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Conheci o Monster Magnet no início dos anos 90, quando o grupo despontou através de alguma fresta da invasão alternativa que dominou as rádios, a MTV e enlouqueceu as grandes gravadoras que andavam à caça de um novo Nirvana ou Pearl Jam.

 O grupo de New Jersey, híbrido de stoner e space rock, era estranho demais para triscar no sucesso das bandas de Seattle. Surgiu com o disco "Spine of God", repleto de guitarras e bateria soterradas de flanger, e letras que misturavam paganismo com cogumelos e discos voadores. Do álbum de estreia, brilharam a pedrada "Medicine" e a viajandona "Nod Scene", na qual o líder Dave Wyndorf canta com a inflexão vocal de Frank Zappa.



Dali em diante, o Magnet só progrediu. Seus discos seguintes vieram mais bem produzidos e com canções que flertavam com a crueza dos Stooges, os mantras do Hawkwind e o peso do Black Sabbath. Mas tudo com uma assinatura muito particular, como se todas essas belíssimas referências tivessem sido reescritas com a cabeça dos anos 90 e depois dos 2000.

Ed Mundell, grande guitarrista, foi o mais longevo colaborador de Dave Wyndorf, o xamã que fundou e que governa há mais de duas décadas a entidade Monster Magnet. Gravou álbuns fundamentais, como "Powertrip", ganhador do disco de ouro na América, "God Says No" e o festeiro e extravagante "Monolithic Baby".



Entrevistei Mundell por email, em 2005, quando o grupo se preparava para gravar o que viria a ser o sensacional "4-Way Diablo". A entrevista foi publicada junto com uma reportagem especial na revista Rock Press. 



Caixa Preta – Você pode antecipar alguma coisa sobre o novo álbum? Como estão soando as canções?
Ed Mundell – O novo material é uma espécie de junção das faixas deixadas de fora do último disco e do “clima” em que estamos agora, tendo Bob Pantella como o baterista da banda. Vocês precisam saber que quando estávamos compondo para o último álbum, tínhamos entre 50 e 60 canções para trabalhar, então, de certa forma, estávamos planejando 3 discos com antecedência. Assim sendo, há muita música para ser testada agora somada ao que ainda estamos criando. E ter Bob na banda faz com que tudo atinja níveis insanos algumas vezes! E de um jeito muito positivo. Acho que a direção natural que as coisas estão tomando vai nos levar para uma onda mais psicodélica, algo entre (os álbuns) Spine of God e Dopes to Infinity…o que está bom pra mim!

CP – Parece que há uma certa atmosfera permeando cada disco do Monster Magnet. Como isso é obtido? Você e Dave Wyndorf desenvolvem algum conceito juntos antes de entrarem no estúdio ou é um processo natural de composição?
EM – Bem, parece que as coisas acontecem naturalmente para nós. Às vezes um disco está finalizado e precisa apenas de um “algo mais”, então temos que voltar e criar isso. Estou trabalhando com Dave há muito tempo, então basicamente já sabemos o que precisa ser feito para criar um álbum do Magnet que nos satisfaça, assim como a qualquer um que se importe em ouví-lo… Normalmente, nós entramos no estúdio com 15 a 20 músicas prontas e quando percebemos qual é o clima predominante, selecionamos o repertório. Todos nós temos coleções gigantescas de discos e AMAMOS música, então sabemos o que NÓS gostaríamos de ouvir num álbum, portanto não trata-se de física quântica!

CP - Monolithic Baby! é provavelmente o disco mais direto de vocês e possui um número expressivo de hits em potencial. Você acha que esse álbum teria dominado as paradas com uma promoção maior por parte da gravadora? Aliás, como você vê a indústria fonográfica hoje em dia?
EM – Sabe, tudo está tão fodido na América em termos musicais. Nós apenas fazemos o nosso lance e espero que possamos continuar fazendo isso pra sempre. Nós jamais deveríamos ter sido uma banda de hit singles. Nós somos aqueles que escapamos por entre as rachaduras da indústria musical, mas acho que somos bons músicos e com um forte senso de composição. Então, se isso ainda vale para alguma coisa…

CP – Como você se envolveu com música? Existe algum artista ou álbum em particular que te despertou o desejo de fazer música?
EM – Tudo vem de Jimi Hendrix. E tenho dito!

CP – Se você fosse tivesse que citar o momento mais memorável de sua carreira no Monster Magnet, qual seria? Vale tudo: discos, shows, canções, etc.
EM – Cara, essa é difícil! Nós excursionamos com todo mundo e eu adorei as turnês com o Marilyn Manson e com o Aerosmith. Tem as garotas, as drogas… Eu poderia me estender por mais um bom tempo nessa resposta. Digamos então que se eu morresse amanhã, poderia afirmar que não tenho arrependimentos. Tudo acontece por uma razão e nessa vida eu já ri e me diverti tanto que quase chega a ser ilegal! Ah, e nós tocamos no mês passado no Azkena Festival em Vittoria, Espanha, e acho que consegui tocar umas notas muito bacanas por lá. Me fizeram sorrir.

CP – Existe alguma possibilidade de vermos o Monster Magnet no Brasil algum dia?
EM – Daqui a 6 dias vamos para Los Angeles para começar a gravar o novo disco e aqueles que mandam estão planejando uma turnê na Europa em março e abril (de 2006), além de outros festivais aqui e ali. Então, vamos ver… Se rolar, vá nos assistir e tomar uma cerveja com a gente! É bom você aparecer!


"Monolithic" – Os oceanos deveriam ter se aberto em 2004 com o poder dessa canção


Black Sabbath são meus Beatles. Sempre estiveram lá, como uma espécie de instituição.

