Musicalmente, essa mistura só deu caldo porque trabalhou com estilos que eram primos entre si, pois que o thrash metal, originalmente, já havia bebido na fonte de Bad Brains, Black Flag e companhia.

Não é fácil definir o disco que trouxe a primeira gravação de crossover. “Animosity”, do Corrosion of Conformity, lançado em 1985, é citado por muitos como a pedra fundamental do estilo. Nos anos seguintes, várias bandas embarcaram nessa sonoridade criada a partir da velocidade do hardcore e dos arranjos, riffs e solos de guitarra herdados do thrash. Suicidal Tendencies, Crumbsuckers, English Dogs, Agnostic Front, Gang Green e Cryptic Slaughter são alguns dos grupos que promoveram essa fusão. E o fato de todas essas bandas serem egressas da cena punk só confirma outra vez o que diz o dicionário.

Outro indício que o público-alvo desse subgênero eram os adeptos do thrash é que os principais álbuns de crossover foram editados por gravadoras como Metal Blade e Combat. O hardcore mudava para sobreviver e era vendido em nova embalagem a plateias metaleiras.

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D.R.I. em 1987
O  D.R.I., autor do disco que encapsulou todos os parâmetros do estilo, é a banda que terminou mais identificada com o crossover. Gravaram apenas outros três álbuns desde 1987, e todos seguindo a cartilha do gênero, com maior ou menor sucesso.

Olhando retrospectivamente, o crossover fechou o círculo que conecta dois estilos musicais nascidos nas ruas e avessos às fórmulas existentes. Tanto thrash quanto hardcore sobreviveram à margem do rock comercial, com bandas excursionando em velhos furgões, tocando em espeluncas e dependendo da divulgação de fanzines e programas de rádio malditos. Os grupos oriundos do punk expressavam essa dura realidade com letras críticas ao 'establishment' e influenciaram parte do thrash metal. Sacred Reich, Vio-lence e Megadeth, entre outros, adotaram também um discurso ácido e repleto de críticas sociais.

Essa troca de influências explica a existência de álbuns como “Speak English or Die”, do S.O.D., e também os elementos punk que contaminaram o som dos novaiorquinos Anthrax e Nuclear Assault.  E como em toda onda, houve também aqueles pegaram o trem em movimento e já nasceram tocando crossover – casos de Mucky Pup, Excel e Ludichrist.

E por que teria o crossover passado anos como um fóssil underground, até ser redescoberto pela nova geração? Talvez tenha sumido em decorrência da curva descendente do thrash, que perdeu a popularidade na virada para a década 90. Agnostic Front e English Dogs, por exemplo, descartaram os elementos de metal e reassumiram a sonoridade punk/HC depois de uns anos. Já o Corrosion of Conformity foi mais longe: explodiu a ponte e terminou metido no stoner e southern rock.

Quase três décadas após seu auge, o crossover experimentou um 'revival' proporcionado pela redescoberta do thrash. O gênero passou a produzir novos grupos que decalcam não apenas o som, mas também a estética e a moda de rua daqueles tempos – bandanas, bonés de aba invertida, bermudas coloridas e tênis de skate.

Difícil mesmo vai ser gravarem discos tão originais quanto esses abaixo.

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Discografia básica do crossover:

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Animosity – Corrosion of Conformity (1985)

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Speak English or Die – S.O.D. (1985)

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Cause for Alarm – Agnostic Front (1986)

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The Age of Quarrel – Cro-Mags (1986)

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Crossover – D.R.I (1987)

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Join the Army – Suicidal Tendencies (1987)

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Immaculate Deception – Ludichrist (1987)

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Can’t You Take a Joke? – Mucky Pup (1987)

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You Got It – Gang Green (1987)

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The Joke’s On You – Excel (1989)
Com o objetivo de resgatar algumas importantes entrevistas que realizei na última década e meia, estreia agora no blog a série "Caixa Preta Entrevista".

