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Após algumas semanas em silêncio, Caixa Preta retorna com o primeiro de dois, quem sabe três, posts especialíssimos.

Tudo porque estivemos, entre 30 de julho e 14 de agosto, peregrinando da Holanda ao Reino Unido através de casas de shows, lojas de discos e culminando com os quatro dias e 200 bandas do Rebellion, maior festival punk do planeta, que acontece anualmente em Blackpool, Inglaterra.

Antes do festival, no entanto, um aquecimento para não esquecer no Melkweg, em Amsterdã. O lugar, aberto em 1970, onde funcionara uma antiga fábrica de laticínios, abriga duas salas de shows, cinema, teatro e espaço para exposições. E tem o melhor som ao vivo que este blog já presenciou. Qualidade de áudio absolutamente cristalina e bem equalizada. Não bastasse, o Melkweg é ainda belíssimo como exemplo de arquitetura e o público entra no espaço sem sequer passar pela revista de seguranças.
 
E na noite de 30 de julho, apresentam-se por lá nada menos que The Adolescents, TSOL e Flag. Uma trinca de bandas que é parte da história do hardcore/punk americano. Juntos, os grupos oferecem uma paleta sonora que recupera o espírito inventivo e anárquico de toda uma época.

Infelizmente chegamos a tempo de ver apenas o desfecho do show dos Adolescents, com a sensacional canção "Kids of the Black Hole". Mas assim que o TSOL subiu ao palco, com 3/4 de sua formação clássica, tudo valeu à pena. Um set inspiradíssimo e repertório que privilegia a obra da banda que antecede o famoso álbum "Change Today?" - sim, aquele do hit radiofônico "Flowers by the Door".

Jack Grisham, o vocalista, vestido de paletó e calça com estampas extravagantes, irradiava felicidade. Contou a loucura que é dividir o camarim com outros sujeitos lendários e que, ainda em 2016, fica intimidado diante do ícone Keith Morris. Bom de papo, disse que quem for a Los Angeles pode telefonar pra ele e combinar uma visita. "Basta procurar por Jack Grisham no catálogo telefônico. Sou eu! Digo isso há anos, em todos os shows, e até hoje apenas um fã me procurou. O nome dele era Antônio e ela era do Brasil...".

Grisham, com cabelos negros, olhos azuis e um pança proeminente que lembra o Elvis Presley da fase Las Vegas, revelou ainda o título do aguardado novo disco do TSOL: "The Trigger Complex".

No intervalo entre os shows, uma visita às banquinhas de merchandising das três bandas e um papo com os fãs holandeses. Um deles, chamado Tyson, com seus 20 e poucos de idade, nos mostra orgulhoso uma tatuagem do TSOL. "É a maior banda do mundo!".

Na volta, o Flag implode Amsterdã com um show absolutamente incendiário. Bombástico. Inesquecível. Coisa de outro planeta. Difícil acreditar que, capitaneado pelo chefe Greg Ginn, o Black Flag esteja hoje em dia vagando pelas sombras do Flag; superbanda que reúne Keith Morris, Dez Cadena, Chuck Dukowski, Bill Stevenson e um reforço de luxo na segunda guitarra: Stephen Egerton, do Descendents.

Dukowski rouba a cena com sua postura de palco e aquele visual clássico que conhecemos das icônicas fotos de Glen E. Friedman: camisa havaiana, calça colorida e tênis de skatista. O sujeito tem 62 anos e, de tanta entrega, parece que pode tombar a qualquer momento vítima de um ataque cardíaco fulminante.

O repertório do grupo traz bombas atômicas como "Jealous Again", "Police Story", "Wasted", "Fix Me", "Gimmie Gimmie Gimmie" e "Nervous Breakdown". Keith Morris, 61 anos, ostenta seus imensos dreadlocks e impõe respeito. À certa altura, tira onda com uma fã que sobe ao palco para tirar uma foto sua. "Você quer ser a estrela do Instagram, é isso?".

Em "Rise Above", os punks holandeses saem do corpo (vídeo abaixo). Quem está perto do caos é tragado pela turba. E se cair, como foi meu caso, não há problema: rapidamente os membros da baderna esticam as mãos para ajudar. Punk rock.

Rumo ao fim do show, Dez Cadena bota a guitarra de lado e assume os vocais em faixas como "American Waste" e "Six Pack". Morris retorna para fechar o set com a famosa versão de "Louie Louie". Deixam o palco como quem saiu das trincheiras.

Um show que precisa obrigatoriamente passar pelo Brasil. É experiência transformadora.

Melkweg, Amsterdã.


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Na segunda edição da série "Caixa Preta Entrevista", recupero uma entrevista que realizei com Jerry Only, co-fundador do Misfits, no ano de 2003. A conversa aconteceu no conservatório musical Souza Lima, em São Paulo.

É uma de minhas prediletas. Conseguiu abranger vários aspectos da fase clássica do Misfits e contou com um bem humorado Jerry Only, muito disposto a responder sobre qualquer assunto. Há depoimentos reveladores sobre a passagem do Misfits pela Roadrunner, o encontro com a antiga musa dos filmes B Vampira, detalhes de gravação e muito mais. A entrevista foi publicada na revista Rock Press e agora você pode conferi-la na íntegra.


Fale um pouco sobre o álbum Project 1950, que foi lançado pela formação atual.
Jerry Only: O Project 1950 tem a intenção de mostrar aos jovens músicos que o rock’n’roll original e aquele do Ramones e Misfits, é o mesmo tipo de música. Matematicamente é a mesma coisa. Os acordes de “Donna”, do Richie Valens, são os mesmos de “Blitzkrieg Bop”. O fato de agora os pais poderem entender a música que seus filhos estão ouvindo e, acredite, eles estão roubando os CDs dos garotos para escutá-los, é uma coisa nova. Acho que foi uma ótima ideia. O disco tem a participação de grandes músicos também. É um grande álbum. Esse CD saiu pela Misfits Records.

Alguma possibilidade de distribuição no Brasil? 
Sim, sem dúvida. Isso deve acontecer em todos os países da América do Sul onde estivemos excursionando e o Brasil está incluído. Estivémos no Peru e devemos ser distribuídos no Chile também. Estamos sendo distribuídos pela Rykodisc (nos EUA) e se eles não atenderem o Brasil, faremos isso por conta própria. Mesmo que eu tiver de trazer os discos pra cá e vendê-los aos garotos.

O que você e o Doyle fizeram entre 1983 e 1996, quando o Misfits esteve parado? Ouvi dizer que vocês tinham uma banda chamada Kryst the Conqueror.
JO: Sim, nós tínhamos. Nós também projetamos e construímos guitarras, baterias e acessórios, como correias de guitarra e até rebites pra jaquetas. Algumas de nossas guitarras estão sendo fabricadas agora pela BC Rich. Durante aquele tempo, enquanto construíamos os instrumentos, compusemos um monte de riffs. O álbum é bem metal, bem Iron Maiden. Juntamos esses riffs que escrevemos e colocamos no álbum, então é mais um workshop de guitarra do que uma produção de fato. De qualquer forma, naquela época o Danzig estava no mercado e as pessoas acreditavam que ele fosse o Misfits. E o lance dele era bem satânico, por isso chamamos a banda de Kryst the Conqueror, para mostrar aos garotos que se o ponto de vista do Glenn Danzig era bem negativo, o nosso era positivo. Era mais uma declaração daquilo em que acreditávamos do que uma banda de verdade. Nós nunca tocamos ao vivo. Existem 48 faixas gravadas e a Misfits Records deve lançar esse material algum dia.

Marky Ramone: (interrompe) E como ele sabia disso?
JO: (rindo) Eu não faço ideia!

Quando se pensa no Misfits, logo vem à mente a imagem do Crimson Ghost, que se tornou praticamente um ícone pop…
JO: Com certeza!

Quem teve a ideia de usá-lo como símbolo da banda?
JO: No nosso primeiro disco, que gravamos quando tínhamos 18 anos, havia músicas como “Last Caress”, “Attitude”, “Teenagers From Mars” e por aí vai. Trata-se do álbum Static Age. Na época, Nova York era bem artística, bem avant garde. Todo mundo queria ser sombrio e sinistro, mas nada interessante de se ver. Então, fizemos um cartaz para o Max Kansas City (importante casa de shows da época) com a imagem do filme “Teenagers from Mars” (1) e realmente gostamos do jeito que ficou. Ainda usávamos o primeiro logo do Misfits, não o atual. Nós olhamos para aquilo e dissemos: “Uau! Tem tudo a ver com a gente!”. Porque todos nós gostávamos de filmes de terror, de monstros, então nos habituamos com a imagem do Crimson Ghost. Desde aquele dia, ela ficou associada a nós. Fizemos camisetas e coisas assim. Nas convenções de camisetas, você tem os Stones, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Jim Morrison e aquela caveira (Crimson Ghost) como as mais vendidas, então, enquanto imagem, nos tornamos ícones pop. Aquela imagem pode ser vista nas ruas de todo o planeta. É uma grande honra para nós. O mais interessante é que não há outra identificação (além da caveira) e as pessoas já sabem o que significa. Me faz sentir que criamos uma coisa muito grande. Como o “S” do Superman, sabe?

É verdade. E vocês registraram a imagem depois que ela ficou associada a vocês?
JO: Sim. Nós fizemos a ilustração a traço e patenteamos tudo. Mas liberamos para artistas usarem de graça. E para pessoas como, por exemplo, o medalhista de prata (nas olimpíadas de inverno 2002) Danny Kass, que usou a imagem da caveira em seu snowboard e em suas roupas. Nós cedemos para algumas pessoas que nos solicitam. Não patenteamos para ter lucro e sim, por proteção.

