ÚLTIMAS COLUNAS
Leia, comente, compartilhe
Mostrando postagens com marcador Anvil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anvil. Mostrar todas as postagens
Joey "Shithead" Keithley é uma das personalidades mais importantes do punk na América do Norte. Para os canadenses, então, é um autêntico godfather.

Aos 55 anos de idade, Joey permanece ativo com sua banda D.O.A. Já são mais de 3 décadas de carreira, 15 álbuns de estúdio, dois livros, um disco solo e outro, seminal, ao lado de Jello Biafra. 

No momento em que esta coluna é escrita, o D.O.A. está encerrando sua primeira turnê pelo Brasil. Foram três shows: o primeiro em Curitiba, o segundo em São Paulo (foto abaixo) e o último, deste domingo, no Rio de Janeiro.

A banda aterrissou no Brasil na quinta passada, dia 17, e fui convidado para um jantar de boas-vindas aos canadenses. Por um desses acasos, meu lugar na mesa era aquele ao lado de Joey Shithead. Apreciador de uma boa conversa, não se importou em relembrar inúmeras histórias sobre os primórdios do punk na América do Norte, o rock canadense e muito mais.

Joey me contou, por exemplo, como foi abrir um show do David Lee Roth em Vancouver.

"Estava programado para que o Poison tocasse, mas um integrante deles quebrou o braço e fomos convidados em cima da hora pra susbtitui-los. Tinha quase 15 mil pessoas no lugar e muita gente na primeira fila atirando moedas em nós. Os seguranças do David gostaram da gente e começaram a dar porrada em quem jogava coisas no palco. Depois, nos camarins, aprontamos várias e fomos expulsos pelo empresário dele. Mas David é um cara direto, sem frescuras. E na época era um completo 'party animal'. Cheirava várias e frequentava todos os inferninhos".

O Canadá tem assuntos variados na cultura rock. Citei alguns nomes menos óbvios e deixei Joey discorrer, entre uma e outra garfada num delicioso siri.

"Nardwuar é um bom entrevistador. Tem um grande conhecimento musical. Mas da primeira vez que ele me entrevistou, quase saí andando depois de 5 minutos. Não tinha entendido qual era a daquele personagem. O Razor? Não sei nada sobre eles, exceto que fizeram um documentário a respeito dos caras. Ah, esse é o Anvil? Não sei quem é quem. E nunca vi o documentário. O Michel [Langevin, baterista do Voivod] já tocou com a gente em um show beneficente. Ensaiamos por uma tarde e ele tocou umas 12 músicas. É um cara bacana. Do BTO [Bachman-Turner Overdrive] tenho boas lembranças: fizemos um show com eles em um presídio de segurança máxima no norte do Canadá. Era a primeira apresentação do BTO com a formação original em uns 20 anos".


Joey me perguntou se eu recomendava alguma loja de discos em São Paulo. Expliquei o que era a Galeria do Rock e de como Jello Biafra comprou uma enormidade de LPs por lá.

"Sim, eu posso imaginar. Ele tem uma coleção enorme. Uma grande sala com álbuns do chão até o teto. E tudo organizado alfabeticamente! Se você perguntar a ele sobre um LP qualquer, ele dá uma olhada rápida e já puxa o disco da estante. É incrível. Existe um tipo de colecionador que compra de tudo, e existe aquele que só coleciona o que realmente gosta. Jello faz parte do segundo tipo. Não sei quantos álbuns ele tem, mas, baseado em um veterano radialista de Vancouver a quem ajudei a remover 40 mil LPs, eu arriscaria dizer que Jello tem uns 20 mil discos".

Não dá pra papear com um ícone punk sem falar de outros protagonistas. Mencionei que, em 1999, hospedei Mykel Board, célebre colunista da MaximumRockandRoll, e que o mesmo me disse que só havia duas pessoas em toda a cena punk pelas quais ele colocaria a mão no fogo. Uma delas era Tim Yohannan, fundador da própria MRR, falecido em 1998.

"Tim era uma grande figura. Você debatia com ele por 4 ou 5 horas sobre punk e política, e, no final da conversa, via que ele não tinha mudado uma vírgula em sua forma de pensar. Era muito teimoso e idealista. Mas o papo terminava e continuávamos amigos. Ian MacKaye também é muito íntegro. Mantém os mesmos princípios após todos esses anos. Mas quem é a outra pessoa que ele [Mykel Board] disse que não se venderia?".

Respondi que era G.G. Allin.

"Ah, não tenho muito respeito pelo G.G. Allin. O cara nunca escreveu uma música que preste. Era basicamente um encrenqueiro". Comentei que, mesmo assim, G.G. deixou sua marca. Joey concordou: "Bom, isso é verdade. E também não quero falar mal do cara. Ele nem está mais entre nós. Ah, deixa isso pra lá. Um brinde a ele!".

Erguemos as taças e brindamos G.G. Allin.

-----------------

Em breve no portal Rock Press, uma entrevista que realizei com Joey Shithead, no backstage do show do D.O.A em São Paulo, na qual ele revela como foi gravar com Jello Biafra, fala sobre Chuck Biscuits, a origem do hardcore e muito mais.


D.O.A toca a quintessencial "The Prisoner", em Vancouver, em 1992

Nada representa melhor a ideia da civilização ocidental que a aristocracia britânica. Os modos, a pompa, a circunstância. Está tudo ali.

Muito disso está impregnado em sua gente - do hooligan de dentes estragados ao cantor de britpop com ar blasé. Como diria Christopher Lee num filme B: "Somos ingleses, entende?".

O documentário Iron Maiden: Flight 666, em cartaz até pouco tempo na HBO, é sobre a vida de músicos durante uma turnê. Mas é também sobre uma nova velha forma de colonialismo.