Nesse 'post' inaugural, republico, na íntegra, a conversa que tive com Mike Muir, líder do Suicidal Tendencies. A entrevista, realizada por telefone, foi capa da edição nº 67 da revista Rock Press (reprodução abaixo) e realizada em ocasião do festival Claro Q É Rock. O Suicidal, escalado para se apresentar no evento, terminou cancelando sua participação por conta de um problema de saúde do próprio Mike Muir.

Confira abaixo o resultado da conversa com esse sujeito que fez história no hardcore, no thrash metal e que ainda aprontou com os funks do Infectious Grooves.

Você vem produzindo muita música de uns anos pra cá.  Seja com o Suicidal Tendencies, com o Infectious Grooves ou com seu projeto solo, Cyco Miko.  Isso tem alguma relação com o fato de você ter montado seu próprio selo?
MIKE MUIR – O mais irônico nisso é que, se ainda estivéssemos na Sony, teríamos mais material lançado, pois, hoje, gravamos muita coisa que não lançamos.  Quando você está numa 'major', você precisa gravar discos e eles te providenciam estúdio, te pagam por isso.  Você tem que cumprir todo um processo.  E agora nós temos nosso próprio estúdio e, até porque não precisamos lançar nada, vamos lá tocar apenas pela curtição.  Às vezes convidamos nossos amigos para tocar conosco e gravamos algumas coisas, mas sabemos que não temos obrigação de lançar aquilo.  Mas se estivéssemos na Sony, eles viriam até nós e diriam: “Hey, o que está havendo? Vocês precisam lançar um disco, precisam sair em turnê!’.  E como eu passei por uma cirurgia nas costas há um ano e meio, isso, de certa forma, nos impediu de excursionar.  Então, eu pensei: “É  melhor não lançar nenhum disco agora”.  Por causa disso, tivemos a possibilidade de compor muita música e pela simples razão de que gostamos disso.  Hoje em dia, quando queremos ir para o estúdio, não temos que gastar nada, mas antes tinha alguém pagando por isso.  A música não nos custa nada agora e isso evita que a gente tenha aqueles compromissos negativos.  O lado bom é que podemos compor porque gostamos, sem ter a preocupação de lançar alguma coisa.  Por outro lado, temos que negociar (o lançamento dos discos) com cada país separadamente e gastamos bastante tempo cuidando de negócios, quando preferiríamos estar apenas tocando.  Mas no fim das contas, estamos mais satisfeitos agora.

É uma sensação melhor do que estar numa 'major'?
MIKE MUIR – Sim. E o mais engraçado é que ainda tenho muitos amigos que trabalham para gravadoras, e eles sempre dizem: “Quando quiser gravar um disco, me telefone” (risos).  E alguns deles me falam: “Poderíamos conseguir algo, mas não sei você ficaria satisfeito.  As coisas mudaram, houve essa mudança louca (na indústria)…”.  E também há outros que dizem: “Vamos arranjar um contrato e eu te garanto que há muita gente aqui que ama a banda.  Podemos ir a departamentos de promoção e falar com todas as pessoas que viram vocês ao vivo antes de trabalharem aqui”.  Esse tipo de coisa.  Para nós, isso volta àquela questão: seria ótimo para agradar o ego, porque saberíamos que nossa música estaria sendo ouvida por muito mais gente.  Mas, pessoalmente, prefiro estar na posição que estou: dando essa entrevista para você, indo tocar num festival em que muita gente não saberá quem somos e onde vamos encontrar gente louca que ama o Suicidal (risos) ou aqueles que ainda eram muito jovens da última vez que tocamos aí, há oito anos.  Acontece muitas vezes de pessoas irem ver uma banda que gostam e nem sabem quem somos.  E após do show muitos deles já estão gritando (entusiasmado): “Suicidal! Suicidal!”.  Depois disso, eles começam a mostrar a banda para os amigos e…  Foi assim que eu me liguei em música!  Quando meus amigos gostavam muito de uma banda, eles sempre me apresentavam à música dela.  Mas agora, com a MTV e as estações de rádio comerciais, há muita gente, especialmente nessa onda de pop-punk, que começa uma banda hoje e vende 1 milhão de discos amanhã.  Infelizmente, esse é o objetivo deles.  Essa não é a nossa praia.  Lançamos nosso primeiro disco há 22 anos e ainda existe gente que o escuta.  Isso é mais importante.  Há muitos álbuns que saíram em 1983 e venderam bem mais que o nosso, mas os quais ninguém nunca mais comprou.  Preferimos que a música dê o recado.