Já que falamos do personagem Crimson Ghost, gostaria que você nos contasse como foram seus encontros com as celebridades dos filmes de terror. Nos anos 80, o Misfits posou para fotos com a musa dos filmes B Vampira e nos 90, teve um clipe dirigido pelo lendário cineasta George A. Romero.
JO: A Vampira tem uma história muito triste. Ela foi namorada do James Dean. Pouca gente sabe disso, mas quando James Dean morreu, Vampira era namorada dele. Ela teve uma passagem muito breve por Hollywood. Depois disso, ela esteve na batalha por muitos anos. Em 1983, quando saiu o álbum Walk Among Us, nós fizemos uma sessão de autógrafos na Vinyl Fetish (tradicional loja de discos de Los Angeles). Aí eu perguntei para um sujeito: “Hey, você que é daqui, sabe mora a Vampira?”. Ele disse: “Por incrível que pareça, ela vive a três quadras dessa loja!”. E ela morava numa casa pequena e caindo aos pedaços. Realmente precisava de uma reforma. Fomos até lá e, pela janela, vimos alguém se movendo. Como ninguém atendia a campainha, escrevemos um bilhete e colocamos na janelinha por cima da porta: “Estamos dando autógrafos hoje na loja tal. Por favor, venha nos ver. Fizemos uma música para você”. Mais tarde naquele dia, ela apareceu na sessão de autógrafos com suas unhas postiças e tudo. Foi uma grande honra. Com relação a George Romero, nós queríamos que ele dirigisse nosso vídeo (da música “Scream!”) e ele jamais tinha dirigido um clipe de rock antes, então ele veio a mim e disse: “Que coincidência! Estou precisando de uma banda para o meu novo filme (“Bruiser”, 2000). Se vocês participarem do filme, eu dirijo o vídeo de vocês”. Foi o que aconteceu. Inclusive meus filhos e alguns amigos acabaram aparecendo no clipe. Trabalhar com George Romero é incrível. Já tínhamos participado de filmes antes e normalmente você chega no set de gravação às 6 da manhã e nada acontece até à meia-noite. Você fica andando pra lá e pra cá sem fazer nada. George, ao contrário, trabalha como uma metralhadora: “Filme isso, filme aquilo”. E eu pensava assim: “Mas esse cara está maluco? Pra quê ele vai precisar disso?”. Mas quando você vê o filme pronto, de repente aquilo tudo faz sentido. É incrível o jeito como ele trabalha. Eu tenho o maior respeito por George Romero. “A Noite dos Mortos Vivos” foi feito com apenas 100 mil dólares e é um dos filmes de terror mais assustadores já realizados. Não se discute. E ele conseguiu isso com apenas 100  mil dólares que arranjou emprestado com alguém... Isso nos mostra que hoje em dia temos coisas como “Star Wars”, que custam 50 milhões de dólares para ser feitas e nem sequer chegam perto. Ou seja, o importante não é o quanto você tem para gastar e sim, quão grande é a sua visão. Acho que, com nossa banda, atingimos isso também, porque agora temos nosso próprio selo e não é porque quiséssemos ter um, mas estávamos numa gravadora que não fazia as coisas direito (está se referindo à Roadrunner). O Misfits ainda está bem vivo, mas nenhuma gravadora estava fazendo nada por nós e agora estamos indo muito bem com muito pouco.

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Gerald Caiafa (Jerry Only)

Quando você foi entrevistado pela MaximumRocknRoll em 1996, tinha acabado de ganhar na justiça os direitos do nome Misfits. Na época, você dizia que seu plano para o futuro da banda era fazer tudo de forma independente, mas vocês acabaram assinando com a Geffen e depois com a Roadrunner. Por que?
JO: Vou te dizer o porquê. Naquele tempo, a Geffen era uma grande gravadora. Eles tinham Guns N' Roses e White Zombie. Ambas as bandas estavam sentadas em casa sem fazer nada. Na minha opinião, eles tinham essa máquina de rock’n’roll e ela estava ociosa. Eu pensei em deixar o Misfits numa companhia como a Geffen, que tinha todos os recursos para acelerar o processo e levar nosso material até os garotos. No meu modo de ver, era uma forma de abreviar as coisas para chegar até onde eu queria. Mas o que aconteceu com a Geffen, com todo respeito ao Rob Zombie, é que eles se apropriaram de todas as ideias do Misfits e as colocaram no álbum Hellbilly Deluxe. Até mesmo o artista que pintou a capa. O Rob Zombie me ligou pedindo o número dele e é o cara que fez nossa capa também! O lance é que minhas ideias estavam certas, porque ele vendeu de 1,5 a 2 milhões de discos e deveríamos ter sido nós, porque American Psycho é melhor que o álbum dele. Desculpe, mas é um fato. E a Geffen queria saber o que eu achava, quais eram meus conceitos. Eles pegaram todas essas informações e se saíram muito bem com elas. Então decidimos que estávamos fora. Fomos para a Roadrunner Records e na época eu estava tendo problemas com nosso vocalista e baterista. Eles só estavam enrolando erva e não faziam o que deveria ser feito, eram muito preguiçosos. E tínhamos chegado num ponto em que precisávamos lançar um novo disco. Ou eu tirava 100 mil dólares do bolso para gravar o álbum ou a Roadrunner o financiava. Pensei: “O que eu faço? Nem sei se esses caras (Michale Graves e Dr. Chud) vão continuar na banda e realmente não tenho toda essa grana. Se não der certo, tudo vai cair em cima de mim”. E a Roadrunner me contactou para fazermos o disco. Naquela época eles tinham o Type O Negative, Slipknot, bandas que estavam na nossa praia, não que fossem iguais a nós, mas parecidas. Assim eu pensei que, por saberem quem éramos, nós poderíamos fazer nosso trabalho em paz. A Roadrunner antecipou 200 mil dólares e usamos tudo na gravação do álbum. Tudo. E depois disso eles não fizeram absolutamente nada…Não fizeram nada de nada! Nem um anúncio sequer!! Nada mesmo! O que aconteceu foi que 150 mil fãs do Misfits compraram o CD e eles (Roadrunner) ainda me diziam que eu lhes devia dinheiro! Ele ganharam, deixa eu ver, com 150 mil CDs, pelo menos 1 milhão de dólares. E me anteciparam 200 mil. Quando me perguntaram sobre gravar outro álbum, eu respondi: “Vou dizer uma coisa: eu antecipo 200 mil dólares, vocês gravam um CD, eu ganho 1 milhão e depois ainda cobro de volta. O que vocês acham?”.Se passaram uns dois anos até eles perceberem que eu tinha razão. Eu disse a eles: “Estou tocando com o Marky e com o Dez agora. O Ramones tem umas 250 músicas, o Misfits umas 60, o Black Flag mais umas 60. Ou seja, um repertório de 400 músicas para escolher e tocar todas as noites! Eu não preciso de um álbum”. Um ano depois eles vieram até mim e disseram para esquecermos tudo (refere-se à suposta dívida). Então eu peguei todas as minhas gravações antigas com Michale Graves e Chud e fiz um pacote chamado Cuts from the Crypt. Demos a eles todas as sobras de estúdio e eles ficaram com um disco novo de graça, só para sairmos de lá e darmos aos garotos mais música. Isso evitou pirataria, deu aos fãs a chance de ter um outro álbum do Misfits, me permitiu sair da Roadrunner e não precisar contratar advogados outra vez pra sair de uma situação ruim (menciona isso por causa da briga na justiça com Glenn Danzig). Eu não quero passar minha vida envolvido com advogados ou em tribunais. Isso não é música pra mim. Música é poder dar uma entrevista como essa ou sair pra tocar para os garotos. Depois disso tudo, eu jurei que por melhor que fosse a proposta, eu não assinaria com uma gravadora de novo. Na verdade, eu tive uma oferta que no papel era muito boa, poderia ter funcionado, mas… Estou escrevendo um livro já faz 3 anos e fala sobre sobreviver nesse ramo sem ter que confiar em gravadoras, promotores de shows, etc. O mais importante é você perceber que qualquer coisa que te ofereçam, eles podem não dar a você depois. E aí sim você estará encrencado! Foi isso o que aconteceu conosco. Agora com a Misfits Records, com o CD Project 1950, estamos indo muito bem. O disco entrou no posto mais alto das paradas que o Misfits jamais esteve (o CD estreou em 2º lugar na parada independente da Billboard). Temos até Ronnie Spector no disco, aquela de “Be my Baby”. Não sei se você a conhece, mas é uma deusa do rock! Enfim, estamos muito felizes agora. Quando perdemos Joey e Dee Dee Ramone, eu percebi que o tanto de dinheiro que você ganha não é importante. O que importa é o quanto de…eu até diria “amor”, mas ficaria meio veadinho (risos). O que vale é o quanto você significa para as pessoas e não quantos discos de ouro você tem na parede. Tenho orgulho de poder mostrar para as pessoas que sobrevivemos com nossa música, que essa banda ainda está viva, apesar da Geffen e da Roadrunner Records. Temos nosso próprio selo agora e o Fiend Fest, nos EUA. Estou realizando todos os sonhos, ainda que eu tenha que ir trabalhar todos os dias. Prefiro ter um emprego e ser feliz, do que morar numa mansão e ser infeliz. Encontrei com a Alanis Morrisette no aeroporto ontem e perguntei: “Você ainda está no selo da Madonna, a Maverick Records?”. Ela disse que sim, mas que não tinha muitas opções. Perguntou em qual gravadora estávamos e eu respondi que éramos independentes agora. Alanis comentou: “Foi uma decisão inteligente!”. Acho que isso resume bem a história.

Ainda falando sobre gravadoras, por que o CD Walk Among Us não fez parte do box-set lançado pela Caroline em 1996? Eu sei que você não estava diretamente envolvido, mas saberia explicar?
JO: Bem, eu estive envolvido com o projeto, mas não oficialmente (sorri). Walk Among Us pertence ao catálogo da Warner Brothers, por isso não saiu na caixa. Ainda assim, bastava um telefonema da Caroline e eu acho que teriam consigo uma permissão, um acordo. Mas nem para pegar o telefone e fazer isso! Eu pretendo adquirir os direitos do Walk Among Us algum dia, porque esse disco está esquecido no catálogo da Warner. Eu sou pago ocasionalmente pelas vendas do álbum e percebo que o disco está vendendo bem menos do que deveria. E esse álbum é um clássico, o melhor do Misfits!