O filme se concentra na primeira parte da turnê espertamente batizada de "Somewhere Back in Time" e mostra os decanos do heavy metal britânico varrendo a borda do mundo em um opulento Boeing 757 personalizado: Índia, México, Costa Rica, Argentina, Colômbia, Brasil, Chile.

A fita ecoa algum interesse sociológico. Como na emblemática cena de um colombiano de uns 30 anos de idade, chorando copiosamente após apanhar a baqueta de Nicko McBrain. A imagem, sozinha, resume o filme.

Não importa se a parte não-documentada da tour tenha ocorrido na Europa ou se, mesmo no filme, vejamos a banda em ação na Austrália, Japão, EUA e Canadá. A paixão desmedida pelo Iron Maiden reside mesmo é na periferia do mundo.

O viajado Bruce Dickinson finge surpresa ao descobrir que tem público na Costa Rica. Se refere ao país basicamente como uma selva. Pouco depois, vemos costarriquenhos correndo atrás do ônibus da banda como refugiados atrás de ajuda humanitária.

Na Argentina, o assédio deselegante incomoda os músicos. No Chile, lembram de quando foram proibidos de se apresentar pela igreja católica, endossada pelo regime Pinochet. No Brasil, um pastor evangélico pirado mostra as dezenas de tatuagens da banda e tenta explicar como inclui o heavy metal na liturgia. Tudo soa exótico e atrasado.

De seu lado, os ingleses são pura classe. Nicko McBrain usa as horas livres para jogar golfe, vestido à rigor. Steve Harris viaja em companhia da família. Bruce Dickinson pilota o Boeing com a elegância de um comandante internacional. Os três guitarristas são bon-vivants.

Não há excessos, desavenças ou grandes revelações. Os protagonistas são unidimensionais: músicos passados da meia idade, muito ricos, adulados e de bem com a vida. Nada da bebedeira solitária do Lemmy ou dos percalços tragicômicos do Anvil.

Mas a história desses e suas imperfeições rendeu filmes bem melhores.

Um colega de escola, precoce e ávido colecionador de discos importados e caríssimos de heavy metal, foi o primeiro a me falar do canadense Anvil.

Na época, estamos falando de 1986, não conheci a banda o suficiente para fazer um julgamento. E, ainda por cima, toda minha atenção era sequestrada por grupos como Slayer e Metallica que, naquela altura, lançavam os discos de suas vidas.

O tempo passou e meu colega largou o interesse por rock para transformar-se no manda-chuva da maior torcida organizada de futebol do Brasil. Quando seu time foi rebaixado para a Série B, lá estava ele nos noticiários: entrou no ônibus do clube e distribuiu sopapos em vários jogadores.

É evidente que para esse sujeito e muitos outros, uma banda como o Anvil é uma pálida recordação da adolescência. O grupo jamais estourou, embora tenha pelo menos dois discos que fizeram a cabeça de muitos metaleiros dos anos 80: "Metal on Metal" e "Forged on Fire".

Eu mesmo só descobri que estavam na ativa, vinte e tantos anos depois, quando li a sinopse do documentário "Anvil! The Story of Anvil", exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Contrariando qualquer prognóstico, o filme causou frisson em vários festivais pelo planeta e conquistou admiradores como Michael Moore e Keanu Reeves.

Assisti ao documentário no ano passado e me vi enxugando as lágrimas por duas ou três vezes. O filme é comovente e a história de como ele tornou-se realidade é tão fascinante quanto o próprio filme.

A direção é de um inglês chamado Sacha Gervasi. Na década de 80, ele tornou-se amigo dos músicos Lips e Rob Reiner no camarim do lendário Marquee, em Londres. De lá, ainda menino, mandou-se para visitar o pai em Nova York nas férias e deu uma esticada até Toronto, onde reencontrou o Anvil e tornou-se roadie da banda. Não teve sequer o trabalho de avisar a família.

Duas décadas depois, o menino já era um prodígio roteirista de Hollywood cujos créditos incluíam o filme "O Terminal", estrelado por Tom Hanks e dirigido por Steven Spielberg.

Num dia qualquer, Gervasi lembrou-se dos velhos amigos do Anvil e, imagino eu, ficou abismado com o fato de a banda continuar na ativa e pregando para meia-dúzia de fãs.

O resto é história.


Gervasi encontrou-se com o guitarrista e vocalista Lips e daí surgiu a centelha criativa para escrever e dirigir um documentário sobre a banda - mais precisamente sobre a louca amizada entre Lips e o baterista Rob Reiner.

O documentário botou abaixo todas as aparências e escancarou a dureza de vidas vividas com um pé no underground e outro no “mundo real”.

Muitos anos após o lampejo de fama no mundo do heavy metal, Lips trabalha entregando marmitas. Reiner pinta quadros em casa para manter a sanidade. Os parentes não se conformam com tanta teimosia. Afinal, por que a banda daria certo quando seus integrantes já entravam na casa dos cinquenta?

Lars Ulrich, Lemmy, Scott Ian, Slash e Tom Araya enchem a bola do Anvil logo na abertura do filme, mas ninguém é capaz de entender porque a banda não deu em nada.

A repercussão de "Anvil! The Story of Anvil" tirou os canadenses do limbo musical e os colocou de volta no circuito dos festivais. Um final feliz com o melhor do clichê sobre a vida, de fato, imitar a arte.

O triunfo dos amigos-irmãos Lips e Reiner comoveu gente do mundo todo. Gente que não era nascida quando o Anvil teve seu primeiro pico de popularidade, e gente que sequer gosta do metal à moda antiga que eles tocam.

No próximo domingo, dia 27, o Anvil se apresenta em São Paulo.

Assista ao filme e vá ao show.