Nos anos 80 vocês não eram a única banda que misturava hardcore, punk e metal.  Havia todo um contexto em que isso acontecia, com grupos com Excel, D.R.I, Corrosion of Conformity e outros.  Você sente que, hoje em dia, o Suicidal está sozinho ou faz parte de algum cenário?
MIKE MUIR – Veja só, quando nosso primeiro disco saiu, uma revista de punk disse: “Dane-se! Isso é metal”.  Quando o segundo álbum foi lançado, a mesma revista afirmou que nosso disco de estréia, que eles haviam dito ser uma droga, tinha se tornado, do nada, um clássico do punk rock e que, agora sim, nós tínhamos virado metal!  Aí o terceiro saiu e publicaram algo como: “Os dois primeiros eram tão bons, mas dessa vez eles se transformaram pra valer numa banda de metal” (risos).  Havia toda essa situação naquela época, mas nós não dávamos a mínima.  Durante todo aquele período, vimos muita gente mudar.  Banda convictas de metal passaram a usar calças spandex e maquiagem.  Nós nunca mudamos a maneira que nos vestimos ou nosso jeito de fazer as coisas.  Você pode notar nossa influência em muitas bandas, mas boa parte disso se perde no caminho.  Então, acho que éramos uma banda muito viável e o que vai acontecer nesse festival (no Brasil), é que, após o show, muita gente vai pensar: “Como eu nunca tinha ouvido falar dessa banda antes?”.  E alguém vai virar pra eles e dizer: “O primeiro disco dos caras saiu há 22 anos”.  E eles vão se surpreender: “Sem chance!  Eles não podem estar ser tão velhos!” (risos).  Então, é por aí… Nós não somos os Rolling Stones, que só estão dando umas voltas por aí.  Nós ainda estamos detonando, botando pra quebrar!  Quando perdermos esse pique, não teremos mais nada a dizer.

Você falou sobre a influência que o Suicidal exerceu sobre outras bandas e realmente é fácil notar que há muita gente por aí imitando a música e o visual de vocês.  Houve algum momento específico em que você se deu conta de como tinha gente te copiando?
MIKE MUIR – Acho que isso aconteceu algumas vezes.  Pessoas que não nos conheciam, tentavam nos comparar com alguém: “Hey, por que vocês tentam se vestir de skatistas?”.  E eu respondia: “Cara, os skatistas nunca se vestiram assim”.  Meu irmão era skatista profissional (N.E.: Jim Muir) e eu fui a primeira pessoa a sair na capa da revista Thrasher sem ser skatista.  Se você olhar as edições antigas da revista, vai ver que, antes disso, todo mundo usava shorts colados e coisas do tipo.  Depois do Suicidal, é que começaram a usar roupas largas.  Mudou tudo.  E é interessante que há um ano, numa edição da Thrasher, saiu essa matéria “O que está na moda e o que está por fora” e o Suicidal estava “na moda” (risos).  E muitas das coisas que eles afirmaram estar “por fora”, são bem mais novas que o Suicidal!  A mesma coisa aconteceu 17 anos antes, com esse lance do que está ou não por dentro.  Eu não me importo em ser o cara do momento ou a novidade, mas poucas pessoas realmente conseguem ser vistas dessa forma há tanto tempo.  Muita gente pode dizer: “Ah, você só está tentando vender sua imagem”.  E eu respondo: “Quer saber?  Não diga isso.  Eu posso não gostar de tal banda, mas eles me disseram que eram glam até conhecerem o Suicidal” (risos).  Então, é interessante…nós não mudamos, mas muita gente mudou.  Obviamente ninguém se vestia como nós, mesmo porque as pessoas que usavam essas roupas não tocavam em bandas, não faziam música.  O que acontece é que muita gente se apropria do que considera 'cool', e a ironia disso é que nós mesmos nunca tentamos ser 'cool'.  Pelo contrário, nós sempre nos esforçamos para não ser 'cool'.