Você não acha que Static Age é a obra-prima do Misfits?
JO: É, o Static Age… Mas a razão pela qual eu gosto mais do Walk Among Us é porque no primeiro álbum nossa imagem ainda estava muito associada ao conceito de “Teenagers from Mars”. Em Walk Among Us tinha todo o visual e o som. “Halloween”, “Vampira”, “Hell Breaks Loose”, que tal isso? Esse disco personificou a imagem, a sensação e a atitude, entende? O pacote completo. Static Age é genial, mas estava apenas esboçando nossa identidade. Mas você está certo sobre esse álbum. Nós o gravamos em 1978 e eu tinha acabado de fazer 18 anos. O disco ficou no armário por 18 anos, até que a Caroline o lançou (primeiro no box-set, depois individualmente). Quando eu o ouvi de novo, até chorei. Eu pensei: “Não acredito que gravamos isso há 18 anos! Esse álbum é o máximo!!”. Tem “Last Caress” e “Attitude”. O Metallica gravou uma delas e o Guns N' Roses gravou a outra. Só canções clássicas (empolga-se): “Hybrid Moments”, “Some Kind of Hate”…  

“Theme for a Jackal”…
Sim, “Theme for a Jackal”! Glenn chegou pra mim e disse: “Ouça esse poema: ‘Dry drink on a corner..’”. E eu perguntei: “Que tipo de música você quer pra isso?”. Ele disse que queria algo em Si. Aí eu escrevi aquele pedaço (canta a melodia) e o repetimos pelo resto da música.

 Essa música é um bom exemplo de como você escreveram coisas bem diferentes durante a carreira. Punk rock, metal, rockabilly… 
 Eu sei. “American Nightmare” (cita essa faixa porque é um rockabilly típico) é uma das melhores canções do mundo e nós só a tocamos uma única vez! Veja só, estávamos no estúdio e Glenn disse: “Eu tive uma ideia para um rockabilly”. Pedi que ele a mostrasse pra mim e então, pelo vidro na sala de gravação, eu gritei: “Googy, me siga. Quando eu tocar, você me acompanha” (refere-se ao baterista Arthur Googy). Gravamos os 90 segundos da música numa tacada só e nunca mais a tocamos outra vez! Pra mim, foi um daqueles momentos de genialidade criativa. Nós somos assim e é isso o que fazemos. Ouvi histórias dos Beatles, quando eles estavam fazendo o filme “A Hard Day’s Night”, e pediam uma música pra eles. Eles iam pra casa à noite e voltavam de manhã com uma canção como “A Hard Day’s Night” (cantarola o refrão da música). Não estou dizendo que éramos tão talentosos assim, mas éramos as pessoas certas, na hora certa e querendo, querendo muito fazer tudo aquilo! É por isso que eu acho que as gravadoras desperdiçam tanta coisa. Eles não queriam colocar “Helena” no American Psycho. “Ah, não gostamos dessa música, é muito metal” (imita a voz de algum executivo de gravadora). Muito metal?! Aí o Doyle apareceu na reunião seguinte com um taco de baseball e disse: “Vamos colocar aquela música no disco ou não?” (gargalhadas)

O que o Doyle anda fazendo atualmente? Por que ele não quis participar do Misfits M25?
JO: Doyle está bem. Ele participou do M25 no começo, mas aí se divorciou, casou-se novamente e teve uma filha. Agora ele está ajudando meu pai nos negócios, porque ele anda meio doente, mas deve ser operado em breve e aí ficará tudo bem. Eu vejo o Doyle todos os dias, inclusive foi ele quem me levou ao aeroporto quando vim para cá. Olha, Doyle sempre fará parte do Misfits. Inclusive estamos começando a escrever um novo álbum juntos. É que o Misfits M25 me deu a oportunidade de pôr em prática meu projeto anos 50 e o Marky e o Dez estão muito envolvidos nisso.

Uma coisa que me impressiona no material que vocês lançaram entre 1977 e 1981 é a gravação e o timbre dos instrumentos. A sonoridade que vocês conseguiram naquela época é muito peculiar. 
JO: É verdade. Muita gente também gosta das gravações originais. A razão disso é que, à época, não tínhamos um grande orçamento e fazíamos o que dava com o que estava à disposição. Gravávamos 4 ou 5 músicas num dia e voltávamos mais tarde para mixar. Naquele tempo, muito do material era gravado em 16 canais e isso dava um pouco mais de dinamismo do que gravar em 24, porque nesse caso os canais estão mais próximos. Eu gosto muito das gravações originais, mas eu sempre esperei mais do som, algo mais encorpado, mais pesado. Mas agora ouvimos bandas como Slayer ou Pantera e não sabemos se era por aí que deveríamos ter seguido, sacou? Eu fiquei muito satisfeito com o American Psycho e também com o Famous Monsters. Cada disco tem sua própria identidade. Quem sabe a gente não volte com o Glenn (Danzig) e acabe escrevendo material novo…

Você antecipou uma pergunta que eu faria, que é justamente sobre a possibilidade do Misfits voltar com o Danzig. Como é a relação entre vocês hoje em dia?
JO: Olha, ele está na batalha. Pra ser sincero, a carreira dele está numa encruzilhada. Ele ainda está com a cabeça naquele lance death metal anos 80 e quem se importa com isso hoje em dia? Ninguém está nem aí. É uma situação delicada, porque ele precisa amadurecer como indíviduo, para chegar e perceber que tivemos bandas como Beatles, Ramones, Clash, enfim, pessoas que já se foram. Essas nunca voltarão. E para ser honesto com você, não se fez muita na música desde então. Dá para contar nos dedos de uma mão as grandes bandas que surgiram desde aquela época. Nunca mais apareceu algo que realmente me nocauteasse, para o qual eu dissesse: “Uau!! Isso é fantástico!”. Eu gosto do primeiro disco do Slipknot, achei muito bom. Já o segundo álbum deles não é tão intenso quanto o  primeiro. Sem querer ser desrespeitoso com eles, claro. O que quero dizer é que, em muitos casos, uma banda tem a vida toda para gravar o primeiro disco, para concebê-lo, sabe? Depois disso, você está na estrada, está tocando…é difícil voltar. Chamam isso de “a maldição do segundo ano”. O segundo álbum é escrito em quartos de hotel, aeroportos… Enfim, é aí que temos que entender como é bom fazer as coisas a seu tempo, juntar material e trabalhar em grupo. Era assim que fazíamos com Glenn no início. Nossas canções eram ótimas porque todos nós tínhamos ideias. Como o começo de “Return of the Fly” ou “Astro Zombies”. Eu compus aquilo. Glenn não compôs tudo como dizem, mas eu não me importo. O importante é que essa obra exista! Quando voltamos com Graves, Chud e Doyle, para gravar o American Psycho, nós ensaiamos durante 6 meses, por 4 ou 5 horas diariamente. Tentamos escrever músicas melhores e tínhamos 50 delas para selecionar só 18. Ou seja, quase como se tivéssemos que escolher uma música entre cada três. Isso te dá uma grande variedade e grandes opções também. Às vezes pegávamos parte de uma música e juntávamos com o final de outra. “Helena” (do CD Famous Monsters) é uma delas! São 3 músicas diferentes que se tornaram uma só. Quando juntamos foi como mágica! O lance é que composição deve ser coletiva, todos podem ter ideias. Foi isso que o Glenn perdeu quando começou com seus projetos Samhain e Danzig. Ele fazia tudo sozinho.

Não sei se você respondeu exatamente a pergunta, mas…
JO: OK, vamos lá… Veja o que aconteceu como o Marky (Ramone), por exemplo. Quando o vi ao vivo pela primeira vez, pensei: “Temos que ter esse cara na banda”. O lance é que, estando no Ramones, não dava para chamá-lo. Mas tudo tem seu tempo e razão de ser. Eu tive que passar por toda a merda que eu passei para tornar-me quem eu sou hoje, para ser uma inspiração para os garotos. Você tem que estar convicto para ficar limpo. E o Marky tinha que estar com o Ramones. Quer dizer, a gente tem que ter paciência e entender que Deus tem sua maneira de fazer as coisas. O mesmo se aplica à Glenn. Nós o teremos de volta. Eu te garanto isso! Quando é que é a questão, mas isso não importa. Pode ser daqui a 5 ou 10 anos, mas não interessa, porque estarei aqui e estarei preparado. A melhor coisa que me aconteceu foi que Doyle precisou de um tempo e eu tive que assumir os vocais quando o Graves saiu fora. Minha habilidade técnica foi daqui (gesticula) lá pra cima. Agora estou fazendo o vocal principal! Eu posso não ser um Elvis ou um Pavarotti, mas agora que estou cantando todas as noites com esses caras (Dez e Marky), eu serei o melhor músico número 2 desse ramo. Ou seja, o melhor baixista que faz vocais. Então, quando chegar a hora de voltarmos (com Danzig), estaremos melhores que se tivéssemos ficado juntos na banda a vida toda. Estou muito satisfeito agora. Eu estou trabalhando na minha performance, no meu vocal e na minha condição física. Espero que “esse Misfits” seja o melhor possível. E acho que os garotos estão gostando.  

Parece que você não gosta muito da banda Danzig. Mas o Samhain até que gravou algumas coisas que lembram um pouco o Misfits, não?
JO: Sim, mas ainda é meio bluesy. Tipo aqueles “dam, dam, dam, dam” (inventa uma melodia). Não é ruim, sabe? Mas não se pode comparar com o que fizemos. “Teenagers from Mars” ou “I Turned into a Martian” são hinos! A mesma coisa quando você ouve “Rock’n’Roll Radio” ou “Teenage Lobotomy” do Ramones. São hinos também.