Primeira lembrança talvez seja o álbum "Heaven and Hell" -justamente o primeiro sem Ozzy, vejam só!- que conheci uns três anos após o lançamento. As memórias se misturam com a carreira solo de Ozzy Osbourne, seus clipes no programa Som Pop, o show no primeiro Rock in Rio, que vi pela TV, e o disco duplo ao vivo "Speak of the Devil", só com repertório do Sabbath.

Em algum momento da mesma época um primo mais velho me emprestou duas preciosidades: as versões nacionais de "Paranoid" e "Master of Reality". Ambas com capas muito bem impressas e o icônico rótulo da Vertigo no centro do vinil. Detalhe curioso: a edição brasileira de "Master of Reality", de 1971, tem o nome da banda escrito com uma letra em cada cor; bem diferente do roxo da versão original.

Em 1990 ou 91, para inaugurar meu primeiro CD player, comprei o primeiríssimo álbum de carreira do Sab. A ideia era colecionar a obra da banda em formato compact disc e, preferencialmente, na ordem cronológica. Demorou, mas consegui. E, de quebra, comprei também os dois discos solo do baterista Bill Ward, bootlegs e picture discs.

O Sabbath passou pelo Brasil pela primeira vez em 1992, com a digna formação do álbum "Mob Rules", e lá estava eu para vê-los ao vivo. Tocaram boa parte de seus clássicos, privilegiando os discos que gravaram com Ronnie James Dio. Mas como tornou-se praxe na carreira do grupo, esse line-up logo se esfarelou. Sete anos mais tarde, juntaram-se a Ozzy e Ward para uma reunião que resultou num disco ao vivo e que, por algum motivo chato, também foi interrompida prematuramente. E anos depois, de novo com Dio e Appice sob o nome Heaven & Hell. Pouco senso de ocasião e muitas idas e vindas.

Levou três décadas, mas vi, enfim, na última sexta-feira, meus Beatles ao vivo. Sem Ward, mas com Ozzy, e na esteira do grande momento registrado no álbum "13" - o primeiro de inéditas com Oz em 35 anos. A aura de grandiosidade histórica do grupo parece capaz de ofuscar quase todos os artistas em atividade. E você percebe isso quando vê gente de todas as idades e lugares formarem uma multidão ávida para louvar e desfrutar canções com mais de 40 anos.

A entrada na Praça da Apoteose logo revela os três telões de LED com o clássico logo da banda -sim, aquele do "Master of Reality"- e o adolescente em mim se contém para não derramar as primeiras lágrimas. Nem mesmo o bom set de abertura da banda americana Rival Sons, e seu caldo que mistura hard rock e blues, Free e Led Zeppelin, é capaz de me distrair do fato que dali a instantes teríamos o Black Sabbath no palco.

E então as luzes se apagam. E uma animação nos telões termina com o logo do grupo em chamas. Tony Iommi, recuperado da leucemia que quase lhe tirou a vida, surge com aspecto mais saudável e empunhando sua mítica Gibson SG. A canção "Black Sabbath" abre o show como também inaugurou os próprios anos 70, encerrando a fantasia flower power sessentista e retratando a distopia pós-hippie.

Ozzy é um sobrevivente como Iggy Pop e, tal como o Iguana, epitomiza o próprio rock'n'roll. Geezer é pura elegância, um autêntico lorde inglês e um dos melhores contrabaixistas de sua época. Faltou Bill, que está vivo e bem na Califórnia, mas magoado com seus ex-companheiros. Tommy Cufletos, o substituto várias décadas mais jovem, é ótimo baterista, mas não tem o swing e a imprevisibilidade jazzística do mestre. Em se tratando de Sabbath, não se pode ter tudo e estamos mais do que no lucro.

Fiz de tudo para evitar spoilers e não li qualquer coisa sobre o set list da turnê de despedida. Queria estar aberto a surpresas, mas tive poucas. "After Forever" e "Dirty Women" foram as escolhas menos óbvias, mas o restante do repertório foi pinçado a dedo para agradar as plateias pelo mundo afora. Das treze canções executadas, nada menos que onze são extraídas dos três primeiros discos do Sabbath, que são também seus mais populares. Não há nada de álbuns colossais como "Sabbath Bloody Sabbath" e "Sabotage", e tampouco de "Never Say Die" ou "13". Uma pena, mas para isso criei o set list dos (meus) sonhos no final do post.

Se te falarem que Ozzy está desafinando em algumas músicas, acredite. Ele já fazia isso antes, até em estúdio. Se te disserem que a banda toca agora em ritmo mais cadenciado, também é verdade. Mas eles são os arquitetos do doom e Black Sabbath nunca teve a ver com velocidade. E ainda, se repetirem por aí que som ao vivo não tinha o volume esperado, olha, é bem possível que também seja verdade. Em 1992 eles também não tocaram tão alto assim.

Mas são detalhes. E irrelevantes perto do que é ver as faíscas que ainda resultam da química entre esses gigantes. A obra do grupo, não à toa, é uma mais influentes dos últimos 50 anos. Está em tudo que foi feito na música de forma rebelde desde 1970. E isso é muita coisa.

Obrigado por tudo, Sabbath.