Falando de skate, qual é sua opinião sobre toda essa badalação em volta do documentário "Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou" e do longa-metragem "Reis de Dogtown"?  Você acha que retraram bem aquela época e lugar?
MIKE MUIR – Veja só, eu convivi com os velhos skatistas, e meu irmão era um dos Z-Boys originais e ainda é dono da Dogtown Skates. Jay Adams, um dos meus melhores amigos, é mostrado no filme de Hollywood ("Reis de Dogtown") indo a um show com um estilo Suicidal.  Na verdade, ele era um dos 'suicidal dudes' originais.  De certa forma, eles mostraram isso no filme.  Mas, da mesma maneira, há o retrato incorreto da mãe de Jay.  Ela era uma grande pessoa e uma tremenda batalhadora, mas não é assim que ela é mostrada no filme.  Isso me chateia porque eu a conhecia e ela, inclusive, faleceu recentemente.  Eles não precisavam ter feito aquilo, mas foi tudo escrito pelo Stacy (Peralta), que está no filme e também dirigiu o documentário ("Dogtown & the Z-Boys – Onde Tudo Começou").  Ele era skatista e isso meio que....  Bem, o que eu quero dizer é que se fossem fazer um filme sobre os primeiros dias do Suicidal, eu não poderia participar, entendeu?  Como eu estava lá, teria que ser feito por outra pessoa.  E o Stacy, nesse caso, se colocou numa posição complicada.  Mesmo assim, muitas daquelas pessoas e o jeito como as coisas eram (em Venice), foram retratados corretamente.  Meu irmão e muitos outros skatistas daquela época terão (graças ao filme) uma visibilidade maior por algum tempo.  Também vai ter muita gente entrando nessa para ser 'cool', mas esses vão desaparecer em um ano.  E há muitas pessoas que normalmente não seriam expostas (ao skate) e que agora estão sendo.  É daí que sairão os Jay Adams da nova geração.  De certa forma, é o que acontece com a música.  Todas as vezes que tocamos em lugares que eram mainstream, demos uma oportunidade às pessoas de se identificarem conosco.  Mas é claro que, por outro lado, existe uma comercialização maciça, com a Nike e outras marcas.  Havendo mercado e coisas para vender, eles sempre estarão lá.  Infelizmente, esse é o mundo em que vivemos.


Interessante você citar isso, pois no livro do fotógrafo Glen E. Friedman, "Fuck You Heroes", ele confessa que o entusiasmo dele pela cena skate vem da época mais underground, em que as pessoas andavam em piscinas vazias na Califórnia.  Quando o skate virou um esporte profissional e com grandes patrocinadores, ele perdeu o interesse.  Você também acha que o espírito mudou?
MIKE MUIR – Há uma grande contradição aí, pois ele também está vendendo o livro.  Ele é o cara que diz que copyrights não interessam, mas quando alguém usa uma foto dele sem pagar, é processado.  Há uma grande contradição a respeito do Sr. Friedman.  Eu acho que isso é lamentável, porque ele tenta agir e dizer as coisas certas, saca?  E a realidade é a seguinte: ninguém jamais imaginaria que algum dia fariam um filme sobre aquela época.  Essa é a verdade.  Poderia acontecer com qualquer um que estivesse lá, como Stecyk, que na verdade era fotógrafo e escritor, e o trabalho dele era brilhante.  E essa é outra ironia, pois como a cena era muito pequena, ninguém se dava conta de quão talentoso ele era.  E a forma como ele foi retratado no filme ("Reis de Dogtown") foi terrível.  Eis um cara que pode usar o nome de Dogtown acima de todo o resto.  Eu li um artigo que Stecyk escreveu sobre Dogtown e te faz sentir uma vontade incrível de ter vivido naquela época.  E eu acho que Stecyk provavelmente tem mais a ver com tudo aquilo (que Glen. E Friedman).  Ele poderia ter trabalhado em qualquer coisa e ficado realmente rico, mas ele preferiu manter-se fiel ao lance em que ele acredita.  Mas há muita gente que adora dizer: “Eu fui a primeira pessoa a entrar na cena e a primeira a sair”. É o fator 'cool', saca?  E além do mais, já naquela época, Glen andava de Mercedes em todos aqueles lugares, portanto…