Você acha que o Earth A.D. ajudou a delinear a sonoridade do thrash metal?
JO: Bem, o disco Earth A.D. foi a pedra fundamental para o death metal, thrash metal e outros. Mas nós não inventamos aquilo! O thrash veio do Necros e do Negative Approach. Essas bandas abriam pra nós e eram todas da região de Washington DC, sabe? Só que tocavam assim… muito thrash. Nós pensamos: “Se liga só nisso?!”. Não havia melodia por cima daquilo, era só gritaria. Mas essas bandas, as bandas que uivam, sim as que só sabem uivar, são boas, mas só se você as vir ao vivo. Tirando isso, ninguém vai dar um rato morto por essas bandas! As pessoas vão se lembrar dos Beatles, Ramones e de nós. Porque nós pegamos “Green Hell” e colocamos uma melodia por cima. Fizemos isso com “Death Comes Ripping” também. Dá pra cantar “Death Comes Ripping” no chuveiro! Isso sim é música. Caso o contrário, por que precisaríamos de guitarras? (gargalhadas)

O que você acha que teriam gravado depois do Earth A.D. se a banda não tivesse acabado?
JO: Esse é o problema com o Earth A.D.. Era muito à frente do tempo! A gente não sabia por onde seguir e a tensão era grande na banda, porque nós havíamos nos superado, tínhamos chegado a um ponto onde não sabíamos mais o que fazer. Foi aí que começamos a discutir. A versão de “Mommy” nem tem letra, é só “da-da-da-da” (imita a melodia). Metade das músicas daquele disco nem tinha letra! A gente não sabia como encaixar as palavras. Era mais do que poderíamos fazer. E aí a banda acabou. Hoje você vê que aquele álbum talvez estivesse uns 20 anos à frente do tempo. Se um dia voltarmos (com Glenn Danzig), gostaria de gravar um Earth A.D. parte 2, usando bateria com dois bumbos e tudo. Digo isso porque o maior avanço tecnológico desde Earth A.D. foi o jeito como se grava e se toca bateria. Guitarristas e baixistas nunca mais fizeram nada de especial, vocalistas são vocalistas, mas o jeito como se toca bateria chegou a níveis extremos. Gostaria de incorporar isso num disco do Misfts, porém com melodia. Imagine um Slipknot com melodia.

Que tipo de música você ouve em casa?
JO: Eu trabalho o tempo todo, então não ouço qualquer coisa. Exceto a banda do meu filho, que eu “tenho” que escutar (risos). Não sobra mesmo muito tempo, porque tenho meu trabalho. E isso me me ajuda a…como posso dizer? Me ajuda a não sofrer a influência dessa vida de rock’n’roll, sabe?  Quando volto pra casa depois de excursionar, não quero trazer isso na bagagem. Toda vez que passo um mês em turnê, volto e tenho dois meses de problemas pra resolver! De certa forma, isso (não ouvir tanta música em casa) me mantém puro. Me sinto bem assim.

Dez Cadena (interrompe): Pode parecer estranho, mas eu ouço de tudo. De punk rock a clássico, jazz e música pop. Depende do momento. Gosto muito de poder ver uma banda ao vivo. Se eu puder assistir a uma banda antes de subirmos no palco, é o que eu mais gosto. Venho de uma família musical, meu pai produzia discos de jazz, então cresci com música ao meu redor. Ele (Jerry Only) não vai levar em consideração qualquer música, porque trabalha numa oficina com máquinas, na parte de vendas, e com pessoas que não ouvem música…

JO: Calma lá, calma lá!… (gargalhadas) Eu me lembro que David Bowie era amigo do Lou Reed, do Velvet Underground, e o convenceu a assinar um contrato com a RCA e Lou acabou ficando bem insatisfeito com isso. Quando faltavam dois álbuns para terminar o contrato, ele gravou um disco chamado Metal Machine Music e esse é o pior álbum de todos. É só “beep!”, “poing!”, barulho o tempo inteiro (risos). E o disco é duplo, com os quatro lados assim!! Então ele disse: “Aí está! Já terminei o contrato!”. Essa música ainda está na minha mente! Quando eu era garoto, tinha uma loja na qual, por 1 centavo de dólar, você ficava sócio e ganhava 10 discos. E eu vi esse e pensei: “Oh, Lou Reed!”. Quando cheguei em casa e ouvi o disco, disse: “Que porra é essa?!”. Então eu percebi que máquinas podem ser música… (brinca com o fato de trabalhar com o barulho de máquinas). Talvez tenha sido só uma experiência ruim. Desculpe, Dez (risos).

Qual foi o presente mais bizarro que você já ganhou de um fã?
JO: Um crânio de bebê! Era do tamanho de um limão ou menor. Isso foi na época em que morávamos em Lodi (New Jersey). Tínhamos uma caixa com as coisas que os fãs nos mandavam pelo correio. Uma vez alguém me mandou ossos de mão! Ah, e Tesco, do Meatmen, me enviou uma tarântula morta. Cheirava muito mal! Quando abri o pacote, pensei: “Meu Deus, que coisa é essa?!”. E era uma aranha morta. Esvaziei uma caixa com os EPs de Night of the Living Dead, coloquei a aranha lá dentro e a cobri com um spray. Mesmo assim, aquilo continuou cheirando mal por todo o dia! (risos)

Jerry, responda rápido: quais são as 5 músicas do Misfits que você mais gosta e seus 5 filmes de terror prediletos?
JO: OK, as 5 músicas são: “Astro Zombies”, “American Nightmare”, “American Psycho”, “Last Caress” e “We Are 138”. Os 5 filmes são, vejamos, “The Bride of Dracula (“A Noiva do Drácula”, 1974), “The Wolf Man” (“O Lobisomem”, 1941), “The Phantom of the Opera” (“O Fantasma da Ópera”, 1943) e eu adoro “The Thing” (“O Enigma de Outro Mundo”, 1982), de John Carpenter! Me lembro que fomos ao cinema ver esse filme junto com os caras do Necros, então era aquele bando todo comendo pipoca e dizendo: “Você viu isso? Você viu aquilo?” (risos). Eu gosto de coisas originais e que são feitas de um jeito a tornarem-se chocantes.

O Misfits já teve material desenhado por gente como Dave McKean, da série de quadrinhos Sandman, o cultuado ilustrador Pushead e até Butch Lukic, do desenho animado Batman, da Warner. Se você pudesse escolher algum artista, vivo ou morto, para desenhar a próxima capa do Misfits, quem seria?
JO: Talvez seria o Boris Vallejo (2), mas a Roadrunner conseguiu estragar isso também. Nós até pagamos pelo trabalho dele e a ilustração seria o Doyle segurando o Sable, do WWF (3), atrás do fogo e uns macacos saindo das chamas com a Estátua da Liberdade ao fundo! Ele até me mandou um esboço, mas a Roadrunner foi um tremendo pé no saco e ele me ligou dizendo que não trabalharia mais pra eles. Eu até compraria a pintura, mas mesmo assim ele não quis fazer. Então tive que pegar um outro artista. Há outro cara que eu gosto, e acho que ele fez a pintura de Dorian Gray no filme “O Retrato de Dorian Gray”, mas não lembro seu nome agora (4). Vi algumas obras dele num museu de arte em Chicago. Sabe que eu estou escrevendo um livro e tive uma ideia para a capa: meu rosto, metade esqueleto e metade “humano”. Um dia desses no Hard Rock Café, da Cidade do México, um rapaz veio até mim e me deu uma pintura. Quando eu olhei, logo disse: “Meu Deus, era exatamente isso que eu tinha em mente para a capa do meu livro! Posso usá-la?”. E ele disse que sim, gostou da ideia que capa do meu livro fosse creditada a um desenhista mexicano.

Qual é a importância do merchandise para vocês? Isso ajuda que vocês vivam da banda?
JO: É o único de jeito de conseguirmos isso. Se vendermos 200 mil discos, tudo bem, mas a questão é que não vimos o dinheiro da Geffen ou da Roadrunner por vender discos. Ganhamos algum dinheiro da Caroline, mas não é muito. Provavelmente equivale a um salário comum. Minha filha estuda numa faculdade em Boston que custa mil dólares por semana! E isso é mais do que eu ganho no meu emprego, então se eu não tivesse o merchandise… Veja só, o Project 1950 foi gravado com dinheiro de merchandise.

Quanto items vocês já licenciaram com a marca Misfits? Me parece que entre as bandas, digamos, alternativas, ninguém chega perto de vocês nesse quesito.
JO: É verdade. O KISS provavelmente vende mais em volume, mas nós fazemos as coisas com um padrão de qualidade tão elevado e com ideias tão incríveis! Nossas miniaturas foram escolhidas como os action figures do ano, ainda que tenhamos até perdido dinheiro nisso. Tento fazer tudo com um nível que os outros apenas almejam como objetivo. Nossos bonecos, os melhores! Nossas guitarras, as melhores! As embalagens de nossos CDs, as melhores! Quero que vejam isso e digam: “Uau! Quero ter a qualidade do Misfits!”. Talvez tudo isso não signifique muito agora, mas no curso dos anos, quem sabe? Acho que um dia estaremos no Rock’n’Roll Hall of Fame. Não pela quantidade de discos que vendemos, mas pelo jeito como fazemos as coisas. O pacote completo.

  1. É provável que ele esteja se referindo ao filme “The Crimson Ghost”, de 1946, onde o personagem apareceu nas telas pela primeira vez. Não consta que exista um filme chamado “Teenagers from Mars”.
  2. Famoso ilustrador peruano que imigrou para os EUA no fim dos anos 60 e tornou-se famoso por seus trabalhos que exploram temas de fantasia e ficção científica.
  3. Sable é o nome de um lutador e WWF é a mais popular liga de luta-livre americana.
  4. Trata-se do pintor Ivan Le Lorraine Albright. Esse artista pintou os 4 quadros que mostram a transformação de Dorian Gray na versão cinematográfica de 1946, dirigida por Albert Lewin e ganhadora de 3 Oscar.



Crossover: substantivo

Na música popular:
  1. o ato de migrar de estilo, normalmente com a intenção de obter apelo comercial junto a um público mais amplo;
     
  2. música que atravessa estilos, compartilhando atributos de vários outros gêneros musicais e, portanto, muitas vezes atingindo uma maior audiência.
O dicionário não mente: as primeiras bandas punks americanas a incorporar elementos do thrash metal, o fizeram por questão de sobrevivência. E o fato desse subgênero musical chamar-se "crossover" não é mero acidente.

Na próxima terça-feira, dia 22, um dos fundadores desse estilo se apresentaria no Brasil. A turnê, que incluiria datas no México, Chile e Argentina, terminou cancelada por problemas com as agências organizadoras. O grupo em questão é o D.R.I., sigla para Dirty Rotten Imbeciles, fundado em 1982 na cidade de Houston, Texas. Eles definiram os pilares do gênero e também o batizaram, através do emblemático álbum "Crossover", de 1987.