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SET LIST
Rio de Janeiro, 02/11/16

Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the Void
Snowblind
War Pigs
Behind the Wall of Sleep
Bassically/N.I.B.
Rat Salad
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
Paranoid

SET LIST
Caixa Preta

Black Sabbath
Sabbra Cadabra
Killing Yourself to Live
Sabbath Bloody Sabbath
Never Say Die
Planet Caravan
War Pigs
Hard Road
N.I.B
Iron Man
Supernaut
Symptom of the Universe
God is Dead?
Cornucopia
Snowblind
Paranoid


Para comemorar o Record Store Day, que acontece hoje, 16 de abril, recupero texto perdido de outra encarnação do Caixa Preta. Fica como homenagem a todas as lojas que mantêm viva a cultura do disco e também ao autor, Ronnie James Dio (1942-2010).


Ele está comigo há 30 anos. Perdido no meio de outros tantos LPs e ausente há bastante tempo do meu relativamente ativo toca-discos. E hoje resolvi dar-lhe uma chance. Enquanto a agulha desliza pelos sulcos do vinil, lembranças do ginásio e de toda uma época vão saindo do baú das memórias.

Meu primeiro disco foi adquirido com economias e trocados de viagens de ônibus, o famoso 5131-Praça da Sé, que me levava até o colégio. Já havia alguns anos que gostava de rock. Era refém dos poucos programas de clipes, o mais saudoso deles o Som Pop, da TV Cultura, que vez ou outra exibia filminhos de bandas de hard rock e heavy metal. Nada mais fascinante para um adolescente de 13 anos e que adorava o som de guitarras elétricas. Mas numa noite de domingo qualquer, foi o eterno programa Fantástico quem fez a surpresa: anunciaram para depois do intervalo um "musical" do ex-vocalista do Black Sabbath. À época, o departamento de jornalismo da emissora ainda não tinha aderido ao termo video-clipe, mas para mim não fazia diferença: a simples menção ao nome da banda sagrada fez meus olhos pularem das órbitas.

O locutor global anunciou "The Last in Line" como a ideia do cantor Ronnie James Dio sobre o fim do mundo e terminou o texto com uma tradução livre do título: "O Fim da Linha". O estrago estava feito. Imagens de um elevador que despenca até o inferno, a trilha musical recheada de riffs e solos faíscantes e toda aquela ideia de fim dos tempos me fascinaram. Lembre-se que era 1984 e existia ali um componente de rebeldia em relação à ordem das coisas. Para as FMs brasileiras, pré-Rock in Rio, a maior ousadia ainda era tocar coisas pavorosas como o grupo pop-rock Radio Taxi. E a TV, salvo o oásis do Som Pop, era ainda tão sem graça quanto hoje, embora com apenas cinco emissoras.

Da veiculação de "The Last in Line" no Fantástico até a compra do disco lá se foi quase um ano. Acumulei trocos da cantina do colégio e os somei às moedinhas que sobravam das viagens de ônibus, que eu normalmente pagava com passe escolar. O que faltava para adquirir o LP, provavelmente foi conquistado graças à eterna generosidade maternal.

Com o dinheiro contado, lá fui eu, a bordo do 5131, dessa vez até o ponto final, na Praça da Sé, atrás de meu primeiro disco. A loja escolhida foi a filial da Rua 7 de Abril da outrora importante rede Museu do Disco. Garimpei em cada casulo de vinil até me deparar com a capa em tons pastéis criada por Barry Jackson - o mesmo que assinara a arte do então recém-lançado "Afterburner", do ZZ Top. Naquele vinil estava não apenas a canção que iluminou um final de domingo qualquer, mas também, e principalmente, minha definitiva introdução aos prazeres do rock'n'roll.

Trinta anos depois, meu primeiro LP está girando no toca-discos. Orgulhoso, tenta disfarçar o efeito do tempo e deixa a agulha deslizar tranquila, sem reproduzir qualquer chiado, talvez na esperança de que seja tocado com mais frequência em minhas sessões nostálgicas.


O saudoso Ronnie James e seu guitarrista, o norte-irlandês Vivian Campbell, quebram tudo no clipe exibido para todo o Brasil em 1984

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PS: Caso esteja se perguntando, sim, a imagem que abre o 'post' é do meu próprio LP. Repare no encarte consertado com durex. :)
Um amigo, grande fã de Danzig, daqueles que têm juízo o bastante para saber que o Misfits deve quase tudo ao ex-vocalista e que a banda sem ele tornou-se um pastiche de si própria, me confidenciou recentemente: "Glenn Danzig perdeu a voz. Faz uns dez anos que está enrolando". Mas como fã perdoa (quase) tudo, encerrou a confissão admitindo que ainda acompanha o cantor e compra todos os seus discos. "Mas nada como os três primeiros álbuns", fez questão de ressaltar.

"Danzig III: How the Gods Kill", o tal terceiro disco, foi gravado no já distante ano de 1992 e de lá pra cá, de fato, Danzig não gravou nada especial. Lançou trabalhos poucos inspirados e até arriscou-se com um disco de temas instrumentais chamado "Black Aria". Ao longo da carreira, especialmente em sua fase 'clássica', não teve medo de flertar com blues, metal e goth rock, oferecendo a todos os gêneros sua voz empostada, uma espécie de 'mash-up' de Elvis Presley e Jim Morrison.

Na fase menos popular da carreira, teve ainda um pequeno brilho: "Thirteen", canção de seu disco "Satan's Child", foi lindamente regravada por Johnny Cash como parte de sua série "American Recordings". Um luxo para poucos.

Agora, sessentão, Danzig diminuiu o ritmo. Faz poucos shows -o do Brasil, em 2011, foi cancelado- e grava o quê e quando lhe dá na telha. Um retrato disso é seu mais recente trabalho, o disco de covers "Skeletons", lançado há quatro meses.