Voltando ao Suicidal.  É perceptível que em "Freedumb" vocês resgataram uma sonoridade mais crua, mais old school, porém, no álbum seguinte, "Free Your Soul and Save my Mind", já se pode detectar algumas músicas meio “funkeadas”.  Você já foi criticado por não dar ao público o que ele quer?
MIKE MUIR – Sempre!  Tem aquela revista que comentei com você antes e também a Spin, que é uma grande publicação americana, e sempre que esse pessoal resenhava nossos discos, dizia que eram horríveis.  Só que aí, quando saía um novo álbum, eles escreviam: “Que pena! Esse disco é uma droga e o anterior era tão legal!”.  Ou seja, o disco que eles diziam ser “tão legal”, era o mesmo que eles tinham taxado anteriormente de “horrível”.  Quando nosso primeiro álbum saiu, todos os punks reclamaram: “Ah, é muito metal!”.  E aí, quando gravamos o seguinte, eles disseram: “Que saco! O primeiro era clássico e agora eles viraram metal!”.  Sempre foi assim e…

…você nem se importa mais.
MIKE MUIR – Na verdade, eu nunca me importei.  Tenho um amigo, e é engraçado como às vezes a gente esquece dessas coisas, que a primeira vez que esteve na minha casa viu um quadro com vários recortes de críticas dizendo todo tipo de merda sobre nós.  E ele me perguntou: “Cara, por que você colocou isso na parede?!  Todas essas críticas falam mal de vocês!”.  E eu respondi: “Porque eu não me importo! Eu não ligo para o que as pessoas dizem” (risos).  Ele ficou meio assustado, mas, tempos depois, me falou que na época não tinha entendido aquilo, e que só depois percebeu que eu realmente não dou a mínima.  Se você não se importar, não te afeta.  São as pessoas que dão força às palavras.  Há zilhões de bandas que surgiram e desapareceram desde que começamos, de todos os estilos, mas nenhuma como o Suicidal.  Isso é mais importante para mim.  E outra coisa que percebi é que há muita gente que não entende direito a música que fazemos, então querem nos atacar por outros motivos, como a mistura racial da banda, a forma como nos vestimos e tudo o que você possa imaginar. Deixa pra lá.  Nós levamos isso para o palco.  Agora vamos para o Brasil e deixaremos as pessoas decidirem o que acham de nós.

A que você credita tantas mudanças de formação no Suicidal Tendencies?
MIKE MUIR – Isso é interessante.  Muitas vezes as pessoas não compreendem, mas há grupos que perdem apenas um integrante e já não conseguem continuar.  E muitas pessoas passaram pelo Suicidal, antes mesmo de gravarmos nosso primeiro disco.  Se não tivéssemos feito essas mudanças, talvez não houvesse sequer o primeiro disco.  E da mesma forma, se não fosse por isso, não teria havido um segundo disco.  Acho que tudo depende da situação e, para ser sincero, algumas pessoas mudam.  Não que eu tenha algo contra mudar, mas às vezes não é compatível, musical ou pessoalmente.  Às vezes acontecem coisas na vida que fazem com que as pessoas deixem de ter os mesmos objetivos. Pode ser tão difícil arranjar um músico quanto uma namorada. Vai ter sempre gente boa e ruim.  O que não dá é para viver o tempo todo discutindo com alguém.  Meus pais são casados há 40 anos e nunca brigaram.  Então eu percebi desde cedo que jamais me casaria com a primeira pessoa que conhecesse e sim, com aquela fosse minha melhor amiga.