Mas antes de falar da cena criada a partir da fusão desses estilos musicais, é importante conhecer o contexto em que ela surgiu. Em depoimento ao jornalista Marc Spitz, o vocalista do Bad Religion, Greg Graffin, revelou: “Por volta de 1985-86, não existiam [nos EUA] mais bandas de punk rock na definição clássica. Havia pouquíssimos selos punk. Esse era o contexto da época e também uma das razões pelas quais o Bad Religion foi considerado revigorante quando lançou o álbum ‘Suffer’. Na Alemanha, nos chamavam de salvadores da chama punk e tocávamos para plateias de mil pessoas, enquanto nos EUA tínhamos sorte se conseguíssemos tocar em um clube minúsculo de Orange County…”.

O crossover surgiu nessa época e, mais do que uma experiência sonora, representou o esforço de bandas hardcore/punk em se aproximarem dos fãs de metal. Musicalmente, essa mistura só deu caldo porque trabalhou com estilos que eram primos entre si, pois que o thrash metal, originalmente, já havia bebido na fonte de Bad Brains, Black Flag e companhia.

Não é fácil definir o disco que trouxe a primeira gravação de crossover. “Animosity”, do Corrosion of Conformity, lançado em 1985, é citado por muitos como a pedra fundamental do estilo. Nos anos seguintes, várias bandas embarcaram nessa sonoridade criada a partir da velocidade do hardcore e dos arranjos, riffs e solos de guitarra herdados do thrash. Suicidal Tendencies, Crumbsuckers, English Dogs, Agnostic Front, Gang Green e Cryptic Slaughter são alguns dos grupos que promoveram essa fusão. E o fato de todas essas bandas serem egressas da cena punk só confirma outra vez o que diz o dicionário.

Outro indício que o público-alvo desse subgênero eram os adeptos do thrash é que os principais álbuns de crossover foram editados por gravadoras como Metal Blade e Combat. O hardcore mudava para sobreviver e era vendido em nova embalagem a plateias metaleiras.

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D.R.I. em 1987
O  D.R.I., autor do disco que encapsulou todos os parâmetros do estilo, é a banda que terminou mais identificada com o crossover. Gravaram apenas outros três álbuns desde 1987, e todos seguindo a cartilha do gênero, com maior ou menor sucesso.

Olhando retrospectivamente, o crossover fechou o círculo que conecta dois estilos musicais nascidos nas ruas e avessos às fórmulas existentes. Tanto thrash quanto hardcore sobreviveram à margem do rock comercial, com bandas excursionando em velhos furgões, tocando em espeluncas e dependendo da divulgação de fanzines e programas de rádio malditos. Os grupos oriundos do punk expressavam essa dura realidade com letras críticas ao 'establishment' e influenciaram parte do thrash metal. Sacred Reich, Vio-lence e Megadeth, entre outros, adotaram também um discurso ácido e repleto de críticas sociais.

Essa troca de influências explica a existência de álbuns como “Speak English or Die”, do S.O.D., e também os elementos punk que contaminaram o som dos novaiorquinos Anthrax e Nuclear Assault.  E como em toda onda, houve também aqueles pegaram o trem em movimento e já nasceram tocando crossover – casos de Mucky Pup, Excel e Ludichrist.

E por que teria o crossover passado anos como um fóssil underground, até ser redescoberto pela nova geração? Talvez tenha sumido em decorrência da curva descendente do thrash, que perdeu a popularidade na virada para a década 90. Agnostic Front e English Dogs, por exemplo, descartaram os elementos de metal e reassumiram a sonoridade punk/HC depois de uns anos. Já o Corrosion of Conformity foi mais longe: explodiu a ponte e terminou metido no stoner e southern rock.

Quase três décadas após seu auge, o crossover experimentou um 'revival' proporcionado pela redescoberta do thrash. O gênero passou a produzir novos grupos que decalcam não apenas o som, mas também a estética e a moda de rua daqueles tempos – bandanas, bonés de aba invertida, bermudas coloridas e tênis de skate.

Difícil mesmo vai ser gravarem discos tão originais quanto esses abaixo.

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Discografia básica do crossover:

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Animosity – Corrosion of Conformity (1985)

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Speak English or Die – S.O.D. (1985)

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Cause for Alarm – Agnostic Front (1986)

post-crossover-capa-04
The Age of Quarrel – Cro-Mags (1986)

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Crossover – D.R.I (1987)

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Join the Army – Suicidal Tendencies (1987)

post-crossover-capa-07
Immaculate Deception – Ludichrist (1987)

post-crossover-capa-08
Can’t You Take a Joke? – Mucky Pup (1987)

post-crossover-capa-09
You Got It – Gang Green (1987)

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The Joke’s On You – Excel (1989)
O Bad Religion já esteve inúmeras vezes no Brasil e vê-los ao vivo não é exatamente uma novidade. Ainda assim, quem se aventurar no Lollapalooza, neste sábado, pode acabar testemunhando um pedacinho da história. E tudo porque o grupo pode incluir em seu repertório uma canção chamada "Billy Gnosis".

A execução dessa música ao vivo, como ademais qualquer material originário do álbum "Into the Unknown", de 1983, é desejo antigo e utópico de muitos fãs.

Concebido por Greg Graffin (voz) e Brett Gurewitz (guitarra), "Into the Unknown" desagradou de cara Jay Bentley e Pete Finestone, baixista e baterista da banda. Ambos abandonaram o barco antes mesmo de se iniciarem as gravações e foram substituídos por Paul Dedona e Davy Goldman.

Boa parte das 10 mil cópias existentes do disco acabaram devolvidas pelas lojas e terminaram estocadas num armazém. Com o tempo, os LPs foram sumindo do estoque até evaporarem de vez. E o álbum tornou-se uma autêntica relíquia.

"Into the Unknown" é um caso peculiar de disco que já nasceu maldito. Gurewitz recorda que a banda foi a San Francisco lançar o álbum no lendário Mabuhay Gardens, e deparou-se com uma plateia de 12 gatos pingados. Isso mesmo: DOZE. Rapidamente perceberam que o público havia recusado a nova proposta musical do grupo e que o repertório do disco deveria ser enterrado na história.



Dois anos mais tarde, e já sem Brett Gurewitz, internado numa clínica de desintoxicação, o Bad Religion, com o ex-Circle Jerks Greg Hetson no time, lançou um EP para sepultar de vez as lembranças do disco fracassado. Trocaram o desconhecido, para onde tinham se aventurado em "Into the Unknown", pelo conhecido hardcore/punk de 1980. E batizaram o EP comicamente de "Back to the Known" ("De volta ao conhecido").

Até 2010, o Bad Religion manteve-se em silêncio sobre esse capítulo singular de sua biografia.

No restante da década de 80, tornaram-se bastiões do punk americano. Com o fim de Minor Threat e Misfits em 1983, e de Dead Kennedys e Black Flag em 86, coube ao Bad Religion manter a chama do hardcore acesa. O grupo ganhou muitos adeptos nos EUA e na Europa, e seu álbum "Suffer", lançado em 1988, obteve o status imediato de clássico.

Alguns anos depois, na esteira do grunge e da febre alternativa, assinaram com a 'major' Atlantic Records e experimentaram o sucesso no mainstream do rock. "Recipe for Hate", de 1992, gerou os hits radiofônicos "American Jesus" e "Struck a Nerve", e "Stranger Than Fiction", lançado em 94, ganhou disco de ouro na América com 500 mil cópias vendidas.

A febre baixou e o Bad Religion retornou naturalmente para a Epitaph Records, selo fundado por Brett Gurewitz e que o fez milionário com o sucesso colossal do Offspring. E então, em 2010, através de um box-set especial com 15 LPs lançado pela própria Epitaph, o obscuro e esquecido "Into the Unknown" ganhou nova luz.

Fãs de diferentes gerações puderam, enfim, descobrir o que há no álbum que quase arruinou a carreira do Bad Religion, que fez Jay Bentley afastar-se provisoriamente do grupo e implodiu a turnê de divulgação por completo desinteresse do público.

A grande história por trás de "Into the Unknown" é que Graffin e Gurewitz, de um jeito torto, fizeram a coisa mais punk que era possível fazer em 1983: tocar rock progressivo! Após a fama imediata conquistada com o álbum de estreia, "How the Hell Could be Any Worse?", o Bad Religion chutou o balde e gravou um disco repleto de sintetizadores e com a faixa mais longa de toda sua carreira - "Time and Disregard", com sete minutos de duração. Ninguém entendeu bulhufas. E quem entendeu não gostou.

"Into the Unknown", analisado em retrospecto, é um álbum bastante curioso. O Bad Religion não tinha cacife e nem dinheiro para gravar rock progressivo. Sua abordagem exótica e ingênua resultou numa mistura estranha de prog, punk e hard rock americano do fim dos 70's. E o disco está longe de ser ruim. Mesmo com a produção inadequada e com arranjos nada convencionais, ainda soa como Bad Religion e oferece uma audição alternativa para o hardcore melódico que o grupo ajudou a criar.

Desde o relançamento do LP como parte do box-set -em CD, permanece inédito-, a banda resolveu resgatar para os palcos aquela que é a melhor canção de "Into the Unknown". Há registros ao vivo de "Billy Gnosis" tão recentes quanto junho de 2015.  E a música é executada com elegância e sem sombra de constrangimento. Até mesmo o site oficial do grupo presta agora certo respeito ao disco: "Através do tempo, o mundo terminou por alcançá-lo e 'Into the Unknown' tornou-se um item muito procurado por colecionadores. E merecidamente, pois se você deixar de lado sua parcialidade de cabelos punk espetados, descobrirá um álbum verdadeiramente fascinante".

Quem sabe o público brasileiro terá um gostinho de "Into the Unknown" na arena do Lollapalooza?

Daqui a pouco saberemos.