Gosto de álbuns com regravações. É sempre divertido descobrir o que artistas escolhem reinterpretar e como se saem na tarefa. No caso de Danzig, houve certo frisson quando o cantor postou nas redes sociais uma imagem da sessão de fotos para o disco. Pela primeira vez em mais de 30 anos, surgiu maquiado com as fantasmagóricas pinturas faciais dos tempos de Misfits. Para o público que sonha há anos ver Danzig, Jerry Only e Doyle no mesmo palco, a menção ao passado pareceu um aceno à improvável reunião.



O choque de realidade, contudo, veio com o lançamento de "Skeletons". Glenn Danzig não apenas revela uma voz cansada, mas também enorme e indesculpável desleixo com a própria carreira. O disco parece gravado na cozinha de seu casa em Los Angeles e num único 'take'. Mas, estranhamente, as coisas até que começam bem: "Devil's Angels" e "Satan", músicas pinçadas de antigos filmes de exploitation -ótima sacada!-, soam um pouco como o Misfits de 1982; algo raro em sua carreira. Mas então Danzig avança em territórios perigosos e avacalha com bandas sagradas. A interpretação vocal na balada "Rough Boy", do ZZ Top, tem a afinação de um cantor de chuveiro e "N.I.B.", do Black Sabbath, perdeu completamente o mistério, dando lugar a truques modernetes de guitarra.

Glenn, por vaidade ou economia, tocou vários ou quase todos os instrumentos em "Skeletons". E percebe-se que ele não é exatamente um grande baterista. O sujeito atravessa o samba em mais de uma ocasião, quando qualquer especialista daria conta do recado com uma mão nas costas. Tommy Victor, líder do Prong, ex-guitarrista do Ministry e do próprio Danzig, participa do álbum e mais atrapalha do que ajuda. Seus efeitos e licks modernosos destoam das composições originais e não acrescentam em qualidade. Todo mundo parece fora do ar nesse projeto desastrado. (Curiosamente, Victor gravou um outro disco de covers em 2015, "Songs from the Black Hole", com o Prong, e o resultado é MUITO melhor).

E para quem quiser se aventurar com "Skeletons", ainda dá para sofrer com alguns 'nuggets' sessentistas gravados a qualquer nota, como se Glenn Danzig estivesse cantando num karaokê de Chinatown depois de esvaziar duas garrafas de sakê. "Lord of the Thighs", do Aerosmith, é uma das poucas versões que funciona, embora a original também não seja lá grande coisa.

A capa do álbum, que tentou espertamente homenagear "Pin Ups", disco de covers de David Bowie, é outro tiro n'água. Glenn Danzig, aos 60 anos, exibe o peitoral flácido próprio de sua idade e mamilos ridiculamente desalinhados e que passaram batidos pelo 'photoshopper'. É de se perguntar se o vocalista tem amigos ou se seu ego gigante o impede de ouvir opiniões mais realistas.

Com todos os seus defeitos -e Danzig foi bastante espinafrado por críticos e fãs por conta do disco-, "Skeletons" ainda resulta num embaraço menor que "Project 1950", álbum de covers assinado por uma encarnação picareta do Misfits e no qual são destroçadas canções de Paul Anka, Jerry Lee Lewis e Ritchie Valens. O que também diz muita coisa sobre Jerry Only...



Tudo errado e fora do lugar: Danzig avacalha com "Rough Boy", do ZZ Top

(No último mês de dezembro, o ativista dos bons sons Márcio Carlos me fez um convite simpático: listar meus 10 discos favoritos e escrever algumas linhas sobre cada um deles. O texto foi publicado originalmente no Webzine Alternar. Republico abaixo. E, já sabe, fique convidado também a enviar seu 10 mais nos comentários).

Como levar a sério uma lista de 10 discos em que não aparecem “London Calling”, do Clash, ou “Ace of Spades”, do Motörhead? Como acreditar que seria possível passar o resto da vida numa ilha deserta sem a companhia de “Excitable Boy”, do mestre Warren Zevon, ou da obra-prima “Harvest”, de Neil Young? E que tal pensar que você ficaria privado para todo o sempre de exorcizar seus demônios com “Reign in Blood”, do Slayer, porque o autor desse top 10 teve a pachorra de deixá-lo de fora? Mas fazer listas é isso: excluir centenas de discos obrigatórios em detrimento de uns poucos que, em determinado instante do tempo, ocupam um lugar especial no seu imaginário. A eles.




Dick Dale – “Better Shred Than Dead” (1959–1996)
O rei da surf guitar faz parte de uma especial geração de transgressores. Se Link Wray inaugurou a distorção, foi Dale quem adaptou para a guitarra elétrica um certo tipo de palhetada antes comum apenas a outros instrumentos de corda. Sem querer, gerou a semente para o surgimento dos gêneros mais selvagens do rock’n’roll. O auto-proclamado rei da surf guitar contribuiu também para o desenvolvimento de guitarras e amplificadores, desafiando Leo Fender a criar equipamentos capazes de dar conta de sua ferocidade sonora. Como é do tempo dos singles, a obra de Dick Dale não pode ser resumida em um disco de carreira. A melhor maneira de compreendê-lo é através da antologia “Better Shred Than Dead”, um CD duplo que compreende 40 anos de subestimada carreira.