Como você deve imaginar, os dois últimos álbuns de vocês não são tão conhecidos por aqui quanto aqueles que vocês gravaram pela Sony, especialmente "Art of Rebellion", que teve dois hits nas rádios do Brasil.  Baseado nisso, você pensa em preparar um set-list especial para essa ocasião?
MIKE MUIR – Essa é uma coisa curiosa e me leva de volta a outra pergunta que você fez.  Há três anos, uma jornalista veio da Inglaterra para um de nossos shows.  Depois de tocar, eu fui até o público, dei umas voltas e então me dirigi ao camarim para dar a entrevista.  Quando entrei, ela estava dizendo a nosso empresário: “Nossa, eu nunca vi nada assim!”.  E eu não sabia do que ela estava falando.  Até que percebi o motivo: eu estava ali de pé e vieram uns skatistas me cumprimentar.  “Cara, você são a melhor banda de skate rock que existe!”.  E depois, veio um grupo de garotos punks e eles disseram: “Vocês são a melhor banda de punk rock que existe!”.  E, finalmente, apareceu um cara de cabelo comprido: “Vocês são a melhor banda de metal que existe!” (risos).  Ou seja, se você se define de certo jeito, então é isso que você se torna.  E, nesse aspecto, cada um nos enxergava do seu jeito.  Foi isso que a jornalista disse nunca ter visto isso antes.  Ou seja. ela estava habituada a todas essas divisões (de tribos), mas nunca tinha visto as divisões caírem. E quanto a nós, jamais fomos uma banda que tenta agradar.  Antes de tocar no Brasil, vamos participar de um festival de três dias na Colômbia e eles nos disseram que seremos a atração principal do dia do metal.  Duas semanas depois desses shows, vamos fechar um evento no Olympic Auditorium, em Los Angeles, onde tocarão Germs, Dead Kennedys, Fear e todas essas bandas punks de verdade.  E o lance do Brasil será completamente diferente do resto.  Não vamos sentar para combinar o que tocaremos, pois o Suicidal é diferente de qualquer outra banda.  Estamos aqui para provar.  Claro que sabemos que quando se está numa 'major', muitas coisas são mais fáceis e isso é legal, mas na hora em que estamos em cima do palco, tocando para gente que não nos conhece, a responsabilidade é sempre nossa.  Não tem ligação com o DJ da rádio, isso ou aquilo.  Tem a ver com pessoas nos assistindo e julgando aquele momento.  Ainda gostamos da maioria das músicas que escrevemos e do que tocou nas rádios, mas, tipo, vai haver alguém (que foi ao show) que dirá: “Você precisa ouvir esses caras!”.  E para nós, esses shows também são uma grande oportunidade de tocar para pessoas que gostam da banda e que poderão nos ver ao vivo outra vez, lembrando porque gostam tanto de nós.  Elas terão a chance de levar seus irmãos e primos mais jovens ao show e, quem sabe, mostrar a eles porque acham que nossa música é melhor.  Pretendemos voltar ao Brasil uns seis meses após esse festival para fazermos um show só nosso e vocês podem contar com isso.  Eu descobri que quando você tem um sucesso nas rádios ao redor do mundo, pode atingir milhões e milhões de pessoas, e isso não tem preço.  Mas quer saber?  Eu me lembro de uns três momentos em que ouvi determinado disco pela primeira vez e nunca mais me esquecerei da sensação.  É essa a nossa onda…

Pela sua resposta, dá para antever um grande show.
MIKE MUIR – Um grande show, não: nós tentamos fazer o melhor show!  É por isso que estamos indo (para o festival).  Acho que temos algo a oferecer que os outros não têm.  Estaremos aí pela fidelidade a quem nos apoiou durante todos esses anos, e também pela oportunidade de mostrar a um público novo porque certas pessoas nos têm em alta consideração.  Como meu pai diz: toque o coração das pessoas.  É isso que queremos fazer.