Ainda inédito em CD e no Spotify, "Into the Unknown" pode ser ouvido na íntegra, e em toda sua glória proggy-punk, no Youtube
Aconteceu no último domingo, em Los Angeles, a 88ª edição do Oscar. Uma audiência de alardeados 900 milhões de telespectadores aguentou as torturantes quatro horas e meia do evento para assistir aos discursos xaroposos de sempre e todas as piadinhas sem graça que vimos em edições anteriores.

A surpresa da vez, para os aficionados por música, mais especificamente punk rock, foi o Oscar para Melhor Edição de Som. Ganharam Mark Mangini e David White. O primeiro é um sujeito com 40 anos de experiência no cinema e que chegava à sua quarta indicação na categoria. O segundo, menos conhecido, é um designer de som cujos créditos computam 27 produções, entre curtas, longas e documentários.

O que poucos sabem é que havia no departamento som de "Mad Max: Estrada da Fúria", que também levou a estatueta de Melhor Mixagem de Som, uma certa engenheira de áudio chamada Kira Roessler.


Formada pela UCLA na década de 80, Roessler trabalhou como editora de diálogos em filmes como "Confissões de uma Mente Perigosa",  "Crepúsculo: Lua Nova" e muitos outros. E já arrebatou um prêmio Emmy por seu trabalho na minissérie de TV "John Adams". Antes de tudo, no entanto, ela ficou conhecida de punks e fãs de música underground como Kira, a baixista do seminal Black Flag.

Ainda sobre seu trabalho no cinema, ela explica, em entrevista ao zineiro Mark Prindler, em 2003: "Eu trabalho mais com edição de diálogo, algo que as pessoas não costumam entender o que é. Sabe quando eles não gravam [uma cena] com som direto, e juntam tudo no processo de edição? Então, quando o material chega até mim, está todo bagunçado e ferrado, e é meu trabalho 'limpar' o som. Eu faço muitos consertos no áudio. Tipo, quando há um problema com uma palavra, eu posso substituí-la por uma sílaba de outro 'take' ou algo assim. Em um nível muito preciso de detalhe, eu faço o som dos diálogos soar tão bem quanto possível".

Kira Roessler integrou uma das mais importantes encarnações do Black Flag, ao lado do chefe Greg Ginn, do lendário vocalista Henry Rollins e do prolífico baterista Bill Stevenson (das bandas Descendents e ALL). Foi admitida em 1983, em lugar de Chuck Dukowski, e permaneceu com o grupo até 1985. Sobre seu ingresso na banda, ela relembra: "O relacionamento [de Greg] com Chuck era bom. Não havia conflitos de personalidade. Mas ele tinha um estilo como baixista que estava começando a ir contra o que Greg estava tocando. Então, você sabe... Eu ensaiei com eles uma vez e me disseram: 'Yeah, é isso que queremos. Precisávamos de alguém que tocasse desse jeito'. Eu só posso descrever 'esse jeito' pela forma como eles tocavam na época - é quase como se você pulasse e galopasse na frente e na frente da batida, ou que realmente ficasse por trás e por trás e por trás da batida. E meu estilo foi sempre esse de ficar atrás, e calhou de ser o que eles estavam procurando. No meu caso, por outro lado, [a saída da banda] foi mais uma questão de personalidade, de eles não quererem tocar mais comigo. Ou pelo menos foi o que soube por Chuck Dukowski quando me chutaram da banda".

No ano seguinte à demissão de Kira, o Black Flag encerraria as atividades de sua fase clássica. Os registros do grupo com a participação da baixista são numerosos. Quatro discos de estúdio -"Family Man", "Slip It In", "Loose Nut" e "In My Head"-, além de EPs, com o ótimo "Annihilate This Week".

Em seu livro "Get in the Van: On the Road with Black Flag", é perceptível que Rollins não era lá um grande amigo de Kira, embora admita que ela era talentosa e aprendeu o repertório da banda muito rapidamente. O vocalista tinha pouco em comum com a contrabaixista e eles quase não se falavam durante as longas e excruciantes turnês de furgão pelos Estados Unidos. Se reencontraram muitos anos mais tarde. "Temos uma certa camaradagem agora", Kira relembra. "Volta e meia nos falamos por email e é muito cordial e interessante. E [o reencontro] foi pura coincidência. Henry topou com meu irmão no estúdio e disse: ' Diga a Kira para me telefonar, quero que ela trabalhe em algo comigo'. Então cantei num show dele no Whisky A Go-Go e fiz backing vocals em algumas músicas, ao vivo".

Dois anos após deixar o Black Flag, Kira Roessler casou-se com Mike Watt, fundador do Minutemen e substituto de Dave Alexander na volta dos Stooges. Criou ao lado dele uma dupla muito peculiar, com dois contrabaixos, apropriadamente chamada Dos.

A baixista colaborou ainda com outros projetos de Watt, como a banda fIREHOSE, e compôs algumas faixas para o derradeiro álbum do Minutemen, "3-Way Tie".

Apesar de terem se separado em 1994, Kira e Watt admitem que continuam casados com o Dos. A dupla lançou seu último álbum -"Dos Y Dos"- há cinco anos, mas permanece ativa.





Nenhum personagem saído da cena punk ocupou tantos espaços quanto Henry Rollins. Antes de o rótulo "multimídia" se tornar surrado e até anacrônico, esse sujeito desafiou definições e estendeu sua influência através de discos, rádio, TV, livros, cinema e shows de stand-up.

Crescido em Washington, DC, meca do hardcore na costa oeste americana, Rollins integrou uma banda de pouco sucesso chamada S.O.A. (State of Alert) e, pra pagar as contas, foi gerente da sorveteria Häagen Dazs. Um de seus subordinados na loja era ninguém menos que Ian MacKaye, integrante do Minor Threat e que fundaria, anos depois, o revolucionário Fugazi.

Henry Rollins ficou conhecido por integrar o Black Flag, banda da qual era fã, e passou com eles por todo tipo de percalço. As turnês excruciantes do grupo liderado por Greg Ginn eram capazes de destruir psicologicamente qualquer ser humano. Os integrantes ganhavam pouquíssimo dinheiro, viviam esfomeados e com duas mudas de roupa na van. Cruzavam a América para tocar em um pulgueiro diferente a cada noite e, volta e meia, eram perseguidos pela polícia, que impedia a realização dos shows ou simplesmente os interrompia.


O vocalista retratou essa trajetória punk no ótimo livro "Get in the Van", publicado pela 2.13.61, sua própria editora (o nome é uma alusão a data de seu nascimento). Henry escreveria ainda outros livros, como "Black Coffee Blues", e publicaria também trabalhos de outros autores, como o famoso cantor e compositor australiano Nick Cave.

Mas o homem ficaria famoso de verdade com a Rollins Band, grupo que fundou após o fim do Black Flag. Aproveitando a febre da música alternativa, que no começo dos anos 90 alcançou o público de massa nos EUA, a Rollins Band emplacou pelo menos dois singles de sucesso: "Tearing" e "Liar". Chegaram a se apresentar ao vivo no Brasil, mais precisamente na praia de Santos, em ocasião de um festival patrocinado pela M2000, uma marca de tênis que sumiu da praça.

Durante esse show, Henry arrebentou o supercílio e terminou a apresentação completamente ensanguentado. Ele relata o caso em seu disco de spoken word "Think Thank", numa faixa chamada "Brazil". De acordo com o próprio, o público foi ao delírio ao vê-lo coberto de sangue, como se estivesse emulando uma performance de Alice Cooper, mas a dor era terrível.

Rollins lançou outros álbums de spoken word além de "Think Thank", resultado de suas turnês de stand-up que já cruzaram o mundo até Israel e a Austrália, seu país predileto. Nessas apresentações, o ex-vocalista do Black Flag conta "causos" hilários e destila sua visão de mundo corrosiva com muito bom humor.


O carisma e a sagacidade renderam fama ao sujeito. Henry Rollins participou de filmes -foi dirigido por David Lynch no espetacular "A Estrada Perdida"- e teve seu próprio programa de TV, em que entrevistou gente como Samuel L. Jackson e deu espaço para apresentações ao vivo de Manu Chao, Slayer e Peeping Tom.

Henry Rollins também é radialista e conduz um excelente programa na emissora KCRW.
Todas as segundas-feiras cumpro o ritual de abrir o site da rádio para ouvir, via streaming, a edição da véspera, transmitida em Los Angeles das dez à meia-noite. Atualmente no episódio nº 333, "Henry on KCRW" toca uma variedade incrível de música: de jazz africano a avant-garde japonês, de punk rock obscuro a clássicos dos anos 60 e 70.

Recentemente, tenho topado com vídeos e entrevistas de Rollins em minhas navegações pela Internet. Dia desses, por exemplo, vi seu reencontro com o louco e talentoso jornalista canadense Nardwuar. Como qualquer entrevista conduzida pelo intrépido réporter, há várias curiosidades pop reveladas e momentos de total surrealismo. Vale a pena ver as duas conversas entre Henry e Nardwuar, separadas por um intervalo de 13 anos.

Mas melhor ainda foi descobrir a interessantíssima participação de Rollins numa edição de 2001 do programa de Howard Stern. Durante uma hora de papo, em que o folclórico radialista trata o convidado com surpreendente parcimônia, Henry discorre sem censura sobre sua vida pessoal. Diz, por exemplo, que, embora adore crianças e mulheres, não consegue se imaginar começando uma família. "Com minhas viagens e o tipo de vida que levo, não quero ser aquele tipo de pai que só aparece de vez em quando. Não dá para manter um relacionamento nesses moldes. Optei por obedecer a um único mestre: a arte".

Também confessa que ganhou muito dinheiro com a música, mas nem de perto o suficiente para viver dele pelo resto da vida ("Por sorte, sou do tipo que adora trabalhar"). O vocalista-ator-escritor também é perguntado por um ouvinte sobre a trágica morte de seu amigo Joe Cole (leia aqui o texto que escrevi sobre o assunto). Ele conta que, à época, estava gravando "The End of Silence", aquele que se tornaria seu disco mais famoso. Durante o período de gravação, recebeu em casa uma visita de Rick Rubin, produtor do álbum, que chegou a bordo de um caríssimo Rolls-Royce. A visita espalhafatosa, conclui Rollins, deve ter despertado a atenção de bandidos na vizinhança não muito aprazível de Venice. E o resto é história.