The Stooges – “Funhouse” (1970)
Não é exagero dizer que com seu disco epônimo lançado em 1969, Iggy e os Stooges acabaram com o que restava de inocência no rock’n’roll. Mas foi apenas em “Funhouse” que a violência sonora dos padrinhos do punk foi devidamente captada em estúdio. O álbum prenunciou a distopia setentista e o sequestro do rock por junkies e marginais, traduzindo a desorientação da época. A primeira parte de “Funhouse” traz algumas das canções mais icônicas dos patetas de Detroit (“TV Eye”, “Down on the Street”) e a segunda, temas sujos, arrastados e distorcidos, acrescidos do sax de Steve MacKay, e que soam como free jazz tocado por punks. Nada mais seria como antes.



Black Sabbath – “Vol. 4” (1972)
A maioria do público idolatra os primeiros três discos do Sabbath, mas a grande trilogia da banda é aquela formada por “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” (dos três, “Vol. 4” é o mais impressionante). O álbum foi gravado em uma mansão de Los Angeles com os quatro integrantes cheirando pó enlouquecidamente e na companhia de groupies, penetras e traficantes. O resultado é um disco inspiradíssimo e que traz o riff de guitarra mais absurdo gravado pelo mestre Tony Iommi: “Supernaut”.



Frank Zappa – One Size Fits All (1975)
As bandas de apoio de Zappa tiveram inúmeras encarnações e sua obra é fundada em uma discografia complexa e que abrange de doo-wop a jazz eletrônico, passando por obras conceituais debochadas (como “Thing Fish”) e peças orquestrais. A tarefa de selecionar um único álbum de artista tão idiossincrático é árdua, mas “One Size Fits All”, nono disco de Zappa com os Mothers of Invention, é um de seus momentos mais iluminados. Da abertura apoteótica com “Inca Roads” até a antológica “Andy”, o álbum tem todos os principais atributos zappianos: exuberância técnica, senso de humor e afiado sentido de composição.



Misfits – “Static Age” (1978)
Grande parte dos singles clássicos do Misfits são oriundos de uma mesma sessão de gravação de 1978. Esse material foi reunido pela primeira vez em um álbum somente em 1996 –após a resolução da guerra judicial entre Glenn Danzig e Jerry Only- sob o título “Static Age”. Quase tudo que você precisa ouvir do Misfits está aqui e com aquela gravação deliciosamente tosca que agrega um charme especial às canções. A imersão da banda na estética de filmes B e no submundo de Hollywood nunca funcionou tão bem. Um clássico do punk rock.



ZZ Top – “Eliminator” (1982)
A pequena e velha banda do Texas já era um dos atos mais bem sucedidos do blues rock americano quando gravou “Eliminator”, em 1982. Alguns de seus trabalhos anteriores, como o excelente “Degüello”, davam pistas que Gibbons, Hill e Beard tinham recursos para reinventar seu som poeirento e estradeiro. Mas em “Eliminator”, tudo, absolutamente tudo, funcionou à perfeição. As canções são irresistíveis e a execução é infernal, com Gibbons entregando alguns de seus melhores riffs e solos. Os clipes icônicos para faixas como “Legs” e “Gimme All Your Lovin’” impulsionaram o ZZ Top ao imaginário popular e resultaram em vendas multiplatinadas para o disco.




Tom Petty & the Heartbreakers – “Full Moon Fever” (1989)
Obra-prima da música pop baseada numa safra de canções tão suculenta que deixa o álbum parecido com uma coletânea de sucessos. Mas “Full Moon Fever” é um disco de carreira de Petty e seus Heartbreakers, gravado na esteira de sua colaboração com o supergrupo Travelling Willburys -- George Harrison e Roy Orbinson participam com vocais de apoio e Jeff Lyne toca baixo e produz. “Free Fallin’”, “I Won’t Back Down”, “Love is a Long Road”, “Runnin’ Down a Dream”: a lista de composições exuberantes impressiona, assim como o trabalho de guitarra do grande Mike Campbell. Disco de cabeceira de quem tem algum juízo.




Social Distortion – Somewhere Between Heaven and Hell (1992)
A cultura low rider, o revisionismo da estética dos filmes de gângsteres e de pin-ups, as tatuagens e os rebeldes sem causa. Mike Ness tomou todos esses temas para si, escreveu belíssimas canções sobre eles e transformou-se em um tipo de trovador com espírito punk. O repertório do Social Distortion encontrou o equilíbrio perfeito em “Somewhere Between Heaven and Hell”, com sua produção impecável e um passeio de caranga envenenada por blues, rock’n’roll e Americana.



Fugazi – “In on the Kill Taker” (1993)
Surgido das cinzas de Minor Threat e Rites of Spring, o Fugazi pegou tudo que se conhecia sobre punk rock e hardcore e virou do avesso. A revista inglesa de metal Kerrang! certa vez descreveu a música da banda como post-hardcore e talvez seja esse o melhor rótulo para definir o som do grupo. O Fugazi atingiu seu ápice em “In on the Kill Taker”, de 1993 - um êxtase de tramas instrumentais complexas e viscerais e com o inconfundível contraste entre as vozes de Ian MacKaye e Guy Picciotto. O repertório desse disco foi defendido ao vivo em performances arrebatoras por uma banda que deixava as tripas no palco.



Monster Magnet – Dopes to Infinity (1995)
Dave Wyndorf é um dos grandes artistas do rock dos últimos 30 anos e dono de uma de suas mais belas vozes. O líder do Magnet também conhece como poucos a cena de bandas de garagem dos anos 60, o hard rock, a psicodelia e o space rock dos 70’s. É um ourives da boa cultura pop. E foi reprocessando essas referências com uma quadrilha de grandes músicos que Wyndorf cunhou álbuns como “Powertrip”, “God Says No” e “Monolithic Baby!”. Em “Dopes to Infinity”, de 1995, há quase tudo do melhor que o Monster Magnet sabe fazer: temas instrumentais apocalípticos, baladas lisérgicas, flertes com o proto-punk à la Stooges/MC5 e hard/stoner pesadíssimo. Se existirem bordeis em Marte, é essa a música que eles tocam.
Passei as últimas horas ouvindo LPs. De Run-DMC a Trio Mocotó, passando por Black Sabbath, Meat Puppets e o chato de galochas Giorgio Moroder.

