Saiu há poucos dias o novo disco do Anthrax, "For All Kings". É o segundo esse ano de bandas pertencentes ao Big Four, congregação que autocelebra os quatro maiores nomes do thrash metal. O outro lançamento foi "Dystopia", do Megadeth, que marcou a estreia do guitarrista brasileiro Kiko Loureiro. Em 2015, o Slayer, mais um integrante do tal quarteto, já havia lançado "Repentless".
É interessante ver que o thrash metal resistiu ao tempo e que seus principais arquitetos ainda estão em atividade. O Exodus, que não é um dos Big Four, mas certamente um dos artífices do estilo, também soltou um disco de inéditas em 2015, "Blood In Blood Out".
Ouvindo todos esses álbuns recentes, fica clara a intenção dos veteranos em manter a música feita hoje ainda conectada aos fundamentos clássicos do gênero. Não existe um Ramones do thrash metal, que escreve sempre a mesma música e lança os mesmos e ótimos discos, mas estabelecer laços com o passado parece uma preocupação.
O novo trabalho do Anthrax comprova também a constante depuração técnica e o esmero com execução e registro em estúdio. E tudo porque o público de
thrash metal
pode ser bem nerd e exigente, em algum aspecto lembrando os fãs de rock
progressivo. Esmiuçam discos e fichas técnicas, comparam os desempenhos de guitarristas e bateristas com o que fizeram no passado e não deixam escapar qualquer detalhe. Só baixam a guarda quando o aspecto nostálgico entra em cena.
Quem comprou "For All Kings" -que saiu no Brasil em edição limitada e numerada, com CD extra trazendo quatro faixas ao vivo e o EP de covers "Anthems"- conhece o Anthrax do avesso. Não é banda para neófitos. E esse segundo álbum desde o retorno de Joey Belladonna, cantor de quatro discos clássicos do grupo entre 1985 e 1990, mostra uma banda que há muito ficou adulta. Idos são os tempos em que usavam bermudas floridas e faziam galhofas como lançar um debochado EP de hip hop - por ironia, o item mais vendido de sua discografia.
O Anthrax ficou sério ainda na virada dos anos 90, e mais claramente quando arregimentaram o vocalista John Bush. Com ele a bordo, sobreviveram ao declínio do thrash metal e flertaram com o pop e o grunge à la Alice in Chains. São dessa fase dois de seus maiores hits: "Only", muito executada nas rádios rock de São Paulo- e "Safe Home", com direito a vídeo-clipe
estrelado por Keanu Reeves.
A revalorização do thrash metal, percebida nos primeiros anos do milênio e que arrebatou novos e jovens fãs, todos dedicados a escavar antigas novidades oitentistas, levou o grupo a encerrar a era Bush -sem trocadilhos-, que já durava 13 anos. Até o Metallica, que em algum momento tornou-se gigantesco e comercial demais
para o gueto do thrash, tentou bandear de volta para onde tudo
começou.
Com as voltas de Belladonna e do guitarrista Dan Spitz em 2005, o Anthrax atendeu às demandas saudosistas e excursionou tocando na íntegra sua obra-prima "Among the Living", de 1987. Foi a centelha para que o grupo mergulhasse de volta no metal clássico e apagasse da memória a interessante produção com John Bush - seus discos sequer constam do catálogo da banda no Spotify.
Spitz, aposentado, caiu fora após a turnê de reunião, e o grupo, entre idas e vindas chatas demais para explicar aqui, lançou, em 2011, com Joey Belladonna, o disco "Worship Music". Se você conhece o álbum, sabe mais ou menos o que esperar de "For All Kings". Não é mais o Anthrax rápido, com backing vocals punks e a ironia corrosiva dos anos 80. Há lampejos disso, claro, como na boa "Evil Twin" e na ótima "Zero Tolerance", que fecha o novo disco. Mas os novaiorquinos parecem agora mais comedidos e interessados em investir num tipo de heavy metal classudo, com muita melodia, e que combina com a voz de Belladonna feito feijão e arroz. O retorno às raízes thrash, alardeado de lá e de cá, ficou no meio do caminho.
Charlie Benante, dono da banda ao lado de Scott Ian, mostra-se ainda um senhor baterista. Talvez o melhor que o thrash metal produziu. Ou talvez tão bom quanto outro gigante, Dave Lombardo, ex-Slayer. Ian, por sua vez, é o judeu boa praça, fanático por KISS e classic rock americano, e um dos engenheiros que criou a palhetada de guitarra que é a própria epítome do thrash metal, mas que agora é usada pelo próprio com alguma parcimônia.