Mas Howard Stern ainda arrisca uma pergunta: quer saber sobre a lenda de que Rollins guardara os miolos do amigo em uma Tupperware! E o entrevistado responde, com absoluta naturalidade: "Sim, é verdade. Fiz isso pois que não queria que os pais dele se deparassem com pedaços de cérebro por toda parte. Então, recolhi os miolos espalhados e os mantive num pote".


Howard Stern Show (2001)
Quase uma hora de papo em que Rollins fale sobre dieta, academia, U2, fama, dinheiro, mulheres e o assassinato de Joe Cole.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 1 (1998)
Ou porque ele odiava Vancouver, sexo com stripper no Canadá, falsos trotes telefônicos para Mike Ness, do Social Distortion, o infame episódio punk do Saturday Night Live e os masters roubados de "Raw Power", dos Stooges.


Nardwuar X Henry Rollins - Round 2 (2011)
Em tempos de festivais com palcos diversos, gigantescos telões, tirolesas, rodas gigantes e bares temáticos, parece estranho usar a mesma designação para descrever um evento bem mais modesto, no qual três bandas tocam sem grandes firulas em um clube fechado. Mas aí, bem, você se lembra que esse grupos vêm todos do exterior, pertencem ao mesmo selo e esse selo é simplesmente a Sub Pop Records. Sim, estamos falando de um festival.

A gravadora de Seattle, que escreveu um capítulo na cultura pop ao descobrir e lançar o Nirvana, trouxe ao Brasil em 15 de maio último aquele que permanece seu principal expoente –o veterano Mudhoney–, além de duas bandas da nova geração. Claro que os pais do grunge foram tratados como a grande atração da noite e arrebanharam a maioria dos presentes, mas os outros grupos certamente saíram dali com novos admiradores.

The Obits é um quarteto americano fundado em 2006 e que tem na bagagem três álbuns de estúdio. Fazem um power pop bastante consistente e com canções diretas no queixo,  mas também apresentam temas climáticos e passagens com boas tramas instrumentais. Seu guitarrista solo, Sohrab Habibion, que tocou vestindo uma camiseta com um Gene Simmons toscamente pintado à mão, parece um híbrido de Frank Black e Andy Gill – tem a aparência do primeiro e algo do estilo do segundo. O grupo tocou para um terço da casa, mas conquistou o público pela qualidade de seu repertório e a execução competente.

Metz, mais conhecido por aqui, veio na sequência e fez um set ensurdecedor; aqueles para deixar o tímpano em frangalhos. Me lembro de poucos concorrentes à altura: Motörhead, Mummies e Primal Scream são os primeiros que vêm à mente. O problema, no caso do Metz, é que parece muito barulho por nada. Há quem diga que em disco o material do grupo é coisa séria, mas ao vivo suas canções funcionam como um massacre aos sentidos: timbres metálicos e perfurantes, paredes de distorção e excesso de feedback - tudo em um volume absurdo. A experiência atinge um nível tão extremo que, de um jeito torto, termina por fazer sentido. O trio canadense, que tocou diante de bem mais gente que o Obits, e foi efusivamente aplaudido, soa mais rock’n’roll em sua demência que a maioria dos nomes que pululam nos festivais descolados. É alguma coisa.


E então, para separar homens de meninos, Mark Arm e companhia surgem no palco e mostram como se põe a casa abaixo. Bem ensaiados, coesos e com completo domínio de palco, atacaram de cara com “Slipping Away” e, logo em seguida, com seu novo hit “I Like it Small”, do recente álbum Vanishing Point. Foi o primeiro gol de placa da noite, com o público –algo em torno de 1.000 presentes–, pulando e berrando o refrão. Não demorou e “Suck You Dry”, uma pérola que merece lugar em qualquer antologia noventista, causou alvoroço e a sempre bem-vinda visão do povo enlouquecido na pista.

Durante a primeira metade do set, Arm acumulou as vezes de guitarrista e auxiliou Steve Turner na execução de sua minuciosa fórmula sonora que mistura garageira sessentista, surf, proto-punk e o espírito da Seattle de 25 anos atrás. Mais tarde, livre do instrumento, Mark Arm assume sua persona de frontman. Outras pérolas como “Sweet Young Thing” e “Touch Me, I’m Sick” mantêm a temperatura elevada até o grupo abandonar o palco e retornar para um bis dos mais explosivos.

“Here Comes Sickness” proporciona o início de uma farra de stage diving que deixa seguranças atônitos. Uma lourinha sobe ao palco e, antes de se atirar de volta, tasca um beijo na bochecha de Turner. Minutos mais tarde, reaparece para fazer o mesmo com Arm e despentear atrevidamente seu cabelo. A faixa viajante “When Tomorrow Hits” oferece um breve momento de introspecção e é seguida de “In ‘N’ Out of Grace”. O clima de animosidade entre público e seguranças parece antever algum atrito mais ríspido, mas, então, a mesma lourinha sobe ao palco, levanta a blusa e, sem sutiã, mostra o que a natureza lhe deu. A farra era total, e o Mudhoney apagou fogo com gasolina em uma incendiária sequência com covers de Fang, Dicks e Black Flag.  

Consta que o Sub Pop Festival voltará em 2015. Se depender do sucesso da primeira edição, os promotores devem estar bastante animados.

Nós também.


"Here Comes Sickness" em São Paulo: o início de um bis incendiário
"Como é o ódio puro? O tipo de ódio que leva a pessoa a cometer um assassinato sem sentido. Acho que você é apenas um poser com seu ódio até matar alguém. Então você cruza a linha e seu ódio se torna tangível".

Trecho da anotação do diário de Joe Cole em 15 de fevereiro de 1986, de passagem por uma cidade do Oklahoma.

Cole foi roadie na última das mitológicas turnês do Black Flag. Ficou nada menos que seis meses zanzando pela América num comboio de três vans que levavam o resto da equipe e também as bandas Gone e Painted Willie. O tipo de turnê que, provavelmente, não existe mais.

Ele tinha 25 anos de idade e há pouco tinha desistido da carreira de tenista. Fã de música, era amigo de Henry Rollins e, a convite deste, virou roadie por acaso.

Suas memórias da turnê foram anotadas num caderninho. Escrevia normalmente na van, após descarregar e montar os equipamentos.

Joe Cole tinha dificuldade de socializar, sentia-se perdido no meio dos músicos punks e seu humor era uma verdadeira montanha russa. O que mais curtia na experiência eram as longas viagens pelas estradas americanas ao som de Devo e Swans e os papos com Rollins.

Descobriu o ácido durante a turnê e teve viagens alucinantes. Algumas delas em salas de cinema, junto com a trupe punk, assistindo repetidamente ao filme "Brazil", de Terry Gilliam.

Outras vezes atrás do volante, vendo o céu cor-de-rosa e demônios de todo tipo. Numa delas, entrou numa transferência paranoica com o técnico de som Ratman -com quem mantinha clima de constante animosidade- e, alucinado, socou o para-brisa do furgão até quebrar. Dirigiram assim até a próxima cidade numa bad trip de 48 horas.


O roadie por acidente também testemunhou a truculência policial nos estados do sul e meio-oeste, onde, muito comumente, os shows do Black Flag eram interrompidos ou proibidos de acontecer.

De sujeito pacato e de poucas palavras, Cole aprendeu a expulsar punks trogloditas e skinheads do palco a pontapés. Saiu-se bem em algumas brigas e fez até um ogro a quem quebrou o nariz lhe pedir desculpas na frente de um policial.

Teve esparsas aventuras sexuais com garotas punks, sempre um combustível para melhorar seu humor e render anotações eróticas no diário.

Testemunhou seu chapa Henry Rollins esmurrar um fã obtuso e arrancar, com uma baqueta, dois olhos de uma cabeça de alce que foi atirada no palco e que viraram petisco.

Se divertiu também vendo o Black Flag tocar na mesma noite que o Venom em uma biboca de New Jersey, no que ele descreve como um espetáculo "spinaltapiano".

Foram as últimas turnês selvagens antes do hiato punk da segunda metade dos anos 80. Certamente, o fim de uma era.

Mas Cole não tinha essa percepção e vivia atormentado por seus próprios demônios. A ideia do futuro o assombrava. Sabia que não era um roadie de verdade e também não queria ser. Enxergava um lado da cena punk que achava banal e tinha consciência de ser um mero assistente na viagem particular de outros. Queria ser ele, Joe Cole, o protagonista.

Repetiu a experiência em 1987, na primeira turnê da Rollins Band. Alguns shows para 30 ou 40 pessoas. Outros realmente intensos, de uma banda que começava a nascer.

Nunca esteve tão deprimido, mas nunca transou com tantas garotas. Chegou a cogitar embarcar para a turnê europeia da Rollins Band, mas, por fim, declinou do convite. Queria voltar logo para Los Angeles e decidir o que faria da vida.

Quatro anos mais tarde, em 1991, a convite de Henry Rollins, organizou e datilografou os diários que manteve durante as duas turnês para transformá-los em livro.

Duas semanas após concluir a tarefa, foi assassinado.


O clipe de "100%" é uma homenagem do Sonic Youth a Joe Cole. Henry Rollins não gostou.
Fiquei sabendo, tardiamente, que Jeff Pezzati, ícone da cena alternativa de Chicago, vem sofrendo há alguns anos do mal de parkinson.

À frente da The Bomb, banda que fundou em fins da década de 90, Pezzati tem a bravura de continuar gravando e, principalmente, se apresentando ao vivo.

Não fala sobre sua condição, mas é visível que, mais do que sua conhecida timidez, a performance comedida no palco é um jeito de controlar os sintomas da doença.

Jeff Pezzati passou por um divórcio que quase o levou à ruína financeira, descobriu o parkison, mas continuou de pé. É um sobrevivente.

No início dos anos 80, integrou -como baixista- uma das bandas americanas mais cultuadas do período: o trio de noise punk Big Black. Começava ali sua amizade com o guitarrista colombiano Santiago Durango, com quem tocaria mais tarde no Naked Raygun, e com o idiossincrático músico e produtor Steve Albini, que viria a produzir, uma década e meia depois, dois álbuns da The Bomb.