Eu não ouvia um LP há anos. E a razão para isso é banal: apreciar os velhos discos de vinil dá trabalho.

Quando o fonocaptador -popular agulha- do meu toca-discos foi para o espaço, encostei o aparelho e mantive meus ouvidos entretidos pelas centenas de CDs e os muitos gigabytes de MP3.

Você não compra uma agulha de vitrola na loja da esquina, afinal de contas.

Mas confesso que, de vez em quando, eu olhava para o toca-discos empoeirado -e não é modo de dizer- e sentia certa culpa. O aparelho é antigo, claro, mas supimpa: um Gradiente semiautomático S-126 com tração por correia (belt drive). Não é o supra-sumo das pick-ups, longe disso, mas também não faz feio.

Acontece que botar o bicho pra funcionar não era exatamente uma prioridade. Por isso, a nova agulha da LeSon chegou com apenas cinco anos de atraso.

Comprei a substituta na manhã deste sábado numa loja bacana da Santa Ifigênia (onde mais?) por 40 pratas. Nada barato, mas considerando que virou uma peça de reposição para o trabalho de DJs -e fetiche de saudosistas- o valor é compreensível.

Puxei um álbum aleatório para ressuscitar o toca-discos, que responde também para um receiver Gradiente S-126. Saiu da pilha Raising Hell, um clássico do rap old school que merece mesmo ser ouvido em vinil.

Coloquei a bolacha pra rodar e tive que suspender o braço da vitrola imediatamente. O disco estava sujo e o chiado parecia o de um gato afiando as unhas num quadro negro. Passei uma flanela e a qualidade do áudio mostrou-se relativamente boa, ainda mais para uma prensagem nacional.

Distraído em outras tarefas, tive que atravessar a casa minutos depois para virar o lado do disco e soprar uma bolinha de poeira da agulha.

Os LPs demandam atenção triplicada do ouvinte e não tenho dúvidas que foi justamente essa exigência que formou gerações de audiófilos. O vinil caiu porque o mundo mudou. Convenhamos, nada mais acrônico nos dias atuais do que pausar a vida multitarefa para se sentar e ouvir um disco.

Mas velhos hábitos escondem novas recompensas.

No fim do dia, tive a ideia de visitar meus pais e vasculhar os LPs da infância. Meu pai, por acaso, foi dono de um comércio vizinho à Rádio Record nos anos 70. Ganhou discos promocionais de montão. De singles de Dee Dee Jackson e do maestro Paul Mauriat, até trilhas orquestrais cubanas para ouvir em cruzeiros marítimos.

Achei intactos os compactos da clássica série "Disquinho"-relançada em CD pela Warner- e os sequestrei por tempo indeterminado. Curioso, apresentei o formato vinil para minha filha de três anos. Ela vibrou quando viu a capa da edição com a história da Branca de Neve.

Puxei a bolachinha da capa e perguntei se sabia o que era aquilo. "Um DVD?", perguntou ela. Achei sagaz a associação e expliquei que era quase isso, mas não tinha imagem. "E como faz?", indagou a pequena.

Levei-a para ver o toca-discos e mostrei o funcionamento da geringonça. Ela adorou ver o disquinho girando e, como qualquer criança normal, tentou pará-lo com o dedo. Mas quando ouviu a pomposa trilha incidental da Branca de Neve ecoando pela casa, pôs as mãos sobre a boca e arregalou os olhinhos.

Não piscou até a bolacha parar de girar.

  Parte 1 de 4 do documentário "John Peel's Record Box", sobre a monstruosa coleção do lendário radialista inglês. Os discos contam a nossa vida
Na primeira metade dos 80's, uma coleção de figurinhas chamada Stamp Color fez um baita sucesso entre a molecada. Colávamos as figurinhas no armário, nos cadernos, na janela do quarto.

Stamp Color era uma viagem com ilustrações ao estilo do peruano Boris Valejo e capas de rock. Me lembro bem das figurinhas de "Love Hunter", do Whitesnake, e "Some Enchanted Evening", do Blue Öyster Cult.

Mas teve uma, em especial, que passou boa parte do ginásio colada na minha prancheta: "Blood on the Snow", do Coven. Eu não sabia do que se tratava, mas achava a capa do disco incrível: um diabão vermelho tocando violino.

Lá pelos 15 anos de idade, eu já ouvia Venom e Mercyful Fate, bandas reconhecidamente fascinadas pelo capeta, mas nunca topei com o tal disco do Coven. E olha que, nos anos 80, vi e ouvi praticamente tudo que existia de metal underground.

Décadas se passaram e "Blood on the Snow" virou apenas isso: uma memória apagada da pré-adolescência sobre uma capa de disco bacana. Nunca li nem ouvi nada do Coven em todos esses anos.

Bem, até recentemente...


Lendo um ensaio sobre satanismo no rock, me deparei várias vezes com o nome dessa banda de Chicago. Recorri à internet para tirar a dúvida e, sim, tratava-se do mesmo Coven. O fascinante da história é que o grupo, absolutamente esquecido, foi precursor de um monte de coisas que viriam a ser associadas à cena (black) metal surgida nos 80's.