"For All Kings" tem tudo no lugar e soa como o esforço de uma banda séria e coesa, comprometida com sua imagem e os 35 anos de carreira. Ao mesmo tempo, parece um disco pensado e estudado demais, e que nunca chega a decolar.
O CD bônus da edição especial, que mostra o Anthrax interpretando à perfeição canções de Rush, Journey e Cheap Trick, é simbólico. Talvez tenham se tornado clássicos demais e perigosos de menos.
"Breathing Lightning", candidata a hit, é um dos destaques de "For All Kings"
Pense em dois caras imortais, daquele tipo raro que ganha o status de lenda ainda em vida. Artistas que romperam barreiras e amealharam fãs das mais diversas origens e gerações. Rebeldes, ousados, transgressores. Frutos de um mundo que não existe mais.
Lemmy Kilmister e David Bowie morreram. E como será o mundo sem eles?
Ian Fraser e David Jones nasceram na mesma Inglaterra do pós-guerra. O primeiro, criado pela mãe e a avó. O segundo, filho de uma família em que abundavam casos de doenças psiquiátricas. Ambos apaixonados pelo rock'n'roll americano e que terminaram salvos, e por extensão também nos salvaram, graças à música.
Lemmy teve um discreto sucesso local com o Rockin' Vickers na década de 1960 e até tocou guitarra em um disco de Sam Gopal, veículo para o músico da Malásia tocar sua tabla em canções viajandonas. Bowie, por sua vez, foi saxofonista em bandas largamente ignoradas e queimou um cartucho atrás do outro até terminar empregado em uma agência de publicidade. Os dois ralaram até conquistar o sucesso, que veio primeiro para David Bowie, com "Space Oddity", provando que o jovem artista já era, naquela altura, uma antena de sua época. Lemmy ainda passaria pelo lendário grupo de space rock Hawkwind, onde contribuiria com seu único e pequeno sucesso comercial, "Silver Machine", até fundar o bem-sucedido Motörhead.
A fama de Bowie é incomparavelmente maior, assim como seu impacto na cultura popular. Viveu duzentas vidas numa só e estendeu sua influência para a moda, os costumes e as artes visuais. É um farol de nosso tempo. Reinou no glam rock, criou Ziggy Stardust e enlouqueceu uma geração. Depois se reinventou tantas outras vezes, passeando pelo funk, soul, new wave e a eletrônica. Imprimiu sua marca em todos os produtos da cultura pop.
Lemmy contentou-se com um feito mais modesto: estabelecer o arquétipo definitivo do que deve ser um rock star. Íntegro, carismático, verdadeiro. Viveu a vida que pregou até seus últimos dias. Como seu finado amigo Phil Lynnot, do Thin Lizzy, Lemmy era do tipo que saía para as compras de jaqueta de couro, óculos escuros e botinas. Era um rockeiro em tempo integral. Não importava se estivesse em cima do palco, diante de milhares de fãs, ou numa espelunca qualquer, apostando numa máquina de caça-níqueis.
A morte de Lemmy Kilmister me atingiu como uma bomba. O mundo todo na frequência das festas de fim de ano e vem a notícia de que aquele cara que julgávamos à prova de tudo tinha sucumbido a um câncer agressivo, descoberto apenas dois dias antes. O inglês de Stoke-O-Trent, mas que morava em Los Angeles, morreu de pé. Quinze dias antes ainda estava excursionando pelo mundo, como fizera durante os 40 anos anteriores. O baixista do Alice in Chains, Mike Inez, previra no documentário "Lemmy: 51% Motherfucker, 49% Son of a Bitch" que o líder do Motörhead teria um funeral de chefe de estado. E a comoção internacional teve quase essa proporção.
A morte de David Bowie, ao contrário, me deixou inicialmente desorientado. Um tipo estranho de dèja-vu. Porque o inglês de Londres, mas que morava em Nova York, também acabara de completar seu aniversário. As coincidências com a morte de seu compatriota não faziam sentido. E ainda, no caso de Bowie, com o choque amplificado pelo lançamento do ótimo álbum "Blackstar" e o atordoante vídeo de "Lazarus", que transformou sua morte numa expressão de grande arte. De Paul McCartney a Madonna, de Mike Ness a Vernon Reid, o mundo se curvou à sua grandiosidade.
E é apenas o começo do fim. Somos a geração que terá o carma de enterrar seus últimos heróis.
O coup de grace de Bowie: transformar a proximidade do fim no último capítulo de sua obra
Lemmy Kilmister caiu atirando. Um derradeiro álbum em 2015 e shows até seus últimos dias
PS: Alguns leitores contactaram o blog para avisar que a foto que ilustra essa coluna é uma montagem de Internet. Fica então o registro. Mas vamos mantê-la publicada, pois é tão boa que deveria ter existido. ;)