A importância do Naked Raygun para o rock underground de Chicago é difícil de ser medida. Mas a afirmação de um crítico do jornal Chicago Tribune dá a ideia: "É simplesmente a maior banda que Chicago já produziu".

E estamos falando da cidade que deu origem a grupos como Jesus Lizard, Ministry, Smashing Pumpkins, The Dwarves, Wilco, Tortoise, Trouble e muitos mais.

O Naked Raygun cantava sobre a vida dos jovens da classe operária. Seus integrantes se misturavam com o público e eram parte dele. Dirigiam a própria van nas turnês e circulavam pelos subúrbios com seus inseparáveis coturnos Doc Martens e os indefectíveis corte de cabelo escovinha. Eram uma espécie de Clash local, mas bebiam mesmo do songwriting do Buzzcocks.

Seu álbum de estreia, Throb Throb, de 1985, é uma gema do punk americano. Em impacto sônico, certamente está ao lado de discos como Wild in the Streets, do Circle Jerks, e Damaged, do Black Flag. Em qualidade de composição, está definitivamente acima.

Os primeiros 12 segundos do álbum, com o riff lancinante de "Rat Patrol", obra do talentoso John Haggerty, resultam no melhor início de um disco punk desde Nevermind the Bollocks.

E desta bolacha saíram outras preciosidades, como "Surf Combat", "Metastasis" -que conheci num passado longíquo através de uma coletânea da Flipside- e "Managua". Os riffs abrasivos e os famosos "hey-hey-hey" já estavam todos lá, incitando a tensão e a excitação de uma época.


Como uma nota curiosa, a capa de Throb Throb é assinada pelo importante quadrinista Mike Saenz, também natural de Chicago, e pioneiro absoluto na criação de gibis com arte gerada em computador ("Shatter", "Crash", etc).

O Naked Raygun gravaria uma seqüência de álbuns fundamentais na segunda metade dos 80's, como Jettison, All Rise e Understand?, até encerrar a carreira em 1991, pouco depois de lançar seu epitáfio: Raygun...Naked Raygun.

Desde 1999, quando gravou o belíssimo disco ao vivo Free Shit!, o Raygun faz apresentações bissextas para plateias ávidas em reviver momentos perdidos da juventude punk.

Jeff Pezzati está vivo.


Naked Raygun toca "Rat Patrol" ao vivo em 1988
Na semana passada, o canal GNT exibiu "Pais e Punks", documentário que revela como alguns integrantes de bandas punk lidam com a paternidade e seus efeitos.

O tema é quente. Há alguns anos, a MaximumRockandRoll dedicou uma edição especial a respeito. A ideia era entender como um punk rocker pode se tornar um pai de família sem repetir os padrões impostos socialmente.

O documentário esbarra nessa abordagem, mas ao invés de veganos que alimentam a prole com dietas radicais ou punks ortodoxos que vivem numa bolha alheia ao mundo do consumo, a diretora Andrea Blaugrund Nevins entrevistou membros de bandas conhecidas e que vivem de música.

Nesse sentido, foi bastante acertada a escolha de Jim Lindberg, vocalista do Pennywise, como protagonista do filme. Pai de três filhas, Lindberg passa meses em turnê para sustentar a família e vive num eterno dilema para conciliar seus papeis.

O empresário da banda e o idealizador do festival itinerante Warped Tour não vêem conflito na situação. É tudo business. "Não vejo porque o Pennywise não possa estar aí daqui a 10 ou 20 anos. Se continuarem levando a carreira a sério, trabalhando duro e entretendo o público, vão durar muito tempo", diz Andy Somers, o agente.

Mas há dois temas espinhosos pelo caminho: manter relações familiares quando se passa cinco meses por ano longe de casa e preservar o espírito punk tocando toda noite por dinheiro.

Jim Lindberg não aguenta uma coisa nem outra. Confessa que trocaria a adulação e a vida na estrada por estar ao lado das filhas. E que pinta o cabelo e o cavanhaque pra que a molecada skatista não perceba que o vocalista do Pennywise é um coroa.

Vários outros entrevistados deixam as máscaras caírem. 

Casos de Tony Adolescent, que diz não ter mais vigor físico para aguentar o ritmo das apresentações do Adolescents. De Fat Mike, do NOFX, que revela encher a cara antes de subir no palco. E de Duane Peters, o porra-louca do US Bombs, que confessa sentir-se um palhaço de circo tocando a mesma música toda noite. Pesado.

Todos fazem isso para sustentar seus filhos, o que pode frustar a utopia punk de manter a música e a mensagem puras. Talvez seja apenas o tipo de entrevistado escolhido para o filme. Ou talvez seja apenas a realidade.

Mas é no segmento final de "The Other F Word" -o título original brinca com o "f" de "family" em lugar "fuck"- que o bicho pega no lado emocional.

Flea, o milionário baixista do Red Hot Chili Peppers e punk de ocasião, que num passado longíquo tocou no Fear, fala sério como poucas vezes. Enxuga as lágrimas relembrando sua família disfuncional e se comove ao afirmar que ter sido pai lhe deu uma segunda vida.

Tony Adolescent também remexe nas más experiências da infância e conta como jamais superou o trauma de ter perdido um filho às vésperas do nascimento. Até Duane Peters, radical skatista da primeira geração e um dos vocalistas mais alucinados do punk rock, chora de soluçar ao lembrar do filho morto num trágico acidente automobilístico.

É fácil ligar os pontos e entender porque vários desses músicos, filhos de pais alcoólatras e mães fanáticas por religião, encontraram no punk rock sua válvula de escape. E mais ainda: porque se tornaram pais amorosos e que não querem destruir a infância de suas crianças. 

Alguns se tornaram pais de família quase convencionais. Outros, como Lars Frederiksen, do Rancid, não são mais do que moleques crescidos. Poucos, como Ron Reyes, ex-Black Flag, largaram tudo para trás. Mas todos foram profundamente afetados por esse terremoto chamado paternidade.

Como reflete Jim Lindberg, após largar o Pennywise para assumir o papel integral de pai: talvez o jeito de mudar o mundo seja educando melhor as crianças.

Faz sentido.

Em pouco mais de 20 anos de jornalismo musical diletante, entrevistei alguns personagens importantes na história do punk americano.

Ian MacKaye (Minor Threat/Fugazi), Jerry Only (Misfits), Mike Muir (Suicidal Tendencies), Shawn Stern (Youth Brigade), entre outros.

Faltava um dos maiores.

Na sexta-feira passada, dia 29, falei com Jello Biafra por telefone. A conversa durou cerca de 35 minutos e foi publicada hoje no Portal Rock Press como aquecimento para os shows certamente históricos que Jello realizará nos próximos dias no Brasil (leia mais aqui).

Biafra sintetiza tudo que se imagina de um artista que está umbilicalmente ligado à história do punk. É altamente politizado, sarcástico, um grande letrista e observador da sociedade. A coerência de sua obra musical e de seu ativismo são sustentados pelo binômio talento/integridade.



Conheci o Dead Kennedys em 1986, quando a emblemática banda de San Francisco se separava e, de tabela, aumentava o vazio numa época em que o punk começava a definhar (o Black Flag, só pra citar outro exemplo, acabou no mesmo ano).

Curiosamente, enquanto a ressaca tomava conta da cena na América e na Europa, um quase desapercebido boom de punk rock dominou a 'classe de 86' em São Paulo. As divertidas "Ashtma" e "Nellie the Elephant", do Toy Dolls, tocavam nas festinhas da época e o disco de estreia do Dead Kennedys, lançado originalmente em 80, era editado sem autorização por aqui através da gravadora Continental. Tocou até no rádio e, dizem, vendeu cerca de 30.000 cópias, das quais Jello Biafra e seus comparsas não viram um centavo sequer.



Três anos depois o vocalista reaparecia num projeto com a visceral banda canadense D.O.A e, daí por diante, comprei tudo que Jello gravou.

Ouvindo cada parte dessa discografia imponente, dá para entender a reverência com que o mais importante punk vivo será recebido no Brasil para divulgar o excepcional The Audacity of Hype.

Para preparar os ouvidos, o Caixa Preta montou um Top 20 com uma canção escolhida de cada disco gravado por nosso terrorista predileto (pra chegar no número, incluímos faixas inéditas de uma trilha sonora, uma coletânea e uma participação num álbum do Napalm Death).

Se tiver paciência, monte o tracklist e já entre no clima dos shows:

  1. Holiday in Cambodia (DK's, Fresh Fruits for Rotten Vegetables, 80)
  2. Nazi Punks Fuck Off (DK's, In God We Trust, Inc, 80)
  3. Moon Over Marin (DK's, Plastic Surgery Disasters, 82)
  4. This Could Be Anywhere (DK's, Frankenchrist, 85)
  5. Chickenshit Conformist (DK's, Bedtime for Democracy, 86)
  6. Full Metal Jackoff (w/ D.O.A., Last Scream of the Missing Neighbors, 89)
  7. Message from Our Sponsor (w/ Keith LeBlanc, Terminal City Ricochet, 89)
  8. The Power of Lard (Lard, The Power of Lard, 89)
  9. Fork Boy (Lard, The Last Temptation of Reid, 91)
  10. Fireball (Tumor Circus, s/t, 91)
  11. Bad (w/ Nomeansno, The Sky is Falling and I Want my Mommy, 91)
  12. Convoy in the Sky (w/ Mojo Nixon, Prairie Home Invasion, 94)
  13. Sidewinder (Lard, Pure Chewing Satisfaction, 97)
  14. Electronic Plantation (No WTO Combo, Live from the Battle in Seattle, 99)
  15. 70's Rock Must Die (Lard, 70's Rock Must Die, 00)
  16. Allah Save Queens (w/ Carpet Bombers for Peace, Salt in the Wound - EP, 03)
  17. Plethysmograph (w/ The Melvins, Never Breath what You Can't See, 04)
  18. Those Dumb Punk Kids (Will Buy Anything) (w/ The Melvins, Sieg Howdy, 05)
  19. The Great and the Good (w/ Napalm Death, The Code is Red..., 05)
  20. I Won't Give Up (JB & TGSOM, The Audacity of Hype, 09)