O primeiro álbum do Coven, com o radical título "Witchcraft Destroys Minds and Reaps Souls" (em tradução livre: "Bruxaria destrói mentes e estraçalha almas"), foi lançado em 1969 - um ano antes da estreia do Sabbath! Mais incrível ainda é que o baixista dos caras chamava-se Oz Osborne e eles tinham uma canção intitulada "Black Sabbath". Dá pra acreditar?

O Coven só não tomou dos ingleses mesmo a invenção do heavy metal. A cantora Lynx Dawson tem uma voz tão parecida com a de Grace Slick, que parece que estamos ouvindo Jefferson Airplane. O elemento satânico chega a soar deslocado.

Mas o resto eles fizeram antes que todo mundo: foram fotografados fazendo o sinal do capeta e usando crucifixos invertidos. Mesmo com o ocultismo em voga, ninguém havia ligado o satanismo ao rock'n'roll de forma tão gráfica e explícita.

Só mesmo a porralouquice dos anos 60 para explicar que uma grande gravadora como a Mercury botasse dinheiro num disco que terminava com uma missa negra de 13 minutos regida por um ministro da Church of Satan. Suicídio comercial é pouco.

Ou talvez os executivos achassem que estavam antenados com a vibe mística que dominava a cultura pop. Afinal, eram os tempos em que Aleister Crowley havia sido redescoberto, tornando-se alvo de interesse de Jimmy Page e dos Beatles.

O diabo estava na moda.

Mas o álbum de estreia do Coven teve o pior timing possível: foi lançado no mesmo ano em que a atriz Sharon Tate, grávida de nove meses, foi brutalmente assassinada pela Família Manson. Roman Polanski, seu marido, havia dirigido apenas um ano antes "O Bebê de Rosemary", filme que mostra o triunfo do coisa ruim sobre uma jovem moça grávida.

Os crimes conhecidos como Tate-LaBianca abalaram a classe artística e são tratados como um dos eventos que encerra definitivamente a utopia sessentista. E o Coven ficou perdido nesse limbo. É de se supor que o satanismo, até então tratado com uma variação da cientologia, tenha começado a parecer realmente perigoso.

Mas o Coven teria ainda seus 15 minutos de fama regravando -dizem que a contragosto- uma canção pop pacifista chamada "One Tin Soldier". Pelo que consta, a música, ainda hoje, é muito executada em rádios de classic rock na América.

Os integrantes do Coven, que juravam estar mesmo engajados na adoração ao tinhoso, gravaram dois outros discos nos anos 70 - um deles o tal "Blood on the Snow" que, por décadas, foi um absoluto mistério para mim.

A faixa-título do álbum, essa, sim, uma sonzeira da pesada, foi transformada num estiloso video-clipe, em tempos que isso sequer existia. Sim, o Coven gostava de inovar.

Sabe-se lá quem foi o brazuca que teve a ideia de transformar a capa desse disco sombrio numa figurinha pra adolescentes. Sem querer, abriu o portal para uma das histórias mais obscuras do rock.

Obra do demo?


Enfim, "Blood on the Snow": viagem lisérgica pelo inferno

LEIA MAIS: Black Metal - Porque o diabo ainda é pop
Agorinha há pouco, Bill Ward tornou-se, por poucos minutos, um dos assuntos mais falados do Twitter no Brasil. Achei, honestamente, que o lendário baterista tivesse morrido -já teve dois infartos antes-, mas está vivo, ainda que amargurado.

Ward, ao que tudo indica, não vai mais participar da volta do Black Sabbath. Isso o exclui, automaticamente, de gravar o novo disco e sair em turnê com a banda. Motivo: ele não concorda com as condições contratuais e se diz escaldado por ter topado coisa semelhante no passado.

Como em todo tipo de negócio que envolve dinossauros do hard rock, os egos são gigantescos e a capacidade de fazer burradas é histórica. A carreira do Sabbath está repleta de oportunidades desperdiçadas por vaidade e falta de visão. Essa reunião de 2012 se encaminha para ser mais uma delas.

Sem acesso a detalhes do contrato, é fácil escolher um lado da história. Bill Ward é um cara sentimental e protagonista de pequenas e desconhecidas histórias de generosidade.

No começo da internet, li um depoimento no fórum de seu website que jamais esqueci: um fã relatava que, quando esteve por meses numa cama de hospital, escreveu uma carta para Ward e recebeu, como resposta, uma fita cassete gravada por Bill em que falava sobre seus próprios percalços e dava força para o fã sair da depressão.

Agora, dá para imaginá-lo brigando com o Sabbath por dinheiro à essa altura da vida?


Em 1990, Bill lançou seu primeiro disco solo: "Ward One: Along the Way". Comprei no ato. É melhor que qualquer coisa que seu ex-colegas fizeram depois que o Sabbath se desintegrou.

"Along the Way" é tão bom justamente por não ser nada óbvio. Bill sequer toca bateria em algumas faixas e apresenta uma elaborada paleta de sons. De baladas e climas atmosféricos -com sintetizadores, efeitos e percussão- a um tipo de rock clássico que ganha muito com a inestimável participação de Jack Bruce, do Cream. A canção "Tall Stories", em que Jack e Bill dividem os vocais, e ainda com a presença da cantora de R&B Lorraine Perry, é de chorar.

O velho comparsa Ozzy Osbourne também canta em "Jack's Land" e "Bombers (Can Open Bomb Bays)", mas consta que as duas faixas não foram liberadas para futuras reedições do álbum.

A enorme e sórdida possibilidade que Sharon Osbourne tenha colocado obstáculos burocráticos num projeto delicado como "Along the Way" apenas reforça a ideia de que Ward, em 2012, deseje tratamento mais nobre do que ser um simples empregado na engrenagem comercial por trás da nova reunião.

Talvez o Sab deveria fazer apenas uma grande e derradeira turnê nostálgica, sem disco novo nem nada, e encerrar com dignidade uma obra que, em seu período fértil, gerou uma das mais assombrosas discografias do rock.

Por isso que, nessa briga, fecho com Bill Ward. E você?


Clipe promocional do álbum "Along the Way": Bill e Oz já foram mais felizes
Ainda bem que existe música gravada. Não fossem os discos, e seria impossível ilustrar as evoluções na engenharia de som ou pontuar a carreira de um artista.

Talvez isso explique porque, em plena era digital, ainda se grave álbuns. Ninguém pensou em nada melhor para encapsular o zeitgeist do que produzir um disquinho de plástico, com título, capa, encarte e todo o resto.

A série "Classic Albums", do canal VH1, consagra a ideia do disco como o testamento de um artista para a história. Um de seus mais recentes episódios, dedicado ao emblemático Paranoid, do Black Sabbath, chega em DVD ao Brasil.

É imperdível ver os quatro senhores ingleses dissecando, cada qual à sua maneira, aquela que foi a pedra fundamental do heavy rock, gravada em 1970.

Paranoid não representa o apogeu técnico e criativo do Sabbath, mas sua importância histórica se justifica pela quantidade de invenções que continuam a ser copiadas 40 anos depois: da palhetada em "Hand of Doom" às duas toneladas de peso de "Electric Funeral".


Como já é de praxe em "Classic Albums", somos levados ao estúdio para ouvir os masters, enquanto o engenheiro de som original -Tom Allom- desliza os botões para destacar as pistas de gravação de baixo, guitarra, voz e bateria.

O segmento sobre a balada riponga "Planet Caravan" é um de meus favoritos. Que tal ver Toni Iommi tocando a canção no violão depois de décadas? E descobrir que alguns dos efeitos na música eram apenas de botões sendo ligados e desligados no estúdio?

Cada canção tem sua história. Geezer Butler confirma a lenda de que "Fairies Wear Boots" é uma sacanagem de Ozzy com os skinheads que lhes distribuíam botinadas. Já "Iron Man" ganhou esse título pela sonoridade de guitarra estranha e metálica e que Iommi revela como foi obtida.

A conjuntura sociocultural também explica muita coisa sobre o repertório. O álbum, como há muito revelado, era pra ser chamar War Pigs, mas a Warner Bros, receosa de entrar numa saia justa em plena Guerra do Vietnã, descartou a ideia.

A capa já estava pronta e uma canção escrita de última hora virou o novo título do disco. Um dos acidentes mais felizes da história do rock.

Bill Ward relembra que "Paranoid" foi composta em 20 minutos, após a banda voltar do pub com a tarefa de preencher mais 3 ou 4 minutos no disco. Toni Iommi sacou o riff da cartola e a banda apenas foi atrás.

O álbum vendeu 8 milhões de cópias nos EUA. E entrou para a história.


Trailer do episódio de "Classic Albums" dedicado a Paranoid.


"Electric Funeral", ao vivo, em 1978, na última e atribulada turnê com Ozzy.
Terminei de ler há pouco mais de um mês e, dada a boa divulgação, já não é exatamente uma novidade. Ainda assim, recomendo: comprem já a autobiografia de Ozzy Osbourne!

Mesmo se você for louco o suficiente para não apreciar a discografia colossal que Oz construiu ao lado do Sabbath, o livro vale cada centavo pelas descrições absolutamente despudoradas do que foi ser um astro do rock nos anos 70 e 80.

Cada página tem uma história mais trágica ou cômica que a anterior: orgias, incêndio, tiros, acidentes, pó, maconha, prisão, bebedeiras, brigas e muito mais.

Para quem é fã do Black Sabbath então, os relatos das gravações e turnês não têm preço. Na época dos dinossauros, Ozzy e seus comparsas registraram discos emblemáticos em condições que até Deus duvida.

"Volume 4", tido e havido como a grande obra do Black Sabbath, foi escrito e gravado numa mansão de Los Angeles frequentada por malucos e groupies, enquanto a banda consumia toneladas de cocaína. Daí a faixa "Snowblind" e uma paranoia persecutória que terminou com a mansão cercada pela polícia após de um vacilo hilariante do baterista Bill Ward.

Já "Sabbath Bloody Sabbath" foi gravado num castelo supostamente mal assombrado. Depois de um bloqueio criativo, Tony Iommi sacou da manga o riff monstruoso da faixa-título e o resto é história.



Ozzy trata o livro também como um testamento. Ele faz um 'mea culpa' comovente em relação à sua primeira mulher, Thelma, de quem fez gato e sapato. Também pede perdão aos pais e, claro, à Sharon Osbourne, que o aturou em sua fase mais deprimente. A hoje multimilionária celebridade de TV perdoou Ozzy até pela tresloucada tentativa de assassiná-la.

Apesar do tal "cérebro de geléia", Oz faz relatos minuciosos de seus 40 anos no circo do rock'n'roll. Dos integrantes de seitas que peregrinavam atrás do Sabbath até o dia em que arrancou a cabeça de um morcego ao vivo, passando pelos encontros com gente como Frank Zappa, John Bonham e Brian Wilson.

Ozzy é um louco de pedra e esmiúça sua vida em 400 páginas da melhor literatura rock que existe por aí.

Aproveite o feriado para devorar.

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Leia também: Black Sabbath e a arte de criar Paranoid, o